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Ópio dos intelectuais

No documento Esquerda Caviar (páginas 67-88)

Nem todos os membros dessa esquerda caviar são ricos canalhas, herdeiros culpados, madames e jovens

entediados, ou preguiçosos, claro. Há uma categoria relevante formada por intelectuais que vivem bem,

mas que não são necessariamente abastados. Esses precisam de alguma explicação também. E Raymond

Aron forneceu uma boa dica em seu magistral O ópio dos intelectuais. Para o pensador francês, o marxismo ou o comunismo viraram uma espécie de “religião secular”,

prometendo o paraíso terrestre em vez de aquele pós-morte pregado pelo cristianismo. O título já é uma

clara provocação ao ditado famoso repetido por Marx, de que a religião é o ópio do povo. Para esses

intelectuais, o comunismo era o ópio, a droga capaz de fornecer a fuga para a falta de sentido em suas

vidas.

emocionante. Uma é

prosaica, a outra poética. A revolução fornece ao intelectual uma pausa bem- vinda ao curso diário dos

eventos rotineiros e incentiva a crença de que todas as coisas são possíveis. Por que pensar em como

melhorar algumas questões do cotidiano, sempre imperfeito, quando se pode abraçar a utopia

revolucionária de que todos os males que assolam a humanidade terão finalmente uma solução?

A democracia republicana vive de contemporizações, de reformas graduais, de concessões. Tudo isso é

muito lento, arrastado. O intelectual quer a pedra losofal, a cura, uma panaceia que resolva os males da

sociedade de uma só vez. O jornalista Reinaldo Azevedo fez uma boa análise da coisa:

O bom da democracia é ser um regime desinteressante, sem surpresas, sem solavancos, medíocre mesmo! O bom da

democracia é que, dada essa mediocridade, permite que a gente encontre motivos mais atraentes do que a política para

tornar a vida interessante. Ou alguém consegue ter algum pensamento elevado quando lembra de José Dirceu ou de

Delúbio Soares?

Outro que explicou bem essa distinção entre revolucionários e reformadores foi David Horowitz,

mostrando por que intelectuais de esquerda tendem a abraçar movimentos radicais e violentos:

Um planeta salvo, um mundo sem pobreza, desigualdade, racismo, ou guerra — que meios não seriam justi cados para

atingir tais ns milenares? A título de contraste, movimentos menos ambiciosos de reforma são capazes de pesar ganhos

contra prováveis custos e evitar o tipo de excessos e atrocidades endêmicas a causas radicais.

Mas para o intelectual revolucionário, a política é tudo! É o que dá sentido para sua vida. Ele respira

política. Não tem tempo a perder com mudanças graduais e democráticas. A nal, sabe o que é certo,

qual o caminho desejado. Precisa apenas do poder para executar suas fantasias. E ele jamais escuta o

alerta feito por Hoelderlin: “O que sempre fez do Estado um verdadeiro inferno foram justamente as

tentativas de torná-lo um paraíso.”

Quer um entorpecimento mais poderoso do que a sensação de que você pertence a uma classe de

escolhidos, que sua missão na vida é colaborar para a construção de um mundo novo, e que nada menos

do que a perfeição será o resultado de suas ações? O escritor mexicano Octavio Paz, autor de O ogro

filantrópico, descreveu o marxismo como um “vício intelectual”, uma “superstição do século XX”.

Infelizmente, do século XXI também.

Joshua Muravchik demonstra sem rodeios, em Heaven on Earth, como o socialismo foi a história

mais ambiciosa dos homens na tentativa de suplantar a religião com uma doutrina sobre como a vida

deve ser vivida com base na ciência, não na revelação. Após tanta esperança e luta, milhões de vidas

sacri cadas no caminho, eis o epitá o da seita: se você construir esse “paraíso”, os outros vão abandoná-

lo sempre que possível.

Paulo Francis foi outro observador arguto que percebeu essa característica religiosa no comunismo:

Milhões de pessoas, no entanto, se sacri caram por Stalin, idealistas, muitas das quais morreram fuziladas nos campos de

extermínio da URSS, bradando triunfalmente o nome do carrasco, no momento em que este as executava, o que prova que

o comunismo é a religião secular do nosso tempo.

