4 O sistema eleitoral do Estado Novo
5.3 Endurecimento do Regime no quadro da guerra colonial (1961-1968)
Já no final do período anterior, as eleições presidenciais de 1958 opuseram nas urnas Humberto Delgado e Américo Tomás e, apesar da vitória do candidato apoiado pela União Nacional, constituíram o primeiro sobressalto sério do Regime personalizado de Salazar, directa e explicitamente visado pelo primeiro, e puseram em causa a blindagem supostamente inexpugnável que fora construída para garantir a sua subsistência. Pela primeira vez, a oposição vai até ao fim e deixa claro que havia outro País para além do que acobertava sob o partido único. Salazar introduz então no discurso político a teoria do «golpe de Estado Constitucional», que servirá de suporte para a revisão constitucional de 1959, a partir da qual, o Presidente da República passa a ser eleito por um colégio dito corporativo, mas que na essência traduz o facto de o Chefe de Estado passar a ser eleito pelas forças do Regime, anulando qualquer hipótese a um candidato exterior ao sistema.
Mas o factor determinante para o endurecimento e monolitização do Regime foi a emergência da guerra colonial nas colónias de Angola (1961), Guiné (1963) e Moçambique (1964) e a ocupação de Goa, Damão e Diu pelas tropas da União Indiana, em Dezembro de 1961, factos que atingiam o cerne do Estado Novo construído na base da Nação pluricontinental nos termos integracionistas e centralizadores do Acto Colonial de 1930 que proclamava solenemente: «É da essência orgânica da Nação Portuguesa desempenhar a função histórica de possuir e colonizar domínios ultramarinos e de civilizar as populações que neles se compreendam, exercendo também a influência moral que lhe é adstrita pelo Padroado do Oriente.»
O problema não era novo e constituíra o primeiro ponto de fricção entre Portugal e a ONU, logo no momento da sua admissão, em 1955, quando, nos termos da respectiva Carta, o secretário geral pergunta ao Governo português se este administra territórios não-autónomos,
ou seja, colónias, ao que este responde negativamente389 e manteve-se presente na agenda
389
«… quando Portugal responde ao secretário-geral que não administra territórios não-autónomos […] está a declarar que: não possui colónias; os seus territórios ultramarinos são parte integrante da soberania portuguesa; esses territórios não têm vocação para a independência; em nenhum caso está Portugal disposto a prestar à O. N. U. contas da sua administração, nem a submeter-se a censura internacional, nem a admitir para tais territórios um estatuto externo que não seja livremente definido pelo governo português. São assim
A A s s e m b l e i a N a c i o n a l n o s i s t e m a p o l í t i c o d o E s t a d o N o v o
__________________________________________________________________________________________ daquela Organização até 1975, através de uma pressão sistemática sobre o Governo português que, de resto, nunca foi atendida.
Foi ainda a questão colonial que esteve na origem do frustrado golpe de Botelho Moniz, em 1961, que, ultrapassando o putchismo reviralhista anterior, marca o início da defecção de importantes sectores das Forças Armadas que até aí se tinham mantido num papel subordinado ao Regime.
Nesta fase, a defesa do ultramar assume o fulcro da propaganda ideológica, relegando para segundo plano a exaltação do autoritarismo e do corporativismo dos períodos anteriores e sobrepondo-se inclusivamente a todos os outros problemas nacionais, designadamente a economia, e estabelecendo clivagens em torno do problema colonial que passou a ser o grande dogma ideológico sobre o qual não havia contemporizações, com consequências importantes no seio da sociedade portuguesa dos anos 60 do século XX, entre as quais avultam a desafectação da juventude bem patente nas crises estudantis que remetem para as mudanças ideológicas que fermentam no seio da Universidade e o gradual distanciamento da Igreja Católica – um dos pilares essenciais do Regime – sobretudo ao nível das bases, que, apesar da proximidade da maioria da hierarquia, inicia um processo divergente que, no Marcelismo, conduzirá vastos sectores das elites laicas católicas para posições de afrontamento directo com a ordem estabelecida, emparelhando no radicalismo de posições com o Partido Comunista, do qual se tornaram «compagnons de route» no processo que convergiu nas eleições legislativas de 1969.
Um regime tão personalizado não podia ficar imune à decrepitude do seu chefe que parece ter libertado na energia com que enfrentou a eclosão da guerra colonial o seu canto do cisne. Em meados da década de 1960, Salazar era um homem cansado e exausto. A 12 de Abril de 1965, confessa a Franco Nogueira: «Estou perdendo faculdades. Não posso trabalhar como dantes. Já não acompanho os ministérios, e os ministros fazem o que querem. Só acompanho o Ultramar e os Negócios Estrangeiros, e um bocadinho a economia». E dois
meses depois: «Cheguei ao fim. […] Hoje estou no fim, mais dia, menos dia […]»390.
óbvias, perante a prática da O. N. U., a gravidade e as implicações da decisão o gabinete de Lisboa.»
[Sublinhado acrescentado] (Franco Nogueira, História de Portugal, 1933-1974, Porto, Livraria Civilização, 1981, p. 240). Cf. ainda António Costa Pinto, O Fim do Império Português, Lisboa, Livros Horizonte, 2001; Francisco de Bethencourt e Kirti Chaudhuri (Dir.), História da Expansão Portuguesa, vol. V – Último
Império e Recentramento (1930-1998), Lisboa, Círculo de Leitores, 1999; José Freire Antunes, Kennedy e Salazar – O leão e a raposa, 9.ª ed., Lisboa, Difusão Cultural, 1991; Idem (Org.), A Guerra de África, 1961- 1974, 2 vols., Lisboa, Círculo de Leitores, 1995.
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Em meados da década de 1960, iniciava-se o processo de encerramento de um ciclo do Estado Novo e davam-se os primeiros passos do pós-salazarismo, começando a perfilar-se os candidatos à sucessão e emergindo no meio de todas as interrogações a figura do Presidente da República. Era evidente que o país desembocara numa situação de crise generalizada em que o problema colonial definia bloqueios de toda a ordem, sobretudo políticos, e se fixava num impasse de consequências imprevisíveis e cuja solução não se perspectivava num horizonte de curto prazo. Além disso, o modelo global de desenvolvimento assumido desde a década de 1950 apresentava sinais de falência, sem ter conseguido resolver o problema da modernização do aparelho produtivo nem travar – bem pelo contrário – o agravamento dos profundos desequilíbrios regionais e sectoriais, destacando-se a estagnação do sector agrícola. A conjugação de todos os factores de ordem política, económica e social, levara à desertificação do país pela via da emigração.
Em suma, da profunda crise política que se atravessava em 1965 e da crescente crispação do Regime são exemplos a crise estudantil, o progressivo afastamento de sectores católicos, em que se incluíam alguns membros da hierarquia, o encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores e o assassinato de Humberto Delgado.