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Ano 3 (2014), nº 10, 7845-7906 / http://www.idb-fdul.com/ ISSN: 2182-7567

DE FRANQUIA: INAPLICABILIDADE NO

DIREITO BRASILEIRO

*

Eveline Mendonça Felix Gonçalves

Sumário: Introdução. 1. Origem do Contrato de Franquia e Previsão Legal no Brasil e em Portugal. 2. Modalidades e Ca-racterísticas do Contrato de Franquia. 3. Formação do Contrato de Franquia. 4. Formas de Cessação do Contrato de Franquia. 5. Indenização de Clientela. 5.1. Primeiros registros. 5.2. Pres-supostos da indenização de clientela. 5.2.1. Angariação e au-mento de clientela. 5.2.2. Ganhos agregados ao principal pela atuação do agente. 5.2.3. Ausência de recebimento de valores pelo agente após o fim do contrato. 5.3. Causas de obstáculo à indenização de clientela. 5.4. Prazo para exercício do direito à indenização de clientela e seu valor. 6. Natureza Jurídica da Indenização de Clientela. 7. Indenização de Clientela nos Con-tratos Afins de Concessão e Franquia. 8. Impossibilidade de Indenização de Clientela nos Contratos de Franquia no Brasil. Considerações Finais. Referências.

INTRODUÇÃO

franquia, cada vez mais, faz parte do cotidiano de todos os povos. Não é mais possível falar-se em comércio e distribuição de produtos, em am-pliação de negócios, em marcas, sem se falar em franquia. O instituto, que surgiu de forma tão

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Relatório da disciplina de Direito Comercial I e II apresentado ao Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Ciências Jurídicas. Regência: Professor Doutor Manuel Januário da Costa Gomes e Professor Doutor José Alberto Vieira.

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espontânea, como intenção e necessidade de expansão de ne-gócios, sem grande investimento do detentor da marca e inte-resse daquele que intencionava exercer o comércio, mas não dispunha de grande capital e know-how, tomou corpo e hoje pode ser observado nos pontos mais distantes do planeta, tra-zendo mesmo a sensação de que as distâncias geográficas e culturais passaram a ser relativas.

A exemplo das demais modalidades de contrato tende contrato de franquia a se encerrar. Muitas vezes a finalização do contrato decorre de definição prévia dos contratantes; outras vezes ocorre por interesse mútuo manifestado durante a vigên-cia do contrato; outras vezes por conta de descumprimento de um ou outro contratante ou até mesmo de ambos. Os resultados advindos dessa extinção do vínculo são variados. Uma conse-quência já registrada e reconhecida em vários países é a neces-sidade de o franqueador indenizar o franqueado pela clientela conquistada ou pelo significativo aumento dos negócios em-preendidos em decorrência da atuação do franqueado.

Esse o objetivo do presente estudo, diante da intitulada indenização de clientela examinar sua definição, seus requisi-tos, suas características e sua aplicação prática, inclusive sua repercussão nos tribunais, certo que no Brasil, em um primeiro exame, não se constata disciplinamento dessa figura jurídica no contrato de franquia e nos outros contratos afins. Para que se chegue a tal desiderato, impõe-se o exame preliminar do pró-prio contrato de franquia, sua origem e características, sua for-mação e, especialmente, sua extinção com as consequências que poderão advir. Em seguida, busca-se examinar a essência da figura da indenização de clientela, sua aplicação além do Brasil, seu nascedouro jurídico e as causas de sua previsão.

Todo o exame terá por objetivo responder à pergunta: A indenização de clientela no contrato de franquia poderá ser aplicada no direito brasileiro? Com base nas considerações doutrinárias e jurisprudências desenvolvidas, chega-se a

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con-clusão de que essa indenização não deve ser admitida no Bra-sil.

1. ORIGEM DO CONTRATO DE FRANQUIA E A PREVI-SÃO LEGAL NO BRASIL E EM PORTUGAL

Várias são as teorias sobre a verdadeira origem da fran-quia. No entanto, como real forma de contrato tal qual empre-endida nos dias atuais, pode-se visualizar verdadeiro sistema de franquia em meados do século XIX, surgindo nos Estados Uni-dos da América, com o fabricante de máquinas Singer Sewing Machine Company (1862). Comerciantes independentes pode-riam vender as máquinas e usar o nome “Lojas Singer” em suas fachadas. Alguns anos depois a General Motors, em 1898, pas-sa a se utilizar da mesma forma de distribuição de produtos e, em 1899, a Coca-Cola.

Na América, com o sucesso do empreendimento e com o fim da Segunda Guerra Mundial no século XX há um grande crescimento do sistema de franquias. De fato, após a guerra, grande contingente de homens retornou aos Estados Unidos. À época, o país atravessava momento de dificuldade socioeco-nômica, sem boas perspectivas de trabalho. Assim, o exercício do comércio por meio do contrato de franquia, com o já desen-volvimento da marca e produto assinalava boa opção de traba-lho independente, sem grandes investimentos ou altos riscos, como registra Adalberto Simão Filho em sua obra Franchi-sing1.

Grande fator de atração para esse sistema de comércio era a possibilidade de atuação independente, sem vínculo em-pregatício e, ao mesmo tempo, a proposta de fornecimento de assistência especializada, com comercialização de produtos já aceitos pelo mercado. No mesmo caminho, para a empresa

1

SIMÃO FILHO, Adalberto. Franchising: aspectos jurídicos e contratuias. São Paulo: Atlas. 2000.

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franqueadora a possibilidade de desenvolvimento do trabalho e ampliação da distribuição de produtos e serviços, sem necessi-dade de vultosos investimentos, também era fator de grande interesse, havendo real proliferação dessa forma de comércio.

Em Portugal, verifica-se na década de 1980 o real surgi-mento do contrato de franquia com a empresa têxtil Cenoura, seguida de outras no ramo de alimentação. Já no Brasil, o ver-dadeiro início do contrato de franquia ocorreu com o fabricante de calçados Stella, em 1910. Na verdade, ainda sem as regras que mais tarde passaram a disciplinar o contrato, o detentor da marca escolheu bons representantes comerciais e propôs que passassem a revender os produtos em pontos comerciais pró-prios utilizando a marca, em suas fachadas, da “Calçados Stel-la”.

Desenvolveu-se no Brasil esta forma de contratação para distribuição de produtos na década de sessenta com as redes Yázigi e CCAA no ramo de educação de língua estrangeira. Todavia, somente nos anos oitenta, consolidou-se a ideia de franquia no Brasil, dando ensejo ao surgimento da Associação Brasileira de Franchising.

No Brasil, a Lei nº 8.955 de 1994 prevê o contrato de franquia e traz sua definição em seu art. 22 registrando que na franquia o franqueador concede ao franqueado a possibilidade de uso de marca e o direito de distribuição de produtos ou ser-viços e, eventualmente, o direito de uso de tecnologia e sistema operacional, geridos pelo franqueador, mediante uma remune-ração.

Apesar a definição legal, a maioria dos doutrinadores en-tende que se trata de contrato atípico. Isto porque a lei

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Art. 2º Franquia empresarial é o sistema pelo qual um franqueador cede ao franqueado o direito de uso de marca ou patente, associado ao direito de distribuição exclusiva ou semi-exclusiva de produtos ou serviços e, eventualmente, também ao direito de uso de tecnologia de implantação e administração de negócio ou sistema operacional desenvolvidos ou detidos pelo franqueador, mediante remuneração direta ou indireta, sem que, no entanto, fique caracterizado vínculo empregatício.

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na, praticamente em sua totalidade, a circular de oferta de fran-quia (COF). A rigor, não regulamenta o conteúdo da relação jurídica, apenas estabelece o dever de transparência.

De fato, trata-se de contrato atípico, certo que não há uma verdadeira regulamentação do contrato, como estabeleci-mento de normas e diretivas. Há, tão somente, uma conceitua-ção e a definiconceitua-ção dos elementos que comporão a circular de oferta de franquia.

