DO
CÁVADO
(NOTA PRELIMINAR)POR
ORLANDO RIBEIRO,
J.
M. COTELO NEIVA
E CARLOS TEIXEIRA
A carta geológica de 1899 indica como plíocênícos uma série de retalhos dispostos ao longo dos rios minhotos e em parte ao litoral adjacente: Os depósitos superficiais que cobrem o maciço antigo, à excepção dos grés do Buçaco, considerados Senonianos, foram atribuídos na carta, geralmente com pouco cri-tério, ao Miocénico no Sul, ao Pliocéníco no Norte. Os estudos de H. Lautensach e O. Zbyszewski permitem generalizar a exis-tência de Quaternário a tôda a região, tanto nas praias como nas margens dos rios. Com o fim de reconhecer e destrinçar fácies e tentar precisar-lhes a data, percorremos, em Agôsto de 1943, a bacia do Cávado, a juzante de Lago, e acosta entre São-Félix e a Apúlia.
Separada do mar por um cordão de dunas actuais, recen-temente fixadas, estende-se nas áreas de Estela, Críaz, Apúlia, Fão, etc., até às Necessidades, no interior, uma praia elevada, que se inclina suavemente para o mar e alcança 30 metros nos seus pontos mais altos. O corte O-E é o seguinte: próximo das dunas, que em parte o cobrem e ocultam, encontra-se um manto de calhaus de grandes dimensões (10 a 20 cm. de diâmetro), dispersos em areias graníticas consolidados por
ci-mento caulinico; êste manto (Fig. 1), com 2 metros de espessura, assenta numa camada de areias também graníticas, de espessura
Fig.1- Depósito da praia tir r en iana , num corte à mar
-gem da estrada da Apúlia par a asNecessidades.
desigual, a qual por sua vez se sobrepõe a argilas grêsosas
micáceas ou ao substracto de rochas do maciço antigo.
Mais.para o interior, os calhaus, de menores dimensões, cobrem directamente xistos e quartzites com espessura cada vez menor até deixarem de formar um manto continuo, passando a juncar a superfície bem nivelada das rochas.
Em todos os pontos se observou grande quantidade de indústrias de fácies languedocense muito grosseira, com predo-mínio de calhaus truncados; apare-ceram t am b é m alguns instrumen-tos de talhe biface
e dois
coup-de--poings acheulen-ses típicos. Mui-tos apresentavam claros vestígios de rolamento pelo
mar e de forte
desgaste eól ico , confirmado tam-bém por muitos calhaus facetados e polidos pelo vento.
A topografia da praia elevada e da superfície de abrasão que a continua para o interior conserva-se com tôda a frescura, e passa insensivelmente, por uma ladeira mais íngreme, para um nível de cêrca de 100 metros, geralmente talhado na rocha, mas coberto no sopé da colina de São-Félix por um manto de areias finas, de grão bem rolado e calibrado, cimentadas por caulino impregnado de Iimonite e localmente de hematite, que chega a formar verdadeiros rochedos.
Estas areias cobrem em parte os flancos da colina de São-Félix, numa espessura medida de 25 metros, e desaparecem depois por baixo de um importante depósito de vertente em que predominam os calhaus de
quartzíte
da crista silürica.Num corte à beira da estrada de Necessidades-Póv oa , junto de Laundos, observa-se claramente a natureza marinha do depósito; vêem-se as areias cobrirem recifes de quartzite e grauvaques paleozóicos, onde se notam vestígios de desgaste pelas vagas.
Temos portanto nesta área do litoral duas plataformas de abrasão com os correlativos depósitos de praia elevada. A mais baixa pode, talvez, atribuir-se ao Tirreniano, nível geralmente observado com grande desenvolvimento na costa portuguesa a altitudes que concordam perfeitamente com as cotas extremas marcadas na região, compreendidas entre 20_e 30 metros.
A praia mais elevada não tem tão larga representação topográfica, mas concorda, na altitude e no aspecto das areias, com as formações atribuídas ao Pliocénico. Acima dela a colina
de São-Félix constitufa um promontório rochoso elevado.
A atribuição a êste perfodo, estabelecida por analogia, é hipoté-tica, embora a consideremos como muito provável.
