Top PDF O que é fenomenologia?

O que é fenomenologia?

O que é fenomenologia?

O novo método possui uma particularidade que não permite classificá-lo, sem equívoco, junto a qualquer um dos grandes nomes do passado, apesar de que este método certamente foi praticado por todos os grandes filósofos, desde que se faz filosofia no mundo. Trata-se do seu caráter intuitivo. O que isso significa? A filosofia – na concepção dos fenomenólogos – não é uma ciência dedutiva; ela não deduz os seus teoremas – como faz a matemática – a partir de um número finito de axiomas, de princípios que não podem ser demonstrados, em cadeias ininterrom- pidas de demonstrações conforme as leis da lógica. O número das verdades filo- sóficas é infinito, e, em princípio, podem ser encontradas sempre novas verdades, sem que estas sejam deduzidas logicamente a partir das verdades já conhecidas. Sendo assim, poderíamos inclinar-nos a considerar que o modelo da fenomeno- logia seja o método das ciências naturais, o qual alcança as verdades universais pelo caminho indireto – elevando-se a elas a partir dos fatos proporcionados pela experiência sensível. Mas sequer esse é o caso. A filosofia não é tampouco uma ciência indutiva. A indução e a dedução, de certo modo, podem auxiliá-la na ob- tenção do seu material e na apresentação dos seus resultados, mas o seu instru- mento específico é um procedimento sui generis 13 , um conhecer intuitivo das ver- dades filosóficas, as quais são certas – “evidentes” – em si mesmas e não necessitam deduzir-se de outras. Esta intuição, esta visão espiritual, não deve ser confundida com a intuição mística. Ela não é uma iluminação sobrenatural, senão que um meio de conhecimento natural, como é também a percepção sensível; é o meio de conhecimento específico das verdades ideais, assim como a percepção sensível é o meio de conhecimento específico dos fatos do mundo material. Ela não é uma intuição mística, mas, mesmo assim, possui certa afinidade com esta última; de certo modo, ela é a imagem desta no âmbito do conhecimento natural. Desenvolvendo e aplicando sistematicamente o conhecimento intuitivo, e dando ênfase teórica a ele, a fenomenologia se afasta ao mesmo tempo da filo- sofia kantiana e da tradição aristotélico-tomista. Alguns pontos de convergência encontram-se em Platão e na orientação neoplatônico-agostiniana-franciscana da filosofia e da teologia eclesiástica da Idade Média.
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Alberto Caeiro e a Fenomenologia

Alberto Caeiro e a Fenomenologia

Caeiro dá o exemplo de condições nas quais as características das flores tornam- se diferentes ao serem percepcionadas. A cor varia consoante seja de dia, de noite, ou em condições como na passagem de uma nuvem. O próprio Caeiro demonstra estados diferentes dele próprio, como nas suas palavras orais ou escritas. Mas refere que olhando “bem”, se verifica que é a mesma coisa. A flor que sofreu diferenças na percepção por estar em determinadas condições mantêm-se sempre a mesma flor, apenas há ângulos de experiência diferentes. O mesmo exemplifica Caeiro com ele próprio em várias perspectivas, é sempre Caeiro independentemente da direcção para a qual se vira. Este centrar no objecto ele mesmo, independentemente da perspectiva, pode ser relacionado com a percepção husserliana: A referência aos “olhos e ouvidos atentos”, como maneira de focar a importância da percepção sensorial, de forma a ver a “flor” como sendo sempre a mesma “flor”; a clara simplicidade da alma como sendo uma versão do idealismo transcendental husserliano, que idealiza o objecto sem “complicações” a priori. Husserl também formula que, na percepção puramente exterior, o ângulo e ponto de vista de um objecto material pode dar-nos características diferentes do objecto em si. Estas sensações perceptivas das características, as Abschattung 1 , são as delineações que se fazem do objecto, exemplificáveis com o diferente tom de cor que podemos verificar num objecto, consoante o contexto em que ele está inserido. Caeiro dá o exemplo da cor das flores ao sol, que se torna diferente estando debaixo da sombra da nuvem. Para Husserl, não só as cores mas também a forma do objecto são delineações: “For Husserl, too, generalises from the case of colours and subsumes under the term “adumbration” not just the way colours shadow themselves forth, but also the way a shape appears or is shadowed forth.” (Mulligan, 2006: 192).
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FENOMENOLOGIA E CRISE DA ARQUITETURA

