A retomAdA dA discussão sobre
o progrAmA nucleAr brAsileiro:
umA Análise dAs mAtériAs do
portAl g1 de notíciAs
Allan novaes1
resumo: A proposta deste trabalho é verificar a abordagem da cobertura do portal G1 de notícias sobre a retomada da discussão da Política Nuclear no Brasil em 2006 e 2007. O objetivo é identificar qual é o posicionamento do veículo sobre o tema por meio de uma análise de conteúdo das notícias do portal, a fim de identificar sob qual perspectiva jornalística o tema é tratado.
palavras-chave: Energia nuclear; G1; Globo; Jornalismo científico
the resumption of the discussion About the
brAziliAn nucleAr progrAm: An AnAlysis of
the publicAtions in the news portAl g1
Abstract: This work aims to verify the coverage of the news portal G1 about the resumption of the discussion on the Brazilian Nuclear Politics in 2006 and 2007. The goal is to identify the position of this channel on this theme, analyzing the contents of the news published by it, which makes possible to nottice the journalistic perspective taken on the subject. Keywords: Nuclear Energy; G1; Globo; Scientific journalismintrodução
A grande tarefa do jornalista que cobre ciência e tecnologia é traduzir o “cienti-fiquês” dos cientistas e pesquisadores para o bom e velho português do leitor comum. Cabe ao jornalista de ciência e tecnologia (C&T) inserir o cidadão comum na aventura do conhecimento e nas grandes descobertas da ciência, uma vez que “os meios de comuni-cação são o caminho mais imediato e abrangente de intensificar a divulgação científica pe-rante o público” (IVANISSEVICH, 2006, p. 13 e 14). Na verdade, o trabalho do jornalista científico ao permitir que a população tenha acesso a informações de C&T é fundamental para o exercício pleno da cidadania (OLIVEIRA, 2005, p.13).
No entanto, como afirma o ditado “traduttore, traditore”, a prática do jornalismo científico de traduzir o conhecimento científico para a linguagem jornalística e popu-1 Doutorando em Ciências da Religião pela PUC-SP (bolsa Capes). Mestre em Comunicação Social pela
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lar enfrenta vários desafios. Dentre eles, destaca-se a chamada ausência do contraditório, conforme França (2005) e Teixeira (2002). Para França (2005, p. 31 e 32), uma das pre-missas do jornalismo é a “noção de que não existe informação neutra, objetiva e isenta de interesses” e, portanto, faz parte da atividade jornalística “apontar as condições em que se deu a notícia para que o leitor tire suas conclusões”. Isto é, o jornalista tem o dever de apresentar ao leitor os vários lados ou ângulos de uma questão, utilizando-se de fontes e declarações diversas, e muitas vezes controversas, para informar com a maior isenção possível, sem a pretensão de dar ao leitor uma informação dogmática, com caráter de pa-lavra final. Em consonância com França (2005), Teixeira (2002, p. 133) afirma que o jor-nalismo se assenta sobre um mandamento: “não te fiarás em uma só fonte para escrever tuas matérias”. Para ela, o jornalismo é uma atividade que busca encontrar a verdade por meio de uma síntese confiável de versões dessa realidade. Essas versões são obtidas pelo repórter pela consulta de várias fontes. Assim, a sociedade aceita a síntese de versões que o repórter traz ao público “porque pressupomos que ele, antes de pronunciá-la, buscou ativamente o contraditório” (TEIXEIRA, 2002, p. 134).
No entanto, esse princípio do jornalismo, tão comum e necessário na cobertura de política e economia, por exemplo, não encontra suporte na cobertura de C&T:
Enquanto repórteres de política e economia frequentemente vão além dos releases oficiais para comprovar a veracidade das notícias, os colegas de ciência se contentam com a informação autorizada, os papers (relatórios científicos), as entrevistas e as revistas especializadas. […] Em grande parte das notícias de ciência, não existe o contraditório. Ao se divulgar um trabalho científico sem citar outras conclusões ou visões sobre o mesmo assunto, dá-se a impressão ao leitor de que aquele constitui uma verdade absoluta. O papel do jornalista acaba não sendo muito diferente daquele que seria de um assessor de imprensa do pesquisador que deu a entrevista (FRANÇA, 2005, p. 41-42).
