CAPÍTULO 2. ANDRÉ ORLÉAN E A VISÃO CONVENCIONALISTA DA MOEDA
2.4. MOEDA CONVENCIONAL E ABORDAGENS INSTRUMENTAIS
A noção de economia mercantil e a hipótese de convencionalidade da moeda são oferecidas por Orléan como alternativa àquilo que o autor denomina as “abordagens instrumentais” (2009,
78Esse mesmo processo de sublimação também pode ser compreendido como o mecanismo da legitimidade em Girard. Como observaremos no Anexo II, ele é um elemento comum a diversas discussões da tradição continental que problematizam a questão da representação. Simmel e Orléan (ou, de forma mais geral, concepções da moeda como um objeto eminentemente simbólico) chamam a atenção para essa obscuridade constitutiva de certos processos sociais, e sobre os limites colocados sobre os símbolos e sua compreensão. Representação, o inconsciente, ações coletivas, e instituições podem ser vistas como um conjunto fechado de noções articuladas em certos campos das ciências humanas, em particular desde o linguistic turn (Herman-Pillath, 2008).
p.7) da moeda – abordagens às quais o autor atribui uma interpretação particular da teoria do valor, efetivamente uma teoria da distribuição social das mercadorias, e que só incorporam a moeda de forma assessória ou mesmo intrusiva, se não mesmo eliminam a moeda da análise. Em diferentes versões, essas abordagens reduziriam a moeda à função de meio/instrumento de realização de trocas, uma vez que as relações essenciais de produção e troca já estão determinadas previamente pela teoria distributiva. O autor se refere a essas diferentes visões, de forma geral, como “teorias instrumentais da moeda” - instrumentais pois enxergam a moeda como um simples instrumento no processo econômico. O trabalho do autor apresenta diversas instâncias da defesa da visão convencionalista contra as abordagens instrumentais, e explorá- las também permitirá ressaltar, através do contraste com argumentos alternativos, alguns aspectos mais sutis da proposta de Orléan. A ver:
I. O momento mais geral dessa crítica pode ser encontrado no Origin of Money (1992), onde Orléan questiona os fundamentos teóricos da moderna teoria monetária numa tentativa de demonstrar as razões pelas quais essa abordagem seria estruturalmente incapaz de compreender adequadamente o fenômeno monetário. A crítica se direciona ao reducionismo individualista que constitui, segundo o autor, o ponto de referência fundamental da teoria econômica contemporânea, e a essa estratégica teórica Orléan contrapõe uma abordagem aberta à assimilação conceitual daquilo que é propriamente social, daquilo que escapa ao cálculo racional e à relação contratual; à assimilação, enfim, da sociedade enquanto entidade autônoma no campo conceitual da teoria econômica. Uma noção do social enquanto tal é bastante estranha à abordagem individualista, na medida em que essa sociedade passa a consistir precisamente em algo não redutível ao conjunto de indivíduos, algo que se lhes apresenta como uma imposição externa e algo com que eles se relacionam como a um Outro.79 Orléan busca uma
abordagem teórica que leve em conta essa preocupação com a alteridade radical do corpo social em relação ao indivíduo, e é justamente na questão da gênese e da natureza da moeda colocada nas coordenadas definidas pela abordagem convencionalista que o autor identifica uma via de análise através da qual pode ser realizada essa mudança de paradigma teórico.
Sob essa perspectiva estritamente não reducionista, Orléan argumenta pela invalidade da
79Veremos no capítulo 3, por outro lado, como é que essa relativa autonomia do social em relação aos indivíduos é uma característica de diversas correntes teóricas nas ciências humanas sensíveis à questão kantiana da representação, e também não é estranha à visão sistêmica da economia informada pela teoria da complexidade, em que o foco central é justamente a emergência de formas autônomas não redutíveis aos seus elementos constituintes.
teoria quantitativa da moeda, “a concepção mais disseminada de moeda na ciência econômica” (1992, p. 117). O paradoxal estatuto da moeda na teoria quantitativa, tomando como referência a visão oferecida por Samuelson, é o de algo ao mesmo tempo essencial, por sua onipresença nas sociedades de mercado, e insignificante, uma vez que a estrutura produtiva e o nível de produção dependem apenas de variáveis não-monetárias ou “reais”. Orléan busca demonstrar que essa transparência da moeda, responsável pela transferência direta de variações na quantidade de moeda a variações no preço, reduz a moeda a um papel puramente formal ou instrumental, sem qualquer efeito na constituição das relações entre os diversos indivíduos.
