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A DIVERSIDADE COMO CONDIÇÃO PROMISSORA NA FORMAÇÃO DO CONSELHO TUTELAR COMO ÓRGÃO DE PROTEÇÃO

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Academic year: 2020

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A DIVERSIDADE COMO CONDIÇÃO PROMISSORA NA FORMAÇÃO DO CONSELHO TUTELAR COMO ÓRGÃO DE PROTEÇÃO

Mônica Bragaglia1

RESUMO: Uma possibilidade de as organizações contemporâneas desenvolverem-se em sintonia com as demandas da atualidade associa-se ao grau de realização de sua capacidade auto-organizativa. Uma das condições favoráveis aos processos auto-organizativos é a sua diversidade. O CT, organização criada com a Lei Federal 8069/90 para zelar pela garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes dispostos nesta mesma lei, além de apresentar as características que distinguem as organizações contemporâneas, tem como prerrogativa realizar práticas diferenciadas na garantia de direitos. Por estas razões, este artigo ao apresentar e analisar a diversidade presente no CT busca evidenciar tal característica como uma das condições propícias para o caráter de inovação das práticas realizadas por esse órgão.

PALAVRAS-CHAVE: Conselho Tutelar – formação – auto-organização - diversidade – garantia de direitos

ABSTRACT: One possibility for contemporary organizations to develop in syntony with the demands of modern times is related to the amount of its self-organizative accomplishments. Diversity offers favorable conditions to these self-organizative processes. The CT (Conselho Tutelar), an organization created by federal law 8069/90 to reinforce the rights of children and adolescents disposed in this legal issue, besides presenting the characteristics that define contemporary organizations, has also the prerogative of executing differentiated practices to reinforce these rights. Thus, this article, in presenting and analyzing the diversity that constitutes the CT, tries to highlight this characteristic as a favorable condition for the innovatory character of the practices of this organization.

KEY-WORDS: Conselho Tutelar – formation – self-organization – diversity – reinforcement of rights

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

Este artigo trata da diversidade como uma das condições favoráveis ao processo de auto-organização do CT. Ele foi produzido a partir das pesquisas realizadas na elaboração da Tese de Doutorado em Serviço Social2. Nelas busquei investigar: Como se tem constituído o processo

1

Assistente Social, Mestre e Doutora em Serviço Social pela PUCRS, docente e pesquisadora do Curso de Serviço Social do Centro Universitário Metodista – IPA. Sócia da InPacto Consultores Associados. Contato: [email protected]

2

(2)

auto-organizativo do Conselho Tutelar (CT), no município de Porto Alegre, considerando o período de 1992 a 2001?

Parti do entendimento de que a auto-organização é uma capacidade natural ou adquirida que os sistemas complexos possuem, no sentido de proporcionarem a si mesmos condições e meios para subsistência e alcance de suas finalidades.

Dessa maneira, analisar o processo auto-organizativo do CT, a partir de uma orientação que se sustenta em perspectivas teóricas da complexidade e da auto-organização, significou reconhecer a diversidade que lhe é imanente e constitutiva, como base frutífera de sua capacidade criadora; reconhecer a sua desordem, como condição de organização e auto-referência; reconhecê-lo como sistema aberto e, portanto em permanente interação com o ambiente que o circula; e, ainda, por todas estas razões, reconhecê-lo, acima de tudo, como espaço possível da criação do novo, no que se refere às práticas de zelo pela garantia dos direitos das crianças e dos adolescentes, que transcendem à instância do CT.

Nesta perspectiva, a pesquisa realizada teve como pressuposto central que a idéia de auto-organização está intimamente ligada à de diversidade, visto que

[...] depois de um começo em que a criação da diversidade cria as condições de organização que integram essa diversidade, essa organização, por sua vez, favorece a criação da diversidade, integrando-a, o que favorece o desenvolvimento complexo dessa organização. (MORIN, 2001, p. 57).

Entre os dados primários da pesquisa, estão as respostas advindas das entrevistas realizadas com 35% dos Conselheiros Tutelares de Porto Alegre3. O instrumento utilizado para a coleta de dados foi a entrevista semi-estruturada. A segunda fonte primária desta pesquisa constituiu-se partir dos dados advindos de questionários aplicados a 77% dos Conselheiros Tutelares de Porto Alegre. A tentativa foi aplicar este instrumento no universo total de Conselheiros do município; entretanto, por motivos adversos, obtivemos respostas de 31 dos 40 Conselheiros Tutelares.

No que se refere aos dados secundários, utilizados nesta pesquisa, destaco o material decorrente da transcrição, na íntegra, do I Encontro Nacional sobre Conselhos Tutelares, ocorrido 3

A definição da amostra respeitou a critérios previamente definidos e que permitiram obter informações de Conselheiros, em alguma medida, vinculados as três gestões do órgão no município.

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em 1996, em Porto Alegre/RS. O método empregado para análise dos dados coletados foi a análise de conteúdo.

DIVERSIDADE: UMA CONDIÇÃO PROMISSORA À AUTO-ORGANIZAÇÃO

A organização de um sistema é resultado das relações entre os componentes de tal sistema, isto é, é a constituição que resulta destas relações e que permitem que o sistema seja reconhecido pelo que é. Em um sistema complexo formado por seres vivos, a organização assume características de auto-organização e é marcada pela capacidade de auto-reprodução do sistema, a partir das interações entre os componentes que o constituem e das interações estabelecidas com o ambiente que o cerca.

Ao fecharem-se sobre si mesmos, na busca de manutenção de padrões estáveis de relações e, conseqüentemente, de auto-referência, os sistemas vivos determinam internamente como serão as relações estabelecidas com o meio.

A emergência de padrões de ordem e de caos, concomitantemente, na dinâmica do sistema, também se constitui como característica do processo auto-organizativo. Isto ocorre devido ao estabelecimento de relações recursivas e de interação do sistema com o meio ambiente. Nesse sentido, a desordem aparece como elemento de ordem no sistema. Assim, quanto mais afastada do equilíbrio está uma estrutura, mais ela amplia sua complexidade e mais elevado é o seu grau de não-linearidade e imprevisibilidade.

Dentre as condições iniciais favoráveis à auto-organização, podemos referir a necessária diversidade de componentes na constituição dos sistemas. Vale ressaltar que, ao se constituir por diferentes agentes sociais, o sistema caracteriza-se por agregar diferentes habitus que, por sua vez, constituem “[...] um sistema de esquemas de produção de práticas e um sistema de esquemas de percepção e apreciação das práticas. E, nos dois casos, suas operações exprimem a posição social em que foi construído” (BOURDIEU, 1990, p. 158). Esta realidade se expressa na forma como os integrantes dos sistemas sociais interagem entre si e com o ambiente em que estão situados.

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Para Morin (2001, p. 60), “[...] a relação diversidade/complexidade é capital. A diversidade mantém, desenvolve, a complexidade eco-organizacional que, por sua vez, alimenta, mantém, desenvolve a diversidade”. Aliás, segundo uma perspectiva complexa, é possível reconhecer, no diverso da vida, o seu potencial de criação, ou mesmo, na transformação da vida, a diversidade. Isso ocorre porque “[...] a diversidade está inscrita numa unidade de vida. Esta, a partir de um primeiro ser celular, diversificou-se fervilhando pelos reinos vegetal e animal” (MORIN, 2002a, p. 59). Com isso, chegamos à noção de diversidade associada à noção de unidade.

Assim, os sistemas abertos constituem-se na relação necessária entre a unidade e a diversidade, entre a ordem e a variedade, numa permanente situação de desequilíbrio. Desta forma, diversidade esta associada à complexidade, à riqueza de qualidades de um sistema e, conseqüentemente, incide diretamente nas condições para que o mesmo se auto-organize.

Numa pesquisa, em que se busca analisar a auto-organização do CT parece evidente, então, a necessidade de analisar a diversidade presente em seus dispositivos legais e em sua dinâmica.

A DIVERSIDADE NOS DISPOSITIVOS LEGAIS DO CONSELHO TUTELAR

O CT surge associado a um conjunto de pressupostos legais que caracterizam a Doutrina de Proteção Integral à Criança e ao Adolescente. Esta Doutrina, normatizada, no Brasil, na Lei Federal nº 8.069/90 (Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA), emerge de um processo gestado na sociedade brasileira, e mesmo mundial, de busca de superação de uma lógica menorista de trato com a criança e o adolescente4.

Com base na idéia de que “[...] todo sistema nasce de uma unidade que se diferencia ou de uma diferença que se unifica” (MORIN, 2001, p.57), é possível inferir que o ECA surge da unificação de diferenças sem, no entanto, a supressão das mesmas. Dessa forma, a diversidade que se colocava nas origens de sua discussão manteve-se, em alguma medida, na redação final da

4

Neste estudo não tenho por objetivo tomar como unidade de análise do real a Lei nº 8.069/90. Optei por salientar sua diversidade primária, para explicitar a manifestação desta categoria na gênese do CT.

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lei e se expressa, ainda hoje, através das distintas maneiras pelas quais as diferentes instâncias e agentes sociais a interpretam.

Se a perspectiva hologramática de compreensão da realidade nos diz que “[...] cada ponto contém a totalidade do objeto reproduzido, quer dizer, as partes estão contidas no todo, mas este também está nele incluso” (MARIOTTI, 2000, p.95), a diversidade presente no ECA está também presente no que esta lei discorre sobre o CT.

A diversidade presente na gênese do Conselho manifesta-se e garante espaços para sua sobrevivência de diferentes formas. Uma delas sustenta-se no fato de que o ECA - ao colocar parâmetros mínimos de candidatura para função e processo de escolha do Conselheiro Tutelar e não legislar sobre forma de funcionamento e estrutura do órgão - deixa espaço para que cada município legisle sobre estes e outros aspectos que julgar necessários, dada as suas peculiaridades.

Vejamos a demonstração desta situação com relação aos requisitos para candidatura ao cargo de Conselheiro Tutelar. O artigo 133, do ECA referencia os que seguem: “I- reconhecida idoneidade moral; II- idade superior a vinte e um anos; III- residir no município” (BRASIL, 1990). Ao mesmo tempo, nos artigos 134 e 139, a lei permite a ampliação de outros requisitos e critérios de candidatura e funcionamento através das legislações municipais.

Nas fontes secundárias5 desta pesquisa, é revelada a permanência da diversidade entre os municípios, nos diferentes critérios e requisitos para candidatura, nas formas de escolha dos Conselheiros e de funcionamento do Conselho. Com relação aos critérios e requisitos de candidatura, é possível observar tal diversidade a partir dos extratos de falas6 que seguem:

E sobre os requisitos? São aqueles que estão no Estatuto. Acrescenta-se à idoneidade moral, aos 21 anos, e à residência no município, o diploma de nível

superior7 para concorrer ao CT ou reconhecida experiência no trato com a criança e o adolescente. (Representante do município nº 1)

5

Aqui me refiro aos dados extraídos do material advindo da transcrição do I Encontro Nacional sobre Conselhos Tutelares.

6

Estes extratos advêm das palestras proferidas no I Encontro Nacional sobre Conselhos Tutelares, cujo tema do painel era “Legislações municipais sobre Conselhos Tutelares”.

7

Na apresentação das falas, durante toda a tese, há destaques em negrito, recurso utilizado para salientar aspectos que evidenciam a idéia central contida na análise desenvolvida.

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Os requisitos para a candidatura acrescentam aos três já definidos no Estatuto os seguintes: segundo grau completo, comprovação de experiência há mais de

um ano em atividades na área da criança e do adolescente, prova escrita de conhecimento, seguida de entrevista; ambas seletivas. [...]. (Representante do

município nº 2)

Os requisitos básicos para ser candidato. Além dos três já citados, nós colocamos a reconhecida experiência de, no mínimo, dois anos no trabalho

com crianças e adolescentes e a escolaridade mínima de primeiro grau, de

primeira a quarta série, primeiro grau completo. Os candidatos, além de apresentarem esses requisitos, apresentaram um currículo no momento da inscrição, para que pudesse ser analisada toda a sua vida profissional. (Representante do município nº 3)

Com estes depoimentos, é possível constatar o quanto cada município expande os critérios e requisitos mínimos dispostos em lei. O conteúdo desta ampliação revela a própria concepção e expectativa de cada município com a ação deste órgão.

O mesmo acontece com relação à forma de escolha dos Conselheiros. É possível verificar tal realidade, nos extratos de falas que seguem:

[...] o Conselho chegou à conclusão que, numa primeira experiência, dever-se-ia mobilizar a sociedade organizada. Assim, essa sociedade organizada aponta os

delegados e os suplentes de delegados, e eles é que elegem o CT.