O sentimento de nobreza proveniente de se enxergar como um desses “ungidos”, para usar o termo de

omas Sowell, coloca qualquer outra droga no chinelo. Se os ricos artistas da esquerda caviar

costumam curtir cocaína ou maconha, seus pares intelectuais vão de marxismo mesmo, droga das mais

pesadas.

Sowell, em seu magistral Intellectuals and Society, alerta que provavelmente nunca houve uma época

em que intelectuais gozaram de maior in uência na sociedade. Para piorar, a ocupação dos intelectuais

— aqueles que “produzem” e vivem das ideias, ao contrário de outras pro ssões, digamos, “concretas”,

como a engenharia ou a física — não está tão sujeita ao “teste do pudim”. Um prédio que cai por erro de

cálculo é evidente demais, prova do fracasso do engenheiro, e até uma bem elaborada teoria, como a da

relatividade, de Einstein, só ganha credibilidade após verificação prática. Já os intelectuais podem desfrutar de respeito ou fama mesmo com a defesa de ideias que se

mostraram, na prática, catastró cas. Eles estiveram, nos últimos anos, blindados contra as consequências

materiais de suas ideias, e abusaram dessa imunidade. Sartre era idolatrado mesmo depois de apoiar

regimes nefastos. Paul Ehrlich disse, em 1968, que centenas de milhões de seres humanos morreriam de

fome na década de 1970, previsão que se mostrou totalmente errada. E por aí vai.

Sem essa ligação entre causa e efeito, entre ideias e consequências, sem o crivo do método cientí co

para validar ou refutar suas teorias, os intelectuais tiveram o campo livre para tratar seu produto como

algo infalível, isento da refutabilidade científica, i.e., como uma revelação religiosa.

Vários foram os pensadores que perceberam esse fervor religioso no comunismo. Keynes a rmou que a

espiritual que passava a

sensação de contemporaneidade. Edmund Wilson alegou que, na União Soviética, a pessoa se sentia no

topo moral do mundo, onde a luz nunca se apaga. Beatrice Webb, mesmo mais pragmática, reconheceu

que a Rússia, apesar de professar o materialismo científico, fez mais pela alma que pelo corpo.

Havia um senso de propósito coletivo, de comunhão, de construção de uma Nova Era igualitária e

justa na cabeça de muitos intelectuais. Os males da humanidade seriam extintos. Os intelectuais

nalmente contavam com uma religião adaptada para os tempos modernos. E isso não morreu junto

com o comunismo soviético...

Em uma época secular, o comunismo veio oferecer uma alternativa de “vida eterna” para seus

adeptos. Arnaldo Jabor, remexendo em seu passado, explicou como a coisa funcionava:

Um “camarada” me disse: “O marxismo supera a morte!” Como? — disse eu, espantado. “Claro” — me responde ele,

iluminado de certeza — “uma vez dissolvido no social, o mito do indivíduo se desfaz, e a ilusão de que ele existe como

pessoa. Ele só existe como espécie. E não morre. O marxista não morre!” E eu, fascinado, sonhei com a vida eterna...

Os tiranetes abusam desta fé religiosa, naturalmente. Quando Hugo Chávez estava hospitalizado em

Cuba e não teve como assumir seu novo mandato, o então vice-presidente Nicolás Maduro deu uma

declaração que ruborizaria o mais carola dos crentes. Disse:

Temos com Cuba a irmandade mais profunda que possa existir. Foi este exército de barbudos que, quase como anjos,

começou aos poucos e foi conquistando sua independência, mesmo com o bloqueio ianque. Quando Chávez e Fidel se

encontram, nós, seus filhos, nos vemos como irmãos, unidos para lutar pela independência de nossos povos.

Maduro, apesar do nome, demonstrou não passar de um adolescente boboca. Ou, na verdade, um

explorador de adolescentes bobocas, capazes de cair nesse tipo de conversa ada. E não faltam

intelectuais dispostos a agir como adolescentes.

Quando Chávez nalmente bateu as botas de militar golpista, a histeria foi incrível, e Ahmadinejad

chegou a compará-lo a Jesus Cristo! Seus fãs deixaram transparecer o quanto sua idelogia é uma

substituta para a religião. Em um dos bairros mais pobres de Caracas, criaram a capela para o Santo

Hugo Chávez, que foi visitada por milhares de fanáticos. São todos ateus em busca de um messias. Mario

Vargas Llosa, em artigo no Estadão, escreveu:

Cruzamento de super-homem e bufão, o caudilho faz e desfaz a seu bel- prazer, inspirado por Deus ou por uma ideologia

na qual, quase sempre, se confundem o socialismo e o fascismo — duas formas de estatismo e coletivismo — e se comunica

diretamente com seu povo mediante a demagogia, a retórica e espetáculos multitudinários e passionais de cunho mágico-

religioso.