A busca da verdade por meio do contraditório, da comparação de versões, da busca por diversas e variadas fontes e declarações parece não se repetir no jornalismo científico. Não há contraditório na cobertura de ciência. Dispensamos o jornalismo sobre ciência de cumprir o mandamento que interdita a matéria feita a partir de uma única fonte porque entendemos que não há versões da verdade quando se trata de ciência. […] Não havendo versões, nem contraditório, o que se reserva então ao jornalista que cobre ciência? A tarefa de ‘traduzir’ com competência a fidelidade, de tal forma a se compreendida pelo público leigo, um específico conteúdo científico. Tal conteúdo contém uma verdade que a fonte revelará ao jornalista. Não cabe a ele, nesse peculiar recanto do território do jornalismo, duvidar desse ‘conteúdo’; cabe-lhe, tão-somente, recolher o logos ‘traduzi-lo’ em versão simplificada (TEIXEIRA, 2002, p. 134).
57 Por que apenas dentre tantas as especializações da cobertura jornalística, tais como a econômica, política, esportiva, cultural, policial, apenas a de ciência foge do princípio do contraditório e das comparações de versões, tão necessária para a busca incessante da imparcialidade e isenção jornalística? O motivo por trás da ausência do contraditório está na concepção de ciência que a civilização ocidental alimenta.
Compartilhamos e cultivamos, ao longo da modernidade, a crença de que a verdade da ciência não comporta versões, dado ser a ciência justamente o método mais perfeito desenvolvido pelo homem para a apreensão da verdade sobre tudo no mundo passível de ser tomado como objeto desse método. Não há contraditório na cobertura de ciência porque não há contraditório possível para a ciência, a não ser aquele que a própria ciência engendrará ao longo do tempo com a continuidade da aplicação de seu método (TEIXEIRA, 2002, p. 134).
Em sua obra A construção das ciências, Fourez (1995) comenta sobre o atual status
que a ciência conquistou devido, entre outras coisas, a sua capacidade de criticar e revelar a ideologia por trás de qualquer tipo de discurso informativo. Para ele, nas últimas décadas, a ciência “revelou-se um instrumento poderoso para criticar as ideologias”, já que “graças a seus testes pontuais, puseram em questão os abusos de saber, presentes em muitos dis-cursos éticos, religiosos, políticos etc” (FOUREZ, 1995, p. 181).
Tal compreensão da ciência cria uma áurea de infalibilidade a todo representante da mesma, fazendo com que as fontes consultadas por jornalistas, a saber, os cientistas, PhDs e outros especialistas, sejam recebidos com uma certa atitude de reverência e sub-missão. Na prática, a apuração jornalística feita dessa maneira se traduz como propaganda e não como cobertura jornalística de ciência.
Na cobertura de economia, por exemplo, em que conhecimentos específicos são vistos como requisito profissional, os jornalista não se constrangem em duvidar de versões e buscar, com seu trabalho, estabelecer uma outra versão, que é útil e confiável por apresentar pontos de vista contraditórios. Mas no que tange ao jornalismo científico, a posição que os homens dão à ciência — orgulho da civilização ocidental, tida como a mais bem acabada, bem-sucedida e promissora obra da razão humana — impõe uma menoridade ao jornalista e a todos que, perante ela, chamam-se ‘leigos’. É pressuposto que, por meio da ciência, a humanidade conquistou para si o poder de engenheirar o mundo, de dominá-lo e colocá-lo ao seu serviço, para extrair dele sua sobrevivência. Nem jornalistas, nem cientistas, nem o chamado público em geral desejam ver esse poder — que acalanta, ampara e consola — em xeque. De maneira que está posto o debate, ao jornalista cobrindo ciência cabe tornar-se um divulgador dessa verdade. Segue a consequência de que o bom jornalismo científico é, também, propaganda da Ideia da ciência (TEIXEIRA, 2002, p. 134 e 135).
