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A casa como imagem do mundo

No documento Tradução deAloísio Leoni Schmid (páginas 157-169)

O ESPAÇO SACRO

3. A casa como imagem do mundo

O caráter descontinuado, destacado pelos contornos nítidos, do espaço sagrado se mostra naturalmente nos santuários estabelecidos de modo planejado pelas pessoas, trate-se de um templo, uma cidade ou uma simples casa. Mesmo neste caso, o homem não pode escolher inten-cionalmente o lugar, mas deve atentar aos sinais dos deuses, nos quais se manifesta a santidade do lugar. Os deuses devem dar um sinal de que neste lugar uma cidade, um templo, etc. deva ser construído, e é o dom das pessoas iluminadas reconhecer tal sinal como um aceno do divino.

66 Apud VAN DER LEEUW, op. cit., p. 447.

67 VAN DER LEEUW, op. cit., p. 446.

* N.T. Morro onde havia uma forca.

68 BERGENGRUEN, W. Die heile Welt. Zürich, 1950. p. 74. Cf. minha exposição em: Unruhe und Geborgenheit im Weltbild unserer Dichter. 2. ed. 1958.

N.T. Em livre tradução: Cada um que por ali passa se arrepia, como se as solas tivessem tocado, de súbito, a própria tumba.

O HOMEMEOESPAÇO

Mesmo nas lendas sobre a fundação de muitas igrejas cristãs essa visão ainda é preservada.

Em todo caso, a construção começa quando do espaço caóti-co é recaóti-cortado um determinado território, que se distingue do mundo restante como um território sagrado. Nesse sentido, Cassirer enfatiza em sua “Filosofia das formas simbólicas”: “A santificação começa quando, do espaço restante, um território determinado é separado, sendo diferencia-do de outras regiões e, de certo modiferencia-do, religiosamente cercadiferencia-do e protegi-do”.69 Na palavra latina templum, que significa “destacado”, isso se mani-festa claramente, embora se saiba que a palavra, em sua origem, não denote o edifício, mas o pedaço do céu destacado para a adivinhação do vôo do pássaro, e somente posteriormente transportado ao edifício construído como templo.70

Além disso, são ainda significativas as formas nas quais se pro-cessa, em tais tempos ancestrais, a construção da casa – como do templo, ou da cidade. Cada construção de casa é a fundação de um cosmo num caos. Eu me atenho aqui, antes de tudo, a Eliade, que em seu texto reúne um rico material etnológico. Cada casa, assim enfatiza, é uma imagem do mundo no todo, uma imago mundi. O mundo, no todo, se reflete na casa. E, por esse motivo, cada construção de casa, e antes, naturalmente, cada construção de templo é uma repetição da criação do mundo, uma realização póstuma do trabalho dos deuses no início original. Por esse motivo, cada ordem espacial humana é “apenas a repetição de um feito ancestral: a conversão do caos em cosmo por meio do ato criador divi-no”.71 Isso vale em especial para a casa humana: “A habitação (...) é o universo, que o homem constrói para si ao reproduzir a criação exemplar pelos deuses, a cosmogonia.”72 Nisso consiste a relação especular e bem fundamentada entre criação do mundo e construção da casa: “Quem ordena um espaço repete o trabalho exemplar dos deuses”.73

Mas, ao reverso, esse trabalho criado pelos deuses, esse mun-do está confiamun-do à ação humana, existe somente quanmun-do o ato criamun-dor divino é simbolicamente repetido pelos humanos. “Para poder viver no mundo”, enfatiza Eliade, “devemos fundá-lo”.74 A construção de casa tem, logo, seu significado mais profundo numa atividade criadora e man-tenedora do mundo, que é somente possível segundo ritos santificados.

69 CASSIRER, op. cit., v. 2, p. 123.

OTTO FRIEDRICH BOLLNOW

um bosque, que se distingue por inúmeras árvores velhas e de altura incomum, (...) a altura esbelta das árvores, o escuro misterioso do lugar (...) desperta em você a fé numa divindade (...) e deu a alguns lagos um escuro sombrio ou uma profunda, inescrutável santidade”.66 Assim van der Leeuw pode definir resumidamente: “espaço sagrado é um lugar que se torna sítio quando nele a ação do poder se repete, ou é repetida por seres humanos.”67 Que também igrejas cristãs estejam locadas muitas ve-zes no lugar de velhos santuários pagãos deve-se a uma santidade perce-bida no lugar, que é mesmo independente da diversidade das religiões.

Da mesma forma também existem alguns lugares sinistros, de má fama e ameaçadores, em que as pessoas sentem arrepios e que por-tanto evitam. Assim, o Galgenberg* preservou seu caráter sinistro, embora já há séculos não sirva mais como tribunal, e passa-se sempre ainda com um certo receio pelo local onde outrora ocorreu um assassinato. A crendi-ce popular pode, ainda hoje, comentar muitas coisas a respeito. Entre os poetas, Bergengruen sabia muito desse poder sinistro de certos lugares.

