2.4 APRENDIZAGEM GERENCIAL
2.4.3 A Aprendizagem Gerencial como Processo Social
Embora a educação formal tenha como objetivo explícito o desencadeamento de aprendizagens, elas ocorrem igualmente na vida cotidiana das pessoas e nas organizações, não sendo um processo totalmente individual. Uma visão alternativa da aprendizagem, que recebe aportes teóricos da sociologia geral e das organizações, a concebe como uma prática social. (GHERARDI; NICOLINI; ODELLA, 1998; GHERARDI; NICOLINI, 2001). Sob essa ótica, as interconexões e trajetórias de participação e prática no mundo social, onde elas adquirem
sentido e propiciam insights sobre a mútua natureza criativa das relações entre indivíduos,
suas práticas de trabalho e seus ambientes em transformação, adquirem papel central (RICHTER, 1998, p. 300).
Oriundo da vertente socioconstrucionista, o conceito de participação favorece o estudo da aprendizagem que ocorre na ação e através da ação. Nesse sentido, a prática tanto produz o mundo como é resultado desse processo. Intimamente relacionado ao conceito de participação está o de reflexividade, que ocorre quando os indivíduos refletem sobre o conhecimento experienciado, reavaliando suas visões e, assim, estabelecem a ligação entre o conhecimento na prática e o conhecimento de uma prática (GHERARDI; NICOLINI, 2001).
A aprendizagem, sob esse enfoque, é um modo de tomar parte no mundo social. A aprendizagem no trabalho, por sua vez, pode ser entendida como “o desenvolvimento de uma nova identidade baseada na participação no sistema de práticas situadas” (GHERARDI; NICOLINI; ODELLA, 1998, p. 276).
Para se realizar uma interpretação válida de uma atividade de aprendizagem, é preciso compreender o contexto específico das atividades e das práticas sociais em que ela ocorre. Considerando-se o contexto como um produto histórico e social produzido conjuntamente com as atividades que apoia (GHERARDI; NICOLINI; ODELLA, 1998). O conhecimento é produzido em conjunto com as situações em que atividades são realizadas. Aprendizagem e cognição são essencialmente situadas, sendo inerentes à prática social (BROWN; COLLINS; DUGUID, 1989; ELKJAER, 2001).
Uma das abordagens que enfoca a aprendizagem informal nos espaços de vida organizacional como resultante de atividades relacionadas ao trabalho é a teoria da ‘aprendizagem situada’, proposta por Lave e Wenger (ANTONELLO, 2005). A
aprendizagem, sob essa perspectiva, envolve o relacionamento dinâmico, de dupla via, entre pessoas e sistemas de aprendizagem sociais, nos quais elas participam, combinando transformação pessoal com evolução das estruturas sociais (WENGER, 2000).
Sintetizam-se, no Quadro 3, elaborado por Antonello (2005), os principais aspectos das modalidades de aprendizagem situada, informal e incidental abordadas nessa seção.
Situada Informal Incidental
Definição Aprendizado ocorre sempre em função da atividade, contexto e cultura no qual ocorre ou se situa; requer participação nas práticas da cultura que o sujeito está inserido
Trata-se de alguma atividade que envolve a busca de entendimento, conhecimento ou habilidade. Ocorre fora dos currículos que constituem programas educacionais, cursos ou workshops.
É não intencional ou não planejada, resulta de atividades. Ocorre frequentemente no local de trabalho no processo de realizar tarefas.
Ênfase Enfatiza que a mudança de comportamento é mais provável que aconteça como resultado da reflexão em experiência.
Implica em valorizar não apenas o lado relacional (o papel de um indivíduo no grupo social), mas também a qualidade da aprendizagem. Envolve algum grau de consciência que a pessoa está aprendendo.
É amplamente não intencional. Pode se encontrar em processos formais de ensino. Difere das outras porque envolve pouca ou nenhuma reflexão, estando presente nas ações dos indivíduos. Aprendizagem não antecipada e consistente.
Como ocorre
Coloca pensamento e ação em um lugar e tempo específicos. Situar significa envolver indivíduos, o ambiente e as atividades para criar significado. Significa localizar num setting
particular os processos de pensar e fazer utilizados pelos
experts para criar
conhecimento e habilidades para as atividades. Pode ocorrer em comunidades de prática.
Pode ocorrer a partir de uma experiência formalmente estruturada, com base em atividades específicas para este fim. Pode ser planejada ou não planejada. Pode ocorrer em comunidades de prática.
