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A Assembleia Nacional no texto constitucional de

No documento A Assembleia Nacional (1934-1974) (páginas 136-138)

6 O lugar da Assembleia Nacional no sistema político

6.1. A Assembleia Nacional no texto constitucional de

A Assembleia Nacional era um dos órgãos de soberania (Artigo 71.º), hierarquicamente

colocado em segundo lugar397. Composta por 90 deputados eleitos por sufrágio directo dos

cidadãos eleitores para um mandato de quatro anos (Artigo 85.º), reunia três meses em cada ano, funcionava sem comissões parlamentares e podia ser dissolvida pelo Presidente da República a qualquer momento.

Quando analisa os poderes da Assembleia Nacional, a partir do texto da Constituição de 1933, Jorge Campinos distingue entre os poderes tradicionalmente pertencentes às câmara políticas e os poderes que esta detinha face ao Executivo, realçando o facto de as restrições aplicadas aos poderes da Assembleia Nacional estarem sobretudo relacionadas com estes

últimos398

.

Entre os primeiros, o fundamental era o poder legislativo, definido no Artigo 91.º, segundo o qual competia à Assembleia Nacional «fazer as leis, interpretá-las, suspendê-las e revogá-las», embora com a restrição de as leis se deverem restringir à «aprovação das bases gerais dos regimes jurídicos» (Artigo 92.º).

Por outro lado, a Assembleia Nacional dispunha «da plenitude do poder financeiro»399,

competindo-lhe autorizar o Governo a cobrar receitas e a pagar as despesas públicas na gerência futura, a realizar empréstimos e outras operações de crédito e, finalmente, apreciar as contas respeitantes a cada ano económico. Competia ainda à Assembleia Nacional, entre o mais, autorizar o Chefe de Estado a fazer a paz e a guerra e a ausentar-se para o estrangeiro, aprovar as convenções e tratados internacionais, declarar o estado de sítio, deliberar sobre a revisão da Constituição antes de decorrido o prazo de dez anos sobre a última alteração e conceder ao Governo autorizações legislativas.

397

Na Parte II – Da Organização política do Estado, o Título II trata das regras relativas ao Chefe do Estado, o Título III das referentes à Assembleia Nacional e o Título IV do Governo.

398

Jorge Campinos, A Ditadura Militar, 1926/1933, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1975, p. 110.

399

Existiam algumas matérias reservadas à Assembleia Nacional (Artigo 93.º), designadamente a organização da defesa nacional, a criação e supressão de serviços públicos, o peso, valor e denominação das moedas, o padrão dos pesos e das medidas, a criação de bancos ou institutos de emissão e as normas da circulação fiduciária e a organização dos Tribunais.

Enquanto na área financeira os poderes da Assembleia Nacional não se afastavam dos que tradicionalmente são atribuídos à instituição parlamentar, no respeitante às suas relações com o Poder Executivo o panorama é completamente diferente, uma vez que, segundo o disposto no Artigo 111.º, «o Governo é da exclusiva confiança do Presidente da República e a sua conservação no Poder não depende do destino que tiverem as suas propostas de lei ou de quaisquer votações da Assembleia Nacional». Desta forma se subvertiam os fundamentos do regime parlamentar, restando à Assembleia Nacional a competência que lhe é atribuída pelo n.º 2 do Artigo 91.º de «vigiar pelo cumprimento da Constituição e das leis» como um «importante meio de protecção do domínio legislativo a Câmara e da fiscalização da

actividade normativa do Governo»400.

O direito de iniciativa legislativa pertencia indistintamente ao Governo ou a qualquer dos deputados à Assembleia Nacional. Mas, como acentua Marcello Caetano, a iniciativa dos deputados foi decaindo a partir de 1935, acabando por ser «raras as leis provenientes dessa fonte», sendo também raras as propostas governamentais que, como foi referido, deviam

restringir-se às bases gerais dos regimes jurídicos401

.

A Constituição política de 1933 definia o Estado português como uma república corporativa baseada «na interferência de todos os elementos estruturais da Nação na vida

administrativa e na feitura das leis»402. Este princípio é realizado no capítulo V do Título III

consagrado à Assembleia Nacional, pela instituição de uma Câmara Corporativa403 composta

de representantes das autarquias locais e dos interesses sociais, competindo-lhe relatar e dar parecer por escrito sobre todas as propostas ou projectos de lei que forem presentes à

400

Jorge Campinos, A Ditadura Militar, cit., p. 113. A competência para fiscalizar da constitucionalidade das leis atribuída à Assembleia Nacional é partilhada com os tribunais, os quais, de acordo com o Artigo 122.º, não podem aplicar leis, decretos ou quaisquer outros diplomas que infrinjam o disposto na Constituição ou ofendam os princípios nela consignados.

401

Marcello Caetano, Constituições Portuguesas, cit., p. 117. De acordo com este autor, entre Janeiro de 1935 e Dezembro de 1964 a Assembleia Nacional votou 240 leis, sendo que 40 foram votadas em 1935, do que resulta uma média de 8 leis por ano.

402

Artigo 5.º.

403

A A s s e m b l e i a N a c i o n a l n o s i s t e m a p o l í t i c o d o E s t a d o N o v o

__________________________________________________________________________________________ Assembleia Nacional, antes de ser iniciada nesta a discussão. Contradizendo os pressupostos teóricos para que remetem os princípios corporativos proclamados como essenciais do sistema político formatado pela Constituição, à Câmara Corporativa não é atribuído senão um

«lugar subalterno e apagado»404. Por um lado, funcionava junto da Assembleia Nacional405, da

qual era um órgão meramente consultivo, por outro era consignada à Assembleia Nacional a designação daqueles a quem incumbia a representação corporativa ou o modo como seriam

escolhidos e a duração do seu mandato406. O que significa que todo o desenvolvimento

posterior da Câmara consultiva ficava nas mãos da Legislativa, resultando assim que «todo o

desenvolvimento desta arrastaria fatalmente um enfraquecimento daquela»407. A fixação dos

prazos para a emissão dos pareceres era deixada nas mãos da câmara política, na medida em que, embora o prazo normal fosse o de trinta dias, podia a esta fixar qualquer outro desde que o projecto de lei fosse considerado urgente pelo Governo. Finalmente, a Câmara Corporativa só funcionava durante o período de das sessões da Assembleia Nacional, em sessões não públicas e os seus pareceres não eram vinculativos, podendo a esta segui-los ou não.

No documento A Assembleia Nacional (1934-1974) (páginas 136-138)