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Técnica Social da Sede Administrativa da

Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe e

Sílvia Pereira Directora da

Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe ([email protected])

Apresentação

A intervenção das Organizações Não Governamentais (ONG) constitui um enquadra- mento simultaneamente conjuntural e estruturante para as acções nas áreas da Protecção Social e da Luta contra a Pobreza em São Tomé e Príncipe, tal como em muitos outros países. Na sua acção estruturante evidenciam-se dinâmicas associadas ao desenvolvimento local, através da implementação de estratégias de terreno que consolidam políticas so- ciais, por via dos seus objectivos específi cos e dos recursos que são utilizados.

A Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe (SCMSTP) constitui uma en- tidade que viabiliza a aplicação de medidas políticas de carácter social por via da Ajuda Pública ao Desenvolvimento, em acordo bilateral entre os Ministérios do Trabalho de São Tomé e Príncipe e de Portugal. A actuação da SCMSTP refl ecte-se, deste modo, numa aná- lise simplifi cada, entre a emergência de actividades geradoras de receita e a ampliação de processos intergeracionais que se efectivam através da implementação de um programa de apoio aos grupos mais carenciados, que se fi rmou há uma década, entre o Governo San- tomense e o Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho e da Solida- riedade Social (MTSS) de Portugal. O protocolo estabelecido fundamenta-se na activação de uma Rede de Protecção Social nacional, na qual se inserem práticas de assistência e de economia solidária e se incluem diversas parcerias locais.

A promoção dos serviços, que respondem às necessidades diagnosticadas de forma empírica pelos agentes sociais, ao longo de uma década, apresenta uma correlação directa entre a amplitude das acções levadas a cabo pelos organismos do Estado, das empresas, das instituições de solidariedade e das famílias, e as dimensões ecológica, social e cultural que se encontram no processo de capacitação individual e colectiva das comunidades. Facto que é consensual, em última análise, na medida em que o empreendedorismo social tem como objectivo obter resultados que promovam mudanças na vida das pessoas, atra- vés do reforço das suas capacidades (Melo Neto et Froes, 2002).

Assim sendo, os princípios de intervenção da Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe enquadram-se no âmbito de três grandes problemáticas:

– O emprego e a inserção sócio-profi ssional; – O desenvolvimento local e sustentável

Neste sentido, o Projecto Desenvolvimento de uma Rede de Protecção Social para São

Tomé e Príncipe, coordenado pela Misericórdia santomense, abarca através de um dos

seus sub-projectos, o “Projecto de Desenvolvimento Integrado de Lembá”, diversas acções empreendedoras e de economia solidária para o crescimento de uma comunidade mais sustentável.

Também de alicerce solidário, o projecto Ossobô EcoSocial, circunscreve-se na criação de emprego, comercialização e divulgação dos produtos nacionais aliados à melhoria da qualidade geral, e dos níveis de educação e de preservação ambiental.

Pese embora existam esses aspectos, empreendedor e solidário, nas suas intervenções, esta organização não descura os jovens, população estudante e activa, num país com uma pirâmide etária bastante jovem. Desta feita a Juvecórdia, Associação Juvenil, apresenta-se como um movimento informal no seio de uma das componente da SCMSTP, vocacionado principalmente para causas sociais e ambientais.

1. A Emergência dos Projectos

Na perspectiva de Helba (2003), o Terceiro Sector ou sector sem fi ns lucrativos pode ser defi nido como um conjunto de organismos que são institucionalizados, privados, in- dependentes e sem fi ns lucrativos.

A Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe, enquanto instituição do Ter- ceiro Sector, abarca nas suas acções projectos e/ou equipamentos sociais que têm como objectivo complementar a obtenção de lucros sociais, que concorrem para a realização de actividades tendo em vista a melhoria da qualidade de vida dos seus cerca de 2.000 bene- fi ciários e 100 funcionários.

Perante um cenário em que as necessidades são muitas, e no qual os recursos, na- turalmente, não permitem responder a todas, a SCMSTP tem procurado encontrar um sistema de selecção das intervenções que responda a uma lógica de expansão metódica, procurando abranger gradualmente todo o território.

Numa das defi nições de Economia Solidária, a identifi cação das formas organizativas de cooperativas, associações e mutualidades pressupõe a clarifi cação dos seguintes princí- pios (Defourny et al., 1999: 38-39):

– Finalidade de serviços aos membros ou à colectividade mais do que obtenção de lucros;

– Autonomia em termos de gestão;

– Democracia no processo de decisão, em que a qualidade do membro e a sua par- ticipação nas decisões não dependem do capital que detém;

– Prioridade das pessoas e do trabalho na repartição dos rendimentos.

Assim, na vertente mais economicista, a entidade aplica em parte os critérios de uma Economia Solidária, enquanto resultado da recuperação de acções que seriam natural-

mente inerentes à esfera pública, por via da construção de alternativas económicas, em processos de participação, de solidariedade e de incentivo à consciencialização para a im- portância de práticas de cidadania.