A teoria quantitativa integra a moeda na análise econômica como uma mercadoria qualquer que satisfaz o desejo por liquidez transacional, e não é capaz de dar conta da natureza de “objeto coletivo” da moeda: a um só tempo, a origem da moeda é relegada ao status de fenômeno histórico que escapa à análise propriamente econômica, e a questão implícita das condições de sua aceitabilidade desaparece do campo de análise delimitado pela noção de neutralidade. Desaparece da teoria, assim, tudo aquilo que poderia indicar a incompatibilidade entre o cálculo racional individual e a natureza da moeda.
Paralelamente, ainda em The Origin of Money, Orléan argumenta que a teoria monetária moderna, alinhada ao trabalho seminal de Samuelson, embora defina como seu objeto o fiat money, não é capaz de explicar adequadamente as razões pelas quais os agentes aceitam um dinheiro puramente simbólico como moeda – não é capaz de revelar o processo fundador da aceitação de símbolos, que é a convencionalidade derivada da imitação. O autor também aborda a mesma questão, partindo de outro ângulo, em Money: Instrument of Exchange or Social Institution of Value? (2013), ao analisar a tentativa do Overlapping Generations Model de compreender por que agentes aceitariam guardar em seus estoques moeda em vez de bens. O que falta em ambos os casos, segundo o autor, é um entendimento do poder da moeda de se impor sobre os indivíduos como uma representação socialmente necessária:80 são aceitos
símbolos como moeda simplesmente porque outros agentes também aceitam o mesmo símbolo, e porque esse processo se reveste de objetividade social e passa a ser ofuscado. Durante a crise monetária, por outro lado, os agentes correm em direção à moeda, à vendabilidade, e não a encontram em nenhuma das mercadorias.
80“But the acceptance of money by the majority is the result of the mere presence of money which appears to society’s members as a necessity, and this is by means of the representations that it imposes” (2013, p. 59)
II. De uma perspectiva ligeiramente diferente, em Money and Mimetic Speculation (1988), o autor critica o postulado utilitarista da economia neoclássica, dentre cujas implicações está uma compreensão das preferências individuais como pré-determinadas em relação à troca. Orléan defenderá que, ao contrário, a compreensão da sociedade de mercado, que faz da “revolução constante dos valores de uso” (p. 101) e das “normas de produção e consumo” a sua força motriz, requer que a troca seja compreendida como a “fonte dos desejos individuais”, como um determinante do sujeito econômico. A proposta de Orléan, assim, implica redefinir o sujeito econômico, que não é um sujeito utilitarista mas um sujeito indiferenciado que busca sua forma em processos sociais. Esse novo sujeito implica diferentes concepções sobre a gênese das preferências econômicas, a natureza do desejo, e sobre as “transformações endógenas dos significados sociais” (p. 102) que constituem a economia de mercado.
III. Em dois outros momentos (2009, 2013), Orléan recorre à tradição neo-walrasiana como o principal representante da abordagem instrumental, e busca demonstrar como a teoria do equilíbrio geral oferece uma visão fundada em mercados e preços que acaba por equivaler a uma teoria das trocas diretas, a uma teoria da economia sem moeda. Na verdade, Orléan argumenta, no cálculo do equilíbrio geral o papel social da moeda fica delegado ao leiloeiro walrasiano, e é apenas uma vez que já estão determinados os preços e quantidades de equilíbrio que se passa à suposta integração teórica do fenômeno monetário. Em nenhum momento da análise fica provada a necessidade teórica da moeda. O autor retorna à questão do leiloeiro em The Empire of Value (2014, p. 110), buscando mostrar que ela representa uma tentativa da tradição walrasiana de incluir um elemento totalizante na teoria da distribuição – sob o preço de ocultar, a um só tempo, tanto o papel da localidade que caracteriza a economia mercantil e a dota de dinamismo quanto a percepção de que é justamente a moeda que permite a integração dos diversos indivíduos localizados, que permite a totalização social que a noção de leiloeiro acaba por implicar.81 Uma compreensão profunda do fenômeno monetário, por outro lado,
dispensa a hipótese bastante generosa do leiloeiro, e isso de pelo menos duas formas. Em primeiro lugar, Orléan defende que, ao contrário do que supõe o equilíbrio geral, não é preciso que um vendedor receba a validação de todos os outros vendedores implícita na noção de equilíbrio – ao contrário, a única validação necessária é a provida pelo dinheiro no momento da
81O autor ainda afirma que não é acidental o fato de as teorias baseadas em equilíbrio prescindirem da moeda, uma vez que elas já localizaram o valor nas preferências individuais reveladas pela utilidade (2013, p. 68).
venda. Transações podem e são frequentemente realizadas, assim, fora do preço de equilíbrio. Além disso, como não há necessidade de que cada transação cancele cada uma das outras em equilíbrio, é possível observar variações nos estoques de moeda, o que conecta de forma simples o presente e o futuro dessa economia, incorporando à teoria uma temporalidade que não tem lugar no equilíbrio geral.
