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Antonio Candido - O Romantismo No Brasil

Antonio Candido - O Romantismo No Brasil

na literatura portuguesa, que teve no Romantismo brasileiro uma ocorrência que se poderia considerar notável, se os seus produtos tivessem sobrevivido em maior número. Sabemos que muitos além dele praticaram o gênero, entre os quais provavelmente Álvares de Azevedo; mas é claro que ao entrar na ―vida prática‖ eles descartavam tais poemas, e os organizadores de obras póstumas jamais pensariam em incluí-los. Há materiais inéditos a serem publicados, mas por enquanto o que conhecemos é muito pouco. Chamada em geral ―bestialógico‖, a poesia do anfiguri foi denominada expressivamente pelos estudantes românticos de São Paulo ―pantagruélica‖. Vista de hoje, ela seduz pela força da associação livre e pelo insólito das situações, nascidas de um automatismo revelador de estranhas obsessões. Ao mesmo tempo, depois das experiências de hermetismo e as do associacionismo surrealista, nós a podemos ver como manifestação de um lado importante do jogo poético: a livre combinação de palavras e o direito de elaborar objetos gratuitos.
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As duas culturas: Antonio Candido e a formação da sociologia e da literatura no Brasil

As duas culturas: Antonio Candido e a formação da sociologia e da literatura no Brasil

Pode-se sugerir a eventualidade de algumas – talvez não indispensáveis – figuras como José Veríssimo, Soriano de Albuquerque, Almáquio Diniz, Gama Rosa, Álvaro Bomilcar e Azevedo Amaral, todavia, o que salta aos olhos são as ausências de Tavares Bastos, Pereira Barreto, Alberto Salles e Joaquim Nabuco, bem como a subestimação da influência do positivismo (e suas variações) na formação da sociologia brasileira, ao que parece, excluídos devido ao critério metodológico adotado pelo autor. Nesse sentido, o esquema interpretativo adotado por Candido assemelha-se ao que fora testado (com relativo êxito) em Formação da literatura brasileira, no qual aborda a literatura brasileira como base num sistema que compreende a relação entre produtores, receptores e obras e mecanismos de transmissão cultural.
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Antonio Candido

Antonio Candido

Mas a vida intelectual não se alimenta só de relações famosas. A minha esteve sempre entrelaçada de maneira profunda com pessoas sem projeção, que foram decisivas, a começar por meus pais, ambos cultos e excepcionalmente atuantes na formação dos filhos. Fora da família menciono, por exemplo, Dona Maria Ovídia Junqueira, minha professora no Ginásio Municipal de Poços de Caldas, que me iniciou na cultura de língua inglesa, me deu o hábito de ler a Bíblia (era protestante) e me fez ler precocemente obras que em geral só são lidas mais tar- de, como peças de Shakespeare. Nesse ginásio tive dois colegas cujo convívio foi importante no meu amadurecimento: os irmãos Antonio Carlos e José Bonifácio de Andrada e Silva, sobretudo este. Eles revelaram Casa grande & senzala, mais tarde Raízes do Brasil, reforçaram a inclinação pelo socialismo, contribuíram para incrementar o interesse pela literatura brasileira do momento, quebrando um pouco o meu hábito de preferir os clássicos, adquirido durante longa estadia na França com minha família.
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Antonio Candido: três textos decisivos

Antonio Candido: três textos decisivos

Como salienta Pascale Casanova (2002, p. 285), no esquema proposto por Candido, a partir de uma primeira acumulação literária, ela mesma tornada possível por uma inversão da herança europeia, a literatura latino-americana, com especificidade e autonomia, pode se afirmar. Exemplos: o boom dessa literatura nos anos 1970-1980 e o realismo mágico como gênero original. Hoje, não se concebe pensar a literatura latino-americana fora dos fluxos da cultura globalizada, respondendo a um imaginário de intercâmbio cultural extrafronteiras do continente. Naquele momento, porém, até como estratégia política, era importante a afirmação da latino-americanidade. O texto foi publicado no auge da ditadura militar no Brasil e do prenúncio dos golpes militares que atingiriam rapidamente todo o chamado Cone Sul. O ensaio foi publicado na revista Argumento, em 1973. A revista teve quatro números, publicados entre 1973 e 1974, e saiu de circulação, proibida pela ditadura. Antonio Candido, juntamente com outros importantes intelectuais ligados à resistência ao regime autoritário, integrava a Comissão de Redação da revista.
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A sociologia clandestina de Antonio Candido.