FENOMENOLOGIA E CRISE DA ARQUITETURA

as ações técnicas ou poéticas não podem se pautar exclusivamente pelo telos do prazer da vida, uma vez que a forma de efetuá-las depende de prescrições objetivas de toda espécie. Para dar apenas um exemplo, derivado da tekné, as ações deste tipo têm como critério de racionalidade determinante a eficácia no trato com a coisa a ser produzida, que define o êxito da ação. Evidentemente, a força viva do trabalho do artesão (dou este exemplo porque certamente não se espera que a atividade do trabalhador fabril, condenado a apertar um simples parafuso oito horas por dia, possa ser dita prazerosa, a não ser por uma espécie de perversão) encontra-se carregada de habilidades, de modo que não é impossível pensar o seu esforço produtivo como algo capaz de dar lugar à expansão das potencialidades subjetivas imanentes da sua vida. Porém, o trabalho deve se efetuar de acordo com as condições objetivas oferecidas ao produtor pela sociedade em que vive. Convém lembrar que ninguém produz isoladamente. 23 Além disso, o trabalho é atividade essencialmente heterônoma,
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O Realismo da Fenomenologia de Munique

O Realismo da Fenomenologia de Munique

jectivos embora seja semelhante é desigual. 92 Uns conteúdos vêm mais à superfície da consciência, outros ficam escondidos na retaguarda. Houve quem tentasse ver nessa inconstância da corrente da consciência uma propriedade dos conteúdos psíquicos. Assim identificou-se con- teúdos notados com conteúdos “mais intensos”, “mais fortes” ou “mais vivos”. Pfänder rejeita tal explicação que apenas tem em conta o lado objectivo da intencionalidade. 93 A atenção sobre um conteúdo psíquico não depende exclusivamente deste. Num conjunto de vozes que se fazem ouvir ao mesmo tempo é possível prestar atenção a uma das mais baixas. A condução voluntária da atenção é um fenómeno por demais comum e que indica que não são apenas os conteúdos a determinarem- na. Certas qualidades de conteúdos provocam, sem dúvida, que estes se tornem objecto da atenção, mas essas qualidades não se identificam com a atenção. Aliás, há que distinguir entre uma atenção voluntária ou activa e uma involuntária ou passiva. Neste último caso são os conteú- dos que puxam sobre si a atenção. Mas, mesmo neste caso, a atenção prestada não é feita sem a participação do eu. Se este se encontrar de- primido, mais dificilmente um conteúdo consiguirá ser notado por mais intenso ou vivo que ele seja. Porque a atenção é o modo muito espe- cial como o eu se debruça sobre um conteúdo parcial da consciência e apenas por isso o distingue dos outros conteúdos, há que ter em conta o estado do eu nessa relação. Esse estado é um estado de tensão. 94 A prova encontra-se nos casos em que a atenção está presa a algo (atenção passiva) ou quando procuramos manter a atenção sobre determinado conteúdo (atenção activa). Em ambos os acasos deparamos com um sentimento de tensão do eu que o mantém preso ao conteúdo notado.
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Vista do A fenomenologia do egoísmo