(Representante do município nº 1)

A forma de escolha foi definida, através de um Colégio Eleitoral, composto

por instituições credenciadas pelo Conselho [dos Direitos da Criança e do

Adolescente], constituídas a mais de dois anos e que demonstrem atuar nas

áreas de educação ou de assistência à criança e ao adolescente.

(Representante do município nº 2)

Assim, no início 1992, fizemos a primeira eleição dos Conselhos Tutelares [...]. Foi uma eleição direta, com voto secreto e facultativo, de todos os eleitores [...]. (Representante do município nº 4)

Também com relação ao funcionamento do CT, verificamos uma diversidade entre os municípios em questão.

Um dos Conselhos funciona junto à Secretaria, até para a gente agilizar esse contato, outro já funciona no bairro. Além disso, nessa relação com o Poder

Executivo, aparece também o SOS 1407. É o telefone que a comunidade dispõe para, imediatamente, acionar sobre qualquer situação de não relacionamento do Poder Executivo - CT. Esse SOS 1407 serve tanto para denúncias, como também serve para essa ponte imediata. Quando a Secretaria da Criança não dá resposta

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ao CT, o CT pode acionar essa questão, via comunidade, ou a comunidade via CT. (Representante do município nº 1)

Na mesma lei em pauta, ficou estabelecido que o CT funciona de forma

permanente; o Conselho não fecha. Os conselheiros tutelares trabalham em regime de plantão, sábados, domingos, feriados e à noite. Este plantão é centralizado. Os Conselhos funcionam de forma descentralizada, cada qual em sua sede, em toda a cidade. O plantão noturno e aos finais de semana é que

funcionam de forma centralizada [...] (Representante do município nº 4)

Essa diversidade apresentada até então decorre da flexibilidade e abertura do ECA, no que se refere a tais aspectos. Os extratos de fala apresentados até o momento, demonstram o quanto a lei, tendo surgido da unificação das diferenças, cria as condições favoráveis para permanência da diversidade e vice-versa. Como nos ensina Morin (2002, p.148), “[...] a diversidade é requisitada, mantida, sustentada e inclusive criada e desenvolvida na e pela unidade sistêmica que ela mesma cria e desenvolve”.

A diversidade contida na gênese do CT, também se explicita, nas próprias atribuições legais do órgão, dispostas na lei 8069/90 (ECA). No conjunto destas atribuições, a diversidade é elemento presente. É possível identificar atribuições de caráter burocrático, como é o caso da V, VII e VIII atribuição; de caráter político, por exemplo, a IX atribuição; e, mesmo de caráter assistencial, como na II atribuição.

Essa diversidade cria uma outra, relativa às características favorecidas pelas diferentes atribuições. Por exemplo, uma ação definidora de comportamentos ganha solo fértil para ocorrer nas disposições da atribuição II. Ao mesmo tempo, outro leque de atribuições (III, IV, X e XI) favorece uma ação de garantia de direitos.

Numa observação mais imediata das questões descritas até o momento, corre-se o risco de avaliar essas diferenças como danosas à existência do CT. Isto significa dizer que partimos do pressuposto de que a diversidade precisa ser excluída, em favor de uma uniformidade, e mais, de uma “uniformidade única”. Para estarmos mais sintonizados com a dinâmica da vida, deveríamos ter como pressuposto o fato de que a unidade é múltipla e, por esta razão, é que

[...] a extrema diversidade não deve mascarar a unidade, nem a unidade deve mascarar a diversidade: a diferença oculta a unidade, mas a unidade oculta as diferenças. Deve-se evitar que a unidade desapareça quando surge a diversidade

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e vice-versa. A unidade é fácil de compreender, mas difícil de incorporar, pois os espíritos recaem na disjunção que, em nossa cultura, domina o modo de conhecimento. (MORIN, 2002a, p.65)

Dito de outra maneira, o desafio é identificar o potencial criador contido na diversidade que se apresenta nos próprios dispositivos legais do CT. Se assim o fizermos, podemos referir que esta organização surge com características que favorecem sua sintonia com o tempo atual. A abertura que vem agregada a estes dispositivos permite que o Conselho possa se organizar de maneira a atingir os objetivos para os quais foi criado. Desta forma o órgão contempla as peculiaridades do ambiente em que ele está inserido e pode, efetivamente, ser inovador, na garantia de direitos à criança e ao adolescente.

