2 A preparação da Constituição Política
2.1 O debate constitucional na Ditadura Militar
2.1.1 O processo constituinte
Para Marcello Caetano o início dos trabalhos preparatórios da nova constitucionalidade
verificou-se na segunda metade de 1930204
, sob o governo de Domingos de Oliveira, no qual Salazar assume de facto o controlo político da situação e define ideologicamente os seus princípios.
Durante o ano de 1930 multiplicaram-se as referências à necessidade de preparar um texto constitucional que desse seguimento à Ditadura Militar e aos princípios políticos que
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«[…] O modelo de referência mais exacto, para classificar o regime que foi um corolário das suas convicções, não são as doutrinas fascistas que a presente conjuntura ideológica está condenada a invocar; é sim o Código de Direito Canónico que deixou de vigorar sob o pontificado de João Paulo II, na parte em que definia o Ordinário do lugar. […] Num regime que nunca perdeu o sentido da origem militar, foram mais inspirações do Direito Canónico que guiaram a formação da pirâmide de apoio sem a qual nenhum homem governa, do que apuradas doutrinas e ideologias, cuja exposição sistemática nunca cultivou.» (Adriano Moreira, Notas do Tempo Perdido, Matosinhos, Contemporânea Editora, 1996, p. 37.
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foram sendo estabelecidos. Antes disso, já tinha havido algumas referências à necessária institucionalização constitucional da Ditadura Militar, mas não no sentido em que, a partir de 1930 e sob a direcção de Salazar, ela vai configurar.
No final de 1927, Vicente de Freitas, na altura Ministro do Interior, quando da convocação das eleições presidenciais, declarava ao Diário de Lisboa que não se pensava em
eleições legislativas, porque em primeiro lugar a ditadura tinha de realizar a sua obra205. Quase
dois anos depois, a definição política do futuro da Ditadura fracturava o governo de Ivens Ferraz. Enquanto Salazar entendia que eram ainda necessários vários para realizar a obra da Ditadura e para preparar uma força política que lhe garantisse a sucessão, o Presidente do
Ministério era partidário da evolução para a normalidade constitucional206.
A primeira referência à Constituição é feita na nota oficiosa, datada de 28 de Abril de 1930, assinada por Salazar, em que se anuncia estar em preparação o Acto Colonial, igualmente da sua autoria.
O Acto Colonial, que Marcello Caetano considera «a primeira lei constitucional do
Estado Novo»207, é antecedido de um longo relatório, em cujos dois primeiros parágrafos o
seu autor considera em vigor a Constituição de 1911: «A reforma da Constituição Política da República é uma necessidade reconhecida por todos, para ser satisfeita oportunamente. A parte dela relativa às colónias não oferece dificuldades especiais que têm as outras em que mais de perto influem as doutrinas políticas, económicas e sociais; ao mesmo tempo é grande a urgência de aperfeiçoamento nos textos em vigor. Nestas condições é possível adoptarem-se as soluções indispensáveis para haver um Acto Colonial, que principie a vigorar imediatamente, em substituição de todo o título V da Constituição de 1911. O que é imposto por exigências instantes da superior governação colonial pode fazer-se sem prejuízo de
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Helena Matos, Salazar, vol. I, cit., p. 395.
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As declarações de Ivens Ferraz sobre o «cunho acentuadamente republicano» do seu governo foram objecto de uma conversa com Salazar, descrita pelo primeiro: «Como o Dr. Oliveira Salazar não tivesse feito ainda qualquer alusão à minha tão discutida entrevista, perguntei-lhe o que pensava sobre o assunto. Declarou-me, francamente, que receava das consequências que ela pudesse trazer […] Declarações de republicanismo são, sempre, consideradas como um desejo de regressar aos partidos e a isso não se prestava ele. Respondi que era apenas partidário de uma evolução à normalidade constitucional e que, finda a sua missão, a Ditadura teria de entregar o poder às novas forças partidárias que viessem a organizar-se com os valores políticos da Nação que não tivessem grande responsabilidade nos erros do passado. Contestou o Dr. Salazar que o que estava por fazer exigia que a Ditadura se mantivesse detentora do poder ainda por alguns anos e que, durante esse tempo, se iria preparando uma força política que lhe garantisse a sucessão. […] Deixei a casa do Dr. Salazar convencido de que um abismo nos separava e que se tinham formado duas correntes de opinião no sei do gabinete, com finalidades tão opostas […] (Arthur Ivens Ferraz, Resenha Política de Seis Meses no Governo, citado in Helena Matos, Salazar, vol. I, cit…, pp. 77-79).
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A A s s e m b l e i a N a c i o n a l n o s i s t e m a p o l í t i c o d o E s t a d o N o v o
__________________________________________________________________________________________ incorporar-se depois na reforma geral e de se prevenir a competente revisão pelo Congresso, reunido com poderes constituintes.»
O artigo 1.º transcreve quase literalmente o último período do texto do citado relatório, acrescentando-se no artigo 2.º que «O disposto no artigo antecedente deve ser também entendido sem prejuízo de continuar a ser exercida pelo Governo de publicar decretos com
força de lei até se regressar completamente à normalidade constitucional.»208
A afirmação segundo a qual esta reforma do capítulo V da Constituição de 1911 deve «incorporar-se depois na reforma geral e de se prevenir a competente revisão pelo Congresso, reunido com poderes constituintes» indica que nesta fase ainda não havia, nem no seio da Ditadura Militar nem no espírito de Salazar, uma ideia precisa sobre a configuração constitucional.
A julgar pelo teor dos discursos de Salazar e de Domingos Oliveira e pelo texto do Decreto que promulga o Acto Colonial, no período da sua gestação e preparação não existia ainda uma ideia clara sobre os contornos objectivos da Constituição que todos afirmavam ser necessária. Tão depressa é referida a necessidade de uma nova ordem constitucional compreendida no sentido da ruptura com o texto da Constituição de 1911, como se fala de revisão deste texto constitucional pelo Congresso reunido com poderes constituintes, o que remete para um processo constituinte clássico, na linha do que sucedera com a elaboração das constituições ao longo de todo o constitucionalismo liberal. Só que, como se verá, os pontos de contacto com o constitucionalismo liberal têm sobretudo a ver com a Carta Constitucional, em que o poder supremo «é servido dar» uma constituição aos seus súbditos.
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