Em Portugal, inexiste qualquer regramento específico pa-ra o contpa-rato de fpa-ranquia. São utilizadas, por analogia, as regpa-ras atinentes aos contratos afins, especialmente o contrato de agên-cia, normatizado pelo Decreto-Lei n 178/86 e modificado pelo Decreto-Lei n 118/93. Como ressalta Luís Miguel Pestana de Vasconcelos3, no direito português, por não estar regulamenta-do de forma expressa em lei é um contrato atípico, mas é soci-almente típico, por ser celebrado de maneira constante e reite-rada no comércio. No ponto, importante o registro do autor que afirma a liberdade contratual como fator marcante no Direito Civil português, podendo os contratantes disciplinar o negócio jurídico da forma que melhor lhes convenha.

Segundo a doutrina de Fran Martins4, o contrato de fran-quia pode ser conceituado como aquele que vincula duas partes fornecendo uma a outra o direito de comercializar seus produ-tos, sem a exigência de vínculo de subordinação, havendo per-manente assistência técnica e comercial. Para Orlando Gomes5, franquia é a operação pela qual um empresário permite a outro o direito de utilização de sua marca, fornecendo assistência técnica e em contrapartida recebe remuneração predeterminada. Registra Fábio Ulhoa Coelho6 que se pode entender por

3

VASCONCELOS, Luís Miguel D. P. Pestana de. O contrato de franquia

(franchising). Coimbra:Almedina. 2010 4

MARTINS, Fran. Contratos e Obrigações Comerciais. Rio de Janeiro:Forense. 1998.

5

GOMES, Orlando. Contratos. São Paulo: Atlas. 1986.

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to de franquia aquele vincula um comerciante a outro, devendo um autorizar o uso da marca e prestar orientação empresarial com ou sem venda de produtos. A respeito da matéria, esclare-ce António Menezes Cordeiro7:

Nele, uma pessoa - o franqueador- concede a outra – o franqueado -, dentro de certa área, cumulativamente ou não:

-a utilização de marcas, nomes ou insígnias comerci-ais;

-a utilização de patentes, técnicas empresariais ou pro-cessos de fabrico;

-assistência, acompanhamento e determinados servi-ços;

-mercadorias e outros bens, para distribuição.

Por sua vez, Pedro Romano Martinez8 conceitua esse contrato da seguinte forma:

O contrato de franquia constitui um método de colabo-ração entre empresas com vista à utilização de marcas, técni-cas empresariais, patentes, nomes comerciais, método de pro-dução, etc.; e tanto respeita a produtos como a serviços. A empresa titular, designadamente de uma marca, de uma insíg-nia ou de um nome comercial, não querendo aumentar por conta própria a exploração dessa vantagem, de molde a evitar riscos próprios do gigantismo empresarial, contrata com outra pessoa que passa a explorar a marca, a técnica ou o nome co-mercial da primeira, mediante uma contrapartida, normalmen-te designada por royalties. Por vezes, acorda-se também quan-to ao pagamenquan-to de uma entrada inicial, seguida de contrapar-tidas pecuniárias periódicas.

Examinados os conceitos elaborados pela doutrina extrai-se que alguns elementos devem estar preextrai-sentes quando extrai-se trata de um contrato de franquia. A colaboração é fator marcante e ambas as partes contratantes devem empreender com espírito de cooperação recíproca. Há evidente interesse em ampliação do âmbito de ação com atingimento de novas zonas de comér-cio mediante atuação descentralizada. A atuação do franqueado

7

CORDEIRO, António Menezes. Direito Comercial. Coimbra: Almedina.. 2012.

8

MARTINEZ, Pedro Romano. Contratos comerciais – Apontamentos. Estoril: Princípia Editora. 2006.

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é independente, mas orientada pelos critérios já previamente definidos pelo franqueador. Para possibilidade de atuação o franqueado deve pagar um valor periódico e, eventualmente, também um preço inicial. A propriedade da marca se concen-trará no franqueador, que cederá o direito de uso e mediante condições ao fraqueado. A assistência técnica deverá ser per-manente, sempre atualizando a forma de atuação do franqueado de acordo com as diretrizes do franqueador.

2. MODALIDADES E CARACTERÍSTICAS DO CONTRA-TO DE FRANQUIA

Importante definir as modalidades pelas quais o contrato de franquia se concretiza. São elas a franquia de produção ou de distribuição, de serviços e de indústria.

Na franquia de distribuição ou de produtos o franqueador fabrica os produtos que serão vendidos pelo franqueado ou contrata um fabricante que, de acordo com suas orientações, realiza a fabricação inserindo sua marca. O franqueado vende produtos sob a marca do franqueador e com sua identidade, sendo que a este último caberá fornecer o know-how e a assis-tência técnica necessárias para que se efetive a distribuição dos produtos. Aqui, o franqueado se limita a vender o produto for-necido pelo franqueador. As lojas de comércio de roupas, como Benetton e Hering, são exemplos dessa modalidade de fran-quia.

Na franquia de serviços a prestação de serviços é execu-tada pelo franqueado sob a marca, denominação e know-how do franqueador, com sua orientação e assistência. Ele disponi-biliza uma forma de prestação de serviços diferenciada e o franqueado passa a atuar dentro daquela forma de proceder, com os mesmo padrões e técnicas indicadas pelo franqueador. Típica franquia de serviços são as de escolas de idiomas e la-vandeiras, como CCAA e Quality.

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Já a franquia industrial se caracteriza por ser um contrato pelo qual o franqueado fabrica os produtos de acordo com o que preestabelecido pelo franqueador e os comercializa, tam-bém utilizando o know how do franqueador, que fornecerá as fórmulas industriais, direito de fabricação e comercialização e até mesmo matéria-prima. Nessa modalidade, o franqueado se compromete a produzir os produtos, como estipulado, para comercialização posterior. É o caso de franquia de Coca-Cola e Donuts.

Característica marcante do contrato é a utilização da marca pelo franqueado. Deve haver a cessão do direito de uso da marca pelo franqueador para utilização pelo franqueado de modo que o destinatário do produto identifique a fraqueada como parte integrante de uma mesma cadeia. Elemento carac-terizador do contrato é a obrigação de transmissão do

know-how. Deverá o franqueador contribuir efetivamente para o

de-senvolvimento do trabalho a ser levado a efeito pelo franquea-do. Para isso, imperiosa a transmissão de técnicas, a orientação de organização do negócio, repasse de informações sobre ges-tão, viabilizando ao franqueado todo acesso aos meios de su-cesso empreendidos pelo franqueador.

Da mesma forma, imprescindível a real assistência técni-ca do franqueador ao franqueado até mesmo para que a trans-missão do know-how se concretize de forma correta. Somente com a presença constante de assistência, todo o método desen-volvido pelo franqueador e repassado poderá ser desendesen-volvido pelo franqueado a espelho do que inicialmente estabelecido pelo franqueador. Como consequência natural da transmissão de know-how e assistência, terá o franqueador o direito de fis-calizar e acompanhar o desenvolvimento do trabalho feito pelo franqueado. Tais características são interligadas, certo que este controle e fiscalização visam mesmo a procurar atrelar o traba-lho do franqueado ao que estabelecido como padrão pelo fran-queador, mantendo-se assim a unidade do negócio aos olhos do

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consumidor.

Como bem registra Luís Miguel Pestana de Vasconce-los9, há que se observar que o controle não é ilimitado, certo que também deve ser destacada a independência do franquea-do, que não possui vínculo de trabalho com o franqueador. O franqueado, mesmo tendo por obrigação contratual seguir as linhas de trabalho do franqueador, também possui independên-cia de gestão.

No Brasil, a lei estabelece a necessidade de o contrato ser formalizado por escrito. Assim dispõe o art. 6 da Lei n 8.955 de 199410 que deverá ser escrito o contrato e assinado na pre-sença de duas testemunhas.

Em Portugal não há esta exigência. Todavia, pela própria natureza negocial e pelas peculiaridades desta espécie de con-trato, quase sempre, se formará por escrito. Efetivamente, para que sejam traçados os disciplinamentos, com previsão de pra-zo, valores, execução, âmbito territorial, assistência, transfe-rência de know-how, torna-se praticamente inimaginável que um contrato com estas peculiaridades se estabeleça verbalmen-te. Assim, mesmo sem a exigência legal o que se observa é que estes contratos são formalizados por escrito, muitas vezes com estrutura previamente delineada pelo franqueador, com pouca margem de negociação e alteração pelo franqueado.