Assim escreveu:

Jeden schauert es verstohlen, den sein Gang des Weges führt,

so, als hätten seine Sohlen jäh das eigne Grab berührt68

3. A casa como imagem do mundo

O caráter descontinuado, destacado pelos contornos nítidos, do espaço sagrado se mostra naturalmente nos santuários estabelecidos de modo planejado pelas pessoas, trate-se de um templo, uma cidade ou uma simples casa. Mesmo neste caso, o homem não pode escolher inten-cionalmente o lugar, mas deve atentar aos sinais dos deuses, nos quais se manifesta a santidade do lugar. Os deuses devem dar um sinal de que neste lugar uma cidade, um templo, etc. deva ser construído, e é o dom das pessoas iluminadas reconhecer tal sinal como um aceno do divino.

66 Apud VAN DER LEEUW, op. cit., p. 447.

67 VAN DER LEEUW, op. cit., p. 446.

* N.T. Morro onde havia uma forca.

68 BERGENGRUEN, W. Die heile Welt. Zürich, 1950. p. 74. Cf. minha exposição em: Unruhe und Geborgenheit im Weltbild unserer Dichter. 2. ed. 1958.

N.T. Em livre tradução: Cada um que por ali passa se arrepia, como se as solas tivessem tocado, de súbito, a própria tumba.

O HOMEMEOESPAÇO

Mesmo nas lendas sobre a fundação de muitas igrejas cristãs essa visão ainda é preservada.

Em todo caso, a construção começa quando do espaço caóti-co é recaóti-cortado um determinado território, que se distingue do mundo restante como um território sagrado. Nesse sentido, Cassirer enfatiza em sua “Filosofia das formas simbólicas”: “A santificação começa quando, do espaço restante, um território determinado é separado, sendo diferencia-do de outras regiões e, de certo modiferencia-do, religiosamente cercadiferencia-do e protegi-do”.69 Na palavra latina templum, que significa “destacado”, isso se mani-festa claramente, embora se saiba que a palavra, em sua origem, não denote o edifício, mas o pedaço do céu destacado para a adivinhação do vôo do pássaro, e somente posteriormente transportado ao edifício construído como templo.70

Além disso, são ainda significativas as formas nas quais se pro-cessa, em tais tempos ancestrais, a construção da casa – como do templo, ou da cidade. Cada construção de casa é a fundação de um cosmo num caos. Eu me atenho aqui, antes de tudo, a Eliade, que em seu texto reúne um rico material etnológico. Cada casa, assim enfatiza, é uma imagem do mundo no todo, uma imago mundi. O mundo, no todo, se reflete na casa. E, por esse motivo, cada construção de casa, e antes, naturalmente, cada construção de templo é uma repetição da criação do mundo, uma realização póstuma do trabalho dos deuses no início original. Por esse motivo, cada ordem espacial humana é “apenas a repetição de um feito ancestral: a conversão do caos em cosmo por meio do ato criador divi-no”.71 Isso vale em especial para a casa humana: “A habitação (...) é o universo, que o homem constrói para si ao reproduzir a criação exemplar pelos deuses, a cosmogonia.”72 Nisso consiste a relação especular e bem fundamentada entre criação do mundo e construção da casa: “Quem ordena um espaço repete o trabalho exemplar dos deuses”.73

Mas, ao reverso, esse trabalho criado pelos deuses, esse mun-do está confiamun-do à ação humana, existe somente quanmun-do o ato criamun-dor divino é simbolicamente repetido pelos humanos. “Para poder viver no mundo”, enfatiza Eliade, “devemos fundá-lo”.74 A construção de casa tem, logo, seu significado mais profundo numa atividade criadora e man-tenedora do mundo, que é somente possível segundo ritos santificados.

69 CASSIRER, op. cit., v. 2, p. 123.

OTTO FRIEDRICH BOLLNOW

Daí serem tão elucidativos os ritos ancestrais que fazem parte da constru-ção de uma tal casa.

Essa construção da casa segue o exemplo do cosmo, cuja cria-ção deve mesmo ser nela simbolizada. “A criacria-ção do mundo se torna arquétipo de toda a obra de criação humana”.75 “A casa é uma imago mundi”.76 Qualquer iniciativa de estudar como isso varia, de forma recor-rente, para cada diferente povo seria demais aqui. Um ou outro exemplo deve bastar. Assim, Eliade relata de certas tribos indígenas:

A cabana sagrada na qual acontece sua iniciação representa o uni-verso. Seu telhado simboliza a cúpula do céu, o chão a terra, as quatro paredes as quatro direções do espaço cósmico. A construção ritual do espaço é representada pelo triplo simