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Percursos e Tendências da Geografia e da Educação Geográfica

1.3 O C ARÁTER E XCECIONAL DO O BJETO DE E STUDO DA G EOGRAFIA

Apesar da instabilidade epistemológica sentida pela generalidade das ciências sociais, sobretudo a partir do momento em que começaram a ser questionados os quadros de referência da modernidade, a geografia conseguiu demonstrar alguma capacidade para sobreviver num ambiente em que várias disciplinas parecem disputar os mesmos objetos de estudo; algo que exige dos geógrafos um permanente esforço de reflexão sobre o processo de construção do saber geográfico. Entretanto, a quem deseja compreender cabalmente os desafios que se colocam à geografia não basta cingir-se aos

(57) Ainda que o próprio espaço possa ser dividido, quer em subconjuntos objetivos — regiões

administrativas, religiosas ou económicas — quer em entidades subjetivas, tais como comunidades ou Nações.

limites tradicionalmente mencionados nas definições do seu campo, tendo em conta que, por um lado, as fronteiras entre a história, a sociologia, a etnologia, a economia, a linguística e a ecologia, se foram parcialmente esbatendo e, por outro lado, se alterou radicalmente o cenário em que se desenrola a atividade de produção científica (Claval, 2007). Deixou de ser possível ignorar o que se passa nos domínios vizinhos, uma vez que todos foram afetados pela mudança dos critérios de cientificidade, em todos foi questionada a soberania da razão e dada maior relevância à lógica do discurso. Os grandes debates sobre o sentido da pós-modernidade, ou sobre as perversidades do pensamento de inspiração colonial, têm um caráter eminentemente transdisciplinar.

Mas em obediência a uma estratégia que se afigura um tanto paradoxal, a imagem da geografia que se persiste em transmitir no âmbito da formação inicial dos geógrafos (mesmo quando a sua orientação profissional não se dirige para o ensino) parece alicerçar-se na ideia de uma disciplina que funda a sua identidade no facto de se posicionar no interface entre a cultura humana e o ambiente natural. Um discurso que se consolidou epistemologicamente no início do séc. XX em torno de um conceito de paisagem cultural, em que a cultura foi vista como a causa e o ambiente como o meio e o suporte. Cimentou-se, assim, uma dicotomia entre o humano e o natural que contrariou o propósito de unificação então assumido pela geografia: afinal, aquela conceção supõe que quaisquer traços observáveis na superfície terrestre têm, invariavelmente, de pertencer ao domínio do humano, ou do natural. Tal divisão vir-se- ia a fixar no tecido conceptual da geografia e viu-se reforçada, primeiro, pelas hesitações do diálogo entre os ramos da geografia humana e a geografia física; depois, pela sua crescente autonomização. Trata-se de um problema de fundo que segundo alguns autores nem mesmo a nova geografia cultural de mostrou capaz de solucionar e, pelo contrário, pareceu mesmo acentuar (cf. Whatmore, 2003): por exemplo, através da preocupação marxista com a “produção da natureza”, ou da centragem no estudo dos efeitos das políticas culturais sobre a paisagem.

Pode argumentar-se que a unidade que a geografia proclama possui uma natureza eminentemente funcional, pois o sentido dos elementos que a constituem decorre de uma articulação metodológica que tem em vista a produção dos saberes da disciplina (Dollfus, 1989). Mas, como antes se procurou demonstrar, essa unidade foi também construída em função de vias conceptuais diversas, tais como o estudo dos espaços produzidos pelas sociedades, ou a análise das distribuições, dos seus contrastes, padrões e variabilidade locativa. Neste quadro, o ambiente físico é tido em conta, não apenas

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como ponto de partida do sistema que ajuda a formar, mas como recurso do próprio sistema, uma vez que as relações do homem com a natureza são mediatizadas quer pela ideia que a sociedade tem de si própria, quer pela ideia que tem acerca da sua capacidade de intervenção sobre o ambiente. Por fim, tais relações exigem que se tenha em atenção a substância das transformações da ação humana sobre o meio, ou seja, que se analisem as condições de estabilidade dos ecossistemas produzidos e se estude o modo como as sociedades aproveitam as regularidades, ou as irregularidades do funcionamento dos vários componentes do meio físico (idem: 91).