É um contrato intuitu personae, devendo ser levada em consideração a pessoa do contratante, especialmente observado que os perfis de franqueado e franqueador devem estar afina-dos pela mesma ideia e trabalho, em colaboração e autonomia. Estão os contratantes livres para formar o contrato como dese-jarem. Sendo um contrato que não se limita a um único mo-mento, a uma única troca, marcado por uma sequência de atos

9

VASCONCELOS, Luís Miguel Pestana de. O contrato de franquia (franchising). Coimbra: Almedina . 2010.

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Art. 6º O contrato de franquia deve ser sempre escrito e assinado na presença de 2 (duas) testemunhas e terá validade independentemente de ser levado a registro perante cartório ou órgão público.

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que envolverão ambos os contratantes, contata-se que a boa-fé deverá nortear todas as fases das relações negociais. Deverá estar presente na fase pré-contratual. Deverá ser disponibiliza-da todisponibiliza-da gama de informações sobre o negócio, os riscos que se irá assumir e deverá o franqueado acompanhar, durante certo tempo, o funcionamento de outra franquia.Importa registrar que a fidúcia será ponto fulcral deste contrato, isto porque, aos olhos do consumidor, a franqueada se apresenta como a própria empresa, e, portanto, como o próprio franqueador.

3. FORMAÇÃO DO CONTRATO DE FRANQUIA

a) Circular de Oferta de Franquia

Para a formação do contrato de franquia, como ressaltado e mesmo que não tivesse previsto a lei brasileira, imperiosa a necessidade de se constituir por escrito, observada a complexi-dade do vínculo. Com uma gama de obrigações e direitos recí-procos é inegável que o contrato de franquia deverá se formar por documento, com o estabelecimento de cláusulas claras que prevejam tanto os deveres como os direitos de ambos os con-tratantes durante a execução do contrato e também disciplinem o seu fim. No ponto, sobressai a importância da obrigatorieda-de da emissão da Circular obrigatorieda-de Oferta obrigatorieda-de Franquia, documento exigido em lei e que visa trazer segurança àquele que pretende tornar-se franqueado. No dizer de Luiz Felizardo Barroso11 o pretenso contratante deverá ser munido de todas as informa-ções necessárias para verdadeiro conhecimento do negócio, inclusive os seus riscos.

Com base no princípio do disclosure, deverá a Circular de Oferta de Franquia oferecer uma revelação ampla de todo o empreendimento, com apresentação de balanços financeiros, histórico da empresa, perfil ideal de franqueado, desempenho no mercado, investimentos financeiros necessários. A Lei N

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8.955 de 1994 traça os elementos que devem estar contidos na Circular de Oferta de Franquia em seu art. 312. São arrolados

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Art. 3º Sempre que o franqueador tiver interesse na implantação de sistema de franquia empresarial, deverá fornecer ao interessado em tornar-se franqueado uma circular de oferta de franquia, por escrito e em linguagem clara e acessível, contendo obrigatoriamente as seguintes informações:

I - histórico resumido, forma societária e nome completo ou razão social do franque-ador e de todas as empresas a que esteja diretamente ligado, bem como os respecti-vos nomes de fantasia e endereços;

II - balanços e demonstrações financeiras da empresa franqueadora relativos aos dois últimos exercícios;

III - indicação precisa de todas as pendências judiciais em que estejam envolvidos o franqueador, as empresas controladoras e titulares de marcas, patentes e direitos autorais relativos à operação, e seus subfranqueadores, questionando especificamen-te o sisespecificamen-tema da franquia ou que possam diretamenespecificamen-te vir a impossibilitar o funciona-mento da franquia;

IV - descrição detalhada da franquia, descrição geral do negócio e das atividades que serão desempenhadas pelo franqueado;

V - perfil do franqueado ideal no que se refere a experiência anterior, nível de esco-laridade e outras características que deve ter, obrigatória ou preferencialmente; VI - requisitos quanto ao envolvimento direto do franqueado na operação e na admi-nistração do negócio;

VII - especificações quanto ao:

a) total estimado do investimento inicial necessário à aquisição, implantação e en-trada em operação da franquia;

b) valor da taxa inicial de filiação ou taxa de franquia e de caução; e

c) valor estimado das instalações, equipamentos e do estoque inicial e suas condi-ções de pagamento;

VIII - informações claras quanto a taxas periódicas e outros valores a serem pagos pelo franqueado ao franqueador ou a terceiros por este indicados, detalhando as respectivas bases de cálculo e o que as mesmas remuneram ou o fim a que se desti-nam, indicando, especificamente, o seguinte:

a) remuneração periódica pelo uso do sistema, da marca ou em troca dos serviços efetivamente prestados pelo franqueador ao franqueado (royalties);

b) aluguel de equipamentos ou ponto comercial; c) taxa de publicidade ou semelhante;

d) seguro mínimo; e

e) outros valores devidos ao franqueador ou a terceiros que a ele sejam ligados; IX - relação completa de todos os franqueados, subfranqueados e subfranqueadores da rede, bem como dos que se desligaram nos últimos doze meses, com nome, ende-reço e telefone;

X - em relação ao território, deve ser especificado o seguinte:

a) se é garantida ao franqueado exclusividade ou preferência sobre determinado território de atuação e, caso positivo, em que condições o faz; e

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dados essenciais que deverão nortear futura contratação, privi-legiando para que seja realizado pacto com absoluto conheci-mento do que estabelecerá o vínculo entre as partes.

No sentido da obrigatoriedade e importância da Circular de Oferta de Franquia, transcreve-se os seguintes julgados do Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais:

APELAÇÃO CÍVEL - AÇÃO DE INDENIZAÇÃO - VIOLAÇÃO AOS PRINCÍPIOS DA DIALETICIDADE, DA SUBSTANCIAÇÃO E DO DEVIDO PROCESSO LEGAL - PRELIMINARES AFASTADAS -CONTRATO DE FRANQUIA CIRCULAR DE OFERTA DE FRANFRANQUIA -INFORMAÇÕES FALSAS - IMPOSSIBILIDADE DE CUMPRIMENTO DAS METAS IMPOSTAS PELA FRAN-QUEADORA - RESCISÃO DOCONTRATO - DEVER DE INDENIZAR - SUCUMBÊNCIA RECÍPROCA - ART. 21 DO CPC - ÔNUS DE SUCUMBÊNCIA REPARTIDO - FI-XAÇÃO DE HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS -

b) possibilidade de o franqueado realizar vendas ou prestar serviços fora de seu território ou realizar exportações;

XI - informações claras e detalhadas quanto à obrigação do franqueado de adquirir quaisquer bens, serviços ou insumos necessários à implantação, operação ou admi-nistração de sua franquia, apenas de fornecedores indicados e aprovados pelo fran-queador, oferecendo ao franqueado relação completa desses fornecedores;

XII - indicação do que é efetivamente oferecido ao franqueado pelo franqueador, no que se refere a:

a) supervisão de rede;

b) serviços de orientação e outros prestados ao franqueado;

c) treinamento do franqueado, especificando duração, conteúdo e custos; d) treinamento dos funcionários do franqueado;

e) manuais de franquia;

f) auxílio na análise e escolha do ponto onde será instalada a franquia; e g) layout e padrões arquitetônicos nas instalações do franqueado;

XIII - situação perante o Instituto Nacional de Propriedade Industrial - (INPI) das marcas ou patentes cujo uso estará sendo autorizado pelo franqueador;

XIV - situação do franqueado, após a expiração do contrato de franquia, em relação a:

a) know how ou segredo de indústria a que venha a ter acesso em função da fran-quia; e

b) implantação de atividade concorrente da atividade do franqueador;

XV - modelo do contrato-padrão e, se for o caso, também do pré-contrato-padrão de franquia adotado pelo franqueador, com texto completo, inclusive dos respectivos anexos e prazo de validade.

