2 O constitucionalismo republicano
1.2 A Ditadura Militar (1926-1933)
1.2.1 A indefinição do Poder (1926-1928)
O período imediatamente subsequente ao 28 de Maio deixou clara a presença de inúmeras clivagens no seio do bloco que apoiou o golpe, mormente no que se refere ao projecto político, na circunstância sumariamente representadas pela ala conservadora militar que defendia a reforma das instituições políticas, dentro de uma linha de continuidade do sistema
político definido na Constituição de 1911149, contra a qual se levantava um sector radical que
jogava tudo na ruptura e insistia numa nova política assente na autoridade e na ordem. Reconhecida a impossibilidade de uma solução compromissória, venceram Gomes da Costa e as forças que o apoiavam.
Gomes da Costa, como escrevemos noutro lugar, não tinha um ideário consistente nem assente em qualquer estrutura ideológica e política definida e movia-se em torno de uma vaga
e difusa ideia de regeneração nacional que apenas poderia ser levada a cabo pelo Exército150.
Por outro lado, dada sua incapacidade para compreender e avaliar a situação – na qual ele era
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Douglas Wheeler também distingue três fases na Ditadura Militar, mas com uma configuração ligeiramente diferente: 1926-1928 – o regime dos «Jovens Tenentes»; 1928-1930 – subida de Salazar e da autoridade civil; 1930-1933 – o nascimento do Estado Novo. Cf. História Política de Portugal…, cit., p. 272.
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O essencial do pensamento de Mendes Cabeçadas está condensado no texto do telegrama que enviou a Gomes da Costa, em 2 de Junho de 1926: «Um governo, uma constituição e uma república, sim; outra coisa, não!». Cf. J. M. Tavares Castilho, Manuel Gomes da Costa…, cit., p. 69.
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um instrumento, apenas e enquanto se mostrasse colaborante com a linha de Sinel de Cordes – passou a agir como se tivesse força real, principalmente a partir do decreto de 29 de Junho que lhe concedia as regalias de Chefe do Estado. O seu breve consulado caracterizou-se por um permanente ziguezaguear ao sabor de influências desencontradas, que iam dos republicanos aos homens do Integralismo Lusitano e da Cruzada Nun’Álvares. Na sequência de uma crise política despoletada por uma remodelação governamental feita por cartas particulares em que despedia António Claro, Óscar Carmona e Gama Ochoa, e reservava para si a presidência do Ministério e a pasta do Interior, nomeando Martinho Nobre de Melo para a dos Estrangeiros e o coronel João de Almeida para a das Colónias, o Exército retira-lhe a confiança a 8 de Julho e, no dia seguinte é formado um novo ministério presidido por Carmona, enquanto Gomes da Costa partia para o exílio nos Açores.
Oriundo de uma família de militares, Óscar Fragoso Carmona era um oficial general
discreto, maçon e republicano151. Os seus detractores chamaram-lhe o «general da espada
virgem», referindo-se a uma carreira militar de gabinete, sem qualquer experiência em situações de combate, apesar de se ter oferecido várias vezes para combater nas colónias. Ganhou alguma notoriedade no julgamento dos implicados no golpe de 18 de Abril de 1925, onde, na qualidade de Promotor de Justiça, fez o elogio dos réus e pediu a sua absolvição, depois de ter proferido a célebre frase: «A Pátria está doente!» Passava por ser um conciliador e a sua entrada no 28 de Maio faz-se numa fase relativamente adiantada do movimento,
quando já era clara a sua irreversibilidade, avançando a partir de Évora no cerco a Lisboa152
. Era ministro dos Negócios Estrangeiros desde o primeiro governo da Ditadura.
A partir de 9 de Julho, Carmona assume as funções de Presidente do Ministério153,
tendo Sinel de Cordes como ministro das Finanças. Para além das dificuldades políticas,
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Cf. Leopoldo Nunes, Carmona, cit.; Telmo Faria, Óscar Carmona, Lisboa, Museu da Presidência da República, 2006; José Ribeiro da Costa, «Carmona, António Óscar de Fragoso», in Dicionário de História do
Estado Novo, cit., vol. I, pp. 123-125; Idem, «Carmona, António Óscar de Fragoso», in Dicionário de História de Portugal, vol. VII, pp. 232-235; António Ventura, «Óscar Carmona», in João Medina (Dir.), História de Portugal, Amadora, Ediclube, 1995, vol. XIII, pp. 115-118.
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Sobre as hesitações de Carmona, Gomes da Costa disse mais tarde: «Por mais telegramas que lhe mandasse de Braga e por mais visitas que lhe fizessem uns tenentes de Évora […] o sr. Carmona só se resolve a tomar o comando das tropas revoltadas e já concentradas à minha ordem, quando viu que o Ministério, primeiro, e o sr. Bernardino Machado, depois, tinham apresentado a sua demissão e portanto já estava de todo afastado o perigo de se sacrificar por esta Pátria enferma […]». (Entrevista ao jornal Correio dos Açores, de 1 de Fevereiro de 1927).