Vista do A fenomenologia do egoísmo

Deve-se pôr em relevo, outrossim, que embora critique o conteúdo, Stirner acolhe o movimento e segue o método da filosofia hegeliana. É nítida a similitude entre o caminho percorrido pelo eu em direção a si próprio e aquele que Hegel estabelece à consciência em direção à razão. A diferença básica reside precisamente no ponto final do percurso. Se na filosofia de Hegel a consciência trilha um caminho que culmina no saber de si enquanto figura do Absoluto, em Stirner a consciência individual também chega a um saber, que vem a ser o conhecimento de que somente ela é o fundamento de toda realidade, de toda existência ou, em outros termos, ao reconhecimento de si como o absoluto. Ou seja, em Hegel tem-se a fenomenologia do universal que se desdobra em particulares - os quais constituem momentos deste universal -, enquanto que em Stirner tem-se a fenomenologia de uma singularidade em confronto com qualquer dimensão de universalidade, tomada como pura negação da individualidade. Voltando à questão do domínio do espiritual na modernidade, Stirner submete à critica o humanismo ateu que se desenvolve em sua época, atentando para o fato de que, embora se ataque a essência sobre-humana da religião, não se abandonou a postura religiosa, uma vez que o posicionamento anti-religioso resultou tão somente na humanização da religião, simplesmente operando a substituição de Deus pelo homem. Permanecem prisioneiros do princípio religioso porque o homem que se torna o novo ser supremo não se refere ao indivíduo singular, mas à espécie, ao gênero humano. Se outrora o espírito de Deus ocupava o indivíduo, agora ele se encontra ocupado e se pauta pelo espírito do Homem. De modo que “o comportamento em direção ao ser humano ou ao ‘homem’ apenas removeu a pele de serpente da antiga religião para assumir uma
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Fenomenologia da Comunicação em sua quotidianidade.

Fenomenologia da Comunicação em sua quotidianidade.

Outra evocação possibilitada pelo termo é a noção de Sicht (Heidegger, 1976, p.69-70), que traduziríamos em português literal como “vista”, em português corriqueiro como “olhadela”, “espia” ou “espiada”, um conhecimento intuitivo que se produz por livre associação, por cognição. É algo que se realiza no instante: o vendo, o percebendo – ou melhor, o “sacando”, gíria que, a nosso ver, explica totalmente a ideia. Cabe lembrar que, em Heidegger, Sichté um termo paralelo a Umsicht (visão periférica, circunvisão) e à palavra Rücksicht, literalmente “olhando para trás”, mas no sentido de “ter respeito por algo ou alguém”, “levar algo ou al- guém em consideração”. O Sicht se assemelha a uma iluminação (Gelichtetheit), a uma abertura para o mundo tal como ele se apresenta numa determinada conjuntura. O Sicht é um processo natural do Dasein; e fundamental no seu estar no mundo. É um modo pelo qual o indeterminado se substantivisa, se torna algo.
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Fenomenologia da Experiência Religiosa

Fenomenologia da Experiência Religiosa

Como em qualquer outra experiência, o seu objecto é definido pela rea- lidade objectiva do seu conteúdo. O facto de, eventualmente, na experi- ência religiosa se tratar de uma entidade tipo sagrada ou divina não tem qualquer importância: o carácter objectivo de qualquer experiência não depende de algo que possa transcender a experiência, pois, na globali- dade da experiência humana, nada transcende essa mesma experiência, exactamente entendida na sua globalidade. Quer isto dizer que tudo o que o homem sabe sabe-o, de algum modo, por meio de uma qual- quer experiência, dado que não há outro modo possível. Assim sendo, quer se trate de um electrão, da nossa imagem no espelho ou de Deus, é no seio de uma experiência e como experiência que tudo isto se dá. Como é óbvio, não pode haver qualquer referência a algo de absoluta- mente “fora” ou independente da experiência. A solução para se aferir do valor ontológico de qualquer experiência passa necessariamente não por uma referência a uma transcendência absolutamente irrelativa, mas pelo exame do significado próprio de cada realidade objectiva surgida na experiência. Que valor ontológico tem X ou Y surgidos na experi- ência? É o valor encontrado para cada X e para cada Y que permitem, na diferença própria que os constitui, 46 constituir o mapa ontológico de
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Fenomenologia e crise da arquitetura.

