CAPÍTULO 3. HORIZONTES DO ESTUDO DA MOEDA: COMPLEXIDADE E SEMIÓTICA
1.3. LINGUAGEM, COMPLEXIDADE E MOEDA: ARTICULAÇÕES INSTITUCIONAIS
Em uma conclusão de espírito investigativo, poderíamos tecer algumas considerações preliminares sobre a visão de moeda que emerge de uma investigação que leve em conta esses elementos introdutórios tanto da linguística quanto da teoria da complexidade.
Uma visão abrangente da moeda sensível a esses paradigmas veria a moeda como uma propriedade emergente da interação entre inúmeros agentes, nenhum dos quais está intencionalmente buscando descobrir um equivalente geral. Essa propriedade se constitui de forma recorrente nos diversos sistemas históricos que independentemente testemunharam a emergência do dinheiro em várias formas distintas. A interação sistêmica entre os agentes, com base em regras relativamente simples, resultaria, assim, na convenção monetária. Justamente pelo fato de cada agente não ter acesso a mais informações do que as providas por sua realidade imediata essa convenção gera uma certa medida de mistificação e de desentendimento quando os agentes buscam compreender a natureza da moeda: como a moeda é uma propriedade emergente, ela não cabe na representação de nenhum dos agentes indiretamente responsáveis por sua instituição135.
Ao mesmo tempo, o significado da moeda consiste simplesmente em sua performatividade, no fato de que a moeda reproduz o funcionamento das regularidades de comportamento como compras e vendas. O significado da moeda é o fato de que ela se comporta como moeda, e nesse sentido não é necessário buscar qualquer outra teoria do valor; poderíamos, por exemplo, imaginar diversos percursos estáveis (autorregulados) para a economia, sob diversos sistemas de preço distintos, nenhum deles resultando na inviabilidade do consenso monetário. Por outro lado, durante a crise, o rompimento das regularidades que caracterizam a instituição monetária gera processos de feedback que se amplificam ao longo do sistema e criam uma busca pela realidade da moeda, por esse suposto significado, que se presume residir em alguma dimensão que não aquelas próprias regularidades. Nesse sentido, a única via de saída da crise é um
135 Como discutimos no Anexo II, esse campo de propriedades emergentes, imprevistas e possivelmente obscuras, pode ser compreendido como a dimensão do simbólico e do Grande Outro na linguística lacaniana, que são os mecanismos subjetivos que conectam o indivíduo à coletividade. Se instituições podem ser vistas como propriedades emergentes nos arranjos sociais humanos, o simbólico é o espaço conflituoso através do qual os sujeitos internalizam essas instituições.
reestabelecimento de comportamentos compatíveis com as regularidades da instituição monetária. Esse ponto de vista, como os de Simmel ou Orléan, coloca em questão a possibilidade de teorias substancialistas do valor.
Algumas outras ligações prospectivas se revelam entre os dois campos136. A noção de
arbitrariedade é a conexão mais imediata entre a linguística e a teoria de sistemas complexos. Como vimos, a arbitrariedade do signo é um dos fundamentos conceituais da linguística, e a emergência de soluções arbitrárias nos modelos de convergência pode ser indicativa de outras conexões entre modelos complexos de agentes distribuídos e os aspectos linguísticos, ou ao menos convencionais, do fenômeno da moeda.
Talvez possamos, ainda, nos aproveitar de outra analogia biológica para precisar o significado de arbitrariedade. É interessante notar que a natureza parece favorecer, através da evolução, soluções recorrentes em circunstâncias distintas – por exemplo, o voo parece ter emergido independentemente em diversos momentos da história evolutiva, e além de aves há registros diversos de répteis e mamíferos voadores. Organismos com histórias evolutivas muito distintas mas formas isomórficas ocupam nichos biológicos, espaços no ecossistema que parecem atrair determinadas estruturas como o voo. Há uma certa medida de arbitrariedade formal na estrutura – mamífera, reptiliana, etc – que gera uma certa solução, mas ao mesmo tempo essas estruturas são claramente condicionadas por outros fatores sistêmicos ou históricos. Nesse sentido, as soluções são arbitrárias mas, ao mesmo tempo, nos termos do sistema como um todo, necessárias. Se considerarmos que o ambiente que se aplica a cada animal não consiste senão no conjunto de outros animais, pode-se entrever a forma como o sistema se autoajusta para gerar um conjunto de relações estáveis e auto-organizadas. De forma análoga, línguas diferentes possuem signos distintos para o que resulta, aproximadamente, em um mesmo conjunto de ideias. Podemos sugerir que o mesmo processo esteja por trás da emergência de diversas moedas distintas ao longo da história humana – objetos tão diferentes quanto conchas ou sal foram usados como moeda, mas todas essas sociedades encontraram a solução “moeda” para o problema de coordenação social. Nesse caso, seria necessário compreender convergência e arbitrariedade com referência a um nível mais abstrato de análise do sistema estabelecido entre a moeda e outras instituições.