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No entanto, cabe ao repórter não confundir jornalismo com propaganda, mesmo que o assunto em pauta seja a ciência. Quem faz ressalvas sobre essa concepção totalitária e triunfalista que os jornalistas científicos fazem de seu objeto de apuração é Fourez (1995, p. 185) quando afirma que, na tradução da pesquisa científica para do cientifiquês para o texto popular, sempre ocorre uma redução — para ele, as “reduções são abusos de saber e de véus ideológicos”. A redução consiste em abuso ideológico porque reduz uma represen-tação geral e complexa a um conceito particular, específico relativamente simples. É por isso que Fourez classifica os dois tipos de véus ideológicos existentes nos discursos, entre eles, o informativo em discurso ideológico de primeiro grau, “designando assim as representações da construção das quais se pode ainda facilmente encontrar os vestígios” e discurso ideoló-gico de segundo grau, “quando os traços históricos dessa construção quase desaparecem e se pretende, prática ou teoricamente, implícita ou explicitamente, que a noção utilizada […] seja objetiva e terna”, sendo que,para ele, o primeiro tipo de discurso é “norma” e “inevi-tável” enquanto o segundo tipo de discurso é “profundamente manipulador ao apresentar como naturais opções que são particulares” (FOUREZ, 1995, p. 187).
Quando a ciência se apresenta como eterna, quando pretende poder dar respostas ‘objetivas e neutras’ aos problemas que nós nos colocamos, considero-a como ideológica de segundo grau. Pelo contrário, quando se apresenta como uma tecnologia intelectual relativa e historicamente determinada, é ideológica do primeiro grau, ou seja, não oculta o seu caráter histórico (FOUREZ, 1995, p. 188). Um discurso jornalístico sobre a ciência de segundo grau, conforme define Fourez (1995), consiste não somente na ausência ou presença de palavras, no explícito e no implí-cito, mas também na escolha das fontes usadas para construir o discurso. Tal constatação torna-se mais visível quando o leitor se confronta com um mesmo tema que exige consul-ta a diversos tipos de atores sociais e fontes. A análise da cobertura de um veículo e/ou de vários deles sobre um tema da ciência pode permitir identificar que tipo de cobertura tem sido feita, segundo as definições de Fourez (1995).
problema, objeto, objetivos e justificativa
A crise no setor energético, com a insuficiência da produção e distribuição da ma-lha energética nacional e a ocorrência de apagões e racionamentos, preocupa o Brasil há anos (BRANCO, 2002, p.13). Contudo, embora seja um tema de vastas implicações cien-tíficas e tecnológicas, debates sobre a inserção nuclear como matriz de energia ultrapassa os limites do debate científico e técnico devido à agenda política, econômica e social.
Diante desse cenário, a partir da segunda metade de 2006 o brasileiro assistiu pela mídia a retomada2 da discussão sobre a importância e viabilidade da energia nuclear como
2 O marco inicial para uma política nuclear brasileira data de 1956, no governo de Juscelino Kubitschek, com a
criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) que, por sua vez, deu origem ao PNB, sigla para Pro-grama Nuclear Brasileiro (HENRIQUES, 2011, p. 17 e 18).
59 opção energética, liderada por Silas Rondeau, então ministra de Minas e Energia, e apoia-do por Dilma Roussef, então ministra-chefe da Casa Civil. Em novembro de 2007 foi edi-tado e divulgado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) o documento “Matriz Ener-gética Nacional 2030” e em 2008 o Comitê de Desenvolvimento do Programa Nuclear Brasileiro deu início aos preparativos para cumprir as metas do plano (MATTOS; DIAS, 2008, p. 3). Recentemente, o governo brasileiro anunciou uma parceria com o governo ar-gentino para troca de recursos e expertise e também a criação da estatal Amazul (BRASIL, 2012), com o objetivo de, entre outros, construir o primeiro submarino nuclear do país.
Atualmente, o noticiário continua a ecoar matérias sobre o plano nuclear brasileiro, mas, em 2006, quando o assunto ainda permitia participação pública e popular, a impren-sa era o principal meio para o acesso ao debate do uso da energia nuclear no Brasil. Como ferramenta de instrução e informação, a imprensa de deparava com um assunto multifa-cetado e multieditorial, com possibilidade de abordagem nas editorias de ciência, política, economia, negócios, saúde, internacional e outras.