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NAÇÃO - APLICAÇÃO DO §3º, DO ART. 20, DO CPC - RAZOABILIDADE. Uma formalidade comum a todos os re-cursos é a de que estes sejam fundamentados em confronto com a decisão atacada, expondo-se, de tal maneira, as razões para a sua reforma. Tal exigência se dá em atenção ao princí-pio da dialeticidade recursal, o qual impõe à parte recorrente o ônus de motivar o recurso, expondo as razões hábeis à re-forma da decisão recorrida frente ao que nela foi decidido. Tendo o magistrado de origem julgado os pedidos formulados pelas partes fundamentando sua decisão exatamente dentro dos limites e dos fatos por elas narrados, não há qualquer vio-lação à teoria da substanciação. Sendo a requerida devida-mente citada, apresentando defesa no prazo legal, esvazia-se a alegação de nulidade da sentença por violação ao princípio do devido processo legal. Havendo informações falsas na circu-lar de oferta de contrato de franquia, que conduz a resultados diversos do esperado e prometido, a franqueadora é responsá-vel pelo pagamento de indenização por danos materiais, que podem ser cumulados com cláusula penal, se há previsão es-pecífica. V.v. Cabe à franqueadora o cumprimento das exi-gências legais, não lhe sendo imputável qualquer responsabi-lidade pelo sucesso do negócio da franqueada. Todavia, res-tando comprovado nos autos que vários outros franqueados não conseguiram alcançar as metas impostas pela franqueada, não há como se falar que o insucesso do empreendimento te-nha se dado em razão de má administração pela autora, de-vendo ser o contrato de franquia rescindido, mantendo-se a condenação imposta nos termos da sentença de primeiro grau. Havendo sucumbência recíproca, devem os ônus de sucum-bência ser repartidos entre as partes, conforme determina o art. 21 do CPC. Tratando-se de ação condenatória, a verba honorária deve ser arbitrada com base no art. 20, §3º, do CPC. A fixação dos honorários advocatícios deve seguir um critério de razoabilidade, que emerge da importância da causa, do tempo exigido para o serviço, do grau de zelo profissional e da presteza na execução do trabalho. ApelaçãoCível 1.0702.01.013864-3001 Relator(a): Des.(a) Valdez Leite Ma-chadoData de Julgamento: 02/02/2012Data da publicação da súmula: 08/05/2012

AÇÃO DECLARATÓRIA C/C COBRANÇA-CONTRATO DE FRANQUIA - OBRIGATORIEDADE DE

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ENTREGA DE CIRCULAR DEOFERTA DE FRANQUIA - LEI 8.955/94 - INADIMPLEMENTO POR PARTE DO FRANQUEADOR - RESCISÃO CONTRATUAL - POSSI-BILIDADE - PERDAS E DANOS. É dever do franqueador fornecer, aos interessa-dos, Circular de Oferta de Franquia, prestando as informações essenciais do negócio jurídico, sob pena de anulabilidade do contrato de franchising. Apelação Cível 2.0000.00.422908-3/000 Relator(a): Des.(a) Eduardo Mariné da Cunha Data de Julgamento: 13/05/2004 Data da publica-ção da súmula: 29/05/2004

Fica patente que a contratação, sem observância aos di-tames legais e real apresentação de Circular de Oferta de Fran-quia, levará a possibilidade de anulação do contrato firmado, certo que violada pedra fundamental do contrato relativa à transparência dos negócios do franqueador perante ao potencial franqueado.

No entanto, é importante que se registre que os tribunais brasileiros, analisando o tema, têm decidido que verificada a não apresentação da Circular de Oferta de Franquia, mas tendo havido real exposição do negócio ao franqueado, com concreti-zação do contrato e execução por longo período, não haverá que se falar em possibilidade de anulação do contrato. Não é em outro sentido o seguinte julgado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul:

AÇÃO INIBITÓRIA. AÇÃO DECLARATÓRIA E CONSTITUTIVA DE DIREITO. AÇÃO DE RESILIÇÃO CONTRATUAL. CASO CONCRETO. MATÉRIA DE FA-TO. INTERPRETAÇÃO DE CLÁUSULA CONTRATUAL. CIRCULAR DE OFERTA. Não foi demonstrado qualquer prejuízo com a ausência de fornecimento da Circular de Ofer-ta, tendo a franqueada tomado efetivo conhecimento das pe-culiaridades do negócio. O lapso temporal consolida a relação contratual, descabendo acolher o juízo de inexistência ou rup-tura da franquia, medidas extremas que não se amoldam à re-lação sub judice. REGISTRO DA MARCA. Embora o art. 129, da Lei n 9.279/96, determine que a propriedade da marca adquire-se pelo registro validamente expedido, o art. 130, II, da mesma legislação, estabelece que ao titular da marca ou ao

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depositante é ainda assegurado o direito de: (...) licenciar seu uso. INEXISTÊNCIA DE KNOW-HOW. ÔNUS DA PRO-VA. A doutrina do ônus da prova repousa no princípio de que, visando a sua vitória na causa, cabe a quem afirma o di-reito o encargo de produzir provas capazes de formar, em seu favor, a convicção do juiz. No caso vertente, não se desin-cumbindo a contento desse encargo a franqueada, ora apelan-te, a improcedência do recurso é a medida que se impõe, em face dos elementos constantes dos autos. Apelo desprovido. (Apelação Cível Nº 70019029370, Décima Quinta Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Vicente Barrôco de Vasconcellos, Julgado em 25/07/2007). Núme-ro: 70019029370 Tipo de Processo: Apelação Cível Rela-tor: Vicente Barrôco de Vasconcellos Órgão Julga-dor: Décima Quinta Câmara Cível Comarca de Origem: Porto Alegre Data do Julgamento: 25.07.2007 Publicação: Diário da Justiça do dia 31/07/2007

b. Pré-Franchise

Com a multiplicidade de ações e obrigações que caberão as partes, muitos contratantes vislumbram a necessidade de se firmar um contrato preliminar denominado pré-franchise. Sua característica principal é de se estabelecer por tempo limitado visando propiciar o conhecimento amplo do sistema operacio-nal e avaliando, o pretenso franqueado, a realidade do negócio que intenciona exercer. Procedimento extremamente salutar, reduz as possibilidade de frustração das partes com o negócio realizado, como registra Adalberto Simão Filho13.

Ao contrário do que poderia inicialmente parecer, esse contrato preliminar não significa contrato de promessa de fran-quia, como ressalta Luís Miguel Pestana de Vasconcelos14. Representa uma possibilidade de experiência inicial do preten-dente a franqueado, que ingressa em um centro-piloto ou

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SIMÃO FILHO, Adalberto. Franchising: aspectos jurídicos e contratuias. São Paulo: Atlas . 2000.

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VASCONCELOS, Luís Miguel Pestana de. O contrato de franquia (franchising)., Coimbra: Almedina. 2010

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mo em uma sucursal do franqueador para visualizar os meca-nismos de trabalho e funcionamento da empresa. Representa um vínculo de experiência, devendo o interessado se compro-meter com os deveres inerentes de sigilo e não concorrência, especialmente se, ao final, entenderem as partes pelo não esta-belecimento do contrato de franquia.

4. FORMAS DE CESSAÇÃO DO CONTRATO DE FRAN-QUIA

A exemplo dos contratos em geral, o contrato de franquia provavelmente terá seu término. Como ressalta Sílvio de Salvo Venosa15, mesmo tendo uma função social importante o contra-to, atingida sua finalidade, extingue-se. Esta é uma característi-ca do direito das obrigações, sua transitoriedade, certo que ao firmar um contrato os envolvidos já tem, em perspectiva, a possibilidade de seu encerramento. Tal característica no contra-to de franquia deve ser observada sob outro prisma, cercontra-to que nesse tipo de pacto não se tem em mente um negócio que se efetive e possa se exaurir instantaneamente, mas se projeta uma concatenação de atos e negócios por um longo período. Ainda assim, não se pode perder de vista a possibilidade de finaliza-ção, visto que envolve negócio entre duas partes que, por um rol inumerável de questões, podem optar por colocar termo ao negócio, ou podem chegar a tal desiderato por razões outras que não sua própria deliberação.

Forma natural de finalização do contrato é a extinção com a execução de tudo que contratado, sendo atingido o obje-tivo definido pelas partes. No entanto, pelas intercorrências normais da vida cotidiana e comercial, muitas vezes a extinção ocorre por inexecução, descumprimento ou vontade das partes, surgindo de cada uma delas consequências próprias para os

15

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito Civil. Teoria Geral das Obrigações e Teoria

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contratantes.