Fenomenologia e crise da arquitetura.

as ações técnicas ou poéticas não podem se pautar exclusivamente pelo telos do prazer da vida, uma vez que a forma de efetuá-las depende de prescrições objetivas de toda espécie. Para dar apenas um exemplo, derivado da tekné, as ações deste tipo têm como critério de racionalidade determinante a eficácia no trato com a coisa a ser produzida, que define o êxito da ação. Evidentemente, a força viva do trabalho do artesão (dou este exemplo porque certamente não se espera que a atividade do trabalhador fabril, condenado a apertar um simples parafuso oito horas por dia, possa ser dita prazerosa, a não ser por uma espécie de perversão) encontra-se carregada de habilidades, de modo que não é impossível pensar o seu esforço produtivo como algo capaz de dar lugar à expansão das potencialidades subjetivas imanentes da sua vida. Porém, o trabalho deve se efetuar de acordo com as condições objetivas oferecidas ao produtor pela sociedade em que vive. Convém lembrar que ninguém produz isoladamente. 23 Além disso, o trabalho é atividade essencialmente heterônoma,
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Desejo, corpo e intencionalidade na fenomenologia

Desejo, corpo e intencionalidade na fenomenologia

Para Merleau-Ponty, o recalque consiste em permanecer em uma via, em retomar um projeto que já não pertence mais as condições de fato, que não é mais realizável porque já passou o seu tempo. Seria, por exemplo, querer usar braço que não temos mais. É a persistência do passado, de uma memória que recusa a condição de mera lembrança: Continuamos a ser aquele que um dia se empenhou nesse amor adolescente, ou aquele que um dia viveu nesse universo parental.... o tempo impessoal continua a escoar mas o tempo pessoal está preso.” (MERLEAU-PONTY, 1998, p. 123) No recalque, continua Merleau-Ponty (1998, p.124): “Eu alieno meu poder perpétuo de me dar “mundos” em benefício de um deles, e por isso esse mundo privilegiado perde a sua substância e termina por ser apenas uma certa angústia.” Todavia, é preciso estender a experiência do recalque ao mundo impessoal, aos corpos anônimos e integrados ao mundo, solicitados pelo mundo, pelas coisas. Seria importante compreendê-lo pelo desejo, por uma intencionalidade que não é nula na medida em que não vive um vazio de mundo. Um déficit no corpo – um membro amputado – de imediato não modifica o mundo, não impõe ao corpo zonas de silêncio e restrição onde ele sempre esteve habituado a agir. Nesse mundo impessoal – que comporta um corpo que é não é somente o meu corpo, estão todos os corpos – é fundo no qual o corpo pessoal – a figura – retoma os hábitos e faz entrar em cena o corpo habitual.
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_Resistência ao avanço fenomenologia

_Resistência ao avanço fenomenologia

• Resistência de Ondas: corresponde à resistência que surge sobre o casco devido à geração do trem de ondas que se forma a ré da embarcação conforme ela se desloca. Depende da geometria do corpo e o parâmetro físico que a controla é o chamado número de Froude.

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Entre Heidegger e Blanchot : fenomenologia e literatura