Coincidentemente, em 2006, no mesmo ano do retorno ao debate nuclear no Brasil, nasceu o site G1 de notícias, do portal Globo.com (http://g1.globo.com). O portal G1 de notícias foi ao ar no dia 18 de setembro de 2006 com uma proposta de trazer à web um novo conceito de jornalismo multimídia na internet brasileira, reu-nindo conteúdo das Organizações Globo. No G1, o leitor teria acesso a informações em texto, áudio e/ou vídeo das TVs Globo e Globo News, das rádios CBN e Globo, dos jornais O Globo, Extra e Diário de S.Paulo e das revistas da Editora Globo, como Época e Galileu, entre outras. O portal de notícias G1 da Globo.com (http://g1.globo.
com) tem redação própria e produz notícias e reportagens para o site por meio de jornalistas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, além de contar com a colaboração de TVs afiliadas a Rede Globo por todo o país.
Obviamente, um dos temas mais recorrentes na época de lançamento do site era a retomada do debate sobre o programa nuclear brasileiro. Mas como seria a cobertura do referido site quanto a perspectiva jornalística adotada? O tema seria abordado majoritaria-mente por qual editoria jornalística: política, economia, ciência ou outra?
A proposta deste trabalho, portanto, é verificar as características da cobertura jor-nalística do portal G1 de notícias sobre a retomada da discussão da política nuclear no Brasil. O objetivo é identificar que tipos de abordagem e linguagem foram utilizados nessa cobertura e qual é o posicionamento do veículo sobre o tema, levando em conta se o jor-nalismo praticado pelo site em questão a) trata o assunto da perspectiva de qual editoria jornalística, b) autoria das matérias e c) fontes consultadas nas matérias.
O portal G1 foi escolhido para a presente pesquisa por ser o portal de notícias mais acessado da web na época, o que justifica a necessidade de analisar a cobertura feita sobre a reto-mada do programa de energia nuclear que a maior parte dos internautas brasileiros teve acesso. A importância desse estudo reside no fato de que a abordagem jornalística escolhida pelo G1 ao tratar da questão nuclear no país pode ser uma forma notá-vel, segundo Fourez (2005), de posicionamento ideológico do veículo noticioso. Isso ocorre porque o viés, a autoria e o tipo de fonte consultada das matérias indicam a
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que tipo de visão do assunto o veículo jornalístico se demora, isto é, que tipo de visão do assunto ele dá mais ênfase, seja no sentido de reforçá-lo ou combatê-lo.
procedimentos metodológicos
O método de pesquisa adotado para o presente trabalho foi a análise de conteúdo (BARDIN, 1977) das matérias que mencionam a Política Nuclear no Brasil publicadas no portal G1 de notícias de novembro de 2006, data em que as discussões sobre os temas foram anunciadas pelo Congresso e conquistaram a atenção da mídia, até maio de 2007, período próximo à definição das novas diretrizes da matriz energética brasileira.
As unidades de registro3 da análise serão os títulos das matérias e as categorias a
serem usadas estão descritas nos tópicos abaixo:
Matéria própria/Matéria não-própria: essa categoria busca identificar quantas matérias
eram produzidas pela própria redação do G1 e quantas advinham de agências de no-tícias, assessoria de imprensa do governo federal ou outros veículos de comunicação.
Fonte: essa categoria busca identificar as fontes utilizadas pelo jornalista, ou seja,
da voz de onde as informações partiram. Elenca-se as seguintes fontes: repre-sentantes do governo/autoridades, cientistas/especialistas, empresariado do setor energético, sociedade civil e ambientalistas.
Sujeitos a que se fazem referência à mensagem: essa categoria visa salientar quais são
os sujeitos a que essas mensagens mais se referem, com o objetivo de traçar um panorama de quem são os mais citados (cidadãos, empresários, políticos, ONG’s, pesquisadores, entre outros).
Enfoque: nessa categoria o objetivo é reconhecer se o material mostrava-se
con-tra, a favor ou neutro em relação a Política Nuclear brasileira e seus respectivos argumentos, além de identificar qual é o viés editorial da matéria (se político, econômico, científico etc).