É igualmente possível imaginar que o objeto de estudo da geografia se define em função de novas abordagens locativas, embora o relevo que estas atribuem ao conceito de lugar deva ser encarado como exemplo do processo de reconceptualização do espaço e das relações homem-meio, dimensões de que a geografia não possui o monopólio (Rochefort, 1989). Todavia, embora outras ciências manifestem interesse pelo estudo de problemas com uma dimensão espacial, a verdade é que o espaço geográfico apresenta algumas particularidades, que destacam a sua polivalência, adaptabilidade, faculdade de representar uma visão integradora da realidade. Pela necessidade de se dedicar à análise de lugares, de territórios, ou de paisagens, produto da convergência de múltiplos elementos físicos e humanos, o geógrafo é levado a apreender a fragilidade quotidiana do espaço, algo que transforma a geografia numa empresa cívica que vai do ecológico ao social e o geógrafo num generalista das relações homem-ambiente. Apesar dos riscos inerentes à produção de um discurso demasiado genérico, pode entender-se que esta abordagem se ajusta ao papel social do saber geográfico, dada a necessidade dos cidadãos responderem aos desafios que despontam num momento em que a humanidade se encontra ameaçada, por exemplo, em consequência da crise económica e ambiental: ora porque se mostra profundamente desconhecedora das leis que regem o espaço; ora porque os indivíduos, ainda que qualificados, revelam dificuldade em apreender as interconexões entre factos de natureza diferente.

Não se trata de recuperar para a geografia qualquer visão excepcionalista, mas somente uma tentativa de sublinhar que a disciplina se pode definir em torno de um objeto exclusivo, não reivindicado por outros saberes, ainda que inscrito num domínio — o espaço — onde aqueles também de podem mover. Negando o retrocesso a uma geografia de síntese, assente na descrição qualitativa e literária, propõe-se um outro elemento para integrar o núcleo duro da disciplina: a qualificação e a quantificação dos espaços terrestres a todas as escalas, a apreensão dos mecanismos, dos processos, das

problemáticas que vão do ecológico, ao económico, ao social e ao cultural, nas quais há lugar para uma grande diversidade, não apenas de olhares, de campos de especialização, mas de hierarquização dos factos e dos problemas (Claval, 2007).

Neste quadro, a geografia refere-se tanto ao estudo das distribuições como de parcelas individualizadas do espaço — lugares, territórios, regiões — segundo princípios que atribuem aos grupos sociais a capacidade de perceber e atuar sobre o espaço em função das suas vivências, das suas representações, dos seus modelos, dos seus mitos, da herança de gerações anteriores (cf. Murphy e Johnson, 2000). A geografia e, por seu intermédio, o geógrafo, deve tomá-los na sua dinâmica, procurando identificar os processos e os atores, mas com pleno conhecimento das leis do espaço. Entende-se que lhe compete saber que as ações humanas sobre o espaço, por mais desordenadas que possam parecer, não se fazem sem regras, deliberadas ou involuntárias. O espaço tem as suas leis, que não são evidentemente independentes da ação humana, mas possuem, pelo contrário, a sua lógica social. Só aí é possível encontrar a unidade da geografia: nesse corpo central das leis, das estratégias e das formas do espaço socializado, nessa exploração do mundo como território das sociedades (Brunet, 1989: 96).

Através da identificação dos componentes essenciais do objeto de estudo da geografia, entendida como ciência locativa e da localização, como ciência das distribuições, como ciência da diferenciação da superfície terrestre, como ciência das inter-relações do homem com o ambiente, ou como ciência de processos — campos aglutinados por um conceito de espaço que é tido por produto da interação entre o social e o natural — parece justificar-se plenamente a unidade da disciplina. No entanto, é também verdade que a crescente especialização do saber geográfico e a consequente autonomização da geografia física e da geografia humana nas suas várias ramificações (vd. a geomorfologia, a climatologia, a biogeografia, a geografia urbana ou a geografia industrial) parece pôr em risco essa unidade, criar dificuldades de relacionamento e de definição do objeto da disciplina face a outras ciências, ou pelo menos colocar problemas epistemológicos de solução nem sempre clara.

