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Percursos e Tendências da Geografia e da Educação Geográfica

1.1 A C ONTINUIDADE DO P ENSAMENTO G EOGRÁFICO

A análise sociológica da ciência permite realçar a importância dos foros comunitários e dos aspetos institucionais, quer para os processos de socialização académica, quer para a seleção e aceitação de determinados conceitos científicos. É através da criação e da ação dessas comunidades e do processo de socialização que nelas se verifica, que se torna possível sentir a influência do contexto social sobre o desenvolvimento do pensamento científico e compreender a forma como se desenvolve a sua prática. Assim, o conjunto do processo evolutivo da geografia, desde a sua institucionalização até aos nossos dias, deve ser analisado segundo três dimensões simultaneamente distintas e interligadas, sendo que a história da disciplina é, afinal, o relato das transformações ocorridas nesses três componentes: (1) o seu conteúdo científico, inicialmente apelas um corpo de conhecimento sem coerência interna, que gradualmente foi adquirindo consistência; (2) a sua práxis de investigação, traduzida em formas de ação concreta; (3) a sua construção como saber disciplinar, em resultado da afirmação social dos membros da comunidade científica entretanto estabelecida.

Nesta perspetiva, a geografia assume-se como uma entidade integrada nos conjuntos mais vastos da ciência e da sociedade, nela se refletindo todas as

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transformações ai ocorridas: o seu conhecimento constitui apenas uma parte de todo o conhecimento científico; a sua práxis decorre da própria prática científica; enquanto instituição social ela não é mais do que uma fração de toda a estrutura organizacional e social da ciência. E porque tais componentes fazem parte dessa estrutura global, que a geografia se integra, como as demais ciências, nos domínios da cultura, da ação humana e da sociedade. A visão integrada destes aspetos confirma a pertinência de uma abordagem contextual da história da geografia, cuja metodologia pode ser definida em função dos seguintes vetores (Berdoulay, 1981; Capel, 1989; Claval, 2007):

A continuidade das ideias e dos princípios fundadores da disciplina, não implica a imutabilidade dos sistemas de pensamento, da mesma forma que estes não devem ser imputados a apenas um grupo social ou período histórico; Não existe uma verdadeira dicotomia entre os fatores externos e internos que justificam os processos de mudança;

Devem ser consideradas todas as correntes de pensamento, mesmo que algumas delas não tenham conseguido subsistir no tempo, pois os motivos da sua substituição podem não ser de natureza intelectual, mas dever-se essencialmente a causas de caráter social ou político;

Deve proceder-se ao estudo em profundidade dos paradigmas societais e, consequentemente, dos objetivos que em determinadas épocas enquadram a ação das comunidades científicas;

Deve adotar-se um conceito de comunidade científica mais abrangente do que normalmente seguido pela sociologia da ciência, pois a base social em que se fundam as diferentes perspetivas geográficas implica que se dê um maior ênfase às ideologias e não tanto aos laços estabelecidos entre cientistas nas suas respetivas instituições;

A análise contextual deve privilegiar o estudo das causas que estão por trás da

procura, ou da utilização, de determinado corpo de ideias e menos da sua

possível influência no progresso e evolução da disciplina.

A história da geografia é, no essencial, uma compilação das ideias acerca da relação da humanidade com o meio na sua tentativa de compreender o mundo. Ou seja, é não só o resultado da experiência humana, como o reflexo de todo o processo de desenvolvimento e consciencialização do Homem face ao espaço envolvente. Nesse sentido, mais do que os contributos conceptuais inerentes à consolidação de cada

corrente de pensamento, importa salientar a permanência de certos princípios caracteristicamente geográficos, que se mantêm apesar da mudança dos contextos filosóficos, culturais ou económicos.

Esta evolução na continuidade só encontra explicação se a análise se reportar à identificação dos problemas-chave em torno dos quais desde sempre se definiram os grandes objetivos gerais, ou finalidades, da disciplina: o estudo da diferenciação do espaço e o estudo das relações da humanidade com o meio (Capel, 1989; Claval, 2007). Apesar do contexto social e ideológico ter condicionado a forma como foi encarada cada uma dessas categorias de problemas e o modo como foram resolvidas as questões de investigação que estes suscitaram, a sucessão das diversas correntes de pensamento geográfico acabou por nunca questionar a sua pertinência na definição do objeto de estudo da disciplina. É esse caráter unificador que permite relativizar a importância do debate acerca da adoção de determinados critérios e modelos de cientificidade, ou do papel assumido pelas abordagens regionalistas e sistemáticas no desenvolvimento conceptual da ciência, ou ainda da crescente autonomia conceptual e metodológica que sucede à ramificação dos campos da geografia física e da geografia humana.

Neste quadro, entende-se ser possível conceber a consolidação de cada uma das correntes de pensamento geográfico como a conclusão de um processo cognitivo de transformação dos elementos conceptuais e metodológicos que desde Humboldt e Ritter constituem o núcleo duro da disciplina (32). A forma inovadora como cada um desses elementos foi sendo encarado ao longo do tempo, fruto da renovação nos modos de exploração do ambiente, implicou a sua incorporação na estrutura da ciência, segundo um processo através do qual cada novo objeto ou situação foi integrado na estrutura cognitiva dos geógrafos e, por seu intermédio, no do conjunto da comunidade científica. Por efeito desta assimilação, os geógrafos exploraram o ambiente, tomaram parte dele, transformando-o e incorporando-o em si.

