H- Critério de valoração – a conformação do futuro
4. Principais repercussões do Código de Processo Civil no Código de Processo do
4.1. O processo declarativo comum
4.1.3. A audiência preliminar
Nos termos do art.º 62.º do Código de Processo do Trabalho, a audiência preliminar “é
convocada, quando a complexidade da causa o justifique” (n.º 1), “A audiência preliminar deve realizar-se no prazo de 20 dias, sendo-lhe aplicável o disposto no art.º 508.º-A do Código de Processo Civil, sem prejuízo do preceituado no art.º 49.º, n.º 3” (n.º 2).
Mais uma vez deparamo-nos com uma norma de conteúdo muito semelhante ao preceituado para o antigo processo sumário, quanto à audiência preliminar, que nos termos do art.º 787.º, n.º 1, 1.ª parte, do Código de Processo Civil anterior, que para além de servir
para fazer actuar o princípio do contraditório, determinava que “Findos os articulados,
observar-se-á o disposto nos artigos 508.º a 512.º -A, mas a audiência só se realiza (va) quando a complexidade da causa …” o determinasse.
Assim sendo, e na sequência do acima referido, a audiência ali referida deve agora ser designada de audiência prévia. E, quando ocorrer, seguir a nova tramitação legal, em tudo o que se não mostre especialmente prevenido no Código de Processo do Trabalho, importando considerar, a esse nível, que tal diligência deve ter lugar no prazo de 20 dias, conforme resulta do citado artigo 62.º, n.º 2, por ser este um prazo especifico do processo do trabalho, mais curto do que o estabelecido no art.º 591.º, n.º 1 do Código de Processo Civil de 2013.
As finalidades da audiência prévia reproduzem, em grande parte, as que se encontravam previstas para a audiência preliminar, contemplada no art.º 508.º-A, do anterior Código de Processo Civil.
Na realidade, prevê-se, no n.º 1, de cada uma das ditas disposições legais, que possuem idêntica redacção, como integrando ou podendo integrar o conteúdo das referidas diligências: a tentativa de conciliação (alínea a)); facultar às partes a discussão de facto e de
direito nos casos em que ao juiz cumpra apreciar excepções dilatórias ou quando tencione conhecer imediatamente no todo ou em parte, do mérito da causa (alínea b)); discutir as posições das partes, com vista à delimitação dos termos do litígio e, suprir as insuficiências ou imprecisões na exposição da matéria de facto, que ainda subsistam ou se tornam patentes na sequência do debate (alínea c)) e proferir despacho saneador (alínea d)).
Têm conteúdo e finalidade parcialmente semelhante a alíneas g) do nº 2 do art.º 591.º do CPC2013 relativamente à alínea b) do n.º 2 do art.º 508.º-A do Código de Processo Civil anterior, na parte respeitante à designação da data para a audiência.
Por seu turno, o n.º 2 do art.º 591.º tem a mesma redacção do n.º 3 do art.º 508.º-A do antecedente diploma legal, aí se prescrevendo que “o despacho que marque a audiência
prévia (preliminar) indique o seu objecto e finalidade não constitui caso julgado sobre a possibilidade de apreciação imediata do mérito da causa”, reproduzindo o seu nº 3, o teor do
nº 4 do antigo art.º 508.º-A, na parte onde se prevê que a falta das partes ou seus mandatários não constitui motivo de adiamento.
Onde o art.º 591.º inova relativamente ao seu antecessor art.º 508.º-A, é na parte respeitante às suas alíneas e) e f). Aí se determina, respectivamente, a adequação formal, simplificação ou a agilização processual, nos termos do art.º 6.º e 547.º, e a prolação do
despacho previsto no n.º 1, do art.º 596.º (destinado à identificação do objecto do litígio e a
enunciar os temas da prova), e a decisão das reclamações deduzidas pelas partes.
Resulta, assim, do supra assinalado, ter sido propósito do legislador, a manutenção e
aprofundamento da estrutura essencial dessa audiência.
