Guerras financeiras não são uma metáfora – são reais. Há guer- ras financeiras em curso no momento. Elas existem há anos e continuarão a existir no futuro.
Se pensar num tradicional diagrama Venn: um grande cír- culo é o mundo de segurança, inteligência e defesa nacional.
Outro grande círculo é o mundo de mercados, ações, bonds, commodities, derivativos etc. Pense na intersecção dos dois, é disso que estamos falando.
Essa intersecção está aumentando, ficando mais impor- tante e há poucas pessoas que tentam impedi-la. Há pessoas
130 A GRANDE QUEDA
brilhantes nos dois lados – militar e financeiro. Mas o número de pessoas que conversa com ambos é pequeno. Isso será cada vez mais importante para investidores.
Tive a sorte de participar de um jogo de guerra financei- ra conduzido em 2009. Fui convidado pelo Pentágono para ser um facilitador e estrategista. É claro, o Pentágono, nosso Departamento de Defesa, tem feito isso desde sempre. Eles não precisavam da minha ajuda em termos de jogos de guer- ra tradicionais.
Mas era o primeiro jogo de guerra financeira que faziam. As armas eram não cinéticas, ou seja, nenhuma atirava ou explo- dia. Poderíamos usar apenas ações, bonds, moedas, derivativos e commodities. Tínhamos os times mais comuns imagináveis.
Um time americano, um russo, um chinês, entre outros. Também tínhamos um time de bancos e de fundos multimer- cados – jogadores muito importantes nessa área.
Passamos meses estruturando o jogo e o jogamos durante alguns dias, em março de 2009, em um laboratório ultrasse- creto perto de Washington – o laboratório de física aplicada.
Um dos cenários que introduzi foi muito interessante. Alguns colegas, que jogavam representando os times russos e chineses, reuniram-se, juntaram todo o seu ouro e emitiram uma nova moeda resguardada por esse ouro. É claro, o ouro ficava em um cofre na Suíça e a moeda foi emitida por um banco britânico, porque ninguém confiaria em um banco russo ou chinês.
Usando essas jurisdições seguras, a Rússia e a China anun- ciaram que, a partir daquele momento, qualquer exportação de recursos naturais russos ou de produtos manufaturados chineses teria que ser paga com a nova moeda. Quem quises- se adquiri-la, poderia realizar operações e obtê-la ou poderia depositar seu ouro e eles emitiriam a moeda para que fosse usada para realizar transações com eles.
Obviamente, era um exagero, nada disso vai acontecer tão cedo. Naquele momento, fomos ridicularizados. Experts
131 AS GUERRAS CAMBIAIS E FINANCEIRAS DA ATUALIDADE
militares, do serviço de inteligência, do Fed, do Tesouro dos Estados Unidos, de think tanks e de universidades disseram: “Isso é ridículo. Vocês não sabem que o ouro não tem lugar no sistema monetário? É obsoleto. Por que estão fazendo isso? É uma perda de tempo”.
Nós continuamos mesmo assim.
Não descreverei todas as jogadas, caso se interesse, faço isso em meu primeiro livro A Guerra das Moedas. Desde 2009, a Rússia aumentou suas reservas de ouro em 70%. A China aumentou as suas em mais de 100%. Bem mais. Ninguém sabe o número exato porque o país não é transparente.
Em 2009, a China tinha 1.504 toneladas. Se hoje tem 3.000 ou 4.000, ninguém sabe dizer, mas o país parece determinado a ter ainda mais.
As ações desses países estavam em sincronia com nosso modelo para o Departamento de Defesa em 2009. A China é muito atuante na guerra financeira.
Nos Estados Unidos, estamos em uma guerra financeira com o Irã desde 2011. Os EUA fizeram algumas coisas por causa do enriquecimento de urânio e da busca por armas nu- cleares do país.
Primeiro, os EUA expulsaram o Irã do sistema de paga- mento em dólar, chamado Fedwire. É um sistema administrado pelo Fed. Nós dissemos: “Você está fora e seus bancos estão fora. Qualquer banco que fizer negócios com o Irã também será expulso”.
É assim que os EUA forçam outros bancos a seguir suas po- líticas – dizendo a eles que não podem fazer negócios nos EUA a não ser que consintam.
O Irã disse: “Tudo bem, enviaremos nosso petróleo e o co- braremos em euros. Não precisamos dos seus dólares nem de seu sistema de pagamentos”.
Na Europa, há outro sistema de pagamento ainda maior chamado SWIFT — Society for Worldwide Interbank Funds
132 A GRANDE QUEDA
Transfers — e você pode pagar em euros, ienes, dólares austra-
lianos ou qualquer outra moeda de reserva.
Os EUA se reuniram com seus aliados e os persuadiram a ex- pulsar o Irã do SWIFT. O Irã ficou sem saída – poderia enviar seu petróleo, mas não poderia ser pago, pelo menos não em uma moeda desejável. O país buscou alternativas, adquirindo gran- des quantidades de ouro da Turquia para poder fazer import
swaps, começando a vender petróleo para a Índia, por exemplo.
A Índia podia pagar o Irã em rupias e depositá-las em um banco indiano, que estava fora do sistema que eu descrevi.
Mas o que é possível fazer com essa moeda?
É possível comprar coisas na Índia, mas não tenho certeza de quanto curry os iranianos precisam. Negociantes indianos foram muito criativos. A rupia é uma moeda convertível, então eles conseguiam dólares, importavam coisas para a Índia e as mandavam para o Irã, cobrando em rupias, convertendo-as de volta para dólares e recebendo lucros no caminho. Era custoso para o Irã, mas funcionou.
Como resultado, os iranianos tentaram tirar seu dinheiro dos bancos para utilizá-lo no mercado negro de dólares – parte era contrabandeada do Iraque. Eles pagavam aos con- trabandistas em Dubai para trazer computadores, celulares, impressoras etc.
Isso prejudicou os bancos porque as pessoas pegavam o pouco dinheiro que tinham e o levavam para o mercado ne- gro. Em reposta, o governo iraniano aumentou as taxas de juros – para tentar manter o dinheiro no banco – e a infla- ção disparou.
Chegamos perto de destruir a economia iraniana com nos- sas armas financeiras. Sem soldados, sem mísseis, só com um pouco de sabotagem aqui e ali.
Causamos bastante inflação, retirada massiva de dinheiro dos bancos e contração da economia, com grandes impactos. Tudo se movia na direção de uma mudança de regime.
133 AS GUERRAS CAMBIAIS E FINANCEIRAS DA ATUALIDADE
O presidente Obama levantou muitas dessas sanções por- que o Irã fez promessas. Veremos o que vai acontecer.
Não pense que Vladimir Putin não estava observando; te- mos outra guerra financeira cozinhando – algumas, na verda- de – em nações do Oriente Médio.
Dei o exemplo do Irã para mostrar que essas guerras finan- ceiras são muito poderosas. Os EUA as usavam com agressivi- dade para desestabilizar países. É claro, os EUA trabalham de mãos dadas com o FMI, pois ambos têm os mesmos objetivos.
Guerras financeiras são reais. Algumas estão em curso no momento e, se você é um investidor e não sabe disso, vai per- der dinheiro.
Há inúmeros analistas fundamentalistas de ações e de bonds que gastam décadas aprendendo como analisar mer- cados só para serem esmagados, porque Angela Merkel levantou com o pé esquerdo e decidiu brigar com o primei- ro-ministro grego.
Você não pode ignorar grandes eventos globais se for um investidor tomando decisões fundamentalistas. As coisas estão ficando cada vez mais graves.