A sociologia clandestina de Antonio Candido.

Antes, porém, de prosseguir no cotejo anunciado, é necessário recupe- rar um aspecto do debate realizado por Mariza Corrêa no contundente ensaio “Repensando a família patriarcal brasileira” (1994). Nele, a autora procura discernir, por meio de “cuidadosa análise ‘interna’ dos textos prin- cipais da literatura sobre família no Brasil”, os pressupostos ideológicos envolvidos na concepção do conceito de família patriarcal, com ênfase nos clássicos trabalhos de Gilberto Freyre e Antonio Candido. Em que pese as diferenças de ponto de vista entre ambos, ao privilegiar como referência analítica o modelo estabelecido pela família patriarcal, “os autores parecem compartilhar com muitos outros estudiosos a ilusão de que o estudo da forma de organização familiar do grupo dominante, ou de um grupo do- minante numa determinada época ou lugar, possa substituir-se à história das formas de organização familiar da sociedade brasileira” (Corrêa, 1994, p. 19). Desse modo, o estudo de Candido teria se limitado ao retrato do modelo dominante, apesar da variedade – e mesmo predomínio – de certas formas familiares alternativas. Observa ainda a autora que, na medida em que confere importância exagerada ao núcleo familiar na organização da sociedade brasileira do período colonial, Candido acaba atenuando a in- fluência do aparelho estatal na constituição da ordem social do período. Em conseqüência: “É como se a sociedade colonial brasileira pudesse ser equiparada a uma sociedade primitiva, sem Estado [...]” (Idem, p. 25).
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Antonio Candido por ele mesmo:  a entrevista como momento de mediação

Antonio Candido por ele mesmo: a entrevista como momento de mediação

Candido possuem uma feição essencialmente materialista, uma percepção que abraça diversas frentes de atuação. Comentando a prática de pesquisa, ele faz um balanço: “Se há uma orientação geral da minha atividade, tanto no campo da sociologia como no da literatura, eu diria que é a paixão do concreto.” (CANDIDO, 2002, p. 126). Apenas para ilustrar rapidamente, lembremos Os parceiros do Rio Bonito: o quadro de referências inclui autores das áreas de sociologia e antropologia, mas a inspiração e a orientação da pesquisa não vieram de conceitos formulados em livros e, sim, da observação da prática social de uma comunidade específica. Os resultados obtidos se destacam menos pela manipulação conceitual do objeto do que pelo vai e vem dialético entre a condição material de vida de uma certa camada social no interior paulista, o processo de transformação perpetrado pelo desenvolvimento mundial do capitalismo e seus reflexos no Brasil. O modo como esses âmbitos interagem no curso da história, ou seja, sua existência no âmbito do real, engendram os conceitos e esquemas de pensamento a partir dos quais Candido fundamenta suas análises. No caso de Formação da literatura brasileira – enquanto estudo historiográfico –, o materialismo não se encontra no levantamento de obras, autores, documentos e fatos, mas na estruturação do material, na ênfase do princípio explicador, no modo como a literatura vai entrelaçando temas e formas no decorrer do desenvolvimento histórico. As obras – independentemente da qualidade – não são vistas como fatores isolados no mundo das letras, mas como produtos sociais:
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Antonio Candido e José Mindlin