Em primeiro lugar, é preciso reconhecer e aceitar que em redor do núcleo duro da disciplina se formaram todo um conjunto de saberes e práticas largamente autónomos, tanto no domínio do físico, como do humano. Um movimento de especialização que, em abstrato, pode não traduzir necessariamente independência, indiferença, ou hostilidade, já que os fluxos bidirecionais que entre eles se estabelecem acabam por

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potenciar o seu desenvolvimento (Durand-Dastés, 1989). Em segundo lugar, ao redor do domínio do espaço e dos processos de organização espacial, existe a possibilidade de formular uma multiplicidade de interrogações e problemas que servem quer à geografia física, quer à geografia humana: o aumento da procura social no sentido de uma maior valorização da dimensão ecológica em detrimento das abordagens clássicas do meio físico; o estudo das representações, dos modelos e dos modos de propagação das sociedades sobre o espaço, das suas estratégias espaciais. Em qualquer um destes campos estão em causa processos polivalentes, que interessam a geógrafos físicos e humanos e implicam um tratamento pluridisciplinar (cf. Dear, 2001; Harvey, 1996, 2000; Murphy e Johnson, 2000; Short, 2000).

Na verdade, pode dizer-se que existe entre a geografia física e a geografia humana mais parentesco do que dissemelhança, algo que decorre da forma como ambas abordam as interações entre os fenómenos e os processos espaciais, tendo como denominador comum a complexidade da realidade geográfica. Uma e outra procuram compreender e explicar sistemas espaciais análogos na estrutura, mas não idênticos no conteúdo, pois a sua génese advém de processos cuja natureza não é redutível aos domínios do físico e do humano. Geografia física e geografia humana interrogam-se acerca da possível existência de sistemas espaciais, ao mesmo tempo impressos e padronizados, sujeitando-os a uma dupla operação de identificação e de relativização. O espaço socializado é evidentemente uma confusão de estruturas, prodigiosamente variadas e, por isso mesmo, prodigiosamente complexas. Trata-se aí de reconhecer os elementos motores, as sinergias, que conferem aos diferentes níveis de organização as marcas temporárias mais fortes. Mas encontramos na realidade físico-espacial a mesma meada de estruturas mais ou menos individualizadas pela multiplicidade das formas, do vigor e do dinamismo, também elas produzidas e produtoras.

Face ao quadro traçado, importa relativizar o debate em torno da dicotomia geografia física versus geografia humana, pois a unidade da disciplina não depende dessa divisão, nem pode ser entendida exclusivamente em termos da união entre os domínios do físico e do humano. Em primeiro lugar, porque não é aceitável que os geógrafos pretendam assumir a exclusividade do estudo das relações entre a sociedade e a natureza, esquecendo que possuem de ambas uma visão parcial, assim como instrumentos de análise particulares; que conheceram os mesmos debates e os mesmos esquecimentos e, sobretudo, que muitas vezes justapuseram elementos dispersos pelos dois domínios, sem lhes apreender as relações. Em segundo lugar, porque os contributos

de outras áreas do saber tornam ilegítima essa pretensão; o simplismo da declaração da unidade entre os dois pólos da geografia — ciência das relações homem-natureza — parece revelar uma visão muito pobre da dialética que os une e uma representação errónea da disciplina: nem a geografia física, nem a geografia humana se fundam sobre uma questão tão geral e, por definição, pluridisciplinar.