Entre Heidegger e Blanchot : fenomenologia e literatura

por sua ausência, e essa ausência ela desejaria alcançar absolutamente nela mesma e por ela mesma, querendo alcançar em seu conjunto o movimento indefinido da compreensão. Além disso, observa que a palavra gato não é apenas a não-existência do gato, mas a não-existência que se tornou palavra, isto é, uma realidade perfeitamente determinada e objetiva. Vê ali uma dificuldade e mesmo uma mentira. Como pode ela esperar ter cumprido sua missão só porque transpôs a irrealidade da coisapara a realidade da linguagem? Deque maneira a ausência infinita da compreensão poderia aceitar confundir-se com a presença limitada e tacanha de uma palavra só? E a linguagem diária, que quer nos persuadir disso, não estaria enganando-se? Com efeito, engana-se e engana-nos. A palavra não basta para a verdade que ela contém. Façamos um esforço para ouvir uma palavra: nela o nada luta e trabalha, sem descanso cava, se esforça, procurando uma saída, tornando nulo o que o aprisiona, infinita inquietude, vigilância sem forma e sem nome. O lacre que retinha esse nada nos limites da palavras e sob as espécies do seu sentido se partiu; eis aberto o acesso a outros nomes, menos fixos, ainda indecisos, mais capazes de se reconciliar com a liberdade selvagem da essência negativa, dos conjuntos instáveis, não mais dos termos, mas de seu movimento, deslizamento sem fim de 'expressões' que não chegam a lugar nenhum. Assim nasce a imagem que não designa diretamente a coisa, mas o que a coisa não é, que fala do cão em vez do gato. Assim começa essa perseguição pela qual toda a linguagem, em movimento, é chamada para responder à exigência inquieta de uma única coisa privada de ser, a qual, após ter oscilado entre cada palavra, procura retomá-las todas, para negá-las todas ao mesmo tempo, a fim de que designem, nele submergindo, esse vazio que elas não podem preencher nem representar. (BLANCHOT, 1997, p. 313-314) 33
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Fenomenologia e ontologia em Merleau-Ponty

Fenomenologia e ontologia em Merleau-Ponty

corpo e limitado ao domínio exploratório desse último, eis o duplo sentido da fé perceptiva. O corpo tanto leva a subjetividade até o mundo como também pode afastá-la dele, dadas as limitações das estruturas corporais (especializadas em apenas alguns aspectos do ser, tais como a visibilidade e a tangibilidade). Uma vez exposta essa dupla característica da fé perceptiva, Merleau-Ponty extrai a seguinte conclusão: o mundo não é só o que eu percebo em uma “proximidade absoluta” (VI, 23), ele também está numa “distância irremediável” (Ibid.), pois a sua presença depende de condições corporais que podem ser insuficientes para apresentá-lo em sua totalidade. Assim, a experiência perceptiva não implica, em O Visível e o Invisível, uma correlação exaustiva com o real, já que a abertura inicial ao mundo não exclui de direito uma ocultação possível (Cf. VI, 48). Como nota Merleau-Ponty, “a certeza que eu tenho de estar vinculado ao mundo por meu olhar me promete já um pseudo-mundo de fantasmas se eu o deixo errar” (VI, 47). Fé e incredulidade estão unidas na experiência perceptiva, assevera O Visível e o Invisível. Daí que a abertura originária ao ser não possa mais ser identificada à percepção, tal como descrita nos anos quarenta. Segundo O Visível e o Invisível, embora o mundo se revele ao sujeito pela atividade perceptiva, essa apresentação depende de estruturas que não abrangem a totalidade daquilo que existe. Há a possibilidade de que o ser se oculte à atividade perceptiva, ou seja, de que as estruturas corporais não apreendam a sua totalidade, ressalva ausente na Fenomenologia da Percepção. Nesse livro, conforme vimos no primeiro capítulo, tudo o que escapa à experiência atual do corpo era ainda concebido como estrutura perceptivelmente apreensível. O caráter autônomo do mundo era concebido como uma infinidade de relações expressivas entre os eventos, a qual jamais poderia ser apreendida de uma só vez pelo corpo e se reduzir, assim, a um mero correlato subjetivo (Cf. PhP, 373-4). No entanto, nenhuma dessas relações constitutivas do em-si mundano excediam por princípio as capacidades perceptivas, as quais dispunham da lógica total da organização dos fatos mundanos (Cf. PhP, 377).
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Fenomenologia e crítica dos fundamentos da psiquiatria

Fenomenologia e crítica dos fundamentos da psiquiatria

mundo - é o seu aspecto negativo -, mas ela importa sobretudo pelo seu aspecto po- sitivo, a saber, o facto de ela deixar que se mostrem as estruturas noemáticas do ap[r]

