Percursos e Tendências da Geografia e da Educação Geográfica
1.2 M ARCOS DA E VOLUÇÃO C ONTEMPORÂNEA DO P ENSAMENTO G EOGRÁFICO
1.2.1 A G EOGRAFIA T EÓRICA DAS D ÉCADAS DE 60 E
Em finais da década de 50 do século passado tornaram-se evidentes os sinais de uma rutura paradigmática no campo da geografia, encetada por geógrafos académicos que ambicionaram posicionar a disciplina no território também ocupado pelas ciências exatas e naturais, e advogaram a aplicação e o cumprimento estrito dos mesmos
critérios de cientificidade. Nesse movimento, a geografia confirmou o seu objeto de conhecimento (vd. a Terra entendida enquanto lar da humanidade) e passou a assumir- se como ciência empírica com capacidade para produzir teorias claras, simples, rigorosas e generalizáveis, reveladoras dos padrões e das leis morfológicas que regulam as ações humanas e a vida no planeta. Pretendeu igualmente libertar-se do cunho emocional que pautava o trabalho produzido pelos geógrafos desde o início do século XX, submetendo a análise dos padrões e das distribuições espaciais aos cânones e às leis da geometria, tida como a linguagem cujos teoremas permitiriam, primeiro, descrever aquelas marcas e, depois, racionalizar os seus traços comuns sob a forma de modelos teóricos.
Um dos expoentes desta tendência foi William Bunge, um geógrafo fortemente influenciado pela obra de Schaefer, que prolongou a discussão por este iniciada acerca do caráter ideográfico, ou nomotético, do conhecimento geográfico. Situando-se claramente no segundo campo, Bunge afirmou que a geografia, à imagem de toda e qualquer ciência, possuía uma natureza intrinsecamente nomotética, pelo que o seu sucesso teria de ser avaliado em função do número de princípios gerais que fosse capaz de formular no âmbito do seu domínio do conhecimento. Princípios demonstrativos dos padrões de regulação que sobressaem na superfície terrestre em resultado de processos físicos e sociais, nos quais se incluem desde as formas arborescentes das redes hidrográficas, até à distribuição espacial dos aglomerados populacionais. Tal orientação foi desde logo rejeitada pelos setores mais tradicionais ligados à escola regionalista, ou ideográfica, que para o efeito lançaram dois argumentos: por um lado, que a geografia teria muito a perder caso a sua capacidade para descrever a diversidade dos aspetos que compõem a superfície terrestre só fosse validada na condição de poder conduzir à elaboração de teorias gerais; por outro lado, que a descrição possui um valor intrínseco, particularmente se e quando regida por critérios que, entre outros, assegurem a utilização de terminologia aceite pela comunidade científica e a aplicação de métodos passíveis de ser replicados por todos os seus membros.
A obra mais relevante de Bunge (1962) foi pioneira no processo de consolidação do movimento que hoje é consensualmente designado por revolução quantitativa da geografia. Esta não só acarretou uma alteração no equilíbrio de forças entre as correntes de pensamento mencionadas, mas inspirou a transformação da prática dos geógrafos no sentido da sua aproximação às ciências exatas e naturais. Mudança que surgiu num momento crucial de desenvolvimento e de disponibilização dos computadores no meio
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universitário, que anteviu todo o seu potencial como ferramentas de análise e de modelização de dados. Nesse sentido, a obra de Bunge serviu também para impor a utilização da matemática e da geometria como línguas francas do geógrafo (vd. da ciência), a adoção do seu formalismo, o enaltecer dos méritos da quantificação e do uso da inferência estatística como instrumentos de produção teórica.