Antonio Candido e José Mindlin

AC: Bem mais importante, é outra coisa. Você vê, a partir daquele impulso inicial, saíram as revistas, a segunda fase da Revista do Brasil, essas revistas todas que o José reeditou, e mais isso e mais aquilo. Saiu a grande fermentação intelec- tual; e esses modernistas avançados, na maior parte, ou foram para o Partido De- mocrático ou para a esquerda. E aqueles modernistas mais tradicionais ficaram na direita e no PRP. Ora, do Partido Democrático e da redação de O Estado de S. Paulo, que acabou aceitando o Modernismo, saiu a Universidade de São Paulo. O piparote inicial foi a Semana de Arte Moderna que deu. A fundação da Universi- dade de São Paulo é uma coisa básica na cultura brasileira, porque transformou a cultura do Brasil em todos os setores. Sem querer forçar muito, ela foi devida ao grupo que completou o projeto da Semana de Arte Moderna: Júlio de Mesquita Filho, Fernando de Azevedo, Paulo Duarte, Antônio de Almeida Prado e outros. Eles não aceitavam a estética do Modernismo, mas desenvolveram muito da sua ideologia no campo da cultura. E há outro tipo de modernidade no Brasil, com- pletamente diferente. A do Monteiro Lobato, por exemplo. Uma modernidade pragmática, voltada mais para a economia, o petróleo, a indústria editorial, o aço. É outra coisa. Muito bom, também, mas na parte cultural acho que a Semana de Arte Moderna foi fundamental. Continuo achando que é um fenômeno funda- mental e nesse fenômeno a figura central é Mário de Andrade. Eu não sei como um homem que morreu com 51 anos de idade pôde deixar realizada aquela obra. Verifiquei isso em vários setores. No segundo ano da Faculdade tive um curso de Sociologia Estética com Roger Bastide. Como trabalho de aproveitamento fiz uma pesquisa sobre a mudança do gosto musical em São Paulo. O ano era 1940 e eu verifiquei que a partir da atuação de Mário no Departamento de Cultura, de 1935 a 1938, houve mudanças acentuadas, que registrei em gráficos. Por exem- plo: a curva da ópera começou a descer e a da música de câmara começou a su- bir. Mário de Andrade tinha criado o Coral Paulistano, o Coral Lírico, o Quarteto Haydn, o Trio São Paulo e aberto o Municipal para o povo. Então senti como esse homem tinha mudado a sensibilidade de uma cidade.
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Comentários a “Martírio e Redenção” de Antonio Candido

Comentários a “Martírio e Redenção” de Antonio Candido

Como um ecologista avant la lettre, ele vai traçar um panorama histórico dessa ação humana deletéria no Brasil: começa com a coivara dos indígenas (que utilizavam o fogo para abrir campo para suas plantações), continua pela intervenção dos colonizadores, que copiam o mesmo proceder, agravando-o “com o adotar, exclusivo no centro do País, fora da estreita faixa litorânea dos canaviais da costa, o regime francamente pastoril.” (CUNHA, 2004, p. 58). 3 Na sequência virão o “sertanista

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Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Antonio Candido e a Faculdade de Direito

Em 1977, no contexto da validade desta ação comum mais ampla reite- rou, paradigmaticamente, como professor, sua experiência de estudante que, nas Arcadas, viveu a “trepidação do inconformismo”. Voltou à Faculdade de Direito e assinou, como bacharel honorário, a Carta aos brasileiros elaborada por Goffredo Telles Jr. e lida no pátio da Faculdade em 8 de agosto de 1977, como um dos grandes eventos políticos que assinalaram o sesquicentenário da fundação dos cursos jurídicos no Brasil. A Carta reivindicava a restauração do Estado de Direito e contribuiu para a erosão do arbítrio do regime militar e para a posterior redemocratização do país nos anos 80. No entender de An- tonio Candido, foi “um ato de bravura refletida”, “simbolicamente legitimado por uma espécie de sanção popular” por conta das “manifestações de rua que ocorreram em seguida à leitura no centro da cidade” e que “despertou uma série de pronunciamentos em vários setores, equivalentes a uma onda de opi- nião democrática”. No seu texto inserido no livro coletivo Estado de direito já! – Os trinta anos da Carta aos brasileiros, publicado em 2007, de onde extraí as referências acima, lembra que fez parte da “Comissão de professores que es- peraram Goffredo da Silva Telles Junior no Largo de São Francisco e o intro- duziram no Pátio das Arcadas”. Registra que tinha sido informado da elabora- ção do documento por José Carlos Dias e José Gregori e afirma: “A leitura foi eletrizante e um dos momentos mais altos de vibração cívica de que participei na vida”.
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Esquema argentino de Antonio Candido

Esquema argentino de Antonio Candido

personal, como sí la hubo entre el brasileño y Ángel Rama, cuyas consecuencias intelectuales aborda con minuciosidad Pablo Rocca en su libro Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal y el Brasil: dos caras de un proyecto latinoamericano, Montevideo, Ediciones de la Banda Oriental, 2006. Es precisamente en ese libro donde se cita una carta de Candido a Rama –de 1979– donde, en procura de personas interesantes que puedan ir a dar cursos en la Universidade de Campinas y entre los cuales da por sentada la inclusión de Rama, le menciona a Jitrik (p. 351). Cuando le comenté a Jitrik que iba a trabajar algunas relaciones entre sus propuestas críticas y las del brasileño, preguntándole si habían mantenido algún contacto intelectual concreto, dijo que no, pero que había un espíritu de época, que puede encontrar sus puntos de anclaje en el libro América Latina en su literatura, compilado por César Fernández Moreno en 1972, y en el proyecto de la Biblioteca Ayacucho que llevó adelante Rama en su exilio.
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Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Por um esboço de uma poética de Antonio Candido

