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Turismo e Desenvolvimento Local: das Potencialidades às Realizações

1. Sobre o Turismo e o Desenvolvimento Local

Pelos elementos que o caracterizam, o Turismo é consensualmente defi nido como um sector económico dinâmico, potenciador de desenvolvimento social e de valorização cultural podendo ser, simultaneamente, considerado como uma actividade económica e um fenómeno social que envolve actores, motivações e expectativas, associados à prosse- cução de práticas diversifi cadas (Brito, 2004). Além de ser uma actividade económica, é concebido como um fenómeno humano, social e cultural, marcado pelo carácter tempo- rário e dependente de motivações individuais, resultando no estabelecimento de relações interpessoais entre os diferentes actores envolvidos.

Ao longo do tempo, a nível mundial, verifi cou-se uma evolução nas práticas, forte- mente infl uenciada pela valorização e generalização do acesso a serviços de lazer e de ocu- pação de tempos livres (Brito, 2004). A tendência foi no sentido da diversifi cação da ofer- ta, evidenciando a emergência de novos modelos em que coexistem diferentes segmentos, sendo uns classifi cados de tradicionais ou convencionais e os outros de alternativos e inovadores. A estas tipologias são vulgarmente reconhecidos atributos, tendencialmente

negativos no primeiro caso, visto que as práticas associadas têm produzido impactos de sobrecarga no ambiente e nas comunidades. No segundo caso, são evidenciados traços caracterizadores positivos, dado que os praticantes pautam os seus comportamentos por princípios éticos, de respeito pelas diferenças, valorizando as características locais, tanto culturais como ambientais (Brito et al, 2009; OMT, 2004). Assim perspectivado, o turismo encerra uma característica de fl exibilidade, já que se fundamenta na possibilidade de co- existirem diferentes segmentos, técnicas e instrumentos, vocacionados para as dimensões social, cultural e ambiental, mas também regulados por linhas de orientação economi- cistas, em que o lucro e a rentabilização do investimento realizado são particularmente valorizados e considerados como determinantes para o sucesso das actividades.

Independentemente dos segmentos considerados, toda a actividade turística está re- ferenciada em meios ambientais e sociais específi cos e produz impactos, positivos e nega- tivos, pelo que requer a adopção de medidas adequadas de planeamento, monitorização, regulação e controle (OMT, 1997). Habitualmente, os impactos positivos são facilmente identifi cados e reconhecidos , traduzindo-se na valorização das mudanças operadas nas sociedades de acolhimento, em particular no que respeita à dinamização do mercado de trabalho, à multiplicação das oportunidades laborais, à generalização do acesso à educa- ção e à formação, à facilitação das acessibilidades e das comunicações e ainda à abrangên- cia dos cuidados de saúde primários. A médio e a longo prazo são identifi cados outros benefícios que revertem a favor das populações locais sob a forma de benefícios, nomea- damente a criação de infra-estruturas, o acesso a recursos, o incremento do consumo e a valorização cultural.

Contudo, a actividade turística promove, em muitas circunstâncias, a emergência de impactos não desejáveis, nem sempre equacionados e previstos aquando da programação das actividades mas que, no longo prazo, podem ter efeitos sociais e económicos preju- diciais para as comunidades, por não promoverem a criação de mecanismos tendentes à esperada autonomia nacional, regional e local. Estes impactos negativos, vulgarmente identifi cados com a emergência de indícios de desestruturação social e económica, coin- cidem com o aparecimento de novos modelos, alternativos e não formais, de aquisição de rendimento e de produção económica, classifi cados no quadro da economia paralela, bem como de organização social, tais como: o tráfi co de droga, complementado com o estímu- lo ao consumo; a prática da prostituição com eventual envolvimento de redes estrutura- das; a violência associada ao furto e criminalidade individual ou localmente organizada em gangs com actuação regular; a corrupção e o clientelismo. Por outro lado, o turismo pode ainda ter um impacto negativo indirecto na vida das comunidades locais sempre que o nível de vida aumenta em resultado do infl accionismo dos preços, particularmente dos produtos básicos e indispensáveis à sobrevivência e que refl ectem as condições de vida das famílias.

Para que o turismo seja considerado um sector promotor de desenvolvimentos a nível local é assim necessário contemplar a possibilidade de surgirem efeitos negativos,

além dos positivos, que naturalmente são esperados e desejados, de forma a ser possível controlá-los, regulá-los e minimizá-los, potenciando os resultados benéfi cos. Perante a perspectiva de ser gerador de mudanças positivas a favor do bem-estar das comunidades de acolhimento, e procurando controlar os efeitos indesejáveis, o turismo pode ser enten- dido como um sector prioritário e estratégico para a valorização, a nível local, das áreas de intervenção económica, social, cultural e ambiental. Neste sentido, pode falar-se da rela- ção entre o turismo e o desenvolvimento local, já que a valorização das potencialidades, a promoção dos elementos caracterizadores, a criação de condições para a melhoria da vida das populações são critérios contemplados no planeamento estratégico das actividades turísticas.