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Decreto n.º 11866, de 9 de Julho de 1926: «O Governo da República Portuguesa há por bem exonerar do cargo de Presidente do Ministério, Ministro da Guerra e interino do interior o general Manuel de Oliveira Gomes da Costa e nomear Presidente do Ministério e Ministro da Guerra o general António Óscar Fragoso Carmona.» (Suplemento ao Diário do Governo n.º 147, de 9 de Julho de 1926).
A A s s e m b l e i a N a c i o n a l n o s i s t e m a p o l í t i c o d o E s t a d o N o v o
__________________________________________________________________________________________ agravadas por uma série de rebeliões contra a Ditadura, o principal problema com que o Governo se defronta é o da situação económica e financeira do País, na resolução do qual o ministro das Finanças falhou rotundamente. Oliveira Salazar, que ocupara episodicamente a
mesma pasta no primeiro governo da Ditadura154, e, logo após a tomada de posse do governo,
fora nomeado por Sinel de Cordes para presidir a uma comissão encarregada de reorganizar as
contribuições e impostos155, passa a criticar abertamente a política financeira do Governo,
designadamente o projectado empréstimo externo, recurso que, na sua opinião, não devia ser utilizado senão depois de se ter conseguido o equilíbrio orçamental. A polémica foi aberta por Oliveira Salazar em finais de Novembro de 1926 e prolongou-se até Fevereiro de 1927 através de uma série de artigos de primeira página, no jornal católico Novidades, onde critica severamente a política financeira do governo, a propósito das contas do Estado referentes à
gerência de 1926-1927 156. O futuro ministro das Finanças começava a construir a sua imagem
de homem sóbrio e competente. Segundo o Diário de Lisboa, a série de artigos sobre as «Contas do Estado», denuncia «uma admirável disciplina mental» e «um profundo conhecimento da matéria», destacando «a situação especialíssima do sr. professor Oliveira Salazar em relação ao nosso reduzido meio que de tão árida matéria cuida e em relação ao
momento político, justificaria, de sobra, o interesse que os aludidos artigos revestem»157.
Entretanto, a 27 de Dezembro são convocadas a eleições presidenciais e o Governo promove o aparecimento da União Nacional Republicana – um prenúncio da futura União Nacional – para apoiar Carmona, que é eleito a 25 de Março de 1928, com 761 730 votos,
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Toma posse a 3 de Junho e é exonerado a seu pedido a 19 do mesmo mês (Decreto n.º 11 753, de 19 de Junho de 1926 – Diário do Governo n.º 134, de 24 de Junho de 1926). O pedido de demissão surgiu na sequência de uma carta de Gomes da Costa, datada de 17 de Junho, dirigida a todos os ministros na qual menciona a oposição de Cabeçadas às suas propostas, tendo falhado todas as tentativas de conciliação, pelo que se decidira pelo uso da força, ou seja pelo golpe de Estado, esperando, no entanto poder contar com a colaboração de todos. Os três ministros civis decidem pela demissão em bloco, com uma carta que Franco Nogueira julga de atribuir a Salazar: «Os ministros civis foram chamados a exercer uma determinada acção e essa acção só se lhes afigura possível depois de resolvido o problema político. Ora este problema, nos termos em que foi posto, não é a eles que compete resolvê-lo. Nestes termos, os destinatários depõem nas mãos de V. Ex.ª os lugares que lhes confiaram, aguardando a solução definitiva do problema político.» (Cf. Franco Nogueira, Salazar, vol. I, Coimbra, Atlântida Editora, 1997, p. 312).
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Data da nomeação: 24 de Julho de 1936.
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O primeiro dos sete artigos de fundo – todos com o título «Contas do Estado – Gerência de 926-927» – foi publicado a 30 de Novembro de 1927 e o último a 21 de Dezembro. Seguem-se-lhe, no mesmo jornal e com o mesmo destaque, mais os seguintes: «O empréstimo externo» (3 de Janeiro de 1928); «Equilíbrio orçamental e estabilização monetária» (14 de Janeiro); «Ainda o equilíbrio e a estabilização» (25 de Janeiro); «Deficit ou superavit» (10 de Fevereiro – I e 14 de Fevereiro – II); e «Consignações de receitas» (24 de Fevereiro). Já em vésperas de tomar posse como ministro das Finanças, a partir de 13 de Abril de 1928, Salazar publica no mesmo jornal mais três artigos intitulados «Medidas de Finanças».
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significativamente mais do que os votos obtidos por Sidónio Pais, dez anos antes, facto que não deixou de ser enfatizado pelos homens da Ditadura Militar.