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Crença e razão na fenomenologia de Husserl

Crença e razão na fenomenologia de Husserl

razão entra em jogo. A crença permanece a mera crença enquanto não é validada. É a razão que valida, justifica a crença. Ser verdadeiro e ser racionalmente atestável estão em correlação, diz Husserl. Para ser válida, a posição implicada na crença deve ser racionalmente motivada. Há três características ou formas da consciência racional: ver doador originário, a partir do qual Husserl obtém o conceito de evidência, depois evidência apodítica e evidência adequada. A crença é racional, quando tem seu fundamento originário de legitimação no dado originário. A 6 evidência é a unidade de uma posição racional com aquilo que a motiva, isto é, com o ser que se dá a ver originariamente. Além disso, quando o ato da posição, ou a tese, é motivada pelo dado adequado, quando a consciência dóxica posicional é adequadamente doadora, esta posição é um ato da razão. Outra característica do ato da razão, a apoditicidade, significa que ele exclui o ser de outro modo, que portanto há conhecimento de uma necessidade e não apenas asserção de algo individual e contingente. A meta de toda a vida da consciência teórica, que é a consciência posicional ou dóxica, a Verdade, é “o correlato do caráter racional perfeito da doxa originária, da certeza da crença” (Hua III: 322-323/310); ou seja, o ser é dado como verdade quando a doxa originária tem o caráter racional perfeito. A verdade teórica tem paralelos também na consciência axiológica e prática, como verdade axiológica ou prática. A racionalidade é portanto uma característica de noese, enquanto a verdade uma caracterização do noema.
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O CONCEITO DE CRÍTICA NA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO

O CONCEITO DE CRÍTICA NA FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO

O movimento do retorno à unidade como infinitude (como reconciliação – zusammenbringen, zusammenschlüßen –, relação de mediação entre opostos, ligação da ligação e da não ligação) – é isso o que está em questão no entendimento. Como observa Beckenkamp (2009, p. 230-231), em seu comentário sobre o Sistema da eticidade, a partir do mero ato de designar, a atividade mais elementar pela qual se dá o início da superação da submersão do espírito na natureza, as sensações se elevam a conceitos na linguagem (e na memória); a partir da multiplicidade dos nomes e das relações estabelecidas por ela, a linguagem se articula e pode, enfim, por sua idealidade, retornar à unidade como relação a partir daquela multiplicidade como conceito determinado do entendimento. É assim que o espírito põe-se na existência a partir da consciência como termo médio entre o momento da subjetividade – como faculdades, inclinações etc. – e a determinidade das coisas; para que a consciência se eleve, entretanto, ao ponto de vista universal, avançando em sua [auto]formação ([Selbst]Bildung) e ganhando existência real, é necessário considerar o domínio prático do desejo e sua atividade de aniquilamento/elaboração do objeto pelo trabalho (tal como exposto na configuração seguinte, a consciência de si). Escolheu-se ressaltar esse aspecto porque fica evidente, assim, a continuidade entre os temas tratados por Hegel em suas obras, conquanto sob diversos pontos de vista; no caso da Fenomenologia, algumas passagens mais obscuras ou surpreendentes podem ser lidas à luz dos interesses que se mantêm constantes ao longo de todo o pensamento filosófico hegeliano: é o caso, por exemplo, da menção ao crime e ao castigo (nos parágrafos 158 e 159, na configuração ora em questão) 307 ou da menção ao desejo e ao trabalho na consciência de si (ou mesmo, na dimensão mais teórica, do tema da proposição especulativa). Quanto ao mais, é o discurso científico da época de Hegel – cujas referências históricas não serão retomadas aqui 308 – o contexto no qual o filósofo discute a identidade entre o intelecto e o mundo, tal como ela se manifesta nos construtos da ciência natural e da filosofia (nas noções de força e de lei, por exemplo), que tencionam dar conta da experiência da ordem na natureza. A escolha desse contexto específico não deve passar por arbitrária, lembrando que, na filosofia moderna, o
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Para uma fenomenologia da identidade pessoal

