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Perspectivas interdisciplinares na teoria da moeda : Georg Simmel, André Orléan, complexidade e semiótica

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

EDUARDO COLTRE FERRACIOLLI

Perspectivas interdisciplinares na teoria da moeda:

Georg Simmel, André Orléan, complexidade e semiótica

Campinas

Outubro de 2016

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

EDUARDO COLTRE FERRACIOLLI

Perspectivas interdisciplinares na teoria da moeda: Georg Simmel,

André Orléan, complexidade e semiótica

Prof. Dr. David Dequech Filho – orientador

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Econô-micas do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de Mestre em Ciências Econômicas.

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FI-NAL DA DISSERTAÇÃO DEFENDIDA PELO ALUNO EDUARDO COLTRE FERRACIOLLI E ORIENTADA PELO PROF. DR. DAVID DEQUECH FILHO.

CAMPINAS 2016

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DISSERTAÇÃO DE MESTRADO

EDUARDO COLTRE FERRACIOLLI

Perspectivas interdisciplinares na teoria da moeda: Georg Simmel,

André Orléan, complexidade e semiótica

Defendida em 24/10/2016

COMISSÃO JULGADORA

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AGRADECIMENTOS

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer o apoio e a paciência do meu orientador David Dequech, que aceitou com muita generosidade guiar um orientando que ainda tem muito a aprender, e não só sobre teoria da moeda.

Aos amigos que formaram a constelação de ideias e oportunidades que me fizeram quem eu sou – Ricardo Lupe, Felipe Furtado, Jonas Brandão, Callum Nicholas, Andrea Gonella, Daniel Ávila, Joel Almog, David Wunderlich, Catharine Hucks, Leonel Mattos, Ross Moore, Noemi Arranz, Eris Kallisti, Rosa Vieira, Amanda Guimaraes, André Gimenez, Matias Zazo, Alexandre Lautenschlager, Rafael Ribeiro, Natasha Magno, Jardel Estevão, Alex Wilhans, 混 沌: cada um sabe quanto eu devo de gratidão por ter participado comigo da estranha dança de entropia e desconhecimento que nos trouxe até aqui.

Agradeço ainda a sociedade brasileira, pela consistente generosidade, e minha família imediata e estendida, em particular Mariana e Carolina, por tudo.

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A moeda é uma instituição central e multifacetada que se encontra implicada nos mais variados aspectos da vida econômica e social. Nesse sentido, ela é um objeto de estudo ideal para abordagens que combinam contribuições da economia e das outras ciências sociais. Esse trabalho explora diferentes abordagens interdisciplinares na teoria da moeda, concentrando-se sobre as visões propostas por Georg Simmel, André Orléan e um conjunto de outros autores que trabalham em perspectivas informadas pela teoria da complexidade e pela semiótica. Com o objetivo de criar subsídios para uma compreensão da moeda que vá além da visão geralmente oferecida pela economia, acompanhamos cada uma dessas contribuições, com as quais economistas podem estar mais ou menos familiarizados, ao longo da análise extraindo seus principais componentes e apontando as possíveis conexões estabelecidas entre elas. Buscamos mostrar como a concepção de moeda derivada dessas abordagens ressalta questões de abstração, convencionalidade, representação, autocoordenação, performatividade e emergência espontânea de ordem – questões que ora apoiam e ora questionam algumas premissas da teoria monetária tradicional, apontando para a possibilidade de uma relação fértil entre a economia e a sociologia no estudo da moeda, com muito a ganhar por ambos os lados.

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ABSTRACT

Money is a multifaceted and central institution, one implicated in many, if not most aspects of economic and social life. As such, it is an ideal subject for investigation using theoretical approaches that combine insights from economics and other social sciences. This study explores different strands of interdisciplinary work on the theory of money, focusing on the views proposed by Georg Simmel, André Orléan, and a group of different authors working within the traditions of complexity theory and semiotics. With the goal of developing resources for a richer understanding of money than the one most often encountered in economics, we visit each of these contributions, some more and some less familiar to economists, all the while drawing out their main elements and exploring the possible connections established between them. We show how the conception of money offered by these approaches brings to the fore issues of abstraction, conventionality, representation, objectivity, self-coordination, performativity and spontaneous emergence of order, alternatively supporting and questioning some of the assumptions of traditional monetary theory, and pointing to a potentially profitable interaction between economics and other social sciences for the study of money.

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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ______________________________________________________________ 8 CAPÍTULO 1. SIMMEL E O FILOSOFIA DA MOEDA ______________________________ 14 1.1. A ABORDAGEM FILOSÓFICA DE SIMMEL ______________________________________ 14 1.2. A MOEDA NA VISÃO DE SIMMEL ____________________________________________ 26 1.3. MOEDA, SUBSTÂNCIA E SOCIEDADE __________________________________________ 44 1.4. TEORIAS DO VALOR E A DIMENSÃO INSTITUCIONAL DA MOEDA ____________________ 56 1.5. SIMMEL E A TEORIA MONETÁRIA ____________________________________________ 64 CAPÍTULO 2. ANDRÉ ORLÉAN E A VISÃO CONVENCIONALISTA DA MOEDA __________ 80

2.1. SEPARAÇÃO E INTERDEPENDÊNCIA: MOEDA E ECONOMIA MERCANTIL ______________ 83 2.2. A EMERGÊNCIA DA MOEDA: MIMETISMO E CONVENCIONALIDADE _________________ 89 2.3. A CONVENÇÃO MONETÁRIA: CRISE, CONFIANÇA E LEGITIMIDADE __________________ 96 2.4. MOEDA CONVENCIONAL E ABORDAGENS INSTRUMENTAIS _______________________ 99 2.5. SIMMEL E A DIMENSÃO SOCIOLÓGICA DO TRABALHO DE ORLÉAN _________________ 106 CAPÍTULO 3. HORIZONTES DO ESTUDO DA MOEDA: COMPLEXIDADE E SEMIÓTICA __ 112

3.1. MOEDA, COMPLEXIDADE E SIMULAÇÃO _____________________________________ 115 1.2. LINGUÍSTICA, SEMIÓTICA E TEORIAS SOCIOLÓGICAS DA MOEDA __________________ 164 1.3. LINGUAGEM, COMPLEXIDADE E MOEDA: ARTICULAÇÕES INSTITUCIONAIS __________ 191 1.4. SISTEMATICIDADE, SÍMBOLO E SIMULAÇÃO: SIMMEL, MENGER E ORLÉAN __________ 196 CONSIDERAÇÕES FINAIS ____________________________________________________ 208 REFERÊNCIAS ____________________________________________________________ 218 ANEXO I. MIMETISMO E SACRIFÍCIO EM RENÉ GIRARD ____________________________ 226 ANEXO II. MOEDA NA TRADIÇÃO FILOSÓFICA CONTINENTAL _______________________ 236 ANEXO III: CÓDIGO FONTE DAS SIMULAÇÕES ___________________________________ 247

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INTRODUÇÃO

A moeda é uma instituição complexa e crucial, um objeto social muito particular em cuja compreensão estão implicadas questões tão diversas quanto confiança, escassez, autoridade, materialidade, legitimidade e o complexo sistema de hierarquias e instituições que se estabelece à sua volta. O debate a respeito da origem, da natureza e das funções da moeda, além disso, tem um papel constitutivo no pensamento econômico, e serve de subsídio a diferentes posições teóricas com distintas implicações de política econômica. Fora da economia, em contrapartida, a moeda também é alvo de um interesse teórico amplo, e recebe a atenção de um amplo conjunto de pensadores vinculados a diferentes disciplinas. A visão sobre a moeda que emerge no âmbito dessas outras ciências humanas, e em particular da sociologia, é uma visão em que se destacam certos aspectos da moeda – representação, comunicação, sociabilidade, significado – cuja posição no pensamento econômico e cujas possíveis contribuições a uma compreensão ampla do fenômeno monetário não são imediatamente aparentes.

Esta dissertação busca explorar, a partir de um ponto de vista interdisciplinar, algumas perspectivas teóricas sobre a moeda que acreditamos iluminar aspectos importantes do fenômeno monetário e oferecer o potencial de um diálogo produtivo com a economia. Os autores centrais de referência são Georg Simmel e André Orléan, e o primeiro objetivo do presente trabalho é reconstituir o percurso teórico através do qual é desenvolvido o conceito de moeda em cada um desses autores, explorando quando possível as relações entre as duas abordagens. Uma vez discutidas as propostas dos autores, apresentaremos também as linhas gerais de duas outras literaturas que oferecem uma perspectiva bastante original sobre a natureza da moeda, enfatizando algumas possíveis vias de desenvolvimento teórico por elas abertas. A primeira delas é a visão sistêmica sobre a moeda que deriva da teoria da complexidade, que buscaremos discutir em contraste com modelos de simulação baseados em agentes; a segunda consiste em um conjunto de pontos de vista sobre o fenômeno monetário inspirados pela linguística e pela semiótica modernas.

Embora Simmel seja um uma referência importante dentro da tradição sociológica, sua obra magistral, o Filosofia da Moeda, publicado em 1900, se provou um trabalho pouco estudado pela teoria econômica. É no Filosofia, entretanto, que Simmel desenvolve sua teoria da moeda e explora seus desdobramentos. No primeiro capítulo do presente trabalho, buscamos apresentar essa construção da noção de moeda em Simmel, partindo de sua visão sobre a

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natureza da relação entre sujeito e objeto e culminando na noção de objetividade, que, para o autor, é o elemento definidor do fenômeno monetário. Em seguida, exploramos com mais profundidade algumas implicações dessa concepção do fenômeno monetário em que toma precedência o aspecto abstrato da moeda, sua natureza simbólica, e sua capacidade de representação. Concluindo o capítulo, discutimos certos aspectos da relação de Simmel com outros pensadores atuais no âmbito da sociologia e da economia.

O segundo capítulo apresenta a proposta de André Orléan, o principal representante da teoria da moeda na escola francesa das convenções e um autor cuja visão foi desenvolvida em uma série de livros e artigos publicados desde a década de 1980 até o presente. Partiremos da noção de economia mercantil oferecida pelo autor, na qual se destaca a interdependência não coordenada entre seus diversos membros, para apresentar a sua hipótese interpretativa, que privilegia o caráter mimético da convenção monetária. Em seguida, e de forma a precisar o que é particular em sua proposta, acompanhamos a crítica realizada por Orléan às abordagens tradicionais da teoria monetária. Encerrando o capítulo, consideramos certas questões sobre as diferentes dimensões, a sociológica e a econômica, da proposta do autor, dedicando alguma atenção às relações entre Simmel e Orléan.

Acreditamos que tanto Simmel quanto Orléan são fortes representantes do potencial da abordagem interdisciplinar no estudo da questão monetária. Seguindo a divisão do trabalho intelectual entre os campos relativamente independentes da economia e da sociologia, no contexto das disputas metodológicas do Methodenstreit do início do século XX, teorias da moeda se viram divididas entre diferentes perspectivas: a economia se direcionou a teorias do dinheiro-mercadoria e de neutralidade da moeda, enquanto a sociologia passou a se preocupar centralmente com os efeitos e as transformações operadas pela moeda sobre os indivíduos e sobre a sociedade. Existe um diagnóstico amplo, compartilhado por diversos dos autores que citaremos ao longo desse trabalho, de que essa separação entre economia e sociologia resultou numa danosa indefinição no que diz respeito à compreensão do fenômeno monetário. Para esses autores – um grupo que inclui Geoffrey Ingham, Nigel Dodd, Viviana Zelizer, Heiner Ganßmann e Keith Hart – não é possível dar conta da totalidade do intricado fenômeno da moeda sem fazer uso das ferramentas e das perspectivas de ambas as disciplinas.

Simmel talvez seja um dos últimos autores a trabalhar a questão monetária a partir de um paradigma ainda não condicionado pelas separações do Methodenstreit – disso resulta o

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Filosofia da Moeda, um livro denso e extenso que atribui à moeda todo um campo autônomo de análise, ao qual são dedicadas ferramentas das mais variadas tradições intelectuais, e que se apresenta como candidato natural a referenciar o debate interdisciplinar que vem se articulando ao redor da questão monetária. Orléan, por sua vez, é parte da vanguarda desse conjunto de vozes atuais que buscam transpor as fronteiras intelectuais que separam economia e sociologia, pondo ambas a serviço de uma compreensão do dinheiro que faça jus à sua complexidade.

Além dessa semelhança metodológica, os pontos de aproximação entre as concepções de moeda de Simmel e Orléan são diversos. Simmel mobiliza as tradições da filosofia e da sociologia de forma a oferecer uma teoria da moeda que coloca em primeiro plano a forma como diversos sujeitos alcançam construir um tipo de representação coletiva que expressa de uma forma radicalmente original toda a variedade das relações que eles estabelecem entre si. Orléan, por sua vez, combina elementos da sociologia e da antropologia, incluindo a obra de Simmel, com as tradições teóricas marxista e keynesiana para construir uma visão da economia mercantil em que cada indivíduo, alternadamente produtor e consumidor, se encontra ao mesmo tempo separado e dependente de todos os outros indivíduos; uma economia em que a moeda se torna a forma central de interação entre os indivíduos e um representante geral da sociedade enquanto tal.

Do ponto de vista da fundamentação teórica, ainda, as visões de Simmel e de Orléan não são menos semelhantes. Apoiados sobre essa abordagem multidisciplinar, ambos os autores propõem uma noção bastante particular de sujeito econômico e desenvolvem uma teoria da sociabilidade mercantil na qual a moeda assume um papel absolutamente central. Esse sujeito, efetivamente, não é um sujeito econômico no sentido convencional: ao contrário, tanto em um quanto no outro autor, uma redefinição radical do papel do indivíduo na sociedade mercantil resulta numa visão em que a moeda se torna a instituição fundadora dessa sociedade. Em ambos os casos, ainda, os autores estabelecem diversas relações entre essa noção de sujeito e uma teoria ampla da representação. Essa sintonia geral entre as abordagens resulta em diversos pontos de contato, notavelmente na formulação de propostas teóricas que, tanto em Simmel quanto em Orléan, pretendem ultrapassar ao mesmo tempo as teorias da utilidade e a teoria do valor-trabalho.

As concepções de moeda desenvolvidas por Simmel e Orléan oferecem contribuições à teoria monetária que não encontraram grande espaço no pensamento econômico dominante, e

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acreditamos que essas contribuições são valiosas o bastante para justificar um resgate do pensamento dos autores e buscar aproximá-los da teoria econômica contemporânea. Na medida em que ambas são informadas por tradições teóricas com as quais a economia nem sempre mantém um diálogo direto, acreditamos também que Simmel e Orléan representam exemplos importantes do potencial que carrega a análise interdisciplinar – uma abordagem que encontra na teoria da moeda um campo privilegiado de investigação.

Uma vez que tenhamos explorado as ideias de Simmel e Orléan sobre a moeda, e considerando ambos os autores como demonstração de que a abordagem interdisciplinar tem bastante a oferecer ao estudo do fenômeno monetário, procederemos a uma investigação preliminar de visões sobre a moeda derivadas da teoria da complexidade e da semiótica, disciplinas que, embora localizadas a certa distância das fronteiras da economia, consideramos ter bastante a oferecer a uma compreensão ampla do fenômeno monetário. O terceiro capítulo desse trabalho tem como objetivos centrais apresentar de forma introdutória as principais ideias que caracterizam essas perspectivas teóricas, com as quais economistas podem estar mais ou menos familiarizados, e desenhar as linhas gerais dos debates acadêmicos que se formam ao redor da noção de moeda que surge delas. Dividimos o capítulo em 4 seções.

Na primeira seção, procedemos em duas etapas. Em primeiro lugar, introduzimos as linhas gerais da visão de sistemas complexos, um conjunto de pontos de vista teóricos que vêm se desenvolvendo em diversas correntes de pensamento e buscando se articular em torno de uma proposta interdisciplinar. Apresentamos aí a trajetória teórica que caracteriza a abordagem e introduzimos a noção geral de sistemas complexos adaptativos que utilizaremos ao longo do capítulo. Em seguida, desenvolveremos simulações computadorizadas de alguns modelos teóricos de imitação, em particular certas variantes e extensões do modelo de convergência mimética de Orléan discutido no capítulo 2. Utilizaremos essas simulações como referência para introduzir uma discussão sobre as relações entre complexidade e simulação, bem como mapear o estado atual da literatura acadêmica que busca simular a emergência da moeda com base em modelos de agentes distribuídos. Ao final dessa primeira seção do capítulo, à luz da metodologia de simulação, retornamos à discussão sobre sistemas complexos adaptativos e investigamos a visão de moeda que pode se formar em torno desse campo, utilizando a analogia biológica que é subjacente às teorias de sistemas complexos para buscar compreender, sob essa perspectiva, qual seria o papel da moeda na reprodução do sistema econômico. Esse percurso, que busca compatibilizar ferramentas de simulação computadorizadas à visão de complexidade

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sistêmica, tem como objetivo delinear as características mínimas necessárias para a composição de modelos de emergência e funcionamento da moeda que se aproveitem de ferramentas de simulação para ilustrar o caráter complexo e sistêmico da instituição monetária, modelos que reconsideram a validade da noção de equilíbrio na compreensão de sistemas sociais, e nos quais a moeda se reveste de um significado novo e bastante preciso.

Concluída a discussão sobre complexidade e simulação, a segunda seção do terceiro capítulo se dedica a considerações sobre linguística, semiótica e moeda, partindo do reconhecimento da natureza simbólica da moeda para considerar o que é que as ciências dos símbolos teriam a dizer sobre esse símbolo peculiar, crucial e onipresente. Após situar a linguística e a semiótica em relação a outras ciências humanas e discutir brevemente algumas propostas para a teoria da moeda inspiradas por essas disciplinas, seguiremos a semiótica de Peirce para construir uma visão preliminar de moeda que ressalta sua performatividade, seu caráter institucionalmente fundador e sua capacidade de articulação social enquanto símbolo individual e objeto coletivo. Veremos como a noção de performatividade é muito próxima de certas posições de Simmel sobre o papel social da moeda, e discutiremos a forma como a inclusão da questão da representação na teoria da moeda problematiza algumas das premissas e conclusões do pensamento econômico tradicional, servindo de contraponto à visão da moeda em termos de suas funções e ilustrando o caráter das divergências teóricas que se seguem ao Methodenstreit. Apoiados sobre essas considerações, buscaremos demonstrar que o ponto de vista semiótico esclarece aspectos importantes daquilo que é particular das abordages interdisciplinares na teoria da moeda, em especial ao delimitar o papel da representação em processos sociais – uma questão que toma formas bastantes diferentes na economia e nas outras ciências sociais.

Na terceira seção do capítulo, discutimos possíveis interligações entre a abordagem da linguística e a visão de complexidade sistêmica, apresentando as linhas gerais que julgamos poder tomar um estudo do fenômeno monetário que leve em conta ambas as perspectivas. Aqui, em primeiro lugar, buscaremos relacionar os modelos de emergência discutidos no início do capítulo às reflexões sobre funcionalidade e representação proporcionadas pela semiótica, dedicando especial atenção à noção de instituição que deriva desses pontos de vista. Na quarta seção, que encerra o capítulo, estendemos essa compatibilização de perspectivas às propostas teóricas de Simmel e Orléan, delineando as principais características do fenômeno monetário segundo a visão que emerge de todas essas considerações. Como veremos, essas leituras

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interdisciplinares revelam uma moeda em que destacam ao mesmo tempo seu caráter simbólico, sua convencionalidade, sua função reguladora, sua exterioridade em relação aos indivíduos, a autonomia de sua emergência e seu papel fundador e transformador de relações econômicas e sociais, formando um contraponto potencialmente relevante à visão tradicional da moeda. Mantendo em mente essa multiplicidade de aspectos implicados na questão monetária, por fim, esboçamos as características gerais que deveria ter uma teoria da moeda capaz tanto de fazer frente às questões levantadas pela semiótica quanto de se beneficiar das ferramentas de simulação e dos pontos de vista sistêmicos discutidos.

Encerrando o trabalho, uma seção de considerações finais retoma os conceitos centrais explorados em cada capítulo e procura ressaltar o que é particular de cada um deles, bem como as possíveis relações que eles estabelecem entre si. O objetivo é a uma só vez traçar as linhas gerais oferecidas por uma visão interdisciplinar da moeda e posicionar essa visão em relação às preocupações tradicionais da teoria monetária no campo da economia. Com base nessas referências, são discutidas as potencialidades e limitações dessas abordagens interdisciplinares e a natureza do diálogo que elas podem estabelecer, e vêm estabelecendo, com o trabalho intelectual da teoria econômica.

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CAPÍTULO 1. SIMMEL E O FILOSOFIA DA MOEDA

"Up to now it has been assumed that all our cognition must conform to the objects; but ... let us once try whether we do not get farther with the problems of metaphysics by assuming that the objects must conform to our cognition." (Kant, I.: Critique of Pure Reason)

"Money and fashion are forms of social interaction, and it seems that social elements, just like the focusing of our eyes, sometimes converge best on a point that is not too close." (Simmel, G.: The Stranger)

Nesse capítulo, buscaremos reconstruir a visão bastante particular sobre o fenômeno monetário oferecida por Georg Simmel em seu trabalho seminal, o Filosofia da Moeda, primeiro publicado em 1900, bem como explorar algumas de suas implicações para a economia. O capítulo se divide em seis seções. Numa primeira seção introdutória, buscamos situar o pensamento de Simmel em relação a outros autores preocupados com a questão monetária e argumentar pela relevância de um resgate atual do pensamento do autor, dedicando especial atenção às separações entre sociologia e economia, que o autor desafia. As próximas três seções são dedicadas a uma reconstrução cuidadosa da noção de moeda proposta pelo Filosofia e à discussão daqueles aspectos que são mais originais, controversos ou significativos nessa visão. As últimas duas seções, por sua vez, tratam das diversas implicações do reenquadramento da questão monetária a partir do ponto de vista oferecido pela obra de Simmel, cobrindo tanto pontos levantados pelo próprio autor quanto questões exploradas por economistas que mais recentemente fazem referência a ele.

1.1. A ABORDAGEM FILOSÓFICA DE SIMMEL

Como argumentaremos ao longo desse trabalho, a proposta apresentada no Filosofia para a moeda não se presta a apropriações teóricas simplificadas. A divisão intelectual do trabalho entre sociologia e economia que se estabeleceu com o Methodenstreit se provou particularmente significativa para teoria da moeda: na economia, a predominância de abordagens subjetivistas levou a uma visão sobre a moeda direta ou indiretamente vinculada ao seu papel de meio de troca e mercadoria, uma visão na qual saem de foco algumas das suas características mais definidoras (Ingham, 2000, p.17). A sociologia e a antropologia, por sua vez, passaram a preocupar-se menos com a natureza do fenômeno monetário do que com os diversos efeitos subjetivos e sociais trazidos a cabo pela existência social da moeda. Simmel, buscando

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compreender a moeda durante essas disputas disciplinares e trabalhando a partir de um ponto de vista filosófico aberto às mais variadas influências intelectuais, revela-se um dos autores mais importantes a trabalhar a questão monetária sem se submeter a essas separações disciplinares que prevaleceriam ao longo do século XX. Essa amplitude teórica, como veremos, é a um só tempo o fundamento da originalidade da proposta do autor e uma fonte de significativas dificuldades interpretativas.

O Filosofia da Moeda é dividido em duas grandes partes, e essa mesma divisão já reflete as preocupações multidisciplinares do autor. Os primeiros três capítulos compõem a “parte analítica”, sobre a qual dedicaremos maior atenção a seguir, uma vez que ela contém a construção da proposta teórica central de Simmel a respeito do fenômeno monetário – nessa seção, o autor busca estabelecer no que é que consiste a moeda, o que são valor e preço, e qual é o papel da moeda enquanto signo e enquanto coordenador de ação social. Por sua vez, a “parte sintética”, composta pelos últimos três capítulos do livro, só será abordada no trabalho presente como suporte a determinados argumentos propostos por Simmel na primeira seção: ela consiste em uma longa análise sobre a forma ambígua e fundadora pela qual a moeda transforma os diversos aspectos da socialização humana, abrindo espaço para novas dimensões – subjetivas e sociais – de liberdade, individualidade e isolamento. Os primeiros três capítulos, assim, buscam compreender o que é que é a moeda, enquanto os últimos estão preocupados em estabelecer os seus efeitos e os significados trazidos pela moeda aos sujeitos e às sociedades que a usam. Nos termos da divisão de trabalho intelectual em que resultou o Methodenstreit, poderíamos dizer que a parte analítica do Filosofia da Moeda trata de economia, enquanto a parte sintética de sociologia. A proposta de Simmel não se limita a uma ou outra dessas perspectivas, oferecendo uma visão ampla e rica sobre diversas dimensões do fenômeno monetário

Como também veremos ao longo do trabalho, entretanto, essa mesma riqueza intelectual e disciplinar de Simmel se provou um obstáculo à sua recepção. Tanto na economia quanto na sociologia, o Filosofia da Moeda recebeu uma recepção parcial em que se perdeu a compreensão plena da noção de moeda oferecida pelo autor, o que contribuiu para solidificar a separação entre o que as disciplinas tinham a dizer no âmbito da teoria monetária (Dodd, 2014, p. 55). Na sociologia e na antropologia, embora o autor não tenha o estatuto clássico de, por exemplo, Weber ou Durkheim (Deflem, 2003), suas contribuições são amplamente reconhecidas no estudo de relações de grupo, socialização urbana, e em especial no campo ainda pouco sistematizado da sociologia da moeda (Zelizer 1997, Deutschmann 1996). Parte

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significativa do impacto do autor nessas disciplinas, contudo, se concentra sobre a seção sintética do livro, uma forma de recepção que muitos autores atuais consideram não estar à altura da contribuição que a obra representa (Maurer 2006, Ingham 2004). Dentro da economia, como veremos ao longo desse capítulo, Simmel provou ter um impacto ainda menor.

Na verdade, contrastando a limitada recepção do Filosofia da Moeda na economia com o seu impacto mais amplo na sociologia, é interessante observar que a obra se prestou a apropriações bastante diferentes, senão mesmo incompatíveis. Laidler e Rowe (1980) e Deutschmann (1996) são dois exemplos correntes da escassa literatura crítica sobre Simmel que podem servir de referência a esse respeito. Deutschmann, trabalhando na tradição marxista, argumenta que o projeto do Filosofia, embora careça de uma articulação apropriada da questão da produtividade social que em Marx encontra expressão na teoria do valor-trabalho, pode ser frutiferamente combinado com a análise econômica da tradição marxista. Como veremos, Simmel deriva a construção social da moeda a partir de uma teoria do sujeito muito particular, e essa combinação permitiria, segundo Deutschmann, construir uma abordagem inovadora capaz de expandir o alcance teórico de ambas as vertentes e aprofundar a investigação do papel que a moeda desempenha, enquanto construto social, na interação entre os membros das comunidades mercantis, na formação da sua cultura, e enfim na dinâmica capitalista. Em contraste, Laidler e Rowe (1980), num artigo que busca introduzir Simmel ao pensamento econômico, consideram que a proposta do Filosofia, na medida em que chama atenção para a natureza social ou institucional da moeda, permite compreender com maior clareza tanto a potencial fragilidade da ordem monetária quanto os mecanismos através dos quais essa ordem alcança estabilidade. Os autores propõem assim um resgate de Simmel que permita complementar certas deficiências da teoria monetária convencional, argumentando que o Filosofia carrega uma dívida, e apresenta grande proximidade, com a Escola Austríaca. Curiosamente, assim, a mesma proposta teórica se prova apropriável por campos do pensamento econômico bastante independentes e, em certa medida, contraditórios.

Essa amplitude nas apropriações da proposta de Simmel sobre a moeda indica tanto a fertilidade da contribuição do autor como a variedade de perspectivas teóricas que buscam dar conta do multifacetado fenômeno monetário. Acreditamos ser justamente por essa razão que, na zona de interface atual entre economia e sociologia, Simmel venha ganhando uma relevância cada vez maior (Orléan 2013, Dodd 2014, p. 55), sendo frequentemente resgatado para fazer frente a preocupações como as relações entre moeda, valor, arranjos de mercado, Estado e

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conflitos distributivos. Compatibilizar a relativa obscuridade de Simmel na economia com a riqueza teórica que variados autores atuais atestam no Filosofia da Moeda, oferecendo explicações para a variedade de apropriações a que a obra se oferece, será um tema recorrente nesse e nos próximos capítulos, e veremos que essa é uma questão que vai diretamente ao encontro do papel da interdisciplinaridade na compreensão do fenômeno monetário. Argumentaremos ao longo desse trabalho que a distinção teórica do trabalho de Simmel consiste justamente em, através da publicação do Filosofia da Moeda, buscar estabelecer a sociologia econômica da moeda como um campo autônomo de estudo e investigação (Deflem, 2003) – um campo cuja autonomia não pode prescindir de ferramentas de origem tanto sociológica quanto econômica. Não deve surpreender, assim, que Simmel seja um dos principais nomes ao redor dos quais se articula o atual reavivamento do interesse interdisciplinar pela questão monetária.

De forma a dar mais clareza à imprecisa posição ocupada pela contribuição de Simmel, é produtivo realizar um levantamento da forma como o autor foi recebido por outros autores de seu próprio tempo, dentro e fora da economia. Nos prefácios às sucessivas edições em inglês do Filosofia, David Frisby, sociólogo e historiador da teoria social alemã responsável pela tradução para o inglês do Filosofia da Moeda, oferece um panorama bastante amplo das impressões a respeito da obra por parte de autores contemporâneos ao autor. Resgataremos alguns desses pontos a seguir, selecionando as relações mais relevantes para a economia e a sociologia econômica da moeda.

De partida, merece destaque a posição de Gustav Schmoller, aluno de Simmel e mais tarde um autor central da escola histórica alemã, que recebe positivamente o Filosofia e apresenta a obra como uma alternativa valiosa – pois independente da metodologia do materialismo histórico – à visão marxista. Do ponto de vista de Schmoller (Frisby 2004. p.10-13), o Filosofia não apenas tocaria em muitos pontos relevantes para a teoria econômica da moeda como poderia ser considerado uma extensão do pensamento da escola histórica, levando adiante o ponto de vista histórico para considerar as consequências sociológicas e psicológicas do estabelecimento de sociedades monetárias avançadas. Schmoller alerta, contudo, que o método filosófico de concepção e apresentação, bem como a profusão de relações e referências contidas no trabalho, coloca dificuldades a leitores não treinados na tradição filosófica alemã. Argumentando que socialistas considerarão Simmel um aristocrata, enquanto economistas tradicionais verão no autor excessos de abstração, Schmoller estima que a contribuição do Filosofia não seria

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facilmente incorporada a outros campos do pensamento – uma previsão que se provou certeira. Positivas de forma ainda menos qualificada do que as de Schmoller foram as impressões de Knapp, que viria a criar relações pessoas e profissionais significativas com Simmel. (Frisby, 2004, p. liii). Knapp se refere ao Filosofia da Moeda como um trabalho relevante e original e, confirmando a impressão de outros comentadores da época, vê grandes similaridades entre a noção de economia monetária de Simmel e a sua própria (Frisby, 2004, p. xvii). Essas possíveis conexões entre o ponto de vista cartalista e o de Simmel, de fato, serão observadas por pensadores interdisciplinares posteriores como os que discutimos nesse trabalho1, e

retornaremos à discussão sobre Knapp, Menger e Simmel ao final desse capítulo.

Fora do círculo alemão, mas ainda de um ponto de vista teórico sensível à economia, destaca-se o testemunho de George Herbert Mead, que vai além de oferecer impressões positivas ao Filosofia e argumenta extensivamente em prol da relevância das contribuições de Simmel para o pensamento econômico (Frisby 2004, p. li). O elemento central desse argumento é o de que a forma original como Simmel elabora as relações entre sujeitos e o caráter estritamente simbólico da moeda evidenciaria as falhas da determinação de preços do ponto de vista subjetivo (como o faz a abordagem utilitaristas ou a austríaca) sem ainda se apoiar diretamente sobre teorias do valor-trabalho. O trabalho de Simmel, assim, demonstraria "não apenas a legitimidade, mas o valor de se abordar a ciência econômica do ponto de vista filosófico" (p. lii). Voltaremos a esse ponto ao longo desse e do próximo capítulo, buscando especificar algumas relações entre Simmel, Orléan e as diversas teorias do valor2.

A perspectiva que adotaremos ao longo desse trabalho é semelhante à de Knapp, Schmoller e Mead: a de que há contribuições originais e indispensáveis na proposta de Simmel, contribuições, ainda, que permitem evidenciar e propor resoluções a certas insuficiências nas narrativas tradicionais da moeda. Dadas a impressão positiva de Simmel demonstrada por

1 Ao contrário de outros pensadores que faremos referência, a visão de Wray (2012) sobre a moeda não faz referência direta a Simmel, apoiando-se sobre o ponto de vista substantivista de Karl Polanyi. Podemos considerar essas duas linhas de pensamento sobre a moeda como desenvolvimentos paralelos, mas compatíveis, no resgate de uma teoria monetária mais próxima das ciências sociais.

2 Entre outros economistas da época, as visões sobre Simmel e sobre o Filosofia da Moeda passam a variar em um espectro amplo: uma resenha de Altmann considera Simmel um sintetizador de ferramentas da escola austríaca com Marx, ao colocar a moeda como o ponto de conexão que revela todas as outras relações sociais; Bortkiewicz, por sua vez, vê na conceptualização econômica do Filosofia uma ausência de clareza e precisão, derivada do ecletismo das ferramentas econômicas utilizadas pelo autor, que impede que o trabalho contribua para a discussão a respeito da teoria do valor; Wilhelm Lexis reforça o argumento de Mead, argumentando entretanto que as relações e analogias apresentadas por Simmel parecerão exóticas a economistas (Frisby, 2004).

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Knapp e Schmoller e a natureza das disputas teóricas do Methodenstreit, entretanto, talvez não seja surpreendente que Carl Menger tenha apresentado um julgamento bastante negativo do Filosofia. Menger concede que o Filosofia é um trabalho amplo escrito de forma estimulante “ou mesmo brilhante”, mas ainda assim considera que Simmel pertence estritamente ao campo da "economia histórica" (Frisby, 2004, p. liii), faltando ao autor um domínio preciso de teoria econômica que justificasse maior atenção ao autor. Do ponto de vista de Menger, a teoria econômica estaria não só equipada para lidar com as questões mais precisamente econômicas levantadas por Simmel a respeito do valor e do papel da moeda na socialização como também seria capaz de permitir a compreensão das implicações sociológicas e psicológicas da teoria da moeda, de forma que o Filosofia se provaria uma contribuição dispensável. Esse se provará um ponto de contenção duradouro e, conforme discutiremos ao longo do trabalho atual, de bastante relevância para a forma que tomaria subsequentemente a teoria da moeda dentro da economia. Adiantemos aqui que, em resposta à posição de Menger, o renovado interesse atual por teorias interdisciplinares da moeda demonstrado por Ingham, Dodd, Orléan e diversos outros autores pode servir de indicador da validade de abordagens menos circunscritas ao campo intelectual estritamente delimitado da economia. Ao mesmo tempo, mesmo pensadores mais tradicionais como Laidler e Rowe encontram no Filosofia da Moeda uma perspectiva evolucionária bastante simpática à visão da escola austríaca. Teremos mais a discutir sobre as relações entre Menger e Simmel ao final desse capítulo, e sobre possíveis proximidades entre a posição de Simmel e uma compreensão evolucionária da moeda ao longo do capítulo 3.

No âmbito da recepção de Simmel por sociólogos de seu tempo, também podemos encontrar insumos para precisar a posição do autor no pensamento sobre a moeda. Durkheim define o Filosofia como "um tratado de filosofia social que vê a moeda como um símbolo puro, uma representação abstrata de relações abstratas" (Frisby, 2004, p.12) e encontra uma grande variedade de ideias originais e relações de interesse apresentadas no trabalho, embora considere que a proposta do autor é dependente de especulações metodologicamente imprecisas. Mais interessado na parte sintética do livro do que que na analítica, contudo, Durkheim não discute mais profundamente a possível contribuição de Simmel para a teoria da moeda. Weber, por sua vez, demonstra uma conexão bem mais próxima e um conhecimento mais amplo do trabalho de Simmel, tendo resenhado outras contribuições além do Filosofia, que julga uma fonte de posições teóricas úteis e originais (Frisby 2004, ps.2, 14). Como Knapp, Weber viria a desenvolver relações pessoais e profissionais com Simmel, admitindo mesmo um débito

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intelectual com o autor. Entre outras críticas menos explícitas, Weber entende que o trabalho de Simmel aproxima demais aspectos subjetivos e objetivos e falha em traçar uma distinção histórica específica entre economias monetárias e capitalismo, ressaltando que o Filosofia – preferindo se ater a uma grande variedade de entidades de análise e abordagens a propor uma visão articuladora – apresenta uma visão que muitos sociólogos considerariam insuficientemente totalizante. O autor também apontava, já então, para a dificuldade em se definir qual o papel ocupado por Simmel na divisão intelectual do trabalho em ciências sociais. Identificando uma grande diversidade de intenções no trabalho de Simmel, Weber argumenta que essa é a principal razão pelas quais o Filosofia não recebeu uma recepção intelectual à altura de sua contribuição (Frisby 2004, p. 15) 3.

Esse breve percurso por pensadores contemporâneos a Simmel4 levanta questões

interessantes sobre a amplitude de seu pensamento e sobre as possíveis relações que ele estabelece com outras facetas da teoria da moeda. Podemos observar que, tanto na economia quanto na sociologia, e tanto hoje quanto na data original de publicação, o Filosofia da Moeda polariza recepções e se presta a apropriações bastante variadas. Por ora, gostaríamos apenas de sugerir que esse é um indicador da própria riqueza teórica da proposta de Simmel, adiantando que, de forma geral, essa riqueza deriva justamente do aspecto filosófico da obra do autor. Ao longo desse trabalho, argumentaremos que a abordagem interdisciplinar da moeda adotada por

3 Em particular na relação com economistas, Weber aponta que "there exists not only a great number of specialists in philosophy who clearly abhor [Simmel]—the typical sectarian character of the philosophical ‘schools’ of the time, to none of which Simmel belongs, makes this only too intelligible (quite apart from other motives that may be involved) —but there are also scholars who are to be taken very seriously in disciplines that border on Simmel’s sociological field of work who are inclined…to acknowledge Simmel’s scholarship on certain details but to reject his work as a whole. Among economists, for example, one can experience outright explosions of rage over him…and from that same circle of specialists has come the statement that Simmel’s art is ultimately a matter of ‘dividing the air and then uniting it again’." (Weber apud Frisby 2004, p. 3)

4 Registremos também que, entre pensadores socialistas e marxistas contemporâneos a Simmel, percebem-se visões também muito variadas, indo desde a rejeição completa, em um polo, a, no outro, considerar o Filosofia da Moeda – a despeito do fato de o próprio Simmel tanto considerar seu trabalho uma crítica bastante radical ao materialismo histórico quanto propor uma teoria do valor radicalmente distinta da de Marx – uma extensão de O Capital. Na tradição da teoria crítica, mencionemos brevemente que Benjamin recebe as ideias de Simmel reservadamente bem, enquanto Adorno se provou muito mais crítico (p. 16-18). A visão mais inqualificadamente positiva é a Lukács, que coloca Simmel como o pensador central da filosofia moderna (Frisby 2004, 16-19), e o Filosofia da Moeda como o trabalho fundador que permitiu o posterior desenvolvimento da sociologia da cultura de Weber e de outros autores ao tratar "objetivações culturais como fenômenos sociais" (p. 12). Lukacs mais tarde também ecoa a crítica de Weber sobre especificidade da economia capitalista, agora do ponto de vista marxista. Relações entre essa visão e o ponto de vista institucionalista na economia merecem ser exploradas em mais detalhe, e vale registrar aqui as conexões entre Lukács e outros autores da filosofia continental mencionados no Anexo II desse trabalho. Não entraremos em mais detalhes a respeito da recepção de Simmel por outras disciplinas como a filosofia e a teoria estética, também exploradas por Frisby (2004).