Esse dilaceramento e essa tensão que se traduzem em questões de forma levaram no passado a soluções como os fragmentos no primeiro romantismo alemão por meio de autores como Friedrich Schlegel ou Novalis, nomes esses que reclamaram a instância da poiesis para a refl exão sobre a obra de arte. Que Antonio Candido tenha olhado com especial atenção para esse momento da História da Literatura, não chega a causar espanto. Nesse sentido, é sempre interessante lembrar novamente a proposta de Harold Bloom. A respeito das similitudes entre a “poesia forte” (nos termos particulares bloomianos) e a “crítica forte”, Bloom destaca a necessidade do que chama de “crítica antitética” assimilando mecanismos de defesa que poetas tardios utilizam para fugir da sombra de seus precursores canonizados. Ao fazê-lo, Bloom, sobretudo em sua “tetralogia da infl uência” — A angústia da infl uência (1991a), Cabala e crítica (1991b), Poesia e repressão (1994) e Um mapa da desleitura (1995) —, ao ver em semelhante defesa uma “desleitura”, insinua a ideia segundo a qual toda “poesia forte” pode ser vista como crítica, o que nos permitiria arriscar que toda “crítica forte” poderia, pelo mesmo princípio, ser vista como “poesia”. Ou, em palavras do próprio Bloom:
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Antonio Candido, no tempo da delicadeza

Antonio Candido, no tempo da delicadeza

Esse texto conversará com outros no interior da Revista, enlaçando-os e evidenciando o eixo Antonio Candido, Político: nessa vertente se poderá ler a entrevista de Antonio Candido ao jornal Brasil de Fato, cuja licença para republicação foi obtida também pela incansável colaboradora, que conseguiu sua liberação para publicação em revista. Como se não bastasse, é ainda da lavra de Adélia a pesquisa por imagens que viessem a dar ainda mais visibilidade às questões políticas tratadas pelos textos de Candido (perceba-se, na ilustração do artigo, foto liberada por Sebastião Salgado) bem como as fotos de seu arquivo pessoal que dão mais luz, mais brilho – ilustram – as matérias a que chamamos “Do Afeto”: depoimentos, memórias, gratidão de Antonio Arnoni Prado (UNICAMP); Roberto Gambini (psicanalista); Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo); Antonio Carlos Fester (Comissão de Justiça e Paz/ Educador em Direitos Humanos); Ligia Chiappini (USP/Freie Universität Berlin) e Walnice Nogueira Galvão (USP).
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Antonio Candido ou direito à poesia

Antonio Candido ou direito à poesia

de perguntas e a um conjunto de produtos literários, demarcados historicamente, como aliás todo e qualquer método investigativo- analítico. O que se consegue reiterar no método dele é a coerência e coesão demarcadas em cada instância de um pensamento crítico e teórico atento a um projeto que se pode detectar em qualquer produto inscrito nele. A compreensão do que é poesia e as noções do que é compreender um poema estão, intimamente, vinculados ao que se pensa que é a literatura brasileira e atendem a um projeto que sabia o que pretendia fazer dela, e fazia. Dessa forma, a correlação entre as funções de crítico (fortemente impregnadas por sua perspectiva teórica-historiográfica), professor e político são partes integrantes de um mesmo esforço contínuo. Compreender o processo de constituição do literário no Brasil, atrelando o dinamismo do processo à feição singular de cada componente dele, só se justificava na medida em que se articula com a socialização desse conhecimento, tornando-o parte de um projeto humanizador que garante o direito inaliável à partilha desse conhecimento em “sala de aula”. Não se poderia pensar em ação política mais efetiva e participante do que tornar a poesia um direito e um dever. Para uma literatura empenhada, um leitor empenhado em consolidar a circulação da poesia, o fazer do poeta e as práticas de socialização, sem as quais a poesia jamais integra ou transforma o sistema.
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Antonio Candido, leitor de poesia