Continua, pois, a apostar-se na realização de duas audiências na marcha do processo, a audiência prévia e a final; viando a primeira, primacialmente, a simplificação e agilização do processado, com expurgação de tudo aquilo que possa obstar ao conhecimento de mérito e à obtenção da resolução justa do litígio, recorrendo-se, para o efeito, aos princípios da oralidade, proximidade, cooperação das partes e do contraditório, com acentuação do debate. Percebe-se, por isso, que às partes seja facultada a discussão de facto e de direito, quando se trate de conhecer de excepções dilatórias ou seja possível conhecer no todo ou em parte do objecto do litígio, a prevista discussão a propósito da delimitação dos termos do litígio ou quando esteja em causa a supressão da insuficiência ou imprecisão da matéria de facto, e que apenas após o debate sejam proferidos os despachos de adequação formal, simplificação e agilização processual, que se impuserem no caso, bem como o despacho a identificar o
objecto do litígio, súmula das questões emergentes da petição e da contestação e
enquadramento jurídico da lide, e os temas da prova, integrados por questões que importa apurar em julgamento decorrentes da causa de pedir e das excepções invocadas - e que serão enunciadas, com maior ou menor pormenorização, consoante o caso.
Erradicada a base instrutória, o despacho proferido a propósito destes últimos aspectos, assume bastante relevância na medida em que é através dele que se estabelece a “ponte” entre a audiência prévia e audiência final, tendo-se, pressupostamente, já arredado do processo tudo o que obste ao conhecimento do mérito, e procedido à clarificação e definição dos ternos da controvérsia, assim como já efectuado a programação dos actos e o número de sessões de trabalho da audiência final.
De notar que a audiência prévia será gravada, sempre que possível (art.º 591.º), ou seja, sempre que existam as condições técnicas e logísticas para tal.
Não obstante a importância de que se reveste a audiência prévia, creio, no entanto, que em sede de processo do trabalho, a realização da mesma deve continuar a pautar-se pelo
critério contido no referido dispositivo legal.
Na realidade, no processo comum laboral, já se encontram previstas duas audiências de realização obrigatória: a audiência de partes e a audiência final.
Na audiência de partes, depois do autor expor sucintamente os fundamentos de facto de direito da sua pretensão e do réu responder, o juiz procurará conciliar as partes (art.º 55.º), incumbindo-lhe, ainda, determinar a prática de actos que melhor se ajustem ao fim do processo, bem como as necessárias adaptações, depois de ouvidas as partes presentes, e fixar a data da audiência final, com observância do disposto no art.º 155.º do Código de Processo Civil - actual art.º 151.º (art.º 56.º).
Nesta audiência mostram-se, pois, consagradas várias das prerrogativas previstas para audiência prévia - discussão das posições das partes, numa lógica de delimitação do objecto do litígio, tentativa de conciliação, aplicação do principio da adequação formal e marcação consensual, com os mandatários da audiência final - embora numa fase inicial do processo.
Acresce que, em processo do trabalho, ao invés do que sucede, por regra, no processo civil, recebida a petição, tem lugar o despacho liminar (art.º 54.º), devendo o juiz, se verificar deficiências, obscuridades ou outras irregularidades na petição convidar o autor a completá-la ou a esclarecê-la, sem prejuízo do seu indeferimento. O que permite ao juiz do trabalho, em grande medida, antecipar o conteúdo de que se reveste o despacho pré-saneador no processo civil.
De relembrar é também que, por força do preceituado no supra citado art.º 27.º do CPT, o juiz laboral deve, até à audiência final, mandar intervir na acção qualquer pessoa, determinar a prática de actos necessários ao suprimento da falta de pressupostos processuais susceptíveis de sanação, bem como convidar as partes a suprir as deficiências dos articulados quando reconheça que deixaram de ser articulados factos que podem interessar à discussão da causa, sem prejuízo da observância das regras gerais sobre contraditoriedade e prova.
Ou seja, quer na fase inicial do processo, por via do despacho liminar e do conteúdo de que se reveste a audiência de partes, quer ao longo do mesmo e até à audiência final por força dos poderes atribuídos ao juiz, o processo do trabalho passa por vários “filtros”, que permitem expurgar do mesmo, em grande parte, o que obste à apreciação do mérito da causa e à
obtenção de uma solução justa para o litígio - objectivos estes igualmente a alcançar através
da realização audiência prévia.
Assim, ponderando os particulares interesses em presença neste tipo de processo, a natureza deste - ditada pela acuidade na aplicação dos princípios da simplicidade, celeridade e economia processuais - penso não fazer sentido a realização da audiência prévia em termos tendencialmente obrigatórios, com a sobrecarga e custos dai decorrentes para as partes.
Competirá, pois, ao juiz, findos os articulados, e as diligências que tenham tido lugar nos termos do art.º 61.º, atenta a natureza da causa e a sua complexidade, determinar a
realização da audiência prévia nos moldes supra descritos, assim se harmonizando os dois regimes legais.