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Instrumentos de Implementação do Poder Local: o caso de estudo da Chibia

Caso De Estudo: o Município da Chibia (Angola) Catarina Cunha

3. Instrumentos de Implementação do Poder Local: o caso de estudo da Chibia

3.1. FEM e PIM

No seguimento do Decreto-lei nº 2/07 de 3 de Janeiro, o Governo desenvolveu o Pro- grama de Melhoria da Gestão Municipal (PMGM), que acompanha o processo de apro- fundamento da desconcentração e visa programar a estrutura de transição para o processo de descentralização. Este programa procura o reforço da capacidade de intervenção do Município, coerente e articulado com outras iniciativas do Governo central, visando so- bretudo a criação de sinergias e potenciação da iniciativa privada em sectores de interven- ção tradicionalmente associados ao Estado (e.g. ambiente, saneamento básico, serviços de electricidade e água, cemitérios, feiras e mercados).

Ao transferir competências para um nível municipal o Governo desenvolve uma es- tratégia consistente e coerente com os interesses das populações por via da administração municipal. Com a aprovação do Fundo de Emergência Municipal (FEM), sustentado a nível central, as Administrações Municipais passam a dispor de um orçamento e um plano estratégico que deverá orientar os investimentos a realizar a curto prazo e médio prazo. A nível municipal procura-se uma melhoria da gestão (MAT, 2008) assente em 3 medidas fundamentais: o reforço da capacidade de gestão municipal; a modernização administra-

tiva; e a melhoria da qualidade de vida dos munícipes

A elaboração do Plano de Intervenção Municipal (PIM) materializa o programa de acção a ter em conta na aplicação do Fundo de Emergência Municipal (FEM). O PIM poderá ser complementado por outros instrumentos de planeamento (planos de desen- volvimento e planos territoriais) e contém as acções imediatas e a prazo que visem a ma- nutenção das estruturas públicas, a promoção e apoio de iniciativas de integração social e de valorização municipal e prestação de serviços públicos. Excluem-se deste plano os projectos abrangidos pelo Programa de Investimento Público (PIP) e Plano de Desenvol- vimento Municipal. Da sua elaboração constam a descrição da carteira de projectos consi- derando a especifi cação das acções, a sua duração, o valor estipulado, a forma e montante do desembolso, a data de arranque e o benefi ciário. O Município da Chibia foi um dos 68 Municípios a nível nacional seleccionados para dar início ao processo de desconcentração e descentralização nacional.

3.2. O Município da Chibia no quadro do processo de desconcentração e descentralização: diagnóstico da situação

O Município da Chibia integra um dos 14 Municípios da Província da Huíla, reunin- do um total de 4 comunas: Chibia (sede); Jau; Quihita e Capunda Cavilongo. Possui cerca de 5.281 km2 e uma população estimada em 133.701 habitantes, com um forte predomínio

de população jovem (AMC, 2006).

No ano transacto o Município reunia 115 estabelecimentos de ensino primário e se- cundário e ainda o núcleo de ensino médio. O sector do ensino apresenta uma maior co- bertura de estabelecimentos na sede (40%), comparativamente às restantes comunas, pre- valecendo no restante território estruturas de construção precária não adequadas à prática do ensino. As difi culdades com que este sector se depara a nível do Município prendem-se com o elevado número de alunos, a degradação das infra-estruturas, o elevado número de escolas provisórias e salas ao ar livre, a falta de material didáctico e o elevado índice de reprovação e de abandono escolar.

No sector da saúde, em 2008 o Município possuía 10 unidades sanitárias, correspon- dendo 90% a postos de saúde21. As difi culdades que este sector enfrenta correspondem

ao número reduzido de residências para técnicos, às infra-estruturas em mau estado de conservação e inadequadas à função, aos stocks reduzidos ou inexistentes de medicamen- tos e à falta de pessoal qualifi cado. O sector privado, quer ao nível do sistema de educação como da saúde, não se revela signifi cativo no Município. As redes de abastecimento de água e de energia eléctrica funcionam apenas na comuna sede22, estando todos os restan-

tes aglomerados urbanos do Município desprovidos destes serviços. Ao nível de abaste- cimento eléctrico, alguns aglomerados utilizam geradores como sistemas alternativos em funcionamento algumas horas por dia. A rede de esgotos é escassa, não abrangendo a to- 21 Unidade primária na prestação de cuidados de saúde

talidade das residências, e carece de reparação, originando situações de águas estagnadas nos diversos bairros e consequente proliferação de doenças.