A suposta superioridade moral desses marxistas religiosos depende apenas da retórica, das boas

intenções, do pertencimento ao grupo, e não dos resultados concretos daquilo que é defendido enquanto

meio. Trata-se da “tirania da visão”, para pegar emprestada outra expressão de Sowell.

Esses intelectuais monopolizam as virtudes, e não precisam mais debater focando em argumentos.

Seus opositores são rotulados com base na intenção. Eles são insensíveis, racistas, lacaios da indústria

bélica, fascistas, preconceituosos, homofóbicos, reacionários e tantas outras coisas feias. Como disse Ayn

Rand, “o argumento pela intimidação é uma confissão de impotência intelectual”.

Em Bullies: How the Le’s Culture of Fear and Intimidation Silences Americans , Ben Shapiro disseca

justamente essa estratégia da esquerda, de rotular aqueles que discordam, fazendo uma espécie de

bullying intelectual. Em uma das maiores inversões da história, ainda conseguiu fazer com que a direita

fama de bullies mundiais,

logo eles que enfrentaram os mais perigosos regimes opressores.

Como a esquerda é organizada e ainda conta com o aparato estatal, enquanto a direita costuma

pensar de forma mais individualista, aquela leva vantagem sobre esta quando se trata de intimidação

moral. A esquerda usa todas as instituições possíveis para perseguir e pressionar. Ainda conseguiu

convencer muita gente de que liberdade é sinônimo de mais controle estatal, e acusa de bullying

justamente aqueles que enfrentam essa escalada de poder do estado. Shapiro resume a situação:

A esquerda forçou os americanos a aceitar a rede nição radical da liberdade econômica para abranger o controle do

governo sobre como dar a descarga em seu banheiro; maternidade solteira como igual em qualidade moral e nos

resultados à estrutura familiar tradicional, a remoção completa da religião da vida pública, e sua substituição pela

vulgaridade; rejeição de uma sociedade daltônica em favor do racismo reverso; a criação de uma grande rede de proteção

social que oferece proteção para o preguiçoso e uma rede para o setor produtivo. E por aí vai.

E ai de quem discordar da esquerda! Só pode ser um inimigo da liberdade. Lênin ensinou-lhes: acuse seu

inimigo daquilo que você é. Muitos ligam a metralhadora giratória em frente a um espelho, projetando

nos outros os seus defeitos. O conservador Bill Whittle marcou um golaço quando disse:

Não adianta chamar um racista de racista, um membro da KKK se orgulhava de ser racista, um nazista não considera ser

acusado de nazista uma ofensa, é óbvio! A esquerda e as celebridades de Hollywood nos fazem essas acusações

repetidamente, há 40 anos, todas as vezes que abrimos a boca para discutir um assunto sério porque sabem que é mentira!

Eles perceberam que isso ofende profundamente quem não é racista, misógino, homofóbico, fascista, que isso nos enoja,

que nos faz parar de falar abertamente sobre o que tem que ser falado para não ouvirmos esses absurdos. É uma estratégia

desenhada para calar você e têm sido muito bem-sucedida.

Um bom exemplo disso é a postura de boa parte da esquerda quando morre algum ícone de um dos

lados ideológicos. Se algum conservador celebrar a doença ou a morte de alguém, ainda que seja a de um

tirano comunista que matou milhões de inocentes, a esquerda logo se mostra “chocada” com tanto ódio,

pois é formada por pessoas humanitárias, bondosas e tolerantes. Mas a mesma esquerda, quando morre algum herói dos liberais ou conservadores, vem logo destilar

todo o seu ódio, gritar que já foi tarde, celebrar publicamente o fato. Foi assim quando atcher morreu,

ou quando Roberto Civita, o então presidente do Grupo Abril, dono da revista Veja, odiada pela

esquerda, pois não se vendera ao PT, faleceu, em maio de 2013. O duplo padrão moral, a hipocrisia e a

canalhice saltam aos olhos.