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alguns pensadores atuais realiza um papel semelhante à dimensão filosófica do trabalho de Simmel, não sendo por acidente, assim, que seja rigorosamente positiva sua recepção por parte de pensadores preocupados com a interdisciplinaridade como André Orléan, Geoffrey Ingham e Nigel Dodd. Relaxando as delimitações de campo entre economia e sociologia, assim, Simmel passa a se colocar como a referência central, senão mesmo o patrono, das abordagens interdisciplinares da moeda.

Argumentaremos também que esse aspecto filosófico (ou, provisionalmente, interdisciplinar) foi em grande parte responsável pelas dificuldades enfrentadas na recepção de Simmel por outros teóricos da moeda, em particular na economia. Desse ponto de vista, a resistência à recepção de Simmel por parte da economia se deveria justamente ao fato de as divisões oriundas do Methodenstreit terem privado a economia tradicional do contato com teorias do sujeito, da representação e das articulações sociais, teorias presentes na perspectiva de Simmel e explícitas em certas abordagens interdisciplinares da moeda. Se seguirmos a visão dos autores interdisciplinares que exploraremos ao longo desse trabalho, e mantendo em vista as aberturas que o longo debate intelectual sobre a moeda permite ainda hoje, é por essa mesma razão que se justifica um resgate atual do autor que permita um diálogo mais direto com a economia.

Mesmo a parte do Filosofia da Moeda mais próxima da economia, contudo, pode se provar uma leitura desafiadora para um economista. Com isso em vista, antes de partir para a interpretação da proposta de Simmel, tracemos algumas notas sobre as possíveis dificuldades postas a um leitor atual da obra. Em primeiro lugar, como vimos, o autor tem uma recepção ambígua na tradição sociológica, e bastante limitada na ciência econômica. Essa relativa obscuridade, por si mesma, já contribui para a dificuldade de um encontro com o seu trabalho, na medida em que priva leitores atuais da codificação oferecida pelas leituras e releituras que as gerações de pensadores posteriores sobrepõem aos textos clássicos ou mais bem estudados.

Essa dificuldade particular se revela apenas incidental, entretanto, se comparada com os desafios que o Filosofia apresenta, por sua própria construção, a leitores de formação não filosófica. A primeira barreira para um leitor atual é a própria linguagem do trabalho de Simmel, que pertence à tradição alemã de filosofia continental. Nesse sentido, aplicam-se ao autor as mesmas questões que tornam difícil, por exemplo, a leitura de Marx ou Kant – e sem o benefício da ampla literatura secundária de que dispõem autores mais conhecidos. Essa dificuldade de

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leitura não é apenas interpretativa, mas conceitual: o elevado rigor com que o autor delimita conceitos e constrói argumentos, a atenção dada à elaboração das ideias, e o vasto arcabouço de referências teóricas de origens bastante diversas conspiram para impedir uma leitura superficial do texto e exigir do leitor bastante comprometimento. Em adição, embora a exposição da teoria do autor sobre a moeda siga um caminho claramente progressivo, os conceitos de que essa exposição depende são por vezes assumidos provisionalmente, e só claramente delimitados em um momento posterior da exposição. Diversas seções do Filosofia, na verdade, podem ser lidas como demonstrações relativamente autônomas de uma mesma ideia particular – uma estratégia discursiva que ao mesmo tempo cria uma certa independência entre as diversas propostas do livro e dificulta a apreensão de uma noção mais totalizante da abordagem do autor. Embora, em última instância, as grandes ideias defendidas pelo livro sejam bastante consistentes entre si, nem sempre é fácil identificar a posição teórica em que deveriam se encaixar determinados argumentos localizados que o leitor encontra durante a leitura. A metodologia de exposição do livro, enfim, como apontam Deutschmann (1996) e Deflem (2003), é ensaística.

Uma segunda dificuldade na leitura do Filosofia se relaciona ao método de exposição escolhido pelo autor: o livro não é organizado claramente em torno de uma herança teórica particular que sirva de referência articuladora dos diversos aspectos da proposta teórica – não é possível dizer que Simmel apresenta uma leitura da moeda marxista, ou utilitarista, ou qual seja. Ao contrário, a obra faz referência a inúmeras tradições teóricas distintas; questões argumentativas pontuais são resolvidas lançando mão de uma grande variedade de argumentos diferentes, e as relações conceituais que esses argumentos poderiam ou não estabelecer entre si ficam a critério do leitor. Isso levou alguns comentadores a se referir ao Filosofia como uma “coleção de aforismos” (Swedberg & Reich, 2010). Essa dificuldade é agravada pelo fato de Simmel, como apontam Laidler e Rowe (1980), não se referir especificamente a suas fontes nem mencionar outras instâncias das discussões que realiza. Essa postura dificulta a leitura contemporânea, acostumada à abundância de indicadores das relações entre diversos trabalhos, mas talvez não deva ser surpreendente para um trabalho de amplo alcance e pretensões totalizantes datado do começo do século XX.

Como uma última dificuldade, apontemos ainda que os conceitos construídos na tradição filosófica do autor mantêm uma relação apenas casual com conceitos similares sugeridos pelo uso comum e pela linguagem cotidiana ou mesmo, por vezes, pela linguagem acadêmica não

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especializada. Noções à primeira vista imediatas como a de “objeto” ou “percepção” são tratadas no Filosofia com grande delicadeza e frequentemente reconstruídas por completo, e investigar esses conceitos sob o suporte do senso comum pode resultar em incompreensão.

Resguardadas essas dificuldades, contudo, o Filosofia da Moeda se prova um texto riquíssimo em referências antropológicas, registros históricos, experimentos intelectuais e tentativas de fundamentar cada elemento de suas propostas num diálogo extensivo com outras correntes de pensamento. Simmel talvez possa ser considerado um exemplo canônico de pensamento multidisciplinar, oferecendo insumos e perspectivas para a compreensão da moeda que mais do que compensam a dificuldade do encontro com o trabalho do autor. Acreditamos portanto que o esforço de incorporar a visão de Simmel à teoria da moeda é plenamente justificado.

São essas as considerações que informam a decisão metodológica que adotaremos na exposição da teoria da moeda de Simmel a seguir: a de uma reprodução elucidativa, rigorosamente sintética, mas, ainda assim, calcada em citações diretas e bastante próxima do texto do autor. Mantendo em vista a riqueza intelectual e as dificuldades de leitura postas pelo Filosofia da moeda, acreditamos que a estratégia adequada para lidar em primeira abordagem com o livro é a de encará-lo em seus próprios termos, evitando sempre que possível a pretensão de interpretar termos e conceitos sem o cuidado de acompanhar a sua construção ao longo da apresentação. Essa estratégia certamente aumenta o esforço que se faz preciso dedicar ao texto, mas revela que aquilo que a princípio aparece como dificuldade é, na verdade, apenas um indício da complexidade e da profundidade inerentes ao sistema de conceitos construído pelo autor.

Com isso em mente, e de forma a prover referências para a discussão que se segue, talvez seja conveniente apontar de imediato os dois pares de conceitos centrais na proposta de Simmel sobre a natureza da moeda: o par sujeito-objeto, propostos como elementos cuja constituição mútua carrega implicações fortes para uma teoria da representação, e o par relatividade-objetividade, que em certa medida estende a peculiar relação sujeito-objeto de Simmel para a coletividade dos sujeitos.