Também é possível que, na organização desta estrutura, se consolidem definições que tornem o CT um órgão rígido e reprodutor de uma lógica menorista, que ainda encontra espaço nas ações de muitos agentes sociais que trabalham com a criança e com o adolescente. Assim, o CT também traz consigo, ao mesmo tempo, a possibilidade de se organizar como uma instituição cujas práticas não garantem direitos nem inovações.

Em síntese, a diversidade existente nos dispositivos legais do CT dá, ao mesmo tempo, condições para que sua estrutura e organização o caracterizem como órgão inovador na garantia de direitos da criança e do adolescente, ou, em situações limite, até mesmo como um órgão violador destes direitos.

Esta realidade, que está associada à concepção que os agentes responsáveis pela implantação e implementação do órgão possuem, se materializa tanto nas formas e critérios de escolha dos Conselheiros quanto pela prática cotidiana destes agentes.

A DIVERSIDADE NA DINÂMICA DO CT

Segundo o art. 132 do ECA, “Em cada Município haverá, no mínimo, um CT, composto de cinco membros, escolhidos pela comunidade local, para mandato de três anos, permitida uma recondução.” (lei 8069/90).

Dessa maneira, nota-se que tal estrutura integra, em sua constituição, a presença de cinco componentes, cujo único vínculo, em princípio, é o objetivo comum da função. A partir daí, estes

(9)

componentes devem trabalhar juntos na garantia de direitos das crianças e dos adolescentes, da comunidade a qual são relacionados.

As atribuições postas na lei para esta organização orientam que as ações realizadas pelos Conselheiros sejam sustentadas na Doutrina de Proteção Integral da Criança e do Adolescente. É facilmente identificada na realidade, entretanto, a diversidade das práticas realizadas, a partir das mesmas atribuições legais.

Para abordar esta questão, recorri à noção de habitus de Bourdieu. Habitus é a própria história incorporada nos agentes sociais. É a partir do habitus que desenvolvemos nossas práticas e interagimos com a realidade.

Isso significa que, a partir das experiências concretas e subjetivas pelas quais passamos, um sistema interno de disposições vai se constituindo e se manifesta, de forma explícita ou sutil, em todas as ações que realizamos e em todas as percepções que temos frente à realidade. É por esta razão que o habitus possibilita o conhecimento das prováveis práticas desenvolvidas pelos sujeitos.

Assim, quando se recorre a noção de habitus para analisar a diversidade expressa na dinâmica do CT, necessita-se, inevitavelmente, reconhecer e analisar em que elementos estão alicerçadas as práticas dos Conselheiros Tutelares, tais como: a formação pessoal dos Conselheiros Tutelares; as experiências pelas quais passaram os Conselheiros; as concepções que estes agentes têm de sua função e da própria organização que compõem; os valores e crenças que orientam as práticas dos Conselheiros; as formas como reagem diante das situações que se apresentam e a forma como interagem com os demais agentes sociais. Enfim, a presença ativa do passado que as produziu.

Estes são alguns elementos que permitem a problematização de como os traços da história da criança e do adolescente, incorporados no habitus dos Conselheiros, têm incidido na diversidade presente na dinâmica cotidiana do CT.

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A partir dos dados coletados nas fontes primárias8 desta pesquisa, é possível fazer um mapeamento de como estes elementos estavam configurados nesta organização no período em análise.

Em relação à formação pessoal e profissional, quero iniciar referenciando questões relativas a dois aspectos relacionados ao habitus: o tempo e os parâmetros de formação dos Conselheiros Tutelares com relação à criança e ao adolescente.

Para analisar a questão do tempo em que foram formados, podemos recorrer aos dados relacionados à idade, às experiências de vida e ao tempo de trabalho desenvolvido junto a crianças e adolescentes por estes agentes9. Estes dados, em alguma medida, servem como indicadores de quais valores e crenças predominavam na formação dos Conselheiros pesquisados. Com relação à idade, identifica-se que, entre os Conselheiros participantes da pesquisa, a faixa etária predominante é de 32 a 41 anos, com 38,7%; seguida por 42 a 51, com 25,8%; e entre 52 a 61, com 19,4%.