A institucionalização da geografia quantitativa tem na obra de Peter Haggett (1965) outra referência fundamental (34), mormente porque este autor recupera o conceito de região para a disciplina, reenquadrando-o à luz de uma nova abordagem, em que os estudos regionais constituem um pretexto para aprofundar os laços entre a economia e a geografia. Trata-se de um alternativa que serve de catalisador a uma visão interdisciplinar dos problemas da localização espacial das atividades humanas e, nesse contexto, cria também um quadro de referência conceptual útil para a atividade de conceção de modelos locativos. Todavia, Haggett parte principalmente de modelos de índole normativa, que descrevem situações idealizadas de organização do espaço a partir da observação dos comportamentos espaciais das populações (35). Mas a impossibilidade de normalizar essas decisões, a irregularidade e a heterogeneidade das distribuições, das redes e dos recursos, constituem, naturalmente, fatores de distorção dos modelos, que levam o autor a temperar o discurso algo radical de Bunge, substituindo os nexos de causalidade que este propôs por uma visão probabilística dos processos de tomada de decisão locativa, cuja conceção se viu apoiada pelo desenvolvimento de novas ferramentas de análise estatística inferencial.
Algumas das primeiras críticas a estas obras precursoras da geografia quantitativa surgiram por parte de geógrafos inicialmente entusiasmados com as potencialidades de enriquecimento teórico do conhecimento geográfico, conquanto insatisfeitos com o facto de os modelos geométricos construídos pela disciplina não poderem ser
(34) Embora neste caso se referencie a obra que o autor publicou no Reino Unido naquele ano, a
análise efetuada seguiu, de facto, o texto com o mesmo título que P. Haggett publicou em 1977 em coautoria com A. D. Cliff e A. Frey (Locational analysis in human geography. Londres: Edward Arnold). Nesta, os autores adotam a mesma estrutura do original publicado em 1965, mas adaptam e ampliam o seu conteúdo de acordo com os desenvolvimentos conceptuais e metodológicos que entretanto se produziram.
(35) O seu trabalho desenvolve os modelos teóricos propostos muito antes por Heinrich von Thünen
[1826-1851], Weber [1909], Lösch [1938] e Christaller [1933], respetivamente, três economistas e um geógrafo de escola alemã, interessados em explicar as localizações das atividades produtivas. As suas construções teóricas estão na base da economia espacial, cujos princípios se desenvolvem no quadro de espaços isotrópicos, em que a distância constitui o fator locativo mais importante, dados os seus efeitos sobre o aumento dos custos e dos tempos do transporte, seja dos indivíduos, seja dos fatores de produção ou dos bens manufaturados.
entendidos, apesar do seu caráter normativo, como instrumentos credíveis de explicação da realidade. Foi David Harvey (1969) quem primeiro procurou sistematizar o trajeto metodológico que a geografia deveria percorrer tendo em vista a produção de teorias com valor explicativo. Numa obra em que o número de referências feitas a filósofos e a geógrafos é quase idêntico, o autor define a explicação como a transformação de um resultado inesperado, fonte de conflito ou de surpresa, em algo que se tornou expectável (idem: 13). Mas apenas desde que se demonstre que este foi obtido com recurso aos mesmos processos e sob as mesmas condições que já antes tinham conduzido à obtenção de resultados semelhantes. Neste quadro, a motivação para a procura de explicações (vd. a solução de conflitos) tem em vista a redução das tensões no seio da comunidade científica. A operacionalização deste percurso liga-se à definição de quatro termos, ou conceitos chave: hipótese, lei, teoria e modelo.
Harvey concebe as hipóteses como especulações lógicas, consistentes e controladas, que servem para guiar a produção do conhecimento científico de um modo rigoroso e repetível, mas não podem ser testadas de forma absoluta (i. e., as conclusões que delas derivam são sempre provisórias). As leis apresentam-se, por vezes, sob a forma de afirmações, ou de verdades universais, cuja validade não depende, nem do tempo, nem do espaço. Ainda que produzidas com rigor, o seu conteúdo é sempre transitório e significa somente uma etapa no processo de construção do conhecimento. Em geografia, como a elaboração de leis envolve a busca pela ordem que se esconde no meio do caos, os resultados obtidos são sempre efémeros e experimentais; por isso, Harvey sugere que as leis deveriam ser entendidas tão-só como alegações genéricas que se mostram consistentes com a experiência, ou seja, como um corpo de conhecimento que se revela coerente com a realidade observada. As teorias constituem um sistema articulado de proposições formuladas no quadro de um determinado saber disciplinar. O autor entende que as teorias informais — similares às que os geógrafos sempre produziram — são asserções para as quais não foi desenvolvida qualquer linguagem teórica, pelo que só esporadicamente obedecem aos padrões das teorias científicas. Assim, compete à geografia avançar, ora para a formulação de teorias que procedam de afirmações axiomáticas (mais fáceis de atingir no campo da geografia física), ora para o enunciado de conjeturas relativas aos comportamentos humanos, que permitam depois deduzir proposições de caráter geral sobre os padrões espaciais que deles derivam. Finalmente, os modelos são representações da teoria e constituem a fonte de novas hipóteses, passíveis de contribuir para a validação empírica da própria teoria.