Ocorre de muitas formas: por observação, repetição, interação social, e resolução de problemas; de significados implícitos em sala de aula; de políticas ou expectativas do local de trabalho; por “assistir” ou falar com colegas ou experts
sobre tarefas; de erros, suposições, convicções e atribuições; ou do indivíduo ser forçado a aceitar ou adaptar-se a situações.
Resultado Fornece ao indivíduo o benefício do conhecimento ampliado e o potencial para aplicar este conhecimento de novas formas em novas situações.
O indivíduo pode adquirir
competências por envolvimento num processo
contínuo de aprendizagem. A aprendizagem não é apenas
reprodução, mas reformulação e renovação do
conhecimento e das competências.
Pode resultar em competência melhorada, mudança de atitudes, aumento de habilidades interpessoais, maior auto-conhecimento,
desenvolvimento de autoconfiança e ampliação de
habilidades em geral.
Quadro 3 – Síntese dos principais aspectos da aprendizagem situada, informal e incidental
O conhecimento e as atividades, sob a perspectiva da aprendizagem situada, têm sempre um local e um tempo de ocorrência específicos, estão sempre situados dentro de um contexto material, histórico e socioeconômico. Esse contexto emerge das condições colocadas pela própria prática, não sendo preestabelecido, é um processo emergente. O conhecimento advindo dessa aprendizagem é sempre relacional, mediado por artefatos e fundado em um contexto de interação, adquirido através de alguma forma de participação. Ele é continuamente reproduzido e negociado, sendo dinâmico e provisório (NICOLINI; GHERARDI; YANOW, 2003).
Com relação ao potencial de aprendizagem proporcionado pela realização de um trabalho, Ellström (2001) estabelece a influência de alguns fatores, entre eles: oportunidades
para feedback, avaliação e reflexão; possibilidade de participação em soluções de problemas e
atividades de desenvolvimento; recursos de aprendizagem objetivos, tais como tempo para análise, interação e reflexão. Diferenças individuais e outros fatores subjetivos, entretanto, fazem com que pessoas, com o mesmo potencial de aprendizagem, realizando um mesmo trabalho, experienciem diferentes processos de aprendizagem e resultados.
As mudanças na sociedade e nas organizações renovaram o interesse de pesquisadores do campo da Administração sobre a aprendizagem informal, no ambiente de trabalho. Estudos realizados na última década, estimam que entre 60 e 80% da aprendizagem ocorra informalmente nos ambientes de trabalho atuais (MARSICK, 2006). A aprendizagem incorpora-se, ao longo da vida, aos indivíduos, a partir da necessidade de adquirir conhecimentos e habilidades para atender às constantes novas demandas geradas pela vida em família, pelas atividades de lazer, pelo trabalho.
Em contraste com a aprendizagem formal, cuja ocorrência se dá tipicamente em ambientes altamente estruturados, tais como salas de aula, a aprendizagem informal acontece como parte das atividades cotidianas exercidas pelos indivíduos. A aprendizagem informal caracteriza-se pelo controle da aprendizagem centrar-se, principalmente, no aprendiz e por ser normalmente intencional, mas não altamente estruturada, podendo ocorrer também no âmbito formal. A aprendizagem incidental está incluída na categoria da aprendizagem informal, definida como um subproduto muitas vezes tácito ou inconsciente da realização de atividades tais como cumprimento de tarefas, interações interpessoais, experimentações ou mesmo da aprendizagem formal (MARSICK; WATKINS, 2001; MARSICK, 2006).
Marsick e Watkins (2001) ainda destacam que o uso da tecnologia, especialmente o da internet, está trazendo mudanças ao ambiente organizacional e impactando na natureza da
aprendizagem informal e incidental proporcionada pela sua utilização. A autora alerta que devido à natureza assíncrona das interações facilitadas por essa tecnologia, muito pode ser aprendido incidentalmente pelos aprendizes, sugerindo a necessidade de se explorar a compreensão sobre essa modalidade de aprendizagem informal.
Verifica-se, a partir dos aportes teóricos trazidos nessa seção, a importância de se considerar a aprendizagem como um processo social. A relevância dessa perspectiva da aprendizagem de gestores é corroborada por estudos desenvolvidos por autores brasileiros que estudam a aprendizagem de gestores, conforme apresentado na seção seguinte.
2.5 ESTUDOS DESENVOLVIDOS NO BRASIL ACERCA DO PROCESSO DE