O momento teórico fundador da abordagem de Simmel, como veremos, traz para a teoria da moeda a radical proposta de Kant contida na citação em epígrafe. Kant e Simmel problematizam os conceitos intuitivos de sujeito e objeto, concebendo-os como elementos

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constitutivos da realidade que não podem ser compreendidos na ausência de uma teoria da representação que dê conta das relações entre um e outro. O sujeito é o resultado cognitivo de uma série de relações com determinados objetos – ele se forma através das relações que estabelece com os seus objetos, e é, em alguma medida, uma função dos objetos. Ao mesmo tempo, os objetos são construídos pelo sujeito no ato cognitivo; são recortados da realidade caótica enquanto sistemas organizados de relações, e em certa medida impostos pela percepção e pela representação sobre a realidade. Os objetos são, enfim, uma função do sujeito. Sujeito e objeto, nessa perspectiva, se constituem mutuamente através da representação. Mais do que isso, num segundo momento: os objetos em Simmel são uma função da relação entre sujeitos, são construídos de forma mais ou menos coletiva pelos sujeitos e pelas distâncias que os separam entre si e os separam dos diversos objetos. Essa virada teórica informa a noção de objetividade proposta pelo autor, e é crucial na sua concepção do fenômeno monetário.

Se os objetos são, como defende Simmel, construções do sujeito, representações da realidade, é preciso também transformar completamente a noção intuitiva de objetividade. A ideia de “objetividade” que corre no discurso comum corresponde a algo parecido com “concretude”, ou com o caráter dado e completo das coisas na realidade, independente de interpretações particulares, “subjetivas”, sobre elas. Diz-se assim que determinado fenômeno é “objetivo” quando se busca referir a ele como algo verdadeiro e autossuficiente que não depende das possíveis peculiaridades que um ou outro olhares individuais se lhe poderiam atribuir; na mesma linha, uma visão “objetiva” do fenômeno corresponderia a uma visão não contaminada por vieses interpretativos ou distorções emocionais. Um segundo sentido, incipientemente sociológico, compreende a “objetividade” como “algo com o que todos concordam”, como um certo consenso convencional sobre a natureza das coisas – e portanto como uma função das crenças de um conjunto de sujeitos.

A objetividade em Simmel carrega semelhanças e diferenças com essa segunda visão. Para o autor, não há dificuldade nenhuma em afirmar que a objetividade é uma função da relação entre os objetos, uma vez que os próprios objetos são derivados do sujeito, derivados da representação. A objetividade, como o termo indica, provém dos objetos. Se um objeto em particular é um recorte abstrato da realidade operado pelo sujeito, a diversidade dos objetos da vida cotidiana é também para o autor uma função da percepção, uma forma avançada do desenvolvimento do sujeito. Num primeiro momento lógico, cada sujeito moderno se depara com uma grande multiplicidade de objetos. Num segundo momento, na verdade, fica claro que

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cada sujeito se depara efetivamente com uma multiplicidade de outros sujeitos, e na economia de troca cada um desses outros sujeitos é o portador de um objeto particular. A diversidade dos objetos, assim, é simplesmente um reflexo da diversidade de sujeitos numa comunidade, do fato fundamental de que a conexão material entre os diversos indivíduos impõe a cada um deles que exista exclusivamente enquanto relação com outros indivíduos. Ambiguamente, essa relatividade é uma função ao mesmo tempo da interdependência e da separação entre os indivíduos, e, como é a distância entre o sujeito e o objeto que cria o objeto, a multiplicação de sujeitos sociais acompanha a criação subjetiva de mais e mais objetos de troca. As relações entre esses indivíduos, portanto, são dadas através do balanço entre diversos objetos: cada indivíduo, assim, está submetido à relatividade da sociedade de troca, uma relatividade à qual corresponde, no nível dos objetos, a sua própria objetividade. A moeda em Simmel nada mais é do que a incorporação dessa relatividade em um objeto material qualquer.

O ponto será mais bem elaborado ao longo da apresentação que segue, e é tratado diretamente no texto de Simmel em diversas ocasiões. Ele pode parecer à primeira vista uma sofisticação silogística desnecessária, mas acreditamos que ele é central para a proposição mais fascinante, e mais radical, do Filosofia da Moeda, uma proposição em que ecoam ao mesmo tempo a noção de fetiche em Marx e o ponto de vista de certas correntes da linguística moderna: a proposição de que as representações humanas são uma construção coletiva em relação à qual os indivíduos têm uma capacidade de ação – na melhor das hipóteses – limitada e conflituosa. Em outras palavras, de que os indivíduos não têm grande liberdade de ação sobre a representação enquanto indivíduos, mas sim enquanto grupos de indivíduos em interações coletivas, enquanto manifestações da relatividade dos sujeitos em sua interação uns com os outros. Em termos menos estranhos à discussão em economia contemporânea, afinal, essa é a mesma proposição que resulta no resgate da visão institucionalista: a de que a compreensão de fenômenos econômicos não pode prescindir de uma compreensão adequada do papel central ocupado pelas instituições.5

Os homens são ao mesmo tempo submetidos às instituições e criadores delas, e, seguindo o argumento de Simmel, para nenhuma instituição isso é mais verdadeiro do que para a moeda.

5A noção de instituição que adotamos aqui se aproxima da oferecida por Hodgson (1988, 2009), “um sistema de regras sociais bem-estabelecidas e amplamente aceitas, que estrutura interações sociais”. Essa perspectiva se ajusta particularmente bem ao trabalho de Simmel e Orléan, bem como a noções de instituição de alguns pensadores de fora da economia como Eagleton (2011) e Unger (2007). Como referência, Anjos Jr. (1999) oferece uma leitura sobre o papel da moeda que explora sua natureza institucional com base na visão de Hodgson.

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A moeda é a instituição representativa da relatividade da sociedade de troca, uma instituição que permite a existência dessa sociedade e que nenhum de seus membros tem direito a recusar – ao mesmo tempo, a moeda é o objeto cujo movimento próprio no seio da comunidade pode ser responsável por desestabilizá-la, por desestruturá-la, e, no limite, por sua ruptura. Acompanhemos portanto cada etapa do argumento de Simmel, que toma como ponto de partida uma visão particular do fenômeno subjetivo de atribuição de valor.

1.2. A MOEDA NA VISÃO DE SIMMEL

Simmel abre seu o Filosofia da moeda6 propondo que os sujeitos ordenam de duas formas

paralelas sua relação com a realidade. Para o autor, a relação imediata dos sujeitos com o mundo, com o seu meio e com a realidade concreta, constitui subjetivamente uma “ordem natural” – um sistema de referência que organiza, do ponto de vista da visão de mundo individual, os objetos e eventos imediatos à percepção. Essa ordem natural inclui os fenômenos físicos, criaturas biológicas, objetos cotidianos, e em suma tudo o que poderíamos em primeira instância chamar de “coisas”. Sobre essa ordem natural, contudo, e sem nenhuma relação intrínseca ou necessária com ela, os objetos são novamente sistematizados segundo uma outra ordem, uma “ordem de valor”:7

“The order in which things are placed as natural entities is based on the proposition that the entire variety of its qualities rests upon a uniform law of existence (...) However, under more careful examination, this only means that the products of this natural order are beyond any matter of law. (...) The absolute determinateness [of the elements belonging to the natural order] does not allow any emphasis that might provide confirmation or doubt of their particular quality of being. But we are not satisfied with this indifferent necessity that natural science assigns to objects. Instead, disregarding their place in that series we arrange them in another order – an order of value – in which equality is completely eliminated, in which the highest level of one point is adjacent to the lower level of another; in this series the fundamental quality is not uniformity but difference”. (Simmel, 1990, p. 59)

Nessa primeira aproximação ao conceito de valor ainda não se trata do valor propriamente econômico, mas sim do valor simplesmente subjetivo, da capacidade humana de valorizar

6Exceto quando indicado em contrário, todas as citações desse capítulo referem-se ao The Philosophy of Money, Simmel, 1990.

7Simmel vincula essa “ordem de valor” à “ordem de lei”, apontando desde o início para o caráter institucional dessa dimensão da relação entre os homens e o mundo que se sobrepõe às relações naturais.

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determinados objetos, a capacidade de “valuation”. Simmel ressalta a arbitrariedade – o caráter acidental ou a ausência de qualquer lógica imperativa – da relação entre a existência natural das coisas e o valor a elas atribuído.8 Para o autor, essa atribuição de valor não pode ser reduzida a

qualquer elemento essencial – não existe uma essência última ou natural do valor subjetivo dos objetos; tampouco pode-se derivar o valor de relações lógicas entre os objetos naturais, ou prová-lo conceitualmente. Em Simmel, a atribuição de valor subjetivo é um “fenômeno primário” (Simmel, 1990, p. 62), irredutível a outros elementos: uma forma fundamental da percepção,9 e portanto o ponto de partida ideal para uma teoria da moeda.