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O conceito de teoria é, de entre os quatro enunciados, aquele a que Harvey atribui maior importância, uma posição que justifica por entender que não é possível proceder à explicação e à descrição cognitiva dos fenómenos geográficos sem evocar um corpo teórico previamente definido. A exemplo de Bunge e Haggett, o autor considera que as teorias se devem exprimir matematicamente, especialmente através da geometria — a linguagem das formas espaciais — e das probabilidades — a expressão das possibilidades. A utilização desta última tornar-se-ia necessária pela circunstância de o mundo ser comandado por processos que envolvem dinâmicas ainda desconhecidas, deles emergindo uma aparência de casualidade, ou natureza acidental, que tornam impossível prevê-los com rigor. Nesse sentido, Harvey aprofunda a visão sugerida por Haggett, sustentando que a geografia não deve aparecer como uma ciência determinista, mas antes como uma forma de conhecimento assente na construção de narrativas probabilísticas — vd. explicações prováveis — baseadas na verificação e avaliação estatística das hipóteses.
A geografia quantitativa preconizada pelos autores mencionados alicerçou-se numa conceção abstrata do espaço (transformado num conjunto de superfícies e de distâncias medidas em termos de tempo e de custo), que sem dúvida facilitou a construção de leis espaciais, de teorias e de modelos preditivos, mas encaminhou os geógrafos para o estudo dos fenómenos relativamente aos quais, a priori, seria mais fácil proceder a generalizações. As hipóteses por si desenvolvidas procuraram clarificar factos espaciais ligados principalmente aos seguintes domínios: os grandes padrões de localização das atividades agrícolas e industriais, a implantação de sistemas de lugares centrais e as redes urbanas. Depois, em consequência do elevado número de observações efetuadas, as regularidades acabaram por despontar, apesar de Claval (1984, 2007) considerar que são difíceis de demonstrar as duas leis espaciais sobre as quais repousam grande parte dos resultados obtidos pela geografia quantitativa: o modelo de gravidade e os princípios associados aos campos médios de informação. Elas testemunham, de facto, o poder dos constrangimentos que a distância exerce sobre todos os atores económicos. Todavia, apesar desse efeito transversal, as regularidades que se identificam têm uma natureza meramente estatística, uma vez que as decisões individuais que delas transparecem não são idênticas. Na prática, a transformação dos meios de transporte e de comunicação, e a evolução dos hábitos e das preferências sociais, acabam por reduzir, ou acentuar, o peso da própria distância (idem, 2007: 149).
A geografia revelou-se, assim, incapaz de dar corpo a explicações verosímeis para muitos aspetos da realidade, principalmente quando estes se mostravam marcados pela imprevisibilidade e, por isso, impossíveis de reduzir à lógica das leis físicas, ou económicas. Para além disso, a análise das configurações espaciais representa apenas uma parte do campo da geografia, que necessita de ser complementado com o estudo das dinâmicas que regulam esses arranjos. Com o tempo, os estudos sobre estruturas, relações e processos espaciais (Abler, Adams e Gould, 1972) conduziram a uma compreensão mais satisfatória das relações funcionais e dos ritmos de mudança, atraindo as atenções dos investigadores para dimensões até então ignoradas: o papel da perceção do meio; a importância dos mapas mentais; os critérios que subjazem às escolhas dos atores; o estudo da fricção provocada pela distância. Estas serão inscritas, mais tarde, numa abordagem de natureza sistémica (Harvey, 1969; Haggett, Cliff e Frey, 1977), também ligada às correntes estruturalistas que se desenvolveram em paralelo. Com elas passa a atender-se ao papel dos mecanismos de retroação na regulação de um grande número de fenómenos sociais. Globalmente, a abordagem sistémica começou por se revelar um campo fecundo de criação teórica. No entanto, a complexidade dos sistemas humanos e sociais, cedo mostrou que estes seriam muito difíceis de interpretar: os diagramas representativos do encaminhamento das forças em jogo e dos circuitos de informação que regulam as entradas no sistema exigem meios informáticos poderosos para simular o seu funcionamento, bem como a acumulação de observações e de medições em domínios muito diversos, para os quais são necessários anos de trabalho.