Análise das matérias jornalísticas
Panorama
Foram divulgadas no portal G1, durante o período estipulado para o presente trabalho, 42 notícias, as quais foram submetidas à análise conforme os tópicos listados anteriormente. Abaixo seguem os títulos das matérias analisadas com data e editoria na qual a notícia foi publicada.
3 A unidade de registro é a “unidade de significação a codificar e corresponde ao segmento de conteúdo a
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data título editoria
23/10/2006 Plano prevê Angra 3 e mais seis usinas nucleares até 2025 Economia 23/10/2006 Brasil estuda construção de mais sete usinas nucleares Economia 24/10/2006 Energia nuclear não consta de propostas de Lula Economia 15/11/2006 Governo planeja retomada de obras em Angra 3 Economia 22/11/2006 País deverá ter mais 4 usinas nucleares, diz Tolmasquim Economia 22/11/2006 Brasil construirá usinas nucleares e ampliará fontes de energia Mundo 04/12/2006 Tolmasquim defenfe energia nuclear maior na matriz brasileira Negócios 04/12/2006 Tolmasquim defende que Brasil invista em energia nuclear Economia 04/12/2006 Brasil pretende estimular investimentos em energia nuclear Mundo 22/01/2007 Angra 3 ainda pode ser incluída no PAC, diz Rondeau Economia 22/01/2007 PAC para setor de energia deixa Eletrobrás e Angra 3 de fora Negócios 03/02/2007 Brasil autoriza França a retomar projeto de Angra 3 Economia 04/02/2007 Areva está otimista com retomada de trabalhos em Angra 3 Negócios 05/02/2007 Ministra francesa defende nova usina nuclear no Brasil Economia 05/02/2007 Ministra francesa diz que há empresas interessadas em Angra 3 Negócios 11/02/2007 Plano nuclear do Brasil prevê seis novas usinas Economia 11/02/2007 Painel sobre clima ameniza resistências sobre Angra 3 Economia 12/02/2007 Ambientalistas decidem rever questão nuclear Economia 12/02/2007 Verdes reveem uso de energia nuclear Ambiente 13/02/2007 Decisão sobre usina nuclear Angra 3 não tem prazo Economia 22/03/2007 Ministro Silas Rondeau diz que é favorável à construção de Angra 3 Economia 03/04/2007 Governo deve anunciar em 2 meses retomada de Angra 3 Economia 13/04/2007 Brasil aceita explorar vias de cooperação nuclear com a Índia Mundo 17/04/2007 Brasil negocia acordo na área nuclear com a Índia Política 17/04/2007 Licença ambiental de Angra 3 deve sair at é julho Ambiente
02/05/2007 Angra 3 será tema de reunião do CNPE, diz Rondeau Economia 03/05/2007 Lula defende energia nuclear como alternativa a hidrelétricas Negócios 03/05/2007 Lula: Brasil pode entrar na era da energia nuclear Economia 03/05/2007 Lula: energia nuclear é opção às hidrelétricas Política
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06/05/2007 Lula vai à Índia abrir portas para cooperação nuclear Política 07/05/2007 Dilma Rousseff defende energia nuclear para garantir crescimento Mundo 07/05/2007 Rondeau nega disputa entre Angra 3 e usinas do Madeira Eonomia
08/05/2007 Governo retomará obras de Angra 3 Economia
09/05/2007 Rondeau: só falta definir quando Angra 3 será construída Economia 09/05/2007 Angra 3 pode ter recursos do BNDES, diz Rondeau Economia 09/05/2007 Rondeau diz que decisão sobre Angra 3 deve sair em junho Política 10/05/2007 Marina rebate opção por nuclear e não dá prazo para Madeira Política 15/05/2007 Brasil e Argentina podem ampliar parceria nuclear Economia 16/05/2007 Plano nacional de energia prevê necessidade de ter entre
qua-tro a oito usinas nucleares Economia
21/05/2007 Lula já aprovou construção de Angra 3 Economia 22/05/2007 Angra 1 receberá R$ 410 milhões para prolongar vida útil Negócios 31/05/2007 Governo quer pagar bem a cidade que guardar lixo nuclear Economia
Das 42 notícias publicadas no portal G1, percebe-se que todas elas dividiram-se entre as editorias “Negócios”, “Economia”, “Política”, “Ambiente” ou “Mundo”. Essa análise panorâmica permite fazer a primeira constatação: o portal G1 de notícias privilegia as matérias que enfatizam o viés econômico relacionado a retomada do programa de ener-gia nuclear, tratando ora da viabilidade econômica, ora do potencial da enerener-gia nuclear para o desenvolvimento tecnológico. Tal constatação encontra apoio nos números: das notícias publicadas, apenas duas foram denominadas como pertencentes à editoria “Ambiente”, em contraste com as 30 notícias classificadas dentro da editoria “Negócios” ou “Economia”.