Antonio Candido, leitor de poesia

sificação e ignoraria problemas importantes como a própria Crise de vers de Mallar- mé e a radical experiência concretista; b) a noção que Candido tem de ‘modernidade poética’, restrita praticamente ao verso livre e por isso restritiva se considerados os problemas expostos no item anterior; c) o conflito entre Candido/discípulos, de um lado, e os concretistas, de outro, em relação ao real lugar do ‘espólio’ dos dois valores canônicos do Modernismo paulista, Mário de Andrade e Oswald de Andrade. embo- ra discorra bastante sobre o terceiro ponto, Moriconi reconhece que são “a)” e “b)” “[...] os dois tópicos que devem ser respondidos por qualquer pedagogia do poema, enquanto parâmetro de interpretação e avaliação de um repertório recortado da tra- dição e guia para a crítica prática presente e para a criação/recepção futura” (p. 268). Para responder ao proposto e a fim de clarear seu pensamento, Moriconi repor- ta-se a uns poucos textos analíticos de Candido: os dois capítulos da Formação dedi- cados, respectivamente, a Cláudio Manuel da Costa e a Gonçalves Dias; a análise que Candido faz de “Louvação da tarde”, de Mário de Andrade; e a análise que Candido e Gilda fazem da “Canção das duas índias”, de Bandeira. As três primeiras interpreta- ções de Candido referendam, segundo Moriconi, os aspectos de equilíbrio, modera- ção e conformação temático-formal legados pela tradição: nos sonetos de Cláudio, a combinação da matéria nova, neoclássica, com o legado quinhentista e mesmo cul- tista; em Gonçalves Dias, o tempero ditado pelo rigor neoclássico à desabrida inspi- ração romântica; em Mário de Andrade, passada a euforia modernista, a recuperação do decassílabo branco no poema em apreço, cujo tema moderno (um passeio de auto- móvel pelos cafezais paulistas, ao cair da tarde), de esteio meditativo, o liga a esse tipo de poesia instaurado pelo Romantismo. Ainda em relação ao poema de Mário, este anteciparia o movimento dos “[...] pais modernistas
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Antonio Candido e a formação da literatura comparada

Antonio Candido e a formação da literatura comparada

Sua célebre formulação segundo a qual “a dialética entre o localismo e o cosmopolitismo constitui uma lei de evolução da vida espiritual do Brasil” corresponde a uma coordenada fundamental sobre a qual devemos nos apoiar para refl etir não somente sobre a literatura brasileira mas também sobre a literatura latino-americana. Esse processo dialético consiste numa “integração progressiva da experiência literária e espiritual, através da tensão entre os dados locais (que se apresentam como substância de expressão) e os modelos herdados da tradição européia (que se apresentam como forma de expressão). A concepção de comparatismo presente na Formação da literatura brasileira pode parecer, em uma primeira leitura, ainda bem colada a uma concepção de infl uência como estudo das relações entre cultura/autor/literatura de um país central que serviu de fonte e motivação a um pólo receptor/periférico. Essa tem sido, salvo algumas exceções, a chave com que se tem lido a afi rmação de que “[...] a nossa literatura é galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas.” (CANDIDO, 1997, v.1, p.9). Contudo a noção de dependência cultural me parece bem distante da noção de fi liação, ou de produção literária inscrita em outra ponta de uma mesma e integrada tradição, conforme Candido parece apontar no emprego da metáfora da “árvore”. Uma prova cabal disso desponta em vários textos da própria Formação, como no capítulo “Um instrumento de descoberta e interpretação”. Nele, ao analisar o processo de surgimento e fi xação do gênero romance no Brasil, o autor aponta que o diálogo entre nossos mais renomados românticos e a tradição européia impôs um movimento de assimilação de formas e temas, sem haver, contudo, uma submissão passiva a modelos pré-estabelecidos, própria de uma relação binária de dependência:
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A experiência hispano-americana de Antonio Candido

A experiência hispano-americana de Antonio Candido

As palestras de Ángel aqui foram um sucesso estrondoso. O grande auditório esteve sempre lotado e raras vezes vi um fenômeno igual de comunicação com o público, que parecia eletrizado. Naquela altura estávamos publicando a revista Argumento, que a ditadura militar sufocou no quarto número. Ángel e Marta se interessaram pela nossa tentativa de resistência por meio da revista, participaram de reuniões da comissão de redação e publicaram artigos nos números 3 e 4. Para contornar a repressão, pensamos em fazer uma publicação bilíngue fora do Brasil, englobando escritores latino-americanos. Ángel se interessou pelo proje- to, que afinal não prosperou. Em 1979 me convidou para um encontro no Wil- son Center, mas surgiram problemas e eu não pude ir, enviando um texto que foi lido por Roberto Schwarz. Em 1980 estivemos juntos no México, num encontro organizado por Leopoldo Zea. Creio que no mesmo ano ele veio a um encontro na Universidade de Campinas, à qual voltou em fins de 1983 para uma reunião coordenada por Ana Pizarro, como primeira etapa na preparação da obra cole- tiva por ela dirigida sobre literaturas latino-americanas. Em 1982 houvera para o mesmo fim uma reunião em Caracas, à qual não pode comparecer porque lhe negaram visto nos Estados Unidos. Fizemos um protesto, e de volta ao Brasil es- crevi um artigo no mesmo sentido.
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Antonio Candido em letra, voz e história