IV. Em La Monnaie entre Violence et Confiance (2002), Aglietta e Orléan retornam à crítica à abordagem instrumental ao tratar das limitações de uma tentativa específica de reincorporar a moeda às teorias utilitaristas/equilibristas do valor: a proposta de Don Patinkin. Para os autores, o projeto de trazer de volta a moeda à perspectiva da economia clássica, que responde à “ideologia do individualismo mercantil” (p. 56) nos termos da qual o único laço social entre os indivíduos é o desejo localizado por mercadorias, está condenado na medida em que a moeda justamente só pode ser compreendida num âmbito estritamente não-individual, propriamente coletivo. Don Patinkin busca reduzir a relação monetária à busca individual por um tipo particular de utilidade – a utilidade proporcionada pela capacidade da moeda de evitar as “dificuldades que causam temporariamente a dessincronização entre compradores e vendedores” (p. 58). Em outros termos, a utilidade da moeda em Patinkin é a própria liquidez – uma liquidez que, contudo, é definida no âmbito estrito do cálculo privado de um indivíduo. Ao contrário, argumentam os autores, o campo da liquidez é na verdade aquele em que mais claramente se revela a dependência entre todos os indivíduos, na medida em que a funcionalidade moeda é determinada justamente pela aceitação de determinado objeto como moeda por todos os outros indivíduos. Isso negaria não apenas a abordagem de Patinkin “mas igualmente, e mais fundamentalmente, a noção mesma de valor aplicada à moeda” (p 59). A tentativa de incorporar a moeda no cânone utilitarista resultaria, assim, apenas por demonstrar a sua própria insuficiência.
Nos termos do Violence et Confiance, não cabe, portanto, partir de um princípio fundador de valor, que regule as relações entre indivíduos, para compreender a “ordem mercantil”: é preciso, ao contrário, partir da compreensão da separação mercantil para finalmente proporcionar à moeda o seu estatuto adequado de regulador das relações interindividuais. Sob as transformações constantes dos gostos, da técnica e dos recursos disponíveis, e frente à objetividade total dos objetos no mercado, os produtores tornam-se dependentes de sua capacidade de prover objetos cuja demanda só lhes será revelada ex post, no momento da venda. Essa é uma sociedade, assim, cujo princípio regulador central é a rareté – uma escassez nunca
aliviada pelo aumento constante da produtividade e da variedade de produtos finais. Correlata à liberdade e à independência instituída pela ordem mercantil, assim, está a exclusão e a desigualdade – uma realidade “surpreendente, e mesmo escandalosa” (p. 60) aos olhos das sociedades não mercantis, nas quais a identidade social de seus membros não repousa sobre sua capacidade de produção.
A sociedade mercantil de Orléan, desprovida das formas tradicionais de regulação da produção e de prescrições de vínculos de suporte social, é uma sociedade de “opacidade radical e de imprevisibilidade” (p. 59). Mercadorias particulares se mostram incapazes de fazer frente à incerteza e à ameaça constante de escassez. Esse fato crucial, na perspectiva dos autores, é aquilo que se falta admitir na visão teórica que reduz a incerteza a uma distribuição de probabilidades futuras de demanda por mercadorias. No cadre walrasiano, por exemplo, o modelo de Arrow-Debreu apenas consegue prever uma distribuição ótima as mercadorias sob o sacrifício de uma noção consistente de moeda: a moeda é o único objeto capaz de amenizar a incerteza inevitável imposta pela separação constitutiva, endógena, da sociedade mercantil – capaz de “conjurar provisoriamente a ameaça da exclusão” (p. 63). Essa necessidade de segurança, ainda, não é individual, mas coletiva – e exige assim uma resposta coletiva, social: exige a presença de um representante social geral que os autores encontram na instituição monetária. Esse social enquanto tal, por fim, é o que faltaria às diversas versões da teoria econômica clássica. No nível mais abstrato de análise, a moeda representa o retorno violento do desejo de sociabilidade negado aos indivíduos pela separação da ordem mercantil – e pelas teorias individualistas do valor.