O desenvolvimento local (Brito, 2004) valoriza, por um lado, as particularidades re- gionais no que respeita aos recursos naturais e paisagísticos, aos sectores de actividade económica tradicionais, à organização social, aos elementos culturais e identitários, mas também às formas de regulação social e política. Por outro lado, equaciona o redimen- sionamento territorial por se fundamentar em lógicas infranacionais, estando focalizado na pequena dimensão e na defi nição de objectivos específi cos, comuns e adaptados às necessidades, apostando também nas capacidades reconhecidas de identifi cação, defi ni- ção e criação de medidas estratégicas em função dos problemas localmente sentidos. A opção metodológica e de intervenção consiste no incentivo estratégico para a adopção de atitudes participativas e proactivas com envolvimento dos grupos comunitários em todas as fases do processo, ou seja implicando todas as pessoas nas actividades, desde o planea- mento até à execução.

O modelo participativo, também denominado de desenvolvimento centrado na po- pulação com empowerment (Brito, 2004) relaciona-se com o princípio da inclusividade, que contribui para o reforço identitário. A inclusão implica o reconhecimento do senti- mento de pertença a um grupo ou comunidade com identifi cação de problemas, neces- sidades e objectivos comuns, encontrando alternativas que respondam às preocupações sentidas. O reforço das identidades comunitárias contribui para a estruturação social, já que pressupõe a identifi cação e a integração de valores, normas e práticas culturais que facilitam o estabelecimento de uma ligação entre o indivíduo e o grupo, promovendo a inclusividade e a participação. A proactividade inerente à metodologia adoptada para a prossecução do desenvolvimento local favorece a equidade entre os membros do grupo no que respeita à identifi cação conjunta de necessidades possibilitando também a promoção do bem-estar social.

Perante estes pressupostos, o desenvolvimento local passa a ser entendido como um meio de promoção da sustentabilidade que privilegia a perspectiva do longo prazo nas diferentes dimensões que a constituem (económica, social, cultural, ambiental e até polí- tica), tendo por objectivo último o bem-estar social presente, sem contudo pôr em risco a segurança das gerações futuras.

tes grupos e actores evidencia a capacidade de intervenção a nível local, regional, nacio- nal e internacional, gerando múltiplos impactos infranacionais de âmbito interdisciplinar (económico, social, cultural, ambiental e político). Sempre que planeado e programado, o turismo representa um meio facilitador de desenvolvimentos por estimular a economia local criando novas oportunidades, incentivar a aprendizagem e o aumento de conheci- mentos, recriar práticas e recuperar tradições ancestrais autênticas, valorizando-as, pro- mover e divulgar a genuinidade e a ancestralidade, mas também por incrementar a troca de experiências e o contacto com diferentes padrões culturais e sociais. É neste contexto que surgem, entre outros, os conceitos de turismo ético, responsável, solidário, ecológico e sustentável, evidenciando novos protagonismos e pondo em prática formas de actuação alternativas às práticas convencionais.

O sector do turismo é entendido como estratégico (Brito, 2004) visto reunir um con- junto de actividades económicas interdependentes que estimulam os processos de mu- dança. É uma actividade que pode ser defi nida como catalizadora de efeitos de difusão, criando múltiplas oportunidades e tornando exequível a modernização interna, tendo em conta a multiplicidade de dimensões que engloba, resultando num mecanismo que in- fl uencia as comunidades de acolhimento, propiciando a interacção com grupos e culturas diferentes.

Ao turismo são vulgarmente reconhecidos atributos de excepção no que respeita à criação de condições que benefi ciem, directa e indirectamente, as comunidades locais. Neste sentido, pode falar-se em actividades turísticas enquanto via para o desenvolvimen- to local, o que implica a assumpção de um conjunto de requisitos, entre os quais:

– a capacitação das populações locais na aquisição de conhecimentos e na dispo- nibilização de informações que lhes permitam efectuar escolhas conscientes e responsáveis, colaborar no planeamento das iniciativas e pôr em prática todas as tarefas previstas;

– a criação de emprego fundamentada na identifi cação de novas oportunidades profi ssionais com consequente incremento das fontes de rendimento familiar; – a promoção e a intensifi cação das redes e dos circuitos produtivos e comerciais

locais e regionais, facilitando a revitalização económica interna, estimulando a redução das dependências em relação a consumo promovido externamente; – a valorização das práticas culturais e dos sistemas simbólicos, incluindo os tradi-

cionais e ancestrais, que contribuem para o reforço e a valorização do sentimento de pertença dos membros das comunidades;

– a potenciação de acções comunitárias de preservação ambiental com reconheci- mento das áreas protegidas e a proteger, independentemente do estatuto de ofi - cialização;

– a viabilização de acções conservacionistas no que respeita a espécies, em particu- lar endémicas ou ameaçadas e classifi cadas na Lista Vermelha da União Interna- cional para a Conservação da Natureza (UICN).

Assim, o turismo é entendido como um sector que potencia e estimula o desenvol- vimento integrado, equilibrado e sustentável, que dinamiza as economias locais a partir da valorização das actividades tradicionais complementada pela introdução de elementos modernos e promotores de mudança.

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