Antonio Candido em letra, voz e história

De fato, o inesperado texto de Souza Caldas dirigido a João de Deus Pires Ferreira, o quarto filho de Domingos Malaquias, traz importantes contribuições para o andamento da pesquisa e do trabalho em curso que venho fazendo correr paralelamente sobre Gervásio. E recolho dele o comentário sutil e a referência crítica de Antonio Candido, que deverá abrir para mim uma nova pista. A de que há de pensar-se no conjunto. Para além de Gervásio, que estudou Matemática em Coimbra, como muitos de sua família, o seu irmão, Bacharel em Leis, eles per- tenciam a uma aristocracia que se tornaria moderna, passando por experiências internacionais, libertárias e não fazendo parte dos negociadores de escravos que acumulavam grandes fortunas no Brasil Colônia.
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Antonio Candido

Antonio Candido

A.C.: Fui professor pleno durante 36 anos. A seguir fiquei mais 14 orientando dissertações de mestrado e teses de doutoramento. A última foi aprovada em 1992. Nesse longo período tive a oportunidade de patrocinar os trabalhos de um número considerável de candidatos que estão hoje entre os críticos mais importantes do Brasil. Essa parte do trabalho docente é das mais compensadoras, porque assegura a continuidade e o enriquecimento dos quadros do ensino e da investigação.

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Sobre “O direito à literatura”, de Antonio Candido

Sobre “O direito à literatura”, de Antonio Candido

É impressionante como em nosso tempo somos contraditórios neste capítulo. Começo observando que em comparação a eras passadas chegamos a um máximo de racionalidade técnica e de domínio sobre a natureza. Isso permite imaginar a possibilidade de resolver grande número de problemas materiais do homem, quem sabe inclusive o da alimentação. No entanto, a irracionalidade do comportamento é também máxima, servida freqüentemente pelos mesmos meios que deveriam realizar os desígnios da racionalidade. Assim, com a energia atômica podemos ao mesmo tempo gerar força criadora e destruir a vida pela guerra; com o incrível progresso industrial aumentamos o conforto até alcançar níveis nunca sonhados, mas excluímos dele as grandes massas que condenamos à miséria; em certos países como o Brasil, quanto mais cresce a riqueza, mais aumenta a péssima distribuição dos bens. Portanto, podemos dizer que os mesmos meios que permitem o progresso podem provocara degradação da maioria. (p. 169)
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Antonio Candido na Alemanha

Antonio Candido na Alemanha

Por isso mesmo, a antologia começa com uma seção de cinco textos, que se vinculam tematicamente à Alemanha. Isso ocorre em primeiro lugar como gesto de aproximação entre os dois mundos – Brasil e Alemanha –, aparentemente tão estranhos e inconciliáveis. Entretanto evidencia-se aí de que modo um intelectu- al da chamada periferia, estabelece um diálogo frutífero e frequentemente crítico com a Literatura e as Teorias provindas do chamado centro. Assim, no primeiro texto, em época ainda tão próxima dos acontecimentos históricos do nacional- socialismo, da Segunda Guerra Mundial e do extermínio que se processou em nome dos alemães, empreende-se uma defesa dos valores humanos e culturais destes, pelos quais, numa visão histórica de grande alcance, a Alemanha se man- tém como referência civilizatória que tem muito a oferecer ao mundo. Da mesma forma, Antonio Candido nos alerta contra uma demonização apressada de Frie- drich Nietzsche no pós-guerra e ressalta a sua profunda influência no pensamen- to ocidental. O texto seguinte, recentemente escrito e cedido especialmente para esta coletânea, conecta-se ao problema fundamental do convívio com o pensa- mento ambivalente. A leitura que faz aí do diário de viagem ao Brasil, de Ernst Jünger, apresenta de modo impressionante quão importante e frutífera pode ser uma análise criteriosa e sem preconceitos de um autor ou de uma obra. 17
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