Autoria e fontes
Embora tenha redação e equipes próprias de reportagem, quando se tratou da questão nuclear brasileira, o portal G1 de notícias apresentou pouquíssimas matérias de autoria própria, conforme vê-se na tabela abaixo.
Autoria número de matérias
Redação do G1 4
63
Reuters 8
EFE 4
Valor Econômico 3 Agência Brasil 1
Apenas quatro matérias são de autoria do G1, a saber, “Brasil estuda construção de mais setes usinas nucleares (23/10/06), “Lula: energia nuclear é opção às hidrelétricas” (03/05/07), “Governo retomará obras de Angra 3” (08/05/07) e “Angra 3 pode ter
re-cursos do BNDES, diz Rondeau” (09/05/07). Todas as quatro matérias têm como fonte o governo e/ou são matérias motivadas por eventos de assessoria de imprensa agendados pelo governo para esclarecimentos sobre a questão nuclear. Ou seja, não consta no G1, no período estudado, nenhuma matéria em que um repórter do próprio site tenha consultado outras fontes que não sejam as do governo. Soma-se a isso o fato de que todas as notícias têm um teor predominantemente factual — o que não privilegia o debate de ideias sobre a questão nuclear, mas apenas favorece a reprodução de declarações oficiais sobre o tema.
Na tabela abaixo é possível verificar a predominância do uso de fontes do governo no processo de transmissão de informação sobre a questão nuclear brasileira e também para a formação de opinião pública.
fontes número de matérias
Governo/autoridades 37
Ambientalistas 2
Cientistas/especialistas 2
Empresariado 1
Sociedade Civil Nenhum
Pode-se perceber, portanto, que o número de matérias que consultam fontes do governo e autoridades representa quase a totalidade das matérias sobre a questão nuclear:
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37 de 42. É notável também a ausência de ambientalistas e cientistas como fontes — eles aparecem em apenas duas matérias. Fica evidente, por conseguinte, a predominância das declarações oficiais nas matérias, o que acarreta direcionamento da resolução do proble-ma nuclear brasileiro seguindo a perspectiva e os interesses do governo. Não há a presen-ça da sociedade civil — nenhuma fonte da população leiga foi consultada. Indício de que, nesse tema, o portal não se preocupou em retratar a opinião do brasileiro sobre a questão nuclear, mas apenas de informá-lo sobre as decisões políticas que envolviam o assunto.
Os ambientalistas e cientistas/especialistas foram consultados apenas em quatro matérias: “Ambientalistas decidem rever questão nuclear” (Economia, 12/02/07), “Ver-des reveem uso de energia nuclear” (Ambiente, 13/02/07), “Licença ambiental de Angra deve sair até julho” (17/04/07) e “Governo quer pagar bem a cidade que guardar lixo nuclear” (31/05/07). E em todas as matérias percebe-se o teor de favorecimento à im-plantação do programa nuclear, uma vez que os cientistas são consultados para confirmar a necessidade e as vantagens do programa nuclear brasileiro. Os ambientalistas, quando aparecem nas matérias, são identificados como revendo sua posição tradicional em rela-ção ao tema (que é contra), para uma possível aprovarela-ção do uso de energia nuclear.