As causas mais frequentes de extinção do contrato de franquia apontadas e apuradas por Adalberto Simão Filho16 são ruptura de cláusula de exclusividade; falta de assistência técni-ca; falta de pagamento de prestações, violação de cláusula de não concorrência e ocultação de lucros. Observa-se que em sua grande maioria está ligada a questão da parceria e da boa-fé, que devem permear especialmente esta espécie de contrato pelo vínculo extremamente próximo que faz o elo desta relação con-tratual.

a. Caducidade

Chegado o evento fixado, estará terminado o contrato, sem necessidade de declaração. O contrato se extingue natu-ralmente, não havendo que se falar em manifestação das partes ou declaração judicial. Ocorrido o evento previamente estabe-lecido o contrato se encerra, como registra Antônio Pinto Mon-teiro17 em sua obra Contratos de Distribuição Comercial.

Clássico exemplo é o decurso do tempo fixado nos con-tratos por prazo determinado. Caso continue a haver cumpri-mento por ambas as partes, dar-se-á a renovação tácita por pra-zo indeterminado, e então, havendo interesse em finalização do pacto, deverá haver precedência de denúncia, com prazo razoá-vel. Já se tendo estabelecido prazo, também devem ser previs-tas todas as consequências do fim contrato e estabelecidos pra-zos razoáveis para lucro e forma de renovação. Sendo um con-trato por prazo fixado as nuances já são conhecidas e os valores de pagamento já devem estar previstos. Por isso todas as con-sequências e eventuais obrigações de uma parte para com a outra devem estar definidas, sob pena de trazerem surpresa e violarem a boa-fé que deve nortear toda contratação, mas

16

SIMÃO FILHO, Adalberto. Franchising: aspectos jurídicos e contratuias. São Paulo: Atlas S.A 2000.

17

MONTEIRO, António Pinto. Contratos de Distribuição Comercial. Edições Almedina S.A. Coimbra. 2009

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cialmente esta que se baseia na cumplicidade e assistência re-cíproca.

Importante o registro feito por Luís Miguel Pestana de Vasconcelos18 quando questiona se deverá o franqueador ser obrigado a garantir uma duração mínima do contrato para que o franqueado possa recuperar o investimento inicial. Ressalta o autor que deverão ser diferenciadas duas situações. Quando ocorrer de ser a cláusula de tempo uma cláusula geral do con-trato, onde se observe a estipulação sem de discussão quando da formação do contrato, deverá ser tida, a cláusula, como nula. Já sendo o prazo delimitado após ampla negociação das partes, deverá ser reputado válido, visto que é um dos aspectos de maior relevância no momento da negociação prévia. Ademais, entre nos vigora a o princípio da livre contratação, observadas a expressão livre e consciente da vontade e observada a boa-fé.

Convém ressaltar que a lei italiana sobre franquia prevê que o prazo deverá garantir um retorno mínimo de investimen-to e, em qualquer caso, não deverá ser inferior a três anos. In-dica, claramente, o legislador, intenção de proteger o investi-mento feito, de modo a viabilizar um exercício razoável da empresa e exploração da potencialidade do contrato.

b. Distrato

As partes que acordaram contratar têm a liberdade de pôr fim ao pacto, como se observa do disposto no art. 406 n 1 do Código Civil português19. O mútuo acordo é um novo contrato que disciplinará a finalização do anterior que pode ter sido es-tabelecido por prazo determinado ou prazo indeterminado. No

18 VASCONCELOS, Luís Miguel Pestana de. O contrato de franquia (franchising).,

Coimbra: Almedina. 2010

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Artigo 406.º Eficácia dos contratos

1. O contrato deve ser pontualmente cumprido, e só pode modificar-se ou extinguir-se por mútuo conextinguir-sentimento dos contraentes ou nos casos admitidos na lei. 2. Em relação a terceiros, o contrato só produz efeitos nos casos e termos especialmente previstos na lei.

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Brasil o distrato é regulado pelo art. 472 do Código Civil20 e faz-se pela mesma forma exigida para o contrato. O distrato é um acordo entre os contratantes, com objetivo de extinguir o vínculo obrigacional criado pelo contrato.

Estabelece a Lei n 8.955/94 que o contrato de franquia se formará por escrito. Assim, ao distrato se impõe, também, a forma escrita. No ponto, importante que seja ressaltada a ne-cessidade de disciplinamento de todas as questões relativas à finalização. Esta providência, certamente trará clareza sobre os direitos e obrigações decorrentes do distrato, sendo respeitada a boa-fé e evitando-se demandas originadas da insatisfação das partes.Assim, o encerramento do contrato por mútuo acordo deve significar extinção do vínculo, e, especialmente, traçados claros sobre as consequências deste fim.

c. Denúncia

A denúncia é forma de extinção do contrato estabelecido por tempo indeterminado e ocorre quando uma das partes co-munica a outra sua intenção, não sendo obrigatória a existência de fator motivador a ser explicitado. Observadas as peculiari-dades do contrato objeto deste estudo e sempre tendo em mente que os contrato não são eternos, mas, no caso da franquia, ten-dem a se prologar no tempo, a denúncia como forma de inten-ção e efetivainten-ção de finalizainten-ção do pacto deve ser feita com to-das as cautelas para que não se viole o direito do outro contra-tante.

Havendo denúncia por parte do franqueador, poderá ele frustrar uma projeção de lucros feita pelo fraqueado que inves-tiu capital, tempo e expectativa na presunção de que poderia se beneficiar, ainda por determinado tempo, do contrato. Assim, a questão atinente ao prazo de pré-aviso é extremamente relevan-te, devendo ser observado prazo razoável a permitir retorno de investimento.

20

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No ponto, examinando a legislação e doutrina portugue-sa, contata-se que inviável tomar-se por base analógica a previ-são da lei para o contrato de agência no que toca ao tempo de pré-aviso, certo que os investimentos e previsões de duração do contrato são pela própria essência da franquia, em geral, maio-res do que ocorre com o contrato de agência.

Ressalta Luís Miguel Pestana de Vasconcelos21 que tam-bém se deverá examinar com atenção a existência ou não de cláusula fixando o prazo de pré-aviso. Deverá ter-se em conta se a cláusula está entre aquelas que não foram particularmente negociadas ou se, ao contrário, foram objeto de real discussão e estipulação pelas partes. Sendo negociada e sendo previsto o prazo razoável de pré-aviso, observadas as peculiaridades do contrato, eventual questionamento só seria razoável quando gravemente violado o princípio da boa-fé, certo que há de se respaldar a autonomia da vontade e liberdade contratual.

A doutrina brasileira, sobre o tema e imprevisão da maté-ria em norma positivada manifesta-se, de forma coerente, asse-verando que sempre deverá se ter em conta para o exercício da denúncia a possibilidade de duração do contrato por prazo não inferior aquele necessário para garantir o retorno dos investi-mentos. Nesse sentido, trago à colação julgado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do Sul sobre o exercício da denúncia, observado o prazo de pré-aviso:

APELAÇÕES CÍVEIS. RESPONSABILIDADE CI-VIL. REPRESENTAÇÃO. RESILIÇÃO UNILATERAL E IMOTIVADA DO CONTRATO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MATERIAIS E MORAIS. RECONVENÇÃO. AÇÃO CAUTELAR E PRINCIPAL DE EXTINÇÃO DE HIPOTECA Trata-se de ações conexas e dependentes de cará-ter declaratório e condenatório de mantença de contrato parti-cular de representação comercial e anulação de cláusulas con-tratuais com reconvenção condenatória pela aplicação de mul-ta contratual decorrente de infração do contrato e cautelar e

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VASCONCELOS, Luís Miguel Pestana de. O contrato de franquia (franchising). Coimbra: Almedina . 2010