A plataforma de 30 metros liga-se para o interior a um nível que se observa com grande generalidade ao longo do vale do Cávado, bem marcado por nesgas de um manto de calhaus rolados que constituem um terraço 30 metros acima do leito do rio.
A jusante de Barcelos, o Cávado afasta-se da direcção geral de ENE -
aso
e abre, através de escarpadas margens graníticas, uma passagem E-O por onde alcança o estuário. Pesquisamos sem resultado terraços ou níveis nesta parte do percurso encaixado, o que nos leva a supor que se trata de um segmento recente, como o mostram as margens abruptas, ainda que um tanto afastadas.O curso que corresponde ao nível de 30 metros observa-se perfeitamente, na seqüência da direcção geral do rio, em cortes ao longo da estrada de Barcelos-Necessidades; com os depósitos de terraço concorda também a topografia plana de uma larga faixa separada do curso actuai do Cávado por algumas eleva-ções graníticas.
talude da estrada permite ver claramente os calhaus rolados do terraço cobertos por uma formação de grãos de pequenas dimensões, em estratificação entrecruzada, com intercalações de calhaus e leitos de argila gresosa. Trata-se, portanto, de um depósito de estuário, cujas águas teriam invadido neste lugar o leito do rio. Á margem da mesma estrada, junto de Mota, formações de grão muito fino, bem calibrado, sem calhaus, com bela estratificação entrecruzada, mostram que o regime de estuário dominou aí claramente. O Cávado seguiu portanto o percurso indicado por êstes sedimentos e vinha perder-se no litoral correspondente à plataforma de 30 metros. Cremos ser êste um dos mais belos exemplos, descritos em Portugal, de ligação de um terraço à praia elevada do mesmo nível e idade. O. Zbyszewski indicara já a possibilidade de uma antiga foz do Cávado ao Sul da actual e considerara a formação de calhaus rolados sobreposta a areias grosseiras, observada na estrada das Necessidades, a E. da Apúlia, como um depósito fluvial, afectado posteriormente por uma inclinação tectónica do substracto. A continuidade da praia de 30 metros nesta área e o rolamento perfeito dos calhaus mostram tratar-se de um depósito marinho assente na plataforma de abrasão, natural-mente inclinada para o mar. A antiga foz do Cávado, que foi determinada com tôda a precisão, encontra-se, alguns quilóme-tros para o interior.
O Tirreniano constituiu assim,segundo parece, uma pausa importante nas oscilações marinhas do Quaternário, que per-mitiu talhar a bela plataforma de abrasão e construir o terraço
ao largo do rio. Não observámos, nem acima nem abaixo
dêste, vestígios claros de qualquer outro nível quaternário. Como na generalidade do litoral português, a plataforma pliocénica domina-o de cêrca de 70 metros.
O terraço assenta naturalmente em tôdas as formações onde o rio escavou o leito. Assim, em-Barcelos, junto do cemi-tério, o
beâ-rock
é constituído por xistos ante-sílüricos e por granitos. Nos barreiros ao Norte da cidade, o manto de calhaus repousa numa arcose muito grosseira, de grãos mal rolados, com intercalações horizontais ou oblíquas de calhaussub-anzu-losos não muito grandes. i::ste último depósito cobre por sua vez argilas micãceas, às vezes puras, com espessuras que alcançam 6 metros.
No Cruto, e dêste lugar até Prado, observa-se claramente a sobreposição das duas últimas formações. O complexo assenta numa
topogra-fia irregular, 'com a aparência de bacias
fechadas , preenchidas por enchimento argi-loso que alterna com camadas gresosas. Em certos pontos aparece uma camada de argilas negras com fragmen-tos de lenhite e vege-tais fósseis, entre os quais se encontram Lygodium Oaudini,
Pteris
sp. (idêntico a outro da diatomite de Rio-Maior), etc., o que indica para estas for-mações uma idadefran-camente terciária. A Fig.2- Umaspect o da formaçãodoaltodoCruto, mesma a r g i Ia negra em Cabanelas. Estratificação entr ecru zada.
contém abundantes
nódulos piritosos, de origem orgânica; no Cruto notou-se,que estas formações exalavam gases combustíveis.