136Como referência, note-se que em Understanding Origins (Varela e Dupuy eds, 1992), são discutidas diversas possíveis interações entre complexidade, antropologia, ciência cognitiva e filosofia continental. Registremos também a proposta em semelhante sentido de Deville e Burns (2003).
Reforçando essa visão, destaquemos que a linguística, ao menos a saussureana, e a teoria da complexidade são ambas abordagens sistêmicas, que buscam não apenas descrever elementos como também enfatizar as relações entre elementos; relações frequentemente organizadas hierarquicamente, de forma que cada elemento do sistema só pode ser compreendido com relação a todos os outros. Uma visão compatível com certas vertentes da semiótica, e ainda sensível às dinâmicas próprias de sistemas complexos, buscaria compreender a maneira segundo a qual cada elemento do complexo sistema simbólico e material que compõe a economia interage com todos os outros – segundo a qual cada órgão institucional depende de, e afeta, cada um dos outros arranjos (como apontam alguns realistas críticos como Tony Lawson). A moeda é um objeto de significado diferente para trabalhadores assalariados, para um banco central, ou para um fundo de pensão – ela tem funções diferentes nas trocas de informação que caracterizam as regularidades de comportamento num sistema complexo – e nesse sentido talvez só seja possível compreendê-la com referência a todas essas dimensões.
Tanto a visão linguística quanto a da complexidade são ainda perfeitamente compatíveis com a noção de que a moeda é uma instituição transformadora. A linguística continental deriva essa concepção forte de linguagem das noções combinadas de arbitrariedade do signo, de significantes vazios, e da flutuação do significado. Não se trata aqui de argumentar que a linguagem determina a realidade, mas sim de que através da linguagem, ou de processos semelhantes aos linguísticos, os homens criam instituições que simplesmente não existiam antes, com as quais eles se relacionam da mesma forma que com objetos mais concretos, e que não é trivial distinguir do ponto de vista cognitivo a realidade de uma instituição da realidade de um objeto. Na visão sistêmica, por sua vez, a possibilidade de emergência de novas formas que não são facilmente redutíveis a seus elementos constitutivos aponta para essa capacidade transformativa da moeda, e é um tema frequente nas discussões sobre a (aparentemente infinita) variedade de formas tomadas por diversos organismos em sua história evolutiva. Regularidades de interação entre os diversos agentes, ainda, permitem a emergência de outras novas – e imprevisíveis – regularidades; a emergência de certas instituições cruciais como a moeda reorganizam o campo e o formato das interações entre os agentes e permitem a formação de ainda outras formas institucionais.
O controverso estudo da maneira como se origina a moeda também pode se servir da analogia biológica e sistêmica. Poderíamos sugerir que o processo de evolução das instituições é exaptativo, e que é nesse processo de uso de formas antigas para novas funções que se localiza
a capacidade criativa de certas instituições. O exemplo mais próximo seria a emergência original da moeda, que em seguida dá origem a diversos outros processos regulares que não seriam compreensíveis sem ela, como a inflação, a existência de bancos, ou transações cambiais. Voltando à noção revisada de evolução convergente que acabamos de discutir, não é impossível conceber origens diversas para a moeda através da noção de exaptação – em alguns casos, derivadas de registros escritos de débito e crédito, em outras do uso generalizado de uma mercadoria particular, em outros da instituição por autoridade, em ainda outros através da imitação ou da imposição durante o contato com uma cultura monetária; diversos caminhos poderiam resultar numa mesma forma social, que exerce assim um tipo de atração formal. Essa abordagem poderia informar certos debates na antropologia e na história da moeda, na medida em que é possível imaginar diversas origens, ou a interação de diversos processos, no estabelecimento da moeda. Uma vez estabelecida essa nova realidade – essa transição de fase para a economia monetária – abre-se o espaço para a criação de novas instituições que dependem da instituição monetária.