Para além das diferenças que procedem do modo como geógrafos ligados a correntes de pensamento distintas definem o objeto da sua disciplina — v. g. privilegiando a descrição e a localização absoluta das distribuições; valorizando a individualização e o estudo das regiões; destacando a análise da organização e dos processos espaciais; considerando o espaço como uma entidade abstrata; julgando-o como um produto da sociedade — todos parecem assumir que o cimento e a coerência interna da geografia resultam de um só fator de continuidade e de união: o seu propósito de produzir um saber integrador dos domínios do físico e natural e do humano e social. Deste eixo polarizador da ação concreta do geógrafo, decorre a assunção da geografia como ciência de síntese, como disciplina que a si mesma se coloca na charneira, na

encruzilhada entre as ciências sociais e as ciências naturais, pressuposto em que, aliás,

assentam a maior parte das definições formuladas por muitos geógrafos académicos (vd. os exemplos apresentados no início deste capítulo).

Tal posição cria dificuldades à afirmação do estatuto e da utilidade científicos da geografia, expondo-a a ataques externos — muitos deles legítimos — resultantes, quer da evolução da globalidade do conhecimento científico, quer das dificuldades evidenciadas pelos próprios geógrafos em situarem a sua disciplina no conjunto dos saberes, dado que a consideram, de acordo com as conveniências, ora ciência da terra, ora ciência social. Não se afigura fácil sustentar esse tipo de pretensão no seio de outras comunidades científicas, pois a geografia não se poder apresentar como a única ciência capaz de assumir aquele posicionamento epistemológico: a ideia de síntese serve para acentuar a originalidade da disciplina, mas pode ser tomada em igualdade de circunstâncias por outros ramos do saber. Por outro lado, são as componentes que a disciplina inclui no seu objeto de estudo que acabam por justificar as ligações, tanto ao campo das ciências sociais, como ao das ciências naturais. A integração do histórico no atual, do tempo no espaço, o estudo da evolução das formas, da transformação das relações sociais e dos ambientes, aplicados a quaisquer níveis, tornam o estudo da geografia analítico enquanto procura interpretar o mecanismo e o decurso dos processos

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num mesmo fenómeno ou em fenómenos afins, sintético quando se propõe compreender os nexos entre fenómenos de natureza diversa (cf. Ribeiro, 1986: 19).

Estas posições são reveladoras da conceção que na década de 50 Schaeffer designou de excepcionalismo (1953: 231), conceito por intermédio do qual procurou desmontar aquela argumentação, sobretudo no que respeita à imagem de uma geografia encarada como ciência única e excecional face às restantes ciências sociais: considerando um absurdo o pressuposto de que os geógrafos se distinguem pela capacidade de integrarem fenómenos heterogéneos; entendendo a existência das várias disciplinas científicas como fruto de um processo de divisão do trabalho, pelo que estas não necessitam de se justificar metodologicamente; criticando os princípios conceptuais e metodológicos do historicismo, alicerce da noção tradicional de região e fonte do próprio excepcionalismo. Apesar do radicalismo de alguns dos argumentos suscitados por Schaeffer, é possível compreendê-los à luz do contexto filosófico e científico em que foram gerados, embora a evolução da geografia tenha, a posteriori, acabado por demonstrar parte da sua validade, e posto em evidência algumas das contradições em que podem ter caído os geógrafos inspirados pelo historicismo (58).

A geografia sempre foi largamente devedora dos saberes construídos por outros campos científicos e, nesse aspeto, a utilização de termos como síntese, encruzilhada,

interdisciplinaridade, apesar de contribuir para realçar a natureza integradora que a

disciplina reclama para si, não esconde algumas ambiguidades no que concerne, quer ao tipo de relações que pretende estabelecer com outras ciências, quer à posição que deseja assumir no conjunto do conhecimento científico. Tratando-se de uma postura que os geógrafos têm por vantajosa, importa mantê-la, na condição de que se evite uma abordagem dos problemas do mundo alheia a outras conceções e quadros de leitura (aliás, difícil de justificar num momento em que as fronteiras entre as ciências são cada vez mais permeáveis). Mas a realidade mostra uma geografia que, por vezes, pretende tirar proveito dos saberes produzidos por outrem, mas excluir-se do trabalho interdisciplinar, atribuindo-se em exclusivo o talento para elaborar formulações de síntese, como se o saber geográfico fosse o único capaz de alcançar esse objetivo.