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principal de extinção de garantia de hipoteca julgadas impro-cedentes, salvo a extinção das hipotecas. VALOR DA CAU-SA modificado ex-officio - Impertinente a interferência judi-cial, sem provocação, no sentido de majorar o valor da causa ao exclusivo efeito de render recolhimento de majoração de custas, mormente em se tratando de Cartório Judicial Privati-zado, especialmente em foro de sentença final de improce-dência. ERRO MATERIAL - Inexiste erro material a ser cor-rigido pelo tão só fato de que a sentença nomina como teste-munha, pessoa informante, especialmente porque inócua ao deslinde da quaestio. OMISSÃO SENTENCIAL - Inexiste omissão a ser solvida se a sentença examinou destacadamente umas cláusulas do contrato e não nominou outras, mas disse explicitamente que não vislumbrava qualquer nulidade, abu-sividade ou desequilíbrio contratual, afastando qualquer nó-doa ao contratado. ABUSO DO PODER ECONÔMICO - Inexiste abuso do poder econômico no contrato que prevê ex-pressamente a possibilidade de rescisão imotivada ou renova-ção automática, com a ressalva do aviso prévio de 90 dias. Ao contrário, a hipótese vem celebrada expressamente no art.720 do CCB. Além disso, inaplicável ao caso debatido nos autos as disposições do CDC, posto que ausente relação de consu-mo e os personagens da relação se constituem empresas de porte e hipersuficiente. Equilíbrio contratual não evidenciado. O contrato de representação e distribuição previa a possibili-dade de rescisão imotivada, por qualquer das partes, clausula e condição exercitada pela fornecedora, em razão do que es-tava dispensada de elencar os fundamentos do rompimento do ajuste, menos ainda sustentar a quebra do pacto. Disso decor-re que tal ajuste, a par de permitir o rompimento do contrato imotivadamente, não tolera, depois do seu exercício, com o contrato já extinto, volver questões outras como o descum-primento de cláusulas contratuais, hipótese não versada opor-tunamente. A ação principal de mantença do contrato e anula-ção de cláusulas, cumuladas com indenizações, bem como re-convenção, são improcedentes. Ação cautelar e principal de extinção de hipoteca procedentes. Não obstante, a verba su-cumbencial, fixada para a sucumbência recíproca das partes, vai mantida nos termos da sentença. DUPLA APELAÇÃO. APELAÇÕES DESPROVIDAS. SENTENÇA EXPLICITA-DA. (Apelação Cível Nº 70036780864, Sexta Câmara Cível,

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Tribunal de Justiça do RS, Relator: Niwton Carpes da Silva, Julgado em 13/06/2013) Data de Julgamento: 13/06/2013. Publicação: Diário da Justiça do dia 20/06/2013

No julgado destacado, observa-se a chancela do Poder Judiciário no sentido de entender absolutamente válida a cláu-sula pactuada de dissolução do contrato, sem que se necessite de ato de descumprimento ou se imponha motivação. Registra-se, ainda, a necessidade de observância ao prazo de pré-aviso, imprescindível para organização negocial daquele que não in-tencionou a finalização do pacto. Foi rechaçado, também, o questionamento de adimplemento e validade de cláusulas, certo que evidenciada a intenção de discussão do contrato, tão só, porque exercido o direito de denúncia.

d. Resolução

A resolução é forma de extinção decorrente do não cum-primento do contrato que poderá originar o encerramento do pacto, seja pela gravidade do inadimplemento, seja pela reite-ração de atos que isoladamente analisados não implicariam nessa consequência. Assim, para que se dê a resolução, neces-sária a existência de motivação, diferentemente do que ocorre com a denúncia. Dar-se-á nos contratos por prazo determinado ou indeterminado e não há que se falar em pré-aviso, nos mol-des do que previsto para denúncia.

Como lecionam António Pinto Monteiro22 e Luís Miguel Pestana de Vasconcelos23 a Lei de Agência24 estabelece

22 MONTEIRO, António Pinto. Contratos de distribuição comercial. Coimbra:

Almedina 2009

23

VASCONCELOS, Luís Miguel D. P. Pestana de. O contrato de franquia (franchising). Edições Almedina S.A., Coimbra. 2010

24 Artigo 30.º

(Resolução)

O contrato de agência pode ser resolvido por qualquer das partes:

a) Se a outra parte faltar ao cumprimento das suas obrigações, quando, pela sua gravidade ou reiteração, não seja exigível a subsistência do vínculo contratual; b) Se ocorrerem circunstâncias que tornem impossível ou prejudiquem gravemente a realização do fim contratual, em termos de não ser exigível que o contrato se

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damentos para a resolução que são aplicáveis analogicamente à franquia, pois podem ser tidos, mesmo, como princípios gerais que se aplicam a contratos duradouros. O primeiro fundamento é o concernente ao descumprimento de obrigações ou à reitera-ção de descumprimento. Tal como registrado, o incumprimento deve ser de monta a originar o fim do pacto, observada o cará-ter drástico da extinção do vínculo. Assim, descumprimentos mais sutis podem levar a direito de indenização, ressarcimento ou aplicação de penalidades já previstas em contrato, mas não devem autorizar resolução do contrato de franquia.

Da mesma forma, uma violação leve que não ensejaria maior repercussão, pode se transmutar para uma questão capaz de autorizar a rescisão quando a reiteração torne insustentável a manutenção do pacto. Isto porque a relação contratual deve estar revestida de fidúcia, que a reiteração de atos em desacor-do com o avençadesacor-do pode abalar.

5. INDENIZAÇÃO DE CLIENTELA 5.1. PRIMEIROS REGISTROS

Os primeiros registros sobre indenização de clientela são de sua previsão pela lei austríaca em 1921, com relação ao con-trato de agência. Essa figura jurídica foi especificamente pre-vista quando constatado que o contrato foi finalizado por ação do proponente, sem culpa do agente, e quando realizada a for-mação de clientela pelo agente em benefício do proponente. Havia, ainda, a fixação de valor de teto para o recebimento desse montante indenizatório, não podendo representar mon-tante além das comissões recebidas em um ano.

Também na Franca, em 1937, surge a figura da indeniza-ção de clientela e como registra Luís Manuel Teles de Menezes

mantenha até expirar o prazo convencionado ou imposto em caso de denúncia.

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Leitão25, neste primeiro momento não dizia respeito ao contra-to de agência, mas especificamente com relação ao empregado sob o vínculo de subordinação. Seria devida quando do fim do contrato sem responsabilidade do trabalhador e com quebra do pacto pelo empregador, sem justa causa. Somente em três dé-cadas mais tarde houve previsão da referida indenização para os casos de ruptura do contrato de agência quando não origina-da por descumprimento do agente.

Em 1953, surge na Alemanha a figura da indenização de clientela quando disciplinado o contrato de agência e foi tida como a mais polêmica novidade apresentada pelo legislador naquele momento, como ressalta Carolina Cunha26. Pelo disci-plinamento alemão após a extinção do contrato o agente pode-ria exigir do principal razoável compensação. Isto caso o prin-cipal obtivesse vantagens pelos negócios realizados com os clientes amealhados pelo agente e desde que o agente não fosse receber comissões após o fim do cotrato, com relação a contra-tos já celebrados ou a celebrar com clientes obtidos por sua atuação. Haveria exclusão da possibilidade indenizatória se o agente fosse o responsável pelo fim do contrato.

Importante o registro de que com a Diretiva n 86/653/CEE em 1986 houve a implementação da previsão de possibilidade dos Estados-membros adorarem a indenização de clientela com base no modelo alemão ou no modelo francês, sendo aquele vinculado a ideia de compensação advinda do beneficio obtido pelo proponente pela clientela angariada e o segundo, relativo à ideia de indenização por dano suportado pelo agente, em decorrência do fim do contrato.Em 1986, com o Decreto-Lei 178/86, concretiza-se pela positivação normativa a indenização de clientela no contrato de agência em Portugal. Neste país, como na maioria dos demais Estados-membros,

25

LEITÃO, Luís Manuel Teles de Menezes. A Indemnização de clientela no

contra-to de agência. Coimbra: Almedina. 2006 26

CUNHA, Carolina. A indemnização de clientela do agente comercial. Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Coimbra: Coimbra Editora. 2003

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optou-se pela configuração germânica para o instituto.

No Brasil, não se observa norma positivada sobre indeni-zação de clientela em qualquer dos contratos de distribuição. Examinando a doutrina brasileira, o que se percebe é a omissão de qualquer dispositivo relativo à indenização de clientela nos moldes do que traçado na Europa. A jurisprudência segue o mesmo caminho. Nos julgados relativos aos contratos de dis-tribuição, as referências a indenizações ocorrem sempre ligadas a ideia de dano, de ação que lesa uma das partes, em indeniza-ção no sentido real do termo e não compensaindeniza-ção, como se en-tende a chamada indenização de clientela.