No que se relaciona às experiências de vida de cada um, é possível verificar que, do total de respondentes, 71,4% tinham sua experiência anterior, junto a movimentos e organizações comunitárias (destes, 40% eram Conselheiros de 1ª e 2ª gestão e 60%, Conselheiros de 2ª e 3ª gestão); 50% tinham sua experiência anterior vinculada a movimentos e organizações religiosas (28,5% da 1ª e 2ª gestão e 71,4% da 2ª e 3ª gestão); e, ainda, 21,4% eram vinculados a organizações profissionais (destes, 66,6% da 1ª e 2ª gestão e 33,3% da 2ª e 3ª gestão).

Especificamente quanto ao tempo de trabalho, desenvolvido com crianças e adolescentes, antes de ser Conselheiro Tutelar, 45,2% afirmam ter mais de 10 anos de experiência; 29% possuem entre dois a cinco anos; e 25,8%, entre seis a 10 anos.

Tomando por base a idade e o período de experiência com crianças e adolescentes, pode-se inferir que a formação inicial destes agentes e que perdurou, explicitamente, até anos 90, traz resquícios de uma história onde a população infanto-juvenil era vista como incapaz de

8

As fontes primárias referem-se aos dados advindos de questionários e entrevistas, aplicados junto aos Conselheiros Tutelares do município de Porto Alegre, no período de 1998 e 2000.

9

Estes dados são extraídos dos questionários respondidos pelos Conselheiros Tutelares de Porto Alegre, no ano de 2000. Estes Conselheiros eram representantes da 2ª e 3ª gestão no município.

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produtividade, alvo de proteção, ou mesmo, desviante dos padrões estabelecidos na comunidade adulta.

A partir da Doutrina de Proteção Integral, busca-se conceber e tratar a criança e o adolescente como sujeitos de direitos em condição especial de desenvolvimento e, portanto, merecedores de prioridade nas ações desenvolvidas pela sociedade e seus agentes.

Dessa maneira, a possibilidade de que estes Conselheiros tenham concepções e realizem práticas sintonizadas com a nova doutrina parece ficar reduzida. Isto se explica, em parte, devido aos dispositivos internos que estes agentes trazem de sua formação e que os orientam na interpretação das situações que envolvem violação de direitos e intervenção sobre elas, na busca de fazer cessar tal violação.

O dado relativo aos espaços de formação pelos quais passaram estes Conselheiros demonstra a possibilidade de rupturas com tal realidade. Os percentuais centrais das questões descritas anteriormente nos mostram que, quase metade dos Conselheiros, antes de assumirem o cargo, já desenvolvia trabalhos na área da criança e do adolescente há mais de 10 anos; que todos os Conselheiros têm idade acima de 32 anos; e, ainda, que as experiências vividas por cada um são de origens diversas.

Fica evidente, então, a condição potencial de evolução e desenvolvimento destes agentes. Esta condição decorre, muito provavelmente, de que as práticas desenvolvidas por estes Conselheiros Tutelares revelam-se, ao mesmo tempo, semelhantes e variadas, em unidade e em diversidade.

Em outras palavras, estas práticas, conforme os dados relacionados à idade dos Conselheiros, constituem uma unidade, se pensadas em função dos parâmetros relacionados à criança e ao adolescente, oficialmente vigentes na época da formação de seus agentes. Ao mesmo tempo, constituem uma diversidade, se pensadas a partir das habilidades, valores e crenças, incorporados pelas diferentes experiências de vida dos Conselheiros. Recorrendo aos dados advindos das entrevistas10, podemos verificar esta realidade.

10

Estes extratos de fala advêm das transcrições das entrevistas realizadas com os Conselheiros Tutelares no ano de 1998.

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Eu fui criada dentro de movimentos. Toda minha formação foi dentro de

movimentos da Igreja [...] (Conselheiro Tutelar M)

Eu profissionalmente, fazia, tinha uma microempresa, uma distribuidora de balas e fazia um trabalho paralelo na Igreja. (Conselheiro Tutelar J)

Eu trabalhava como professora[...]. (Conselheiro Tutelar F)

As práticas dos conselheiros, entretanto, constituem novamente outra unidade, se pensadas sob a ótica do objetivo e da função central do CT. Nos dados da pesquisa, verifiquei que 80,6% dos respondentes disseram saber o que era o CT, antes de concorrerem à função. Num percentual de 50%, eles o definiriam como órgão defensor de direitos; 42,8%, como órgão que usa de autoridade quando os demais não cumprem sua função; e 28,5%, como órgão de aplicação de medidas.

