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A Ameaça do Descumprimento do Ouro em Papel

No documento livro-a-grande-queda.pdf (páginas 178-182)

Atualmente, grande parte do mercado de ouro está no “ouro em papel”, ou seja, nos títulos de ouro. Há mais de uma dú- zia de maneiras de investir em títulos de ouro e o mercado é manipulado, documentadamente manipulado. Não estou especulando. Porém, todo esse mercado de títulos de ouro depende de alguma quantidade de ouro físico. É como um pequeno tijolo de ouro físico servindo de base para uma gran- de pirâmide invertida de títulos de ouro. O problema é que o tijolo de ouro físico está cada vez menor.

Você pode indagar por que o tijolo não cresce, considerando as duas mil toneladas de ouro mineradas todos os anos, mas investi- dores devem saber diferenciar estoque total de estoque flutuante.

O estoque total aumenta cerca de duas mil toneladas por ano, uma vez que ninguém sai por aí jogando ouro fora. As pes- soas acumulam ouro, o que significa que todo ouro já minerado está por aí e o novo ouro aumenta a conta. O estoque total au- menta a cada ano e quando barras de ouro são transportadas do depósito da SPDR® Gold Shares (GLD) em Londres para um depósito chinês em Xangai, o impacto no estoque total é zero.

O estoque flutuante refere-se ao ouro físico disponível para transações em papel, como reconsignações, garantias, entre

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outros. O estoque flutuante pode ser arrendado, pode estar em um depósito e ser revendido como recurso não alocado.

Quando se tira ouro de um depósito da SPDR® Gold Shares

(GLD) para colocá-lo em Xangai, não há impacto no estoque

total de ouro, mas o ouro flutuante é diminuído.

Já vi acontecer. Há pouco tempo, na Suíça, me reuni com a VIA MAT, uma das quatro maiores empresas de transporte de valores e soluções em segurança, ao lado de G4S, Brinks e Dunbar. São essas as empresas que lidam com o ouro fí- sico, mas não como banqueiros ou corretores. Elas utilizam cofres, carros-forte e aviões de carga para transportar ouro.

Reuni-me com o responsável pelo ouro, metais preciosos e obras de arte da VIA MAT perto de Zurique e ele me disse que a empresa está fabricando cofres à velocidade máxima. Estão até em negociação com o exército suíço. Se você conhece a Suíça, imagina que atrás de cada pedra haja uma entrada se- creta para uma caverna cheia de peças de artilharia. O país é como um grande campo minado.

Ao longo dos anos os suíços escavaram montanhas de seus Alpes e construíram grandes armazéns e túneis, os quais pode- riam suportar até mesmo um ataque nuclear. A VIA MAT está negociando com o exército o aluguel das montanhas à prova de bombas nucleares. O responsável pelo ouro me disse que a companhia precisa de depósitos seguros porque está quase atingindo sua capacidade máxima de armazenamento.

Eu perguntei de onde vinha tanto ouro e ele disse: “UBS, Deutsche Bank, Credit Suisse. Clientes estão retirando seu ouro dos bancos e entregando para nós”.

Eis outro exemplo em que o estoque total de ouro perma- nece igual. Digamos que eu tenha quatro mil onças de ouro guardado com o UBS e decida movê-las para a VIA MAT. Nesse caso, é necessário que um carro-forte recolha o ouro e o leve até lá. As quatro mil onças de ouro continuam as mesmas, mas eu reduzi o estoque flutuante, uma vez que a VIA MAT não

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fará nada com ele. A VIA MAT não é um banco e não arrenda o ouro como o UBS. Ela simplesmente o protege para você. O UBS, por outro lado, vende o ouro dez vezes como um direito creditício não afetado num contrato a termo do London Bullion

Market (LBMA).

E quando esse ciclo acaba? Quando alguém vai a um ban- co como o UBS, diz que quer seu ouro de volta e o banco não consegue devolvê-lo. Isso vem acontecendo com frequência, em pequenas proporções.

Há algumas histórias, inclusive de pessoas bem conheci- das, como Kyle Bass, que tentaram retirar seu ouro e o banco solicitou um prazo de algumas semanas para a entrega.