Eles apelam para a falácia do espantalho (straw man) com frequência também. Em vez de ter de

debater com o liberal ou conservador em si, rebatendo os argumentos que apresentam, os intelectuais de

esquerda preferem criar um conservador imaginário, um liberal hipotético, um espantalho en m,

colocando em sua boca inúmeras palavras jamais ditas. Isso torna o ato de “debater” mais fácil, e o

esquerdista pode posar de nobre diante da multidão, tendo detonado alguém que simplesmente não

existe!

Como se dá no fanatismo religioso, aquele que não comunga da mesma fé só pode ser um herege, um

pecador que vai arder no mármore do inferno. Tal ideologia, uma nova religião laica, possui seus

profetas, seus santos, seus demônios, seu povo escolhido (no caso, a classe), os excomungados, tudo de

forma muito similar às demais religiões que condenam.

Mas, para dar maior credibilidade ao seu credo no mundo moderno, eles o pintaram com um verniz

pseudocientítico. Falam em nome da Razão (com R maiúsculo), ignorando todos os contrapontos

racionais. Alexis de Tocqueville foi um dos observadores que perceberam isso. Para ele, a crença excessiva

na razão e na racionalidade quase inexoravelmente leva ao seu oposto: irracionalidade e falta de

realismo. Se os fatos não ajudam a teoria, pior para os fatos!

Sigmund Freud, o “pai da psicanálise”, é conhecido por seus ataques à religião, que considerava uma

espécie de neurose obsessiva universal da humanidade. O que menos gente sabe é que viu no marxismo o

mesmo fenômeno, uma Weltanschauung, uma visão de mundo que tenta explicar tudo para aplacar a

angústia dos crentes. Freud explica:

O marxismo teórico, tal como foi concebido no bolchevismo russo, adquiriu a energia e o caráter autossu ciente de uma

Weltanschauung; contudo, adquiriu, ao mesmo tempo, uma sinistra semelhança com aquilo contra o que está lutando.

Embora sendo originalmente uma parcela da ciência, e construído, em sua implementação, sobre a ciência e a tecnologia,

criou uma proibição para o pensamento que é exatamente tão intolerante como o era a religião, no passado. Qualquer

exame crítico do marxismo está proibido, dúvidas referentes à sua correção são punidas, do mesmo modo que uma

heresia, em outras épocas, era punida pela Igreja Católica. Os escritos de Marx assumiram o lugar da Bíblia e do Alcorão,

como fonte de revelação, embora não parecessem estar mais isentos de contradições e obscuridades do que esses antigos

livros sagrados.

É assim que a esquerda caviar consegue continuar pregando o socialismo mesmo depois de todas as

várias experiências catastró cas dessa utopia. Os 100 milhões de mortos sacri cados no altar de sua

ideologia não foram su cientes para derrubar sua fé. Aquilo não era o comunismo, mas o “socialismo

real”, alegam. Ao defender um ponto de chegada impossível e inatingível, protegem-se de qualquer

crítica no mundo real. O reino dos céus prometido para o aqui e agora ainda vai chegar...

Dessa maneira, esses intelectuais podem insistir na mesma ladainha sem constrangimento. Basta

repetir que nenhuma dessas tragédias cometidas em nome de sua ideologia representa de fato o que

defendem. Blindados contra a realidade, estão prontos para o próximo experimento utópico. Insanidade,

dizia Einstein, é repetir tudo da mesma forma e esperar resultados diferentes. “Chequem as premissas!”,

diria Ayn Rand.

Eles passam a espalhar o mito de que o comunismo é uma ideia boa que não deu certo, em vez de

reconhecer que a própria ideia é terrível, simpática somente àqueles que gostariam de ser como abelhas

ou cupins, e não seres humanos singulares. Ignoram que os meios pregados pelo comunismo, abolindo a

propriedade privada e coletivizando nossas vidas, inexoravelmente levam ao mesmo resultado em todo

lugar: miséria, escravidão, terror.

O intelectual comunista Vladimir Safatle, em sua coluna da Folha, elogiou a insistência na revolução,

alegando que o importante é sonhar, e que Marx estava enganado quando disse que a história se repete

como farsa; ela se repete como redenção. Nas “entrelinhas”, eis a mensagem: a revolução comunista deu

errado porque os povos “erraram” e agiram de forma “irreconhecível”, mas esses não precisam ser os

capítulos finais.