Recorrendo aos dados das entrevistas, novamente podemos verificar que existe unidade e diversidade, ao mesmo tempo, na realidade configurada no CT. No que se refere à concepção relativa ao Conselho, a unidade – dada pela definição legal do órgão – manifesta-se explicitamente. Observem os relatos seguintes:

[...] um grupo de pessoas ligadas intimamente à comunidade, que, com um conhecimento na área, específico, da defesa dos direitos da criança e do

adolescente, fazem valer ou buscam valer aqueles direitos que a gente vê serem

violados diariamente. (Conselheiro Tutelar C)

O CT, ele defende direitos de crianças e adolescentes. Isso é o que consta na lei, no estatuto, e ele deve defender esses direitos. (Conselheiro Tutelar F)

Igualmente, nas entrevistas, explicitam-se aspectos que evidenciam a presença da diversidade nas práticas desenvolvidas por este grupo de conselheiros, que apresentou unidade nas suas concepções com relação ao órgão.

Aconselhar uma pessoa, dar aquilo que a gente tem vontade que a pessoa faça e

que eu gostaria também que todos fizessem. (Conselheiro Tutelar K)

A gente desenvolve o papel de Conselheiro e tem, se a gente quer ver as coisas andarem, nós temos que extrapolar além da nossa atribuição. Então, temos a incumbência de ser Conselheiro, legal, mas fazemos o papel de assistente social, de psicólogo, às vezes de polícia, de investigador. Às vezes, “tomamos nos dedos”. (Conselheiro Tutelar B)

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Apoio social, né? Que a nossa população muito carente, eles têm muita

desinformação que vêm no Conselho porque é o único órgão que tá com as

portas abertas e que não se nega de atender, mesmo não sendo atribuição dele.

(Conselheiro Tutelar G)

Essa interpenetração entre unidade e diversidade é que garante a complexidade na existência do CT e, em grande medida, é o que potencialmente confere ao órgão sua capacidade auto-organizativa.

Segundo Morin (2001, p.58), entretanto, deve-se “[...] destacar que o desenvolvimento da complexidade não é necessariamente um crescimento quantitativo de diversidade, e que o desenvolvimento da diversidade obedece a princípios complexos, ou seja, não somente quantitativos”.

Assim, não busco aqui, ao evidenciar a diversidade do Conselho em sua amplitude, associar o grau de complexidade, prioritamente, à quantidade de diversidade. É também a existência de tal diversidade, contudo, que favorece que as associações e interações no sistema CT sejam complexas. Assim, sua dinâmica é regida por princípios complexos. Dentre eles, está o da recursividade, onde as relações entre os elementos do sistema desencadeiam, além de uma circularidade causal, a autoprodução do mesmo.

Dessa maneira, a diversidade presente na constituição e dinâmica do CT, ao tornar-lhe complexo, confere a possibilidade de que, em seu processo recursivo, ela possa ir construindo uma unidade diversa, em que a interconexão das diferenças permita a emergência de um novo padrão de organização e estrutura, sintonizado com o objetivo para o qual foi criado.

Para tanto, é preciso que se oportunize ao sistema condições favoráveis para que exista “[...] ao mesmo tempo uma maior riqueza na diversidade e uma maior riqueza na unidade (que será, por exemplo, fundada na intercomunicação e não na coerção)” (MORIN, 2002, p.148-149).

Ora, se estamos analisando um sistema social, no caso o CT, estamos pressupondo-o como um sistema formado por seres vivos, onde as interações entre seus componentes criam e alimentam os fenômenos que denominamos sociais. Desta forma, o desafio é oportunizar aos seus integrantes a otimização destas diversidades, através da criação de condições para o estabelecimento da unidade diversa. Em outras palavras,

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É preciso então que na organização sistêmica, as forças de atração, as afinidades, as ligações, as comunicações, etc., predominem sobre as forças de repulsão, exclusão, dissociação, que elas inibem, contêm, controlam, enfim, virtualizam. (MORIN, 2002, p. 151, grifo do autor)

Ainda, segundo Morin (2002, p.149, grifo do autor), “A organização de um sistema é a organização da diferença. Ela estabelece relações complementares entre as partes diferentes e

diversas, assim que entre as partes e o todo”. Ao falarmos de afinidades, ligações, relações

complementares e intercomunicações, estamos referenciando a forma como as interconexões são estabelecidas entre as diversidades do sistema em questão. Tanto as relações complementares quanto as intercomunicações, se favorecidas no sistema CT, provavelmente encontrarão terreno fértil para propiciar o processo auto-organizativo do mesmo.