2. Projecto de Desenvolvimento Integrado de Lembá

O Projecto de Desenvolvimento Integrado de Lembá (PDI) localiza-se na Cidade de Neves e abarca o Lar S. Francisco, a Creche «o Pimpolho», o Bairro Social Mãe Clara, as Ofi cinas de Carpintaria, de Costura e de Informática, uma Rádio Comunitária e a inter- venção na zona das comunidades rurais de Santa Catarina. A sua gestão encontra-se sob a alçada das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, numa óptica de autonomia face à SCMSTP. A evolução deste processo de acompanhamento necessita de se multiplicar por outros projectos inseridos no Projecto Desenvolvimento de uma Rede

de Protecção Social para São Tomé e Príncipe enquanto testemunhos de boas práticas, com

independência nas áreas da coordenação das actividades e da gestão orçamental . Nos objectivos principais do PDI de Lembá encontram-se a melhoria das condições de vida para a população residente, através da oferta de serviços para idosos e crianças, bem como o impulsionar de actividades geradoras de rendimento, a oferta de acções de formação contínua, o enriquecimento e a divulgação da cultura local e a criação de meios para a sustentabilidade do próprio Projecto.

Os resultados evidenciam-se a vários níveis, como por exemplo: na capacitação de uma comunidade de prática para uma Economia Solidária por via do aumento signifi - cativo de encomendas nas Ofi cinas de Carpintaria e de Costura, ao longo dos anos de 2008 e de 2009, da sustentabilidade parcial da Creche através da utilização de receitas provenientes destas ofi cinas, ou seja, da criação de rendimentos por parte da população residente, nomeadamente das famílias que habitam nas casas sociais do Bairro Mãe Clara. A prática de uma perspectiva integrada no PDI de Lembá proporciona a oferta de cerca de 60 postos de trabalho internos. Por isso, este projecto deve ser entendido como um ins- trumento privilegiado de aprofundamento da estratégia que permita fazer face e prevenir as vulnerabilidades com as quais esta região ainda se confronta.

3. Ossobô EcoSocial

Ossobô EcoSocial é um projecto de Economia Solidária, que se apresenta como uma

actividade auto-sustentável desde Setembro de 2006.

A capacitação e autonomia técnica por parte das duas funcionárias do Projecto, ao longo dos anos de 2007 e 2008, constituiu um dos desafi os que contribuiu para a susten- tabilidade, no sentido lato, da componente. A Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe constata deste modo a consolidação dos objectivos iniciais fi rmados em 2004: abranger jovens desempregados nas suas acções através de uma nova componente dedica- da à implementação de uma rede de produção e de comercialização de artesanato nacional. Com esta medida facilitou-se o aumento de rendimentos por parte de cerca de 50

artesãos (mais envolvidos), através da entrega aos mesmos de cerca de 80% do valor do produto vendido. As receitas de 2008 refl ectiram-se já como donativo no orçamento geral da SCMSTP para apoio a outros projectos da instituição no presente ano.

Importa referir também que o Ossobô EcoSocial afi rma-se como um ponto turístico de referência, onde se encontram peças de artesanato e arte de qualidade, que represen- tam a cultura do País. Mostra, ainda, uma preocupação com problemas ambientais, não aceitando peças de tartaruga, por exemplo, e sociais, respondendo às necessidades dos artesãos, pela via do micro-crédito e pela possibilidade de oferta de formações contínuas. 4. Juvecórdia

A Juvecórdia consiste num movimento juvenil que, enquanto actor participante no desenvolvimento local, consubstancia-se no elo entre gerações, pela prática de actividades de inter-ajuda com os mais velhos, na partilha de que a brincar também se aprende, na ex- perimentação de vários instrumentos de enquadramento laboral, bem como na aceitação de novos desafi os inerentes à preservação e conservação do espaço em que vivem.

Este movimento tem como princípios de intervenção a aplicação dos valores cristãos na realização das actividades nos diversos equipamentos e projectos da Misericórdia. Des- te modo, treinam a correlação entre a prática da generosidade, a organização e execução de actividades e o desenvolvimento de formas activas de cidadania.

Após cinco anos de existência, o grupo é actualmente constituído por 180 jovens, distribuídos equitativamente pelo género, sendo representado por uma maioria estudantil que se situa entre os 18 e os 25 anos, encontrando-se repartidos pelos diversos distritos de São Tomé, totalizando nove núcleos, de norte a sul e na Região Autónoma do Príncipe. Conclusão

A SCMSTP, enquanto entidade coordenadora da Rede de Protecção Social, pretende incentivar o reforço da coesão social, colaborando na sensibilização dos actores locais para o empowerment de micro-projectos socio-económicos que considerem as realidades ecológicas e sócio-culturais locais.

É, portanto, na congregação destes princípios de intervenção que a Santa Casa da Misericórdia de São Tomé e Príncipe se posiciona, de modo a colocar os seus funcionários nacionais mais capacitados, não só ao serviço da Assistência Social como igualmente no apoio a novas actividades intrínsecas ao desenvolvimento do território santomense. Referências Bibliográfi cas

DEFOURNY, Jacques et al., (1999). L’économie Sociale

au Nort et au Sud. Paris/Bruxelles, De Boeck Uni-

versité

GONÇALVES, Miguel A. C.(2000). O empreendedo-

rismo em Portugal: Tipifi cação das empresas e perfi l dos empreendedores. Lisboa, Instituto Superior de

Ciências do Trabalho e da Empresa

HELBA, Bénédicte (2003)- Bénévolat et Volontariat

en France et dans le Monde. Les Études de la Docu-

mentation Française

MELO NETO, Francisco P. de; FROES, César (2002).

Empreendedorismo social: a transição para a socie- dade sustentável. Rio de Janeiro, Qualitymark

O Comércio Justo e o Desenvolvimento Local

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