A revolução que o intelectual defende, a comunista, merece uma “segunda chance”. Não aprendeu

nada com o retumbante fracasso daquela iniciada por seu guru Lênin, inclusive parecido sicamente

com ele (seria só coincidência?). Safatle a rma que “povos éis a seu desejo nunca fracassam”. Isso é o

triunfo da vontade sobre a realidade! Essa gente precisa de quantos cadáveres a mais para desistir do

sonho? Outros 100 milhões?

Talvez o maior ícone desse tipo de esquerda caviar seja o falecido historiador Eric Hobsbawm. Ele

respondeu “sim” ao canadense Michael Ignatieff, quando este perguntou se 20 milhões de mortes seriam

justi cáveis caso a utopia comunista tivesse sido criada. Em sua autobiogra a, Hobsbawm descreveu a

experiência soviética com ternura, ignorando as barbaridades que já eram amplamente conhecidas.

O futuro imaginário é muito mais importante que o presente, e o projeto revolucionário, mesmo

adaptado, é o que fornece a esses radicais algum sentido de vida. Como disse David Horowitz, a

hostilidade sem fundamento para com o presente é a inspiração prática da fé radical. Esses intelectuais

precisam da utopia como um poeta precisa da dor. Como disse Roger Kimball em The Long March:

Movimentos utópicos obtêm sucesso porque dizem às pessoas algo que elas desejam desesperadamente ouvir. Se a

mensagem é ou não verdadeira não vem ao caso. Ela fala a uma necessidade profundamente sentida, e isso é su ciente. [...]

Na medida em que alguém endossa a apoteose da possibilidade, ele tende a tratar o mundo real e os seus ocupantes com

desprezo arrogante. Por isso o elemento utópico em todos os movimentos políticos totalitários.

Na segurança da vida acadêmica, com estabilidade no emprego e mergulhados no mundo platônico das

ideias, esses intelectuais habitam torres de mar m, e do conforto de seus escritórios desenham castelos

nas nuvens. A de nição do historiador Paul Johnson para intelectual vem bem a calhar aqui: aquele que

gosta mais das ideias do que dos homens. É como o alerta feito por Nelson Rodrigues e destacado na

epígrafe deste livro: “Amar a Humanidade é fácil; difícil é amar o próximo.” Vítimas de profundo autoengano, esses intelectuais desejam acreditar em sua utopia acima de tudo.

Esse desejo cria um viés absurdo, que rejeita contrapontos para evitar a dor da dissonância cognitiva. Foi

assim que inúmeros acadêmicos visitaram regimes comunistas e foram feitos de idiotas úteis por seus

líderes. Lênin mesmo os via dessa forma.

Em seu livro Dupes: How America’s Adversaries Have Manipulated Progressives for a Century , Paul

Kengor mostra, com minuciosa pesquisa em fontes primárias, como esse tipo de engano se deu. Ele

cunhou a expressão “progressistas Potemkin” para designar esses inocentes úteis.

Grigori Potemkin foi um o cial russo que construiu falsas fachadas para impressionar Catarina II

durante uma visita à Crimeia. Os soviéticos e demais comunistas usaram a mesma estratégia para

encantar os progressistas ocidentais, loucos de vontade de enxergar apenas coisas maravilhosas para

alimentar sua utopia.

Em uma dessas visitas, vários intelectuais americanos foram conversar com Stalin para escutar sobre

os avanços fantásticos do regime. Segundo relata Amity Shlaes em  e Forgotten Man, a reunião contou

com queijos, salsichas e até sanduíches de caviar. Enquanto degustavam a fartura e se deliciavam com as

mentiras de Stalin, os proletários famintos buscavam desesperadamente batatas escassas do lado de fora.

Literalmente, uma esquerda caviar!

9. Alienação

Análogo ao caso anterior está o fenômeno da alienação, não aquela associada às massas, vidradas em

novelas e futebol, mas aquela típica dos intelectuais. Quem defendeu a tese de que a identi cação da

sociedade como alienada levou muitos intelectuais a pregar utopias e regimes tirânicos mundo afora foi

Paul Hollander, em seu excelente livro Political Pilgrims.

Intelectuais, normalmente mais sensíveis e atentos aos valores decadentes da

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