Esta assertiva funda-se nos dados que revelam a abertura e a evolução dos Conselheiros, a partir das experiências no cargo. A concepção sobre o que era o CT, após o exercício da função de Conselheiro, modificou-se para 67,7% dos respondentes. Dos Conselheiros que responderam “sim”, 28,5% justificaram a mudança de entendimento, dizendo que tinham, anteriormente, uma visão superficial; e 14,2%, afirmaram que esclareceram melhor as atribuições do CT.

A própria disponibilidade para troca grupal ficou evidenciada nos dados do advindos dos questionários. Neles, foi possível verificar que, embora no exercício de sua função cotidiana, os Conselheiros, num percentual de 64,5%, baseiam-se no bom senso para tomar decisões e intervir nos casos e, em 58,1% das vezes, orientam-se pela discussão com os colegas.

Essa realidade abre a possibilidade de que seja possível pensar formas de auxiliar o CT a auto-organizar-se, de maneira sintonizada com o tempo atual. A intensa diversidade que existe no Conselho demanda direção, para que possa, recursivamente, se constituir na unidade diversa. Isto é fundamental, até mesmo porque

[...] não é qualquer diversidade, de qualquer modo, em qualquer lugar, que pode produzir interações eco-organizadoras (cf. GAUTHIER et al., p. 120). Não basta amontoar numa arca de Noé o salgueiro e o baobá, a rena e o leopardo, a arara e a cegonha, para que isso se constitua um ecossistema. Toda organização da diversidade sofre e produz limitações. (MORIN, 2001, p. 58)

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Dessa maneira, é preciso pensar em formas de favorecer a criação de uma unidade múltipla e, conseqüentemente, enriquecer seu processo de auto-organização, além de se reconhecer a diversidade presente no CT, como fator de riqueza e potencialidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando as questões expostas neste artigo, fica-nos evidente que o processo auto-organizativo do CT dispõe, desde os seus dispositivos legais até a dinâmica cotidiana de sua existência, de inúmeras possibilidades para sua realização. São exatamente estas possibilidades que favorecem a emergência de padrões de estrutura e organização, em maior sintonia com o tempo atual.

Em relação a este aspecto, saliento que o CT é um órgão cujos parâmetros legais caracterizam-se pela presença do diverso ou, ainda, pela criação de condições para que ele se instale.

Nesse sentido, a diversidade, que é imanente e produtiva ao sistema, oferta condições para uma auto-organização, que possibilita ao CT a criação de novas práticas relacionadas aos propósitos para os quais foi criado. Isso ocorre porque a diversidade possui uma unidade múltipla, mesmo que muitas vezes não reconhecida. O desafio que está posto, então, é o de favorecer o reconhecimento desta unidade múltipla no CT, de forma que este possa desenvolver sua capacidade de auto-organização.

Com isso, quero salientar a importância de que, durante a implantação e implementação do CT, os elementos diversos, próprios deste órgão possam ser direcionados em prol de que as práticas desenvolvidas pelo mesmo sejam inovadoras, sintonizadas com as características da atualidade e atendam às demandas e necessidades para as quais o órgão foi criado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACCARDO, Alain. Iniciation à la Sociologie. Paris: Macaret, 1983.

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MARIOTTI, Humberto. As Paixões do Ego: complexidade, política e solidariedade. São Paulo: Palas Athena, 2000.

MORIN, Edgar. O Método II: A Vida da Vida. Tradução Marina Lobo. Porto Alegre: Sulina, 2001.

MORIN, Edgar. O Método I: A Natureza da Natureza. Tradução Ilana Heineberg. Porto Alegre: Sulina, 2002.

MORIN, Edgar. O Método V: A Humanidade da Humanidade – a identidade humana. Tradução Ilana Heineberg. Porto Alegre: Sulina, 2002a.

Referências

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