Obviamente, precisaram de tempo para conseguir o ouro de volta, caso contrário, entregá-lo-iam de pronto. Há muita coisa acontecendo nos bastidores, mas, por enquanto, nada quebrou o sistema, uma vez que as quantidades de ouro não entregues não têm sido particularmente grandes.

Algumas pessoas não querem que essas coisas sejam ditas, mas elas estão acontecendo. E se um dos grandes negociantes de ouro, como o HSBC ou JPMorgan, falhasse em entregá-lo? Seria uma bola de neve. Um pânico se instauraria entre os compradores e as previsões de inflação fugiriam de controle. Isso poderia catalisar a próxima crise.

Há conexões que precisam ser consideradas. Conversei com um funcionário do alto escalão da Goldman Sachs em minha última visita à China e ele me disse estar esperando pelo que chama de “choque de demanda” no país. Ele prevê uma situação em que 200 milhões de pessoas correrão para comprar todo o ouro que puderem.

Quando conversamos sobre isso, eu disse: “Bem, isso é muito interessante. Sua empresa está prevendo que o ouro chegue a $1 mil. Você é o responsável pelas transações de commodities. Por que está esperando por um choque de de- manda e mesmo assim prevendo que o ouro chegue a $1 mil”?

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Seu sócio me disse: “Essa é a previsão do nosso departamento de pesquisa, mas nós não acreditamos nela”.

Foi uma conversa muito reveladora. O departamento de pesquisa da Goldman Sachs dizia ao mundo que o ouro che- garia a $1 mil enquanto o responsável pelas transações de commodities previa um choque de demanda.

Essa história derruba a ideia de que empresas como a Goldman Sachs são forças malignas que manipulam o mundo. Sei que essa ideia é falsa, pois conheço algumas pessoas por trás dessas empresas. Também é revelador o fato de que um dos maiores negociantes de ouro não acredita em sua própria equipe de pesquisa.

O mais importante, porém, é que os riscos estão altíssi- mos neste momento. Uma ameaça já descrita, como o choque de crédito chinês, poderia iniciar o choque de demanda pelo ouro, o que, por sua vez, contribuiria para que ocorressem mais falhas na entrega de ouro físico. Num piscar de olhos, a situação fugiria de controle.

E então o que aconteceria? As pessoas entrariam em pânico e começariam a comprar ouro desesperadamente. O preço começaria a escalar e, em vez de aumentar $10 por onça, aumentaria $100. Nesse momento, a mídia diria que há uma bolha, mas o aumento continuaria, $100 no dia seguinte, $200 no próximo. Em uma semana ou dez dias, o preço teria saltado para $1000. Todos estariam falando sobre a bolha e ela continuaria crescendo.

Em seguida, as pessoas começariam a vender suas ações e a tirar dinheiro dos bancos para comprar ouro, o que der- rubaria o mercado de ações. Daí em diante, as taxas de juros começariam a aumentar.

Um banco como o UBS tem um acordo de swap com algum fundo multimercado. É um swap de renda fixa, liable versus

fixed, e não tem nada a ver com ouro ou ações. Mas uma das

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taxas de juros estão subindo muito, há uma chamada de mar- gem. Então o banco diz: “Você deveria ter uma margem de 10% e sua garantia vale menos que isso. Você nos deve dinhei- ro para alcançar a sua margem”.

O fundo multimercado vende tudo o que pode para conse- guir arcar com os custos de margem do swap de renda fixa, o que não tem qualquer ligação com o ouro. É assim que a trama se desenrola.

Como um terremoto que causa um tsunami, os danos se espalham para além da fonte, atingindo comunidades por toda a costa. São os efeitos de sistemas tão interconectados.

Nesse momento, as ações despencam e o ouro salta. O mercado REPO se esgota e o Fed está no meio de tudo, tentan- do impedir que o sistema desmorone. Haveria uma corrida aos fundos do mercado monetário.

Esses são cenários e efeitos em cascata reais. O problema se espalha rapidamente, já que a doença contagiosa nunca fica confinada ao catalisador. Ela se espalha e se espalha, encon- trando canais diferentes que levam a becos sem saída.

No documento livro-a-grande-queda.pdf (páginas 178-182)