(32) Adota-se nesta análise o pressuposto básico do construtivismo piagetiano, segundo o qual «existe

continuidade no sistema de desenvolvimento cognitivo, desde a criança até aos homens de ciência, passando pelo adulto “normal”», pelo que «a análise comparativa entre psicogénese e a história da ciência (…) permite ver qual seja o sentido dessa continuidade e quais os seus limites.» (Piaget e Garcia, 1987: 241). Entende-se que a evolução na continuidade que marca o desenvolvimento do conhecimento geográfico se explica de forma convincente à luz dos dois domínios que compõem o conceito de quadro epistémico proposto por Piaget: por um lado, o que respeita aos impulsos orientados por exigências externas impostas pela sociedade, que motivam a aceitação, ou rejeição, dos temas de investigação (o paradigma social); por outro lado, o que se relaciona com os esquemas conceptuais que constituem a maneira natural de considerar a ciência num determinado período, para todos os indivíduos e sem imposição externa explícita (o paradigma epistémico).

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Mas, em simultâneo, deu-se também um processo inverso de acomodação, no qual essa mesma comunidade científica se ajustou aos acontecimentos do meio, aos diferentes contextos sociais, vendo-se assim forçada a ceder às suas sucessivas coações. A geografia acabava dessa forma por transformar as suas próprias estruturas, a fim de se adequar à natureza dos objetos que foram sendo apreendidos. O jogo entre assimilação e acomodação, permitindo a interação entre as comunidades científicas e o meio, possibilitou-lhes atingir em diferentes ocasiões o que pode designar-se por estados de equilíbrio, ou seja, situações em que se vive uma certa harmonia entre a organização interior e a experiência externa, historicamente marcadas pela afirmação de um novo paradigma epistémico.

Assim, todo o comportamento da comunidade científica dos geógrafos se afirmou como um processo de organização para a adaptação e de adaptação para a organização, traduzido em estruturações contínuas: em consequência das tendências de adaptação e organização foram-se criando continuamente novas estruturas a partir das antigas, com o objetivo último de assegurar a automanutenção e sobrevivência plena da geografia, na sua interação com o mundo. Cada estrutura foi o ponto de partida para a seguinte, decorrendo o seu desenvolvimento de sequências que partem de situações de instabilidade e tendem a acabar em situações de equilíbrio.

Atendendo ao número relativamente grande de comunidades científicas que de uma maneira ou de outra abordam conceitos geográficos (v. g. o conceito de espaço, tão importante também para geólogos, botânicos, economistas, historiadores, etc.) é-se levado a aceitar a possibilidade de serem igualmente muito diferentes as formas de os considerar, em acordo com os objetivos específicos definidos por cada uma delas. Mas se essa diversidade é tida por natural tratando-se de domínios científicos distintos, ela não é estranha ao trabalho desenvolvido no âmbito exclusivo da própria geografia. Julga-se, portanto, que a análise das condições institucionais subjacentes à formação e evolução das disciplinas científicas, adquire papel de igual relevo no caso da ciência geográfica, onde a emergência de diferentes comunidades de geógrafos foi fortemente condicionada por fatores de ordem intelectual e social: se os primeiros, permitiram à disciplina a sua individualização face a outros ramos do saber, tornando possível associá-la ao tratamento de uma categoria particular de problemas-chave, já o segundos permitiram justificar a existência de nichos institucionais que desde o estabelecimento e formação dessas mesmas comunidades deram azo ao desenvolvimento e especialização de um vocabulário, de conceitos e de tradições sucessivamente mais diferenciadas.

Se a abordagem de índole sociológica é indispensável para se entender o processo de produção do conhecimento científico, ela não exclui a necessidade de se considerarem as variáveis endógenas, responsáveis pela compreensão do conteúdo das ideias científicas em si mesmas, pela definição do quadro que esteve por trás da sua génese e pelo entendimento da interdependência entre a natureza da sua lógica interna e o respetivo percurso evolutivo. As contradições resultantes da necessidade de conciliar aspetos de natureza tão diversa, tornam-se particularmente notadas quando chega o momento de proceder à definição do próprio objeto da geografia.

Apesar de se associar a disciplina ao estudo de um conjunto de problemas relativamente aos quais aparentemente nenhuma outra disciplina dedicou especial atenção, a própria existência dessas particularidades apenas serviu para aumentar as suas dificuldades de afirmação no seio da comunidade científica, sentidas logo aquando da respetiva institucionalização universitária em finais do séc. XIX. A assunção de um caráter de ciência de encruzilhada, entre as ciências da natureza e as ciências humanas, não apenas coloca problemas de fundamentação, como favorece o aparecimento de numerosos críticos e competidores, tornando premente a justificação da própria existência da disciplina e a fixação da sua identidade, tanto quanto a sua independência face às ciências entre as quais se diz posicionar. A fim de problematizar alguns destes aspetos importa rever o processo de desenvolvimento teórico da disciplina sobretudo a partir da década de 60 do século passado (33).