O sector agro-pecuário corresponde a um dos pilares de desenvolvimento do Municí- pio. Na actividade agrícola não se verifi ca ainda um verdadeiro processo de mecanização, prevalecendo uma agricultura tradicional com recursos a tracção animal e manual, direc- cionada fundamentalmente para o auto-consumo e/ou para o mercado local. Como forte suporte a este sector o Município dispõe de uma barragem - Barragem das Gandgelas - que compreende a construção de um açude com derivação e de dois canais principais com 25,5km. Esta barragem possui uma capacidade de armazenamento de 3,5 milhões de m3

de água, permitindo a irrigação de 2.271 hectares de terras aráveis (AMC, 2006).

A elaboração do PIM do Município da Chibia no primeiro ano de implementação contemplou as seguintes acções:

a) Identifi cação dos eixos prioritários de intervenção ao nível dos vários sectores: Agricultura e Desenvolvimento Rural; Administração Pública; Ambiente; Edu- cação; Saúde; Cultura; Indústria e Comércio; Turismo; Juventude e Desportos; Energia e Águas; Assistência e Reintegração Social; Família e Promoção da Mu- lher; Habitação e Ordenamento do Território; Transportes e Comunicações. b) Elaboração de fi chas de projecto justifi cativas dos investimentos a realizar: Elabo-

ração do diagnóstico estratégico (Análise SWOT e identifi cação da matriz de pro- jectos por eixo de intervenção); preparação do procedimento de consulta de pro- postas para ajuste directo de projectos; análise técnica das propostas apresentadas e elaboração de orçamento global; adjudicação de empreitadas e prestação de ser- viços. Os projectos implementados no Município centraram-se essencialmente em eixos estratégicos como: acesso à água e energia; melhoria do saneamento básico; promoção cultural; expansão da rede viária e aumento das acessibilida- des; expansão da rede escolar; expansão dos serviços de saúde; desenvolvimento rural; melhoria da gestão municipal. É possível constatar uma tendência ao nível de sectores que apresentam fortes debilidades no contexto nacional, denotando a preocupação institucional com estas situações. Perspectivando a necessidade de capacitação dos técnicos locais para as novas competências municipais, houve uma preocupação na procura de instrumentos e mecanismos que promovam a melhoria da gestão interna municipal.

3.3. Os dois primeiros anos de aplicação do FEM

A aplicação do FEM, através da implementação do PIM, trouxe alterações de fundo ao nível da gestão municipal. Para além das novas competências e atribuições impos- tas, as administrações municipais sofreram uma mudança profunda, onde o seu papel meramente de executor passou a ser também de decisor. No primeiro ano de execução (2008), e com a presente continuidade, é possível denotar na grande maioria dos Municí- pios abrangidos uma preocupação evidente com a construção de equipamentos públicos,

muito embora centrados no sector da saúde (postos e centros de saúde) e ensino (ensino primário). A par da construção de novas edifi cações há igualmente uma maior propensão para a reabilitação de estruturas existentes, que se degradaram bastante durante o período dos confl itos armados, por consequência directa ou por falta de manutenção. A rede viária e as redes de abastecimento de energia eléctrica e água foram os principais alvos no que concerne a projectos de reabilitação e/ou aumento da área de distribuição. Numa análise global é possível constatar que a governação municipal mantém as grandes directrizes defi nidas pelo Governo Central, onde a prioridade é a reconstrução nacional aos mais variados níveis de intervenção.

Decorre presentemente no Município da Chibia o segundo ano de aplicação do FEM não sendo possível falar-se ainda de processos totalmente autónomos e de absoluta efi cá- cia. Atendendo à falta de experiência para as novas competências existiram lacunas que procuram agora ser colmatadas, nomeadamente no que concerne aos prazos previstos para execução das empreitadas, aos orçamentos inadequados para as acções previstas, à forma de adjudicação de obras e às especifi cações contidas em Caderno de Encargos. Aliadas a estes problemas estruturais da própria Administração Municipal verifi cam-se ainda determinações a nível nacional que acabam por limitar a acção local, nomeadamen- te a dependência pela disponibilização dos valores previstos no orçamento (FEM) por parte do Governo central. Embora o poder de decisão que é conferido às administrações municipais verifi ca-se ainda um forte controlo, nomeadamente fi nanceiro, por parte de instituições hierarquicamente superiores.

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