Apesar deste esforço de conceptualização, o conceito de espaço geográfico continuou a ser utilizado de modo algo ambíguo, por implicar sempre a apreensão concreta de uma extensão, ou de um território (v. g. poderia designar uma fração, ou a totalidade da superfície terrestre). Neste contexto, parece que o termo espaço serviu simplesmente como alternativa à expressão superfície terrestre, ficando por esclarecer o verdadeiro sentido a atribuir ao adjetivo geográfico. Uma das vias possíveis para a resolução deste problema surgiu por via da aplicação dos princípios da teoria dos sistemas à definição do conceito de organização espacial (Harvey, 1969; Claval, 2007), pelo qual se procurou delimitar e clarificar o objeto de estudo da geografia, recorrendo a uma argumentação assente em três ordens de razões.
Em primeiro lugar, porque se entende que o espaço não constitui em si mesmo o objeto de estudo da geografia, surgindo apenas como um dos seus atributos. Em
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contrapartida, o dado fundamental para a disciplina nasce da constatação de que qualquer território é a manifestação de uma dada organização, que lhe confere características passíveis de ser analisadas, comparadas e traduzidas sob a forma de padrões, de estruturas e de fluxos; neste sentido, a presença do espaço (vd. a superfície terrestre) constitui somente a condição essencial para a concretização dos eventos geográficos. Em segundo lugar, porque a organização espacial exprime a existência de uma ordem e de inter-relações entre as partes que constituem um conjunto; o seu funcionamento e interação resultam dos processos que mantêm a dinâmica e as relações entre os próprios elementos. Tal integração dá origem a um sistema organizado, cujo arranjo e forma são expressos através de uma estrutura (Abler, Adams e Gould, 1972): sendo viável identificar nesse sistema diversos tipos de organização, à geografia só interessam os que realmente apresentam um caráter espacial, ou seja, uma distribuição mensurável e uma delimitação tangível. Em terceiro lugar, porque a noção de espaço pressupõe a presença e identificação de uma extensão que se exprime visualmente sobre a superfície terrestre. Então, a característica que mais significado tem para a geografia, o espaço, serve para sublinhar que o seu objeto de estudo se materializa nas paisagens que é possível identificar na superfície terrestre.
Concebido desta maneira, o espaço geográfico pouco mais significa que um
suporte onde ocorrem e se combinam as distribuições dos fenómenos físicos e sociais
que dão origem aos fluxos geradores das distintas formas de organização espacial das atividades humanas. Por isso, é difícil de aceitar que o espaço possa ser encarado per se como o elemento em torno do qual a geografia pode fundar o seu objeto de estudo e balizar o seu campo face às restantes ciências. Esta mesma dúvida foi lançada logo após a publicação da obra de Bunge, por geógrafos que, primeiro, alertaram para o excesso de confiança que o autor depositava no poder explicativo dos padrões geométricos e, depois, atacaram a sua pretensão de que o interesse da geografia pelo espaço e pelas suas propriedades seria suficiente para definir o âmbito da disciplina (Sack, 1973, 1980 cit. in Claval, 2007; Goodchild, 2008).