5.2. PRESSUPOSTOS DA INDENIZAÇÃO DE CLIENTELA 5.2.1. ANGARIAÇÃO E AUMENTO DE CLIENTELA

Dispõe o Decreto-Lei n 178/86 de 03 de Julho com as al-terações introduzidas pelo Decreto-Lei 118/93 de 13 de abril27 que para que se constate a obtenção de clientela pelo agente a

27

Artigo 33.º Indemnização de clientela

1 - Sem prejuízo de qualquer outra indemnização a que haja lugar, nos termos das disposições anteriores, o agente tem direito, após a cessação do contrato, a uma indemnização de clientela, desde que sejam preenchidos, cumulativamente, os requisitos seguintes:

a) O agente tenha angariado novos clientes para a outra parte ou aumentado substancialmente o volume de negócios com a clientela já existente;

b) A outra parte venha a beneficiar consideravelmente, após a cessação do contrato, da actividade desenvolvida pelo agente;

c) O agente deixe de receber qualquer retribuição por contratos negociados ou concluídos, após a cessação do contrato, com os clientes referidos na alínea a). 2 - Em caso de morte do agente, a indemnização de clientela pode ser exigida pelos herdeiros.

3 - Não é devida indemnização de clientela se o contrato tiver cessado por razões imputáveis ao agente ou se este, por acordo com a outra parte, houver cedido a terceiro a sua posição contratual.

4 - Extingue-se o direito à indemnização se o agente ou seus herdeiros não comunicarem ao principal, no prazo de uma ano a contar da cessação do contrato, que pretendem recebê-la, devendo a acção judicial ser proposta dentro do ano subsequente a esta comunicação.

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ensejar a indenização da qual aqui se trata deverá ele ter anga-riado novos clientes para o principal ou aumentado significati-vamente o volume de negócios com clientela já existente e o principal possa se beneficiar consideravelmente, após o fim do contrato, da ação desenvolvida pelo agente. Assim, importante examinar especificamente essas situações.

Percebe-se que pela análise da previsão legal e observada a finalidade da indenização de clientela que o que se deve apu-rar é efetivamente a ocorrência de uma ação tal do agente que vincule os clientes e negócios junto ao principal. Em ambas as situações, visualiza-se um real crescimento de negócios, certo que há aumento das tratativas já existentes ou aumento do nú-mero de clientes. Imprescindível é que haja uma relação direta da atuação do agente para com a referida relação negocial.

No tocante ao aumento da clientela importante que se perceba a existência de vínculo efetivo e duradouro. Uma cons-tatação de aumento pontual, sem que haja realmente um elo entre cliente e empresa, não pode ser caracterizada como au-mento de clientela para os fins da indenização ora em exame. Até porque, necessário que se perceba que, com o aumento de clientes, vá ocorrer, em perspectiva, uma continuação de negó-cios que beneficiará o proponente, já sem interferência daquele agente, mas por conta de sua atuação. Necessário, ainda que sejam, de fato, clientes que não possuíam vínculo com o prin-cipal, pois se for o caso, a ação do agente somente deu conti-nuidade a um trabalho pretérito já realizado pelo principal ou por outro agente, não havendo que se falar em possibilidade do agente vir a se beneficiar da indenização por aumento de clien-tela. Podem, contudo, serem clientes já vinculados ao agente, mas que a partir da contratação com o principal, continuam fiéis ao agente e firmam contrato por conta do elo com o agen-te.

Releva registrar que, como ressalta Carolina Cunha28, os

28

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novos clientes obtidos e a situação caracterizadora da indeniza-ção se constatam mesmo quando a atuaindeniza-ção do agente não tenha sido causa exclusiva para a aquisição dessa nova clientela. Ne-cessário, assim, que seja verificada sua atuação efetiva para a aquisição da clientela, mas outros fatores, como a própria atua-ção do principal, também podem estar presentes, sem que isso exclua o direito a indenização que cabe ao agente.

Discorre com pertinência a doutrinadora que não se deve perquirir sobre a aquisição de clientela de modo subjetivo, por meio da tentativa de demonstrar intenção e elemento volitivo. A demonstração deve ser de ordem objetiva e concreta, obser-vada a atuação do agente na formalização do contrato e, ainda, pela apuração de comissão paga pelo principal ao agente quan-do firmaquan-do contrato com novo cliente, o que por si já indicaria ação do agente capaz de caracterizar atuação capaz de lhe con-ferir direito à indenização.

A questão relativa à elevação do volume de negócios traz, por certo, conteúdo pouco preciso, e levará o aplicador do direito a examinar de forma ainda mais particularizada a ques-tão. É que as próprias expressões utilizadas pelo legislador ge-ram grande margem a interpretações. Estabelece a norma que deverá ocorrer aumento de volume de negócios e que ele deve-rá ser substancial. Assim, o que devedeve-rá ser considerado aumen-to? O que será aumento substancial? Os autores não definem claramente a questão. Apesar de discorrerem sobre o tema e procurarem parâmetros, não há efetivamente um marco objeti-vo para a constatação de aumento substancial de negócio.

Tendo em mente a dificuldade registrada, importa que se-jam traçadas linhas de norte para a constatação do que estabe-leceu a lei como pressuposto para a indenização de clientela. Em primeiro lugar é importante que se tenha como horizonte o montante total de negócios e não aumento de cada negociação

da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Coimbra Editora. Coimbra. 2003

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de per si. Da mesma forma, havendo, com intermediação do agente, objetivamente, aumento de negócios de forma substan-cial, a indicação natural será de que cabível aqui indenização de clientela. Deverá o principal, entendendo que esse aumento não se deu com conta do agente, demonstrar fator externo que levou a tal resultado, excluindo assim sua responsabilidade indenizatória.

De qualquer forma, a conclusão do exame destes requisi-tos é que pretendeu o legislador estabelecer, como pressuposto para a indenização de clientela, a constatação de verdadeiro aumento de negócios, seja pelo maior número de clientes, seja pela elevação de movimento de negócios empreendidos com os clientes já conquistados.

5.2.2. GANHOS ADVINDOS AO PRINCIPAL PELA ATU-AÇÃO DO AGENTE

Para que se constate situação caracterizadora da indeni-zação de clientela a presença de benefícios consideráveis trazi-dos ao principal pela atuação do agente, após o fim do contrato. Isto implica em dizer que para que haja a obrigação compensa-tória, a atividade de intermediação negocial exercida deve con-tinuar a render frutos, deve se perpetuar em benefício do prin-cipal. Caso não ocorra prorrogação de vínculo entre cliente e principal no tempo, não há que se falar em valores a serem des-tinados ao agente a título de indenização de clientela.

A essa altura é importante a refletir sobre a imprecisão da questão tal como posta no dispositivo legal. É certo que, como se verá adiante, o agente terá um prazo para exercer seu direito de pleitear a indenização tratada. No entanto, mesmo assim, a ideia de continuação do negócio é ideia de futuro e, portanto, possui margem para o imponderável, sendo, a nosso ver, ex-tremamente difícil se demonstrar a existência de benefício a ser continuadamente auferido pelo principal, ao fim da relação.

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Sob outra perspectiva, Luís Manuel Teles de Menezes Leitão29, que assim se manifesta:

Essa prognose não é, no entanto, difícil de estabelecer, já que os contratos intermediados normalmente se traduzem num beneficio efectivo para o principal, permitindo-lhe obter um lucro líquido dessa relação, o qual é considerado como benefício.

Segundo ele, não se pode deixar ao largo a expressão “considerável” prevista na lei. Em consequência, o benefício dever ser razoável e será dimensionado pela comparação da amplitude e duração de tempo dos contratos intermediados pelo agente e dos outros negócios do principal sem essa interferên-cia. Refletindo-se sobre o que deve ser tido como considerável e partido do pressuposto de que se terá em foco algo que se protrai no tempo, a melhor solução é a de averiguar detidamen-te, em cada caso, o benefício adquirido, observada a ótica do principal, do agente e dos negócios realizados, devendo haver uma avaliação sob as várias faces do contrato, dos sujeitos en-volvidos e do próprio mercado.