(58) É o próprio Schaeffer quem afirma que «o argumento em favor da singularidade do material

geográfico se baseia, tanto lógica, como historicamente, no historicismo» o que permite entender a razão porque se tenta ressaltar «o paralelismo kantiano entre história e geografia. Se a história, segundo os historicistas, trata de factos singulares e se a geografia é como a história, então a geografia trata também do único e deve tentar “compreender” em lugar de buscar leis. O silogismo anterior não pode ser criticado. Para o refutar é preciso, tal como o temos tentado fazer, atacar a premissa em que se apoia.» (Schaeffer, 1953: 238)

Em primeiro lugar, concebe-se que a geografia presta um serviço, devolvendo os saberes utilizados sob uma outra forma de inteligibilidade, já que reconstruídos na perspetiva do espaço, da localização, da relação entre o humano e o natural, dimensões que escapariam às restantes ciências, mais habituadas a funcionar por abstrações, pela dissociação dos fenómenos nos seus elementos. Em segundo lugar, entende-se que cabe à geografia assumir a responsabilidade pelo desenvolvimento de uma ética do conhecimento, dada a sua aptidão para colocar o homem, ao mesmo tempo, num quadro natural e numa linha evolutiva; posição que sendo favorável a uma interação com a sociologia, a economia e a história, reservaria para a geografia a capacidade de apresentar tais relações segundo uma dimensão globalizante, interpretativa e espacialmente situada. Em terceiro lugar, a geografia asseguraria, por via da sua competência para integrar os domínios das ciências naturais e das ciências sociais, o protagonismo da criação de um campo cientifico novo — as ciências do ambiente — organizado em torno de um complexo, o ambiente, que a disciplina ensinaria a pensar como uma totalidade, ao arrepio da especialização, ou de uma mera justaposição de informação, mal disfarçada de interdisciplinaridade.

Nestes exemplos, sobressai a imagem contraditória de uma geografia que se toma como disciplina transversal e de síntese, aglutinadora de tudo quanto possa ser traduzido sob a forma de distribuições na superfície terrestre. Algo que pode ser tido por ambição exagerada, ou imperialismo sem fundamento (Dollfus, 1989), tanto mais que se assiste à recusa mais ou menos perentória das articulações intradisciplinares, que consideradas contraproducentes se mantêm somente a bem de uma unidade de bases muito fragilizadas. Sobretudo porque a evolução recente do conhecimento científico não permite que dimensões até há pouco quase que exclusivas da geografia sejam aprioristicamente excluídas do objeto de outras ciências.

Ambição e imperialismo que a globalização veio pôr em causa, principalmente num dos domínios que, como se apontou, a geografia gostaria ciosamente de manter seu: o da análise das problemáticas do ambiente e da sustentabilidade. Ao provocar a alteração dos limites quer entre as unidades sociopolíticas e geográficas, quer entre as disciplinas e os sistemas de pensamento, a globalização induziu a reflexão sobre os critérios de validação daquelas fronteiras — em termos do seu conteúdo empírico e significado teórico — e favoreceu a afirmação do campo da sociologia ambiental, disciplina cujo objeto remete para o estudo da forma como as paisagens refletem a dialética entre a sociedade e o ambiente (Spaargaren, Mol e Buttel, 2000). Na verdade,

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tal como a geografia, também a sociologia ambiental salienta o facto de a transformação do caráter da interdependência sociedade-ambiente se relacionar com a deslocação das fronteiras entre os sistemas sociais e os seus ambientes sociais e naturais (idem: 2). Contestando as conceções que tendem a apresentar o ambiente como uma realidade exterior ao sistema social, criticam-se os modelos nos quais aquele é definido como mero suporte, ou substrato material no qual a sociedade assenta. Uma visão que se pode facilmente considerar consonante com a da geografia e na qual também é possível encontrar os argumentos que apresentam o ambiente como um produto social, ou seja, como uma representação social que deve ser interpretada segundo uma lógica reflexiva: que atenda ao conteúdo de distintos discursos socioculturais e compreenda a herança ambiental como memória de uma história e de uma cultura (Buttel, 2000; Lowenthal,