5 ANÁLISE DOS PROCESSOS DE APRENDIZAGEM MAIS SIGNIFICATIVOS
5.1. PROCESSOS DE APRENDIZAGEM DESTACADOS NA INFÂNCIA
5.2.3 Desenvolvimento e vivência profissional
5.2.3.5 Novos papéis, responsabilidades, projetos e desafios
O início em qualquer novo emprego ou nova situação de trabalho é um período muito marcante e de muitos aprendizados para todos os gestores entrevistados, tal como sintetiza a fala de Helena:
Quando a gente começa a trabalhar, o início, as primeiras atividades profissionais, diria assim, primeiro emprego, primeira entrevista, acho que isso é muito marcante. A gente aprende bastante nesse processo, assim, de começar a se colocar, de começar a interagir profissionalmente. Seja numa entrevista, ou seja numa... Acho que isso foi bem marcante. Na verdade, é marcante a cada novo emprego, né, a cada nova situação que a gente sempre - são fases, assim, que marcam muito. São de consumo de muita energia
Guilherme relata uma grande ‘sacada’, a partir de sua primeira atividade como trainee,
uma conciliação contábil-financeira. Era uma atividade bem operacional e nada realizadora, a
seu ver. Como, porém, pensava que esperavam mais de um trainee, fez além do que o
solicitado, propondo melhorias no processo. Schön (1983) denomina de reflexão-na-ação esta capacidade de refletir em meio à ação, dando forma ao que está sendo realizado para interferir na ação em situações práticas.
A atitude de Guilherme surpreendeu seu chefe e trouxe um reconhecimento importante para ele, além do aprendizado de que, para se realizar na vida, tem que estar acima da média, tem que sempre fazer mais, surpreender, visão compartilhada por Helena. Esta noção, que o
norteia até hoje, foi aprendida a partir de uma análise reflexiva (CUNLIFFE, 2004), um
processo de refletir sobre experiências passadas para transformá-las em compreensões mais profundas, envolvendo tanto intelecto quanto sentidos e sentimentos, tal como descrevem Andersen, Boud e Cohen (2000), representantes da abordagem da educação de adultos.
A participação em novos projetos empresariais, que oportunizam a criação de coisas novas, é destacada por Vasco, Helena e João como experiências muito gratificantes. Antonello (2004) corrobora a visão de que experiências que trazem a oportunidade de desenvolvimento de novas ideias ou abordagens, além de estimulantes, são ricas fontes de aprendizado, exemplificada pela vivência relatada por João.
Assumir a gerência regional de uma distribuidora de recargas virtuais de cartões de telefones pré-pagos foi uma experiência nova, a primeira grande experiência de liderança de
João. Mesmo em uma sala pequena, sem o glamour de uma operadora de telecomunicações,
gerenciava entre 15 e 16 pessoas e era o gerente regional de uma operação de três estados, através da qual teve oportunidade de iniciar pessoas, de cuidar de uma pequena estrutura de vendas, de informática e de suporte. Havia uma complexidade, não de produto, mas de gestão muito interessante. Ele gostou muito de construir do zero uma estrutura operacional, que lhe
permitiu o crescimento hierárquico, ainda que em uma empresa menor, transferindo expertises
de modelos de empresas desenvolvidas.
Guilherme trabalhou em diversas áreas operacionais de Finanças de um grupo de Comunicação, inclusive como gerente, mas uma experiência marcante foi assumir a gerência de estratégia da empresa. A organização passava por um momento de pensar o futuro e contratou uma consultoria externa de renome internacional para auxiliar no desenvolvimento de seu projeto estratégico, sua área era responsável por prover informações para o projeto.
Um dos aspectos que favoreceu sua participação em um projeto mais recente da empresa foi sua rede de relacionamentos no grupo; o outro foi a própria experiência por ter participado no projeto anterior, o que lhe propiciou uma série de aprendizagens que pôde utilizar novamente. Arthur, DeFillippi e Jones (2001) observam que participantes em projetos
aplicam três formas de knowing interconectados: 1) knowing-why: reflete a disposição em
participar que um integrante leva para o time; 2) knowing-how: inclui repertórios de
habilidades e expertises adquiridas tanto de modo formal como informal; 3) knowing-whom:
envolve a rede de contatos interna e externa dos profissionais, recursos potenciais com os quais o projeto pode contar.