Logo, para o site G1, o governo é fonte majoritária sobre a questão nuclear. Talvez isso aconteça porque o portal confunde a confirmação ou não da construção de Angra 3 (temática na qual certamente o governo possuía as melhores fontes) com o fato da vali-dade, vantagens e desvantagens do programa nuclear (temática na qual seria jornalistica-mente mais apropriado e equilibrado consultar não sojornalistica-mente as autoridades, mas também sociedade civil, empresariado, cientistas e especialistas).
Outro fator importante a se analisar quando se fala da predominância das autorida-des como fontes das matérias analisadas é analisar a identidade das mesmas. Foram seis as personalidades que apareceram nos títulos das matérias analisadas:
1) Silas Rondeau — ministro de Minas e Energia na época 2) Luiz Inácio Lula da Silva — presidente da República na época
3) Márcio Tolmasquim — presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) na época
4) Christine Lagarde — ministra de Comércio Exterior da França na época 5) Dilma Roussef — ministra-chefe da Casa Civil na época
6) Marina Silva — ministra do Meio Ambiente na época
A seguir encontra-se uma tabela explicativa que identifica quais foram as persona-lidades que mais tiveram destaque nos títulos das matérias.
personalidades destacadas
nos títulos das matérias número de matérias
65 Luiz Inácio Lula da Silva 5
Márcio Tolmasquim 3
Christine Lagarde 2
Dilma Roussef 1
Marina Silva 1
Como ministro de Minas e Energia na época, Silas Rondeau possui mais menções nos títulos das matérias do que o próprio presidente Lula. O interessante é notar que tanto Rondeau como o próprio Lula são declaradamente a favor de se retomar o progra-ma nuclear e da construção de Angra 3 (“Lula defende energia nuclear como alternativa a hidrelétricas”, 03/05/07; “Ministro Silas Rondeau diz que é favorável à construção de Angra 3”, 22/03/05). O mesmo acontece com Dilma Roussef (“Dilma Rousseff defende energia nuclear para garantir crescimento”, 07/05/07), Marcio Tomalsquim (“Tolmas-quim defende energia nuclear maior na matriz brasileira” e “Tolmas(“Tolmas-quim defende que Brasil invista mais em energia nuclear”, ambas em 04/12/06) e a ministra francesa Chris-tine Lagarde (“Ministra francesa defende nova usina nuclear no Brasil”, 05/02/07). Uma análise mais detalhada encontra-se no tópico a seguir, “Enfoque das matérias”.
Enfoque
No que se refere ao enfoque das matérias analisadas que se pode abstrair dos títulos das mesmas, as notícias foram divididas em “pró-energia nuclear”, “neutras” e “contra energia nuclear”, conforma a tabela a seguir:
enfoque número de matérias
Pró-energia nuclear 11
Neutro 31
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É notável a tentativa de neutralidade quanto à abordagem dos títulos das matérias. Mais de dois terços das notícias foram classificadas como neutras, enquanto 11 das 44 posicionam-se a favor do programa de energia nuclear. No entanto, quando se leva em consideração que a maior parte das fontes consultadas são constituídas de autoridades do Estado, sabe-se também que a maioria delas é favorável à retomada do programa nuclear brasileiro, conforme os seguintes:
matérias pró-energia nuclear (11 no total)
matérias contra energia nuclear (1 no total)
Lula — 3 Marina Silva — 1
Márcio Tolmasquim — 2 Silas Rondeau — 1 Dilma Rouseff — 1 Chrstine Legarde — 1
Ou seja, de 20 matérias que apresentam autoridades governamentais como desta-que no título, apenas uma apresenta uma autoridade desta-que não é favorável à retomada de um programa nuclear brasileiro, a que trata de Marina Silva, ministra do Meio Ambiente: “Marina rebate opção por nuclear e não dá prazo para Madeira” (10/05/07). Essa amostra de títulos aponta um favorecimento de autoridades que estão apoiando a retomada do programa nuclear brasileiro como fontes consultadas. Isto é, apesar da maioria dos títulos das matérias apontarem como a neutralidade, a natureza das fontes indica o contrário. En-quanto os títulos sugerem neutralidade, a quantidade de fontes governamentais a favor do uso da energia nuclear aponta para a predominância tanto do enfoque pró-energia nuclear quanto do viés econômico das notícias.
considerações finais
A crise no setor energético e a insuficiência da produção e distribuição da malha energética nacional surgiu como um dos principais argumentos a favor de uma reavaliação da matriz energética brasileira. É nesse contexto que a retomada das políticas nucleares brasileiras surgiu na mídia. A proposta deste trabalho, portanto, foi verificar as caracterís-ticas da cobertura da mídia do portal G1 de Notícias sobre a retomada da Política Nuclear no Brasil e identificar seu posicionamento.