Na prática, estes críticos chamam a atenção para os limites da conformidade entre as leis do espaço e da geometria, considerando extrema a posição que sustenta que as leis espaciais se assemelham às leis da geometria e podem, como estas, oferecer explicações e previsões espaciais igualmente “puras”; entendem que tais leis apenas seriam capazes de explicar e de prever as formas que as coisas possuem a partir de princípios gerais acerca das relações espaciais, se, como no caso da geometria, estes
também não fossem afetados pelas condições particulares, pelos contextos nos quais se manifestam (Claval, 2007: 139). Trata-se, assim, de contestar o valor preditivo de leis espaciais que ignoram os fatores de contingência — tão do agrado dos geógrafos ideográficos — e a sua interferência sobre as decisões e os comportamentos dos atores, expressos em distintas formas de organização espacial.
Apesar das objeções ao caráter redutor das teorias fundadoras da geografia quantitativa, parece assistir-se na atualidade a um renovar do interesse por algumas das suas orientações conceptuais, nomeadamente, no que respeita às ideias primordiais expressas por Bunge (Charlton, 2008; Goodchild, 2008). O seu relançamento beneficiou do desenvolvimento da computação e das técnicas de tratamento de dados, sobretudo quando a partir da década de 80 estas contribuíram para a expansão dos sistemas de informação geográfica (SIG). O casamento entre as técnicas oriundas da geometria computacional, os sistemas de bases de dados e a ciência informática, permitiu o desenvolvimento de um vasto leque de modelos e de aplicações destinadas ao manuseamento de dados de cariz espacial.
Neste processo, as noções simplistas associadas à teoria dos lugares centrais evoluíram no sentido do aprofundamento do binómio localização-distribuição; a discussão em torno da otimização de itinerários progrediu para a arena da localização dos corredores de transporte; as noções básicas acerca da similitude entre padrões espaciais acabaram por gerar as novas métricas da autocorrelação espacial e os campos da estatística espacial e da geoestatística. Em suma, parecem ter sido recuperados os princípios da associação entre a geometria e a geografia. Não obstante, as razões que permitem justificar essa ligação são, hoje, distintas das que foram propostas na década de 60. Para Goodchild e Janelle (2004), podem apresentar-se seis argumentos a favor da reabilitação das abordagens espaciais no domínio das ciências sociais, que confirmam a relevância do trabalho do geógrafo em múltiplas áreas de intervenção:
1. Integração — as abordagens espaciais permitem contextualizar a informação recolhida e possibilitam a correlação de dados oriundos de fontes diversas (uma das funções mais valorizadas no âmbito dos SIG);
2. Análise transversal e diacrónica — a observação ao longo do tempo da evolução dos padrões espaciais pode proporcionar uma perspetiva mais compreensiva sobre a natureza dos respetivos processos;
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3. Teoria espacial — uma teoria espacial é aquela que incorpora na sua estrutura determinadas categorias e atributos espaciais, tais como a localização, a distância e a escala (v. g. a teoria dos lugares centrais, as teorias da difusão espacial e as teorias da ecologia espacial, incluem-se nessa tipologia);
4. Análise de situação — corresponde a métodos de análise desenvolvidos mais recentemente, através dos quais se reconhece a variabilidade da superfície terrestre e se produzem mapas de síntese em vez de simples sumários estatísticos;
5. Prognóstico, plano e formulação de políticas — a capacidade de prever os efeitos de alguns processos sociais e económicos em situações concretas, depende da forma como os axiomas gerais previamente definidos são enquadrados, a posteriori, no contexto espacial e temporal que marca a própria situação;
6. Armazenamento e recuperação de informação — o espaço e o tempo constituem um poderoso meio de organização do conhecimento e de recuperação da informação de natureza intemporal que atualmente se encontra armazenada nos acervos de dados digitais espalhados pelo mundo.
As capacidades enunciadas contribuem, sem dúvida, para aumentar a visibilidade da geografia e reforçar a sua utilidade como ciência que não se limita a explicar o que existe, mas disponibiliza ferramentas e conceitos que auxiliam os atores sociais e económicos a tomar decisões mais esclarecidas. Contudo, é provável que esta revitalização do quantitativo seja acompanhada pelo reavivar de antigos problemas de natureza epistemológica, motivados, hoje como ontem, pelas fragilidades conceptuais dos modelos assentes na quantificação dos processos humanos. Principalmente se a geografia que os patrocina se revelar incapaz de construir novos conceitos a partir dos