Guilherme salientou que aprendeu muito convivendo com esta consultoria, o que abriu ainda mais suas perspectivas, possibilitando que entendesse o pensamento do acionista e do negócio, da indústria, e não apenas da empresa em que atuava, uma experiência muito gratificante para ele. Arthur, DeFillippi e Jones (2001) destacam, em seu estudo, as oportunidades de aprendizagem pessoais proporcionadas pela participação em projetos, para todos os envolvidos no processo, através da interação entre integrantes da empresa e membros externos como os consultores contratados, nesta situação.
Ana Niza relatou que seu maior aprendizado profissional ocorreu, em São Paulo, ao
assumir posição gerencial em uma nova empresa constituída em joint venture com uma
uma pequena equipe pela primeira vez. Assim, obteve uma visão generalista da área de Recursos Humanos que permitiu que trafegasse em todas as suas funções com conhecimento, o que facilitou sua trajetória. Nesta empresa, Ana Niza relatou ter aprendido a ter empatia, quando teve que demitir uma série de pessoas em uma unificação do grupo no qual trabalhava
em São Paulo. Ao coordenar um programa de trainees, em outra empresa, assessorada por um
diretor e por uma coordenadora de RH, Ana Niza disse ter aprendido muito, enfrentando situações em que esteve na linha de frente, expondo-se, indo para São Paulo, Rio, Recife a fim de fazer seleção e no contato com o principal executivo da empresa no Brasil, com sua forma de abordar questões, de tomar decisões.
Ao assumir cargos gerenciais, um dos aprendizados destacados pelos gestores é a importância de habilidades de relacionamento interpessoal na gestão de pessoas. Entre as aprendizagens mais importantes destacadas por Vasco para seu crescimento na carreira, percebido quando iniciou a gerenciar equipes, está a empatia, que aprendeu praticando, colocando-se de fato no lugar das pessoas. Para ele, isso é muito importante hoje, não apenas para gerenciar equipes, mas também para se relacionar com colegas. Vasco relatou algumas de suas percepções sobre o gerenciamento de equipes:
[...] eu comecei a ter que perceber que não dá pra ti tratar uma pessoa separada totalmente da outra [...] assim como tu não podes tratar a equipe como uma coisa só. A gente em alguns momentos tem que tratar uma pessoa só, em alguns momentos tem que tratar a equipe como um todo, mas o mais importante é como essas coisas se misturam, assim, como as pessoas se misturam dentro da equipe. A gente por vezes tem pessoas que são ótimas, mas que não funcionam em equipe. Assim como às vezes a gente tem equipes boas que as pessoas por dentro às vezes não se relacionam tão bem. Então, assim, ah, que são coisas que às vezes não aparecem, assim, a gente não vê isso na primeira olhada, assim, né? A gente olha: pô, mas a equipe ta funcionando bem, que legal e tal. Mas aí a gente vai ver: não, espera aí, tal pessoa tem problema tal, tal pessoa tem problema tal. Isso poderia fazer com que a equipe funcionasse melhor.
Vasco reforçou a importância da percepção destes aspectos, mais do que qualquer conhecimento técnico, acreditando que sua posição atual comprova esta visão, pois trabalhava em uma área de gestão Financeira e hoje, sem ter grande conhecimento do assunto, está
gerenciando uma equipe de Marketing e Planejamento Comercial.
Quando foi promovido a diretor pela primeira vez, uma questão feita pelo fundador da empresa a Augusto o marcou muito. O fundador perguntou-lhe: “tenho informações de que você está bem preparado tecnicamente, mas como você pessoalmente, psicologicamente, como você está vendo esta oportunidade?” Para Augusto foi uma mensagem sobre a grande responsabilidade que teria que assumir.
Percebe-se, assim, que assumir novos desafios e atividades profissionais expõe os profissionais a uma série de situações que demandam processos de aprendizagem. Estas
aprendizagens, por sua vez, contribuem para seu desenvolvimento profissional, favorecendo, frequentemente, o surgimento de novas oportunidades profissionais e desafios que conduzem a novas aprendizagens, em um processo cíclico.