Notemos que a atribuição subjetiva de valor se caracteriza, no Filosofia, por não ser nem intencional – isto é, psicologicamente determinada – nem intrínseca ao objeto – isto é, determinada materialmente. O ponto pode parecer secundário, mas está diretamente relacionado ao debate que se divide entre as teorias subjetivas do valor, como a da utilidade marginal, e as teorias objetivas como a do valor-trabalho. Simmel, como mais tarde Orléan, busca estabelecer um campo teórico que vai além da aparente dicotomia que define esse debate. Estudar o que há de particular na subjetividade característica do valor é o primeiro momento desse trabalho, e Simmel abordará essa questão reorganizando radicalmente a separação conceitual aparentemente intuitiva entre sujeito e objeto. Acompanharemos passo a passo a seguir essa reconstrução, mas podemos adiantar que esse campo que não pertence nem ao do sujeito nem ao do objeto, mas está implicado em ambos, é o próprio campo daquilo que poderíamos descrever como fenômenos institucionais.10 Discutiremos mais extensivamente esse

8O autor alerta, contudo, contra a concepção equivocada que coloca a formação psicológica de conceitos de valor fora do campo da ordem natural. Ao contrário, essa capacidade de “valuation”, de atribuição de valores a objetos, é a um só tempo parte da ordem natural e forma um espaço autônomo dentro dela, que cria uma perspectiva particular para a sua leitura. (p. 60-61).

9“The question of what value really is, like the question to what being is, is unanswerable. (…) What is common to value and reality stands above them: namely the contents, the qualitative, that which can be signified and expressed in our concepts of reality and value, and which can enter into either one or the other series. Reality and value are, as it were, two different languages by which the logically related contents of the world, valid in their ideal unity, are comprehensible to the unitary soul. “(...) value exists in our consciousness as a fact that can no more be altered than can reality itself. [colour or temperature] are accompanied by a feeling of their direct dependence upon the object; but in the case of value we soon learn to disregard this feeling because the two series constituted by reality and by value are quite independent of each other”. (p. 62)

10“In whatever empirical or transcendental sense the difference between objects and subjects is conceived, value is never a 'quality' of the objects, but a judgment upon them which remains inherent in the subject. And yet, neither the deeper meaning and content of the concept of value, nor its significance for the mental life of the individual, nor the practical social events and arrangements based upon it, can be sufficiently understood by referring value to the 'subject'. The way to a comprehension of value lies in a region in which that subjectivity is only provisional and actually not very essential” (p.63)

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ponto na última seção do presente capítulo. Por ora, exploremos a trajetória que leva Simmel desse contraste entre a ordem natural e a ordem de valor até a noção de moeda.

1.2.1. A relação sujeito-objeto e a emergência do valor econômico

Como mencionamos, as noções de Sujeito e Objeto propostas por Simmel, informadas pela tradição filosófica kantiana, são bastante particulares. O ponto crucial aqui é a mútua constituição entre sujeito e objeto, uma constituição cuja trajetória parte da indiferenciação, da unidade pré-subjetiva da percepção, e progressivamente institui um ponto de origem e um de destino na relação entre o indivíduo e o mundo. As categorias de sujeito e objeto se desenvolvem, assim, a partir da relação que um e outro estabelecem entre si:

“Subject and object are born in the same act: logically, by presenting the conceptual ideal content first as a content of representation, and then as a content of objective reality; psychologically, when the still ego-less representation, in which person and object are undifferentiated, becomes divided and gives rise to a distance between the self and its object, through which each of them becomes a separate entity” (p. 65)

Nesses termos, é a separação entre sujeito e objeto que dá origem a ambos. Nem todas as experiências, contudo, podem ser contidas contêm sob as coordenadas dadas pela distinção sujeito-objeto. Em particular, Simmel ressalta que o impulso de satisfação busca constantemente liberação em um objeto, mas sob esse impulso a consciência não se impõe em relação ao objeto como sujeito – é o objeto que toma todo o espaço da consciência. Em seguida, durante a fruição (“enjoyment”) de um objeto, no momento em que um objeto é aproveitado ou consumido, a relação entre sujeito e objeto se dissolve completamente. Essa fruição é para o autor “um ato indiviso” (p. 65), um momento em que a separação constitutiva entre sujeito e objeto reverte ao seu estado primordial unificado.

Disso parte uma categoria crucial para a compreensão do valor em Simmel: a do desejo.11

O desejo é aquilo que reestabelece a separação interdependente entre sujeito e objeto – desejar é desejar algo que não está ao alcance imediato, é desejar um conteúdo fora da consciência presente. Só se desejam objetos não imediatamente disponíveis – efetivamente, apenas se deseja na medida em que os objetos resistam ao desejo. E a capacidade de desejar, por fim, é o que

11Nos termos da tradição estruturalista, a diferença entre sujeito e objeto em Simmel é assim a diferença fundadora, a diferença na qual todas as outras diferenças que formam o sistema de representação humana se espelham; é digno de nota que a noção de desejo em Simmel deriva diretamente dessa diferenciação primária.

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cria a “ordem de valor”. O valor subjetivo surge, dessa forma, no mesmo processo de diferenciação através do qual se constituem o sujeito que deseja e os objetos do desejo. Mais do que isso: como o desejo corresponde a uma separação entre o sujeito e o objeto, o valor subjetivo consiste na própria distância entre um e outro desses elementos.

“The object thus formed, which is characterized by its separation from the subject, who at the same time establishes it and seeks to overcome it by his desire, is for us a value. The moment of enjoyment itself, when the opposition between subject and object is effaced, consumes the value. Value is only reinstated as a contrast, as an object separated from the subject (p. 66).12

No caso dos objetos cuja valuation forma a base da economia, para Simmel, assim, o valor é o correlato da demanda (p. 69), mas uma demanda que não se esgota no sujeito demandante. Essa demanda, por sua estrutura psicológica, estaria direcionada não aos objetos mas à satisfação do desejo. Em contraste a esse sujeito capaz de desejar e atribuir valor, o autor defende que a consciência do “homem primitivo” é completamente subjetiva, uma vez que seu desejo é capaz de encontrar fruição, indiferentemente, em qualquer objeto. Uma outra forma menos primitiva de consciência se desenvolveria assim que uma mesma necessidade passe a rejeitar diferentes possíveis satisfações e que a satisfação do desejo passe a depender de um objeto específico (ou, mais tarde, de um grupo restrito de objetos substituíveis). Através dessa progressiva reorientação do sujeito para o objeto, os objetos passariam a se diferenciar e ganhar uma certa autonomia13 – e a consciência da existência de objetos particulares reduziria a energia

do impulso de satisfação, interpondo-se entre o desejo e a fruição. Nesse processo, “Since the differentiation of need goes hand in hand with the reduction of its elemental power, consciousness becomes more able to accommodate the object. Or regarded from the other

12Mais especificamente: “It has been asserted that our conception of objective reality originates in the resistance that objects present to us, especially through our sense of touch. We can apply this at once to the present problem. (...) reality does not press upon our consciousness through the resistance that phenomena exert, but we register those representations which have feelings of resistance and inhibition associated with them, as being objectively real, independent and external to us. Objects are not difficult to acquire because they are valuable, but we call those objects valuable which resist our desire to possess them.” (p. 67)

13“The broader basis from which even the most highly differentiated impulses evolve, and the original diffuseness of need which includes only a drive but not yet a definite single goal, remain as a substratum upon which a consciousness of the individual character of more specific desires for satisfaction develops. The circle of objects that can satisfy the subject's needs is diminished as he becomes more refined, and the objects desired are set in a sharper contrast with all the others that might satisfy the need but are no longer acceptable. It is well known from psychological investigations that this difference between objects is largely responsible for directing consciousness towards them and endowing them with particular significance. At this stage the need seems to be determined by the object (…). Consequently, the place that the object occupies in our consciousness becomes larger.” (p. 70)

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