67 Para tanto, foram analisadas 42 matérias de novembro de 2006 (quando o governo anunciou que pretendia estimular os investimentos de geração de eletricidade de origem nuclear) a maio de 2007. Por meio de uma análise panorâmica das matérias do período em questão, constatou-se que o portal G1 de Notícias privilegia as matérias que enfatizam o viés econômico relacionado a retomada do programa de energia nuclear, tratando ora da viabilidade econômica, ora do potencial da energia nuclear para o desenvolvimento tecnológico, uma vez que de todas as 42 notícias publicadas, apenas duas foram denomi-nadas como pertencentes à editoria “Ambiente”, em contraste com cerca de 30 notícias classificadas dentro da editoria “Negócios” ou “Economia”.
Em um segundo momento, analisou-se a autoria das matérias. E a constatação foi a seguinte: apenas quatro matérias são de autoria do G1 — todas as quatro são maté-rias cujas fontes são do governo e/ou são matématé-rias motivadas por eventos de assessoria de imprensa agendados pela governo para esclarecimentos sobre a questão nuclear. Ou seja, não consta no G1, no período estudado, nenhuma matéria em que um repórter do próprio site tenha consultado outras fontes que não sejam as do governo. Tal estrutura não privilegia o debate de ideias sobre a questão nuclear, mas favorece a reprodução de declarações oficiais sobre o tema.
Após a análise de autoria, realizou-se uma análise do tipo de fontes consultadas. Pode-se constatar, portanto, que o número de matérias que consultam fontes do governo e autoridades representa quase a totalidade das matérias sobre a questão nuclear: 37 de 42. Fica evidente, por conseguinte, a predominância das declarações oficiais nas matérias, o que acarreta direcionamento da resolução do problema nuclear brasileiro seguindo a perspectiva e os interesses do governo. Deve-se salientar também que ambientalistas e especialistas foram consultadas em apenas quatro matérias e que nenhuma fonte repre-sentando a sociedade civil foi consultada.
Constatou-se também a tentativa de neutralidade quanto à abordagem dos títulos das matérias. Mais de dois terços das mesmas foram classificadas como neutras, enquanto 11 das 44 posicionavam-se a favor do programa de energia nuclear. No entanto, de 20 matérias que apresentam autoridades governamentais como destaque no título, apenas uma apresen-ta uma autoridade que não é favorável à retomada de um programa nuclear brasileiro, a que trata de Marina Silva, ministra do Meio ambiente: “Marina rebate opção por nuclear e não dá prazo para Madeira” (10/05/07). A análise de uma amostra de títulos apontou um fa-vorecimento de autoridades que estão apoiando a retomada do programa nuclear brasileiro como fontes consultadas. Isto é, apesar da maioria dos títulos das matérias apontarem como sendo neutras, a natureza das fontes compromete a tentativa de imparcialidade do portal G1. Dessa forma, percebeu-se que o portal G1 de Notícias privilegia a versão oficial e os interesses das autoridades do Estado sobre a retomada do programa nuclear brasileiro. Desfavorecer a opinião de especialistas, cientistas, empresários e ambientalistas, classes diretamente envolvidas com a questão, compromete o debate público sobre uma decisão política que deveria ser acessível a toda a população brasileira. Em um panorama em que a internet se consolida cada vez mais como mídia formadora de opinião pública e no qual o portal G1 de Notícias detém a maior fatia de leitores no Brasil, deveria preocupar a
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postura de um site de notícias que, mesmo com redação e equipe de reportagem próprias, privilegia fontes do governo, limitando a participação saudável de outras vozes no debate público sobre o programa nuclear brasileiro.
referências
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