V. Ainda no Violence et Confiance, os autores oferecem um contraste entre a proposta convencionalista e a abordagem instrumental que mais a ela se aparentaria: a análise de Carl Menger da origem da moeda. Menger busca solucionar a dificuldade da coincidência dos desejos numa economia de trocas oferecendo a noção de Absatzfähigkeit, a “vendabilidade”, uma qualidade que diversas mercadorias carregam em diversas intensidades. Segundo a proposta de Menger, através de um processo gradual e espontâneo de evolução e aprendizado, objetos com alta vendabilidade passariam a ser mais frequentemente trocados em mercado de forma a minimizar custos de transação – o que contribuiria para aumentar novamente sua vendabilidade. No limite, todos os indivíduos passariam a utilizar um único objeto como intermediário das trocas, e esse objeto se tornaria moeda.
Em primeira análise, essa proposta se aproxima bastante da abordagem do Violence, e os autores ressaltam que o próprio conceito de vendabilidade é analógico à noção de liquidez que eles avançam. Ambas as propostas seriam fundadas ainda numa noção de imitação cumulativa e, centralmente, trariam à tona o fato de que a moeda não constitui apenas uma forma de relação entre indivíduos, mas uma forma de relação do indivíduo com a coletividade social. A semelhança, contudo, argumentam Orléan e Aglietta, é estritamente formal: a abordagem de Menger ainda estaria presa a uma ideia pré-monetária de valor que permite dotar os indivíduos de necessidades naturais e as mercadorias que eles demandam de utilidades intrínsecas. A moeda ainda aparece aí apenas como um “fluidificador” (p. 93) das transações, e não como o elemento que permite aos indivíduos codificar as mercadorias e estabelecer relações de troca, um elemento sem o qual simplesmente não há sociabilidade mercantil possível. Mais do que isso, a abordagem não consideraria que os indivíduos se constituem eles mesmos, uns em relação aos outros, através da socialização permitida pela codificação monetária. Retornaremos a essa discussão no terceiro capítulo.
VI. Orléan é um pouco menos crítico da visão neoclássica na análise do Empire of Value (2014, p. 117), onde o autor dialoga novamente com a visão de Menger e de Patinkin, que atribuem à moeda uma utilidade particular, a liquidez. O autor afirma aí que a explicação neoclássica pode ser considerada como um caso especial da teoria monetária, uma explicação do funcionamento da moeda na situação particular em que todos os agentes estejam operando em um modo de “confiança metódica”, isto é, de não questionamento sobre a natureza do valor. Nesse caso, a moeda se torna realmente um “mero instrumento” (2014, p.129). Mesmo nesse caso especial de operação normal, contudo, o autor afirma que a moeda ainda tem um papel mais concreto do que se lhe atribui a doutrina monetarista de neutralidade. A discussão é envolvida num questionamento da ideia da moeda como um “representante do nível geral de preços”, uma noção que o autor considera problemática: Orléan se apoia sobre a análise de Aftalion para demonstrar como aumentos na quantidade de moeda são distribuídos heterogeneamente ao longo dos diversos setores da economia e implicam disputas internas de poder que com resultados ambíguos sobre o nível de preços.82 Na contraproposta de Orléan, é
essencial compreender o caráter subjetivo da moeda e os processos miméticos de que depende
82A análise da heterogeneidade dos efeitos de um aumento na quantidade de moeda de Simmel, como apontamos no capítulo 1, segue por via semelhante e com conclusões compatíveis com as de Aftalion e Orléan.
tanto sua estabilidade quanto a crise monetária.
VI. Orléan e Aglietta não limitam sua crítica às abordagens instrumentais da moeda: os autores também a estendem às teorias não utilitaristas do valor em no primeiro capítulo do Violência da Moeda (1990). A teoria econômica marxista, segundo os autores, também incorre na falha analítica de obscurecer o caráter socioinstitucional das relações econômicas sob alguma teoria do valor que faça as vezes de processo de socialização. Como vimos acima, os autores argumentam que a teoria neoclássica, presa à “compulsão fantasmática” por homogeneidade teórica, apaga as diferenças constitutivas do sistema social na proposta de sujeitos idealizados, dotados antes de qualquer socialização da “substância” de preferências determinadas, e reduz à racionalidade o mecanismo de socialização. A vertente marxista, por sua vez, também confundiria o individual e o social na medida em que atribui uma “substância”, o tempo de trabalho, aos componentes do processo econômico, o que acaba por predeterminar a troca e eventualmente a distribuição social das mercadorias. Isso a que os autores chamam de substância, tanto em um caso quanto no outro, estaria vinculado a uma certa homogeneização dos sujeitos econômicos teóricos, e deve ser encarado como sintoma que indica a ausência, nessas abordagens, de uma noção apropriada de sociabilidade, sintoma que se revelaria na impossibilidade de, dentro dessas coordenadas teóricas, se “conceber as instituições e, antes de tudo, a primeira entre elas, qual seja, a moeda” (p. 51).