Nesta linha de entendimento o seguinte julgado do Tri-bunal da Relação de Coimbra:

1. O n.º 4 do art.º 33º do DL n.º 178/86 de 3/7 consa-gra dois prazos: um de prescrição do direito de comunicação da exigência do crédito e outro de caducidade do direito de propor a ação de indemnização, os quais podem ser usados cumulativamente pelo agente

2. Continuando um cliente do principal, angariado pelo agente, a relacionar-se comercialmente com ele, posto que in-terpostamente através de sociedade pelo cliente criada para o efeito, permanece o agente com direito às comissões.

3. A substanciação do conceito legal: “benefício con-siderável”, requisito do direito à indemnização de clientela prevista no artº 33º do cit. DL, não tem de derivar necessari-amente de factos de certo jaez - vg da facturação anual do principal – antes podendo advir de uma análise concatenada,

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LEITÃO, Luís Manuel Teles de Menezes. A Indemnização de Clientela no

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ponderada, sensata e judiciosa, da plêiade de factos apurados. 4.Emerge tal requisito se se prova que o principal fatu-rou, por intervenção do agente, quantia (muito) superior a cinco milhões de euros num contrato que durou 20 anos e tendo os clientes por este angariados continuado a manter re-lações comerciais com aque-le1845/05.0TBLRA.C1Relator:CARLOS MOREIRA.Datado Acordão:07/05/2013 Tribunal Recurso:LEIRIA 5º J C Legis-lação Nacional: DLN.º178/86 DE 3/7

No dizer de Carolina Cunha30 para o juízo de prognose, que apresenta grande dificuldade para ser realizado, devem ser utilizadas as presunções naturais e jurídicas de que um aumen-to da procura da empresa se reverterá em evidente benefício considerável para o principal. No ponto, tenho que importante refletir sobre os requisitos anteriores de aumento de clientela e volume de negócios. Certamente o legislador não pretendeu fixar esses requisitos por si mesmos, mas em decorrência do benefício real que podem acarretar ao principal. Assim, o au-mento de clientela e de extensão de contratos, que se quer des-tacar para viabilizar a indenização de clientela é, em conclusão, aquele que traga efetivo benefício ao principal.

5.2.3. AUSÊNCIA DE RECEBIMENTO DE VALORES PE-LO AGENTE APÓS O FIM DO CONTRATO

Último pressuposto, a ser examinado, e que deve coexis-tir com os demais, diz respeito à inexistência de valores recebi-dos pelo agente, após a cessação do vínculo, com relação a contratos negociados ou concluídos após o fim do contrato. Pela própria lógica do sistema, só será devida a compensação pela clientela caso o agente nada receba no tocante aos contra-tos firmados e negociados após o fim do contrato de agência, certo que, em recebendo a comissão, já estaria sendo

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CUNHA, Carolina. A Indemnização de clientela do agente comercial. Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra . Coimbra: Coimbra Editora. 2003

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rado e, eventual indenização, seria uma dobra de pagamento que não foi o que visado pelo legislador.

Afirma-se, assim, a necessidade, também aqui, de se fa-zer uma projeção do que seria auferido pelo agente, caso conti-nuasse em vigor o contrato. Será apurado o que seria normal-mente pago ao agente, observada a duração esperada da vincu-lação do cliente. Observa-se a ocorrência desta situação quando os clientes foram obtidos e trabalhados pelo agente, mas o con-trato só se efetivou esgotado o vínculo entre principal e agente. Da mesma forma, em contratos que já se estabelecem com per-petuação de negócios, como compras periódicas, não tendo sido estabelecido o recebimento da comissão, razoável que receba o agente sua retribuição, certo que trabalhou para a con-cretização do negócio e, até mesmo, para esta forma sucessiva de prestação.

5.3. CAUSAS DE OBSTÁCULO À INDENIZAÇÃO DE CLIENTELA

É fato que para o exercício do direito de indenização de clientela deve haver a extinção do contrato que vincula agente e principal. Dispõe a norma regulamentadora que havendo a finalização do contrato por conta de ação imputável ao agente, não terá ele direito a indenização de clientela. Assim, a primei-ra hipótese de perda de direito de indenização de clientela diz respeito à resolução do contrato por descumprimento de obri-gação imputável ao agente. De fato, havendo causa de finaliza-ção do pacto por afinaliza-ção contrária as normas estabelecidas pelas partes ou as normas legais que tenham força para encerrar o contrato, terão também a repercussão de desobrigar o principal a pagar a indenização de que aqui se trata, certo que a extinção do contrato não ocorreu por seu descumprimento ou sua vonta-de.

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pelo fim do contrato, se quem o descumpriu foi o principal e, portanto, ele deu ensejo a essa manifestação do agente, terá este último intacto o seu direito à indenização de clientela. Es-clarece Carolina Cunha31 que a expressão legal “razões impu-táveis ao agente” implica o exame do que efetivamente se pre-tende com a palavra “imputável”. Analisando a questão, afirma que deve se entender imputável como razão de extinção causa-da pelo agente por culpa, por fato a ele imputável. Assim, deve ter havido ato de vontade praticado, sendo excluídas situações surgidas de ações sem culpa, atos de terceiros e caso fortuito ou forca maior.

A hipótese de denúncia do contrato pelo agente, sem fa-tores outros a justificar a conduta, é causa de fim do contrato por razão ao agente imputável, devendo também ser tida como fator de exclusão ao direito à indenização de clientela. De ver-se que absolutamente razoável a imposição da de exclusão, certo que do contrário, haveria uma margem grande de impre-cisão para o principal. Isto porque, havendo a consequência de direito a indenização de clientela em caso de denúncia, o prin-cipal poderia ser surpreendido a qualquer tempo pela manifes-tação do agente neste sentido, muitas vezes tão só para se ver indenizado. Ademais, em caso de denúncia, não se observa nenhum descumprimento das partes, assim, desejando o agente o desenvolvimento normal do contrato com o recebimentos dos frutos de sua atuação, basta a continuação da vigência do pacto. Releva registrar que a indenização de clientela tal como conce-bida visa compensar o agente pela quebra da continuidade do contrato, sem que tenha dado ensejo ao seu término.

No caso de ocorrência de distrato, diz Luís Manuel Teles de Menezes Leitão32 que não há que se falar em exclusão ao direito à indenização de clientela. É que, neste caso e

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CUNHA, Carolina. A indemnização de clientela do agente comercial. Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Coimbra Editora. Coimbra. 2003

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LEITÃO, Luís Manuel Teles de Menezes. A indemnização de clientela no

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dentemente de quem tenha tido a iniciativa da resolução, há um efetivo acordo de vontades visando o fim do contrato e isto não pode ser tido como causa imputável ao agente. No mesmo sen-tido Carolina Cunha33 que ressalta que a exclusão de indeniza-ção deve ser interpretada de forma restritiva e, assim a extinindeniza-ção deve ser por razão apenas imputável ao agente e não também imputável a ele.

Examinando a situação tenho que em caso de distrato, havendo mesmo definição das partes sobre o fim do contrato e suas consequências, deveria estar disciplinada toda questão que envolve as partes. Os deveres e direitos de ambas, as estipula-ções, as consequências da extinção devem ser traçadas com clareza, evitando-se assim, margem par questionamento futuro. Se na formalização da resolução as partes tudo definem, deve-riam expressamente deliberar sobre a indenização de clientela, em respeito a boa-fé e clareza que devem nortear o contrato. Assim, a nosso ver, havendo distrato formalizado e disciplina-do pelas partes, a indenização de clientela deveria ser clara-mente definida. Sem menção a ela e tratando-se de partes com inegável capacidade, de concluir-se que definida a inexistência desta forma indenizatória. Não se alegue que não se trata de razão imputável ao agente. Havendo o acordo de vontades, no mínimo, há causa também imputável ao agente que é sua inten-ção de terminar o vínculo.

Em se constatando a caducidade e tendo-se em conta que houve, portanto, fixação de prazo por deliberação das partes, não há que se falar na consequência de perda do direito de in-denização de clientela pelo agente. No entanto, tendo sido o contrato prorrogado de forma automática, havendo manifesta-ção do agente pelo fim do pacto, haverá a perda do direito compensatório por clientela amealhada, certo que sua ação deu

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CUNHA, Carolina. A indemnização de clientela do agente comercial. Boletim da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Coimbra Editora. Coimbra. 2003.

Referências

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