O depósito descrito parece corresponder ,a um regime de escoamento deficiente com sedimentação em bacias pan-tanosas.
A parte superior das formações indica 'uma mudança importante nas condições gerais do ambiente. Predomina um transporte torrencial ou mesmo impetuoso com abundante arraste de material grosseiro. O transporte, todavia, não deve ter sido grande nem o escoamento se fêz por aparelhos fluviais
Seríamos tentados a paralelizar estas formações superiores com os extensos mantos de blocos pliocénicos (Villafranquiano) observados em vários pontos do maciço antigo. A ausência de quartzites na região explica o não aparecimento de blocos de grandes dimensões. O rejuvenescimento do relêvo nessa época, devido a erosão intensa acompanhada de surrecção
tectónica, deixa perceber-se na natureza grosseira dêstes depó-sitos. Os blocos de granito chegavam provàvelmente já
esbo-.roados às bacias de sedimentação e os calhaus são constitufdos
Fig. 3- Aspe cto geral dos bar re iros<lo alto do Cruto,emCabanelas.
apenas por fragmentos .arrancados aos inúmeros filões de quartzo e de pegmatítes que atravessam a região.
Na estrada de Prado, adiante de Cabanelas, a cascalheira do terraço de 30 metros sobrepõe-se às formações argilosas. Estas estão, portanto, umas acima, outras abaixo, do antigo nível fluvial, consoante as vissicitudes da topografia modelada pela erosão, visto que ocuparam na bacia do Cávado extensão superior à de hoje.
Em Lago, no esporão de confluência do Homem e do Cávado, encontra-se, sobranceira a êste último, uma formação de mais de 20 metros de espessura constitufda por calhaus de quartzo bem rolado, em leitos ou bolsas, envoltos numa arcose de
:lementos sub-angulosos. No interior da massa aparecem ín
ü-neros blocos de granito tão alterado que os contornos dêles á mal se distinguem da arcose envolvente.
Numa saibreira entre a povoação e o rio, a formação ireenche uma marmita talhada no granito. No mesmo ponto, luas falhas conjugadas, no granito, afectaram ainda o depósito iue se mostra em contacto anormal com êle,
Já pela espessura e alteração dos materiais, já pela altura icima do leito do rio, não nos parece possivel paralelizar êste
íepósito com o terraço de 30 metros,de que todavia o aproxima
Fig.4 - Fragmento lignitoso, proveniente de Cr u to , com Lygodiuln Gan di ni ePteris sp.(x2).
o rolamento dos calhaus. O nível tirreniano parece corres-ponder à plataforma ocupada pelo castro, sobranceiro ao rio; mas não é fácil distinguir a cascalheira do terraço dos elementos bem rolados sôbre que êle assentaria.
Dispersos na povoação e nos caminhos, encontram-se grandes blocos de quartzo, mal rolados, que não vimos no interior do depósito e cuja proveniência, certamente próxima, não podemos averiguar.
Parece-nos provável o paralelismo desta formação com a parte superior do complexo de Cruto, aqui assente directamente no granito. As formações argilosas não se estenderam até esta área.
Estas simples notas de campo e as conclusões importantes a que ,foi possível chegar em poucos dias de observações, mos-tram a necessidade de examinar as formações demarcadas como' Pliocénicas nas bacias dos outros rios do Minho, já que as plata-formas do litoral deixam estabelecer entre elas segura, base de correlação. Um estudo mais pormenorizado dos vales dos mesmos rios permitiria talvez confirmar ou infirmar a existência
Fig. 5-Lygoàium GauàiniReer. Beconatítufção de uma pínula (x '/.).
de deformações recentes, que a notável investigação de H. Lau-tensach revelou para o Minho.
O prosseguimento dêste estudo 'no vale do Cávado levaria, ao mesmo tempo, a pôr o problema das relações entre os terraços da parte vestibular do vale, cuja evolução é dirigida pelas oscilações do nível do mar, com os terraços ou níveis de rocha que, porventura existam na parte montanhosa, onde cimos de quási 1.500 metros fazem supor, desde sempre, alimen-tação intensa, erosão vigorosa e transporte de importante carga sólida.