Essa visão pode servir de subsídio a futuros desenvolvimentos teóricos. Com tudo isso em mente, possíveis futuras direções de pesquisa utilizando a semiótica e a teoria da complexidade na teoria monetária incluiriam: especificar a semiótica peirciana da moeda com referência às diferentes teorias da moeda na economia; considerar implicações da noção de moeda como significante vazio, na elaboração de Laclau, ou como um agente de différance em Derrida, especialmente em contraste com a possibilidade de simular sistemas com instituições complexas que prescindem de hipóteses sobre o significado; investigar as diversas linhagens de modelos A.C.E., bem como modelos de agentes distribuídos em outras ciências sociais, buscando localizar os melhores candidatos a permitir a emergência de algo como um equivalente geral; explorar a visão sistêmica de fenômenos sociais comunicativos de Luhmann; e estender a análise institucionalista, informada pela semiótica e pela teoria de sistemas adaptativos, a fenômenos monetários de ordem mais complexa como câmbio, juros e inflação. Tudo isso deveria ser acompanhado de um esforço mais rigoroso de situar a questão semiótica dentro da sociologia, e a semiótica da moeda dentro da sociologia da moeda, além de incorporar as diversas técnicas estatísticas e matemáticas, além das computacionais, oferecidas pela teoria de sistemas complexos. Seria necessário, por fim, explorar cada um dos elementos da teoria da moeda – os papéis da escassez, da autoridade, da materialidade e da significação no seu estabelecimento – com base numa visão claramente articulada e substanciada do fenômeno
monetário.
Mencionemos por fim que ao menos um ponto de tensão teórica entre a linguística e a teoria da complexidade emerge de modelos suficientemente complexos de agentes distribuídos. Se podemos conceber as estruturas emergentes dos modelos de convergência, ou as regularidades do Sugarscape, como a forma embrionária de instituições, não parece necessário incluir na análise qualquer referência aos significados atribuídos pelos diversos agentes a suas ações. Orléan argumenta, em sua discussão sobre a legitimidade, que os sujeitos adotam a moeda através de um processo formal e em seguida identificam erroneamente a realidade observada da moeda com uma ou outra teoria do valor. Nesse caso, na simulação da emergência da moeda talvez pudéssemos desconsiderar completamente as teorias do significado – ou argumentar que instituições como a monetária emergem de forma mais ou menos independente do processo de significação, o que tornaria a semiótica redundante à compreensão desses processos. Nessa visão, os agentes, o que quer que ocorra na sua dimensão subjetiva, simplesmente tomam certas ações, frequentemente imitativas, às vezes com base em certos cálculos, e isso estabelece circuitos de feedback que por sua vez resultam na emergência de ordem no nível agregado. Contra essa visão poderíamos tentativamente argumentar que agentes humanos são os únicos capazes de metalinguagem, de observar o que é que dizer sobre o mundo e ativamente buscar novas soluções e novos arranjos coletivos. Discutiremos de forma mais alongada essas questões na próxima seção, ao contrastar a questão semiótica e a visão de sistemas complexos com os pontos de vista de Simmel e Orléan;
Tanto a linguística quanto a teoria da complexidade podem apoiar a noção forte de moeda oferecida por Simmel e Orléan – a proposta de que a moeda é uma instituição radical e criadora, e a de que não existe nada mais substantivo no fenômeno de atribuição de valor do que a própria atribuição de valor; uma proposta entre cujas implicações está a de que a teoria do valor é simplesmente a teoria da moeda. Não é impossível, contudo, que outras apropriações desses campos resultassem em visões diferentes. Em torno da discussão a respeito do caráter convencional ou substantivo da moeda se encontram concepções divergentes de realidade, diferentes visões sobre a natureza da linguagem e das instituições, e sobre a natureza da economia. Crucialmente, essas visões divergentes apoiam, reproduzem e constituem diferentes posições políticas e arranjos institucionais. As mesmas razões que fazem da moeda um campo privilegiado para a análise interdisciplinar tornam a teoria monetária um espaço de disputa política, e realçam a relevância da busca por concepções amplas e consistentes de moeda.
1.4. SISTEMATICIDADE, SÍMBOLO E SIMULAÇÃO: SIMMEL, MENGER E