Para uma fenomenologia da identidade pessoal

de posição já que o impulso lógico ao ser progressi- vamente racionalizado fecha a fenomenologia dentro de si própria, tornando-a abstracta e separando-a das coisas, sua raiz concreta. A reflexão sobre esta noção de evidência torna-se então o antídoto indispensável para superar esta dificuldade funda- mental, obrigando igualmente o autor a reflectir sobre a noção de intencionalidade e de intuição. O que é a intencionalidade? A intencionalidade é a propriedade que a consciência possui de se voltar para o diferente de si – o mundo e as coisas – tornando-se, deste modo consciência de… (qualquer coisa). Ao constituir-se como poder de pensar o outro na sua ausência, ou pelo contrário, como poder de o conceber na sua presença, a intencionalidade apresenta duas finalidades distintas. Não só abre ao sentido que todos os actos de significação procuram dizer ao visarem uma mesma coisa, tornando-se desta forma raiz da lógica; como, ao visar a presença, conduz à intuição da coisa de que a percepção é a base concreta, aproximando- se da ontologia. Quando reduz a sua reflexão, na última parte da sua obra, a uma fenomenologia da percepção, Husserl tende a esquecer a dialéctica essencial entre o sentido e a presença que esta ambivalência pressupunha. A percepção, ao constituir a antecipação da unidade de sentido da “coisa”, torna-se indispensável para a sua conceptualização. Neste sentido, a evidência primordial só pode ser radicalmente fundamentada porque se alicerça na “percepção” de um objecto. A evidência é, assim, pensada por Husserl a partir do objecto, mas porque há três níveis de objectos, os sensíveis, os categoriais (atribuição de predicado) e os universais (as essências e os conceitos) há também três níveis de evidência. A evidência apodítica, a mais radical, pressupõe a adequação perfeita entre o intencionado e o intuído. Será, pois, no “fenómeno” que a evidência tem lugar. “Fenómeno” não é qualquer objecto exterior à consciência, mas antes o puro objecto imanente à consciência, já que o objecto enquanto pensado ao ultrapassar o seu carácter fáctico ganha uma dimensão eidética.
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Fenomenologia hadronica e metodos não perturbativos

Fenomenologia hadronica e metodos não perturbativos

cham am os de liberdade assintótica. Um das explicações p ara a liberdade assintótica é a interação entre glúons. Devido a este fenômeno, a constante de acoplam ento depende da d istân cia d a interação que estam os investigando. Isto faz com que não exista u m a solução e x ata p ara o problem a. Q uando trabalham os com altas energias, ou seja, em pequenas distâncias de interação, um a teo ria de p ertu rb ação pode ser tran q ü ilam en te aplicada. Porém , se as energias, forem m ais baixas (energias nucleares interm ediárias) o estudo se dá à nível de distâncias grandes, se com paradas com as de um estudo de altas energias. Aqui, as constantes de acoplam ento possuem valores bem m aiores que a constante de modelos de QED. P o rtan to os mesmos não podem ser desprezados em u m a expansão. Desse modo, no estudo de modelos hadrônicos fenomenológicos, são utilizados m étodos não perturbativos como H artree e H artree-Fock.
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FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA: O PROJETO FENOMENOLÓGICO

FENOMENOLOGIA HUSSERLIANA: O PROJETO FENOMENOLÓGICO

Porém, a questão de fundo, aquela que serviria de sustentação para sua proposta filosófica, a temporalidade, daí percebida e explicitada pelo conceito de Filosofia Transcendental Histórica, consiste em uma descrição teleológico-filosófica da História da Filosofia e do Conhecimento. Essa temporalidade da consciência é a condição de possibilidade do próprio conhecimento e de um sentido histórico da própria História da Filosofia; é, portanto, uma abertura para o conhecimento, de forma que se torna possível voltar ao passado e, ao mesmo tempo, projetar o futuro nesse fluxo chamado consciência. É justamente essa abertura que leva Husserl a refletir sobre a consciência histórica transcendental ou sobre a historicidade do pensamento ocidental. Torna-se possível, assim, uma descrição precisa dos significados do que era, até então, considerado por razão, educação e conhecimento, desde a visão dos gregos antigos até a que se tem no tempo atual. Diante disso, esses significados se renovam por gerações no fluxo contínuo da temporalidade, e é nesse movimento de ressignificação que o autor acredita estar a raiz do problema da crise (BERNET, 2011).
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Pontes da Passagem : por uma fenomenologia do lugar

Pontes da Passagem : por uma fenomenologia do lugar

ocupação humana, densidade, cor de tijolo com branco com todas as cores, muitos fios de energia, muitos fios. Céu Azul. Não vi a ponte Ayrton Senna. Rodei um pouco de bicicleta por ali e vi um pescador atracando seu barco laranja do lado do terreno vazio que fica aos pés da passarela. Fui até ali perguntar porque prendia o barco ali, já que era o único. Me dei conta que já vi, vez ou outra, outros dias, barcos por ali. Era o Seu Antônio, pescador, disse que atracava ali para vender o peixe para um rapaz que vinha todo dia buscar, de um comércio do bairro. Contou, em meio a risos e com muito bom humor, que costuma chegar ali “à noitinha”, mas que ontem havia chegado mais cedo, pois o tempo no mar o colocou para correr. Perguntei da ponte, se ele atravessava o barco para deixá-lo com os outros, que agora ficam sob a sombra da mesma. Nesse momento reparei como a maré estava cheia, e como era impossível passar qualquer embarcação por debaixo daquela ponte velha, que será demolida. Seu Antônio disse que mora em Andorinhas, e que para ele e para os outros pescadores a nova ponte é boa, pois quando a outra for demolida ele poderá atravessar seu barco e atracar “em casa”. Hoje em dia não dá, mesmo com a maré baixa. Nesse momento percebi o quanto a nova ponte vai facilitar o acesso dos tantos pescadores que por ali residem. Notei pela expressão, pelos trejeitos e movimentos do Seu Antônio o quanto ele estava ansioso pela demolição da velha ponte. Vi que não seria algo ruim necessariamente, alguns ganham, outros perdem. Seu Antônio foi me mostrando como as pessoas do bairro saem de carro por baixo da ponte nova, usando a antiga, para evitar ter que andar grandes distâncias, buscando contornos para pegar a via que está ali, imediatamente à frente. Nesse momento vejo que não se pensa uma gradação de possibilidades de acesso motorizado ao bairro, mas acho que isso nunca foi considerado. Lembro que quando só havia a antiga ponte, o acesso de veículos a Andorinhas logo após a sua cabeceira era inviável. Pedestres e ciclistas, esses sempre existiram. Carros não. Cotidiano intermediário. Nem do antes, nem do depois. Agradeci ao Seu Antônio, que disse estar sempre por ali, no começo da noite, qualquer coisa que eu precisasse.
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A IDEIA DA FENOMENOLOGIA

A IDEIA DA FENOMENOLOGIA

conhecimento. Husserl, mantendo-se na perspectiva de Kant, dirá que é “patente tolice” (Idem, p. 62) fundamentar uma teoria do conhecimento em qualquer tipo de pressuposição transcendente, como fazem as ciências naturais. Como alternativa, propõe o “princípio gnoseológico” (p. 63, grifo do autor), uma redução que independa da transcendência. É ela que, ao ser considerada, se transforma no erro fundamental da teoria do conhecimento do qual outros erros derivam. Logo, a crítica do conhecimento não pode partir de nenhum elemento transcendente, mas surgir da consciência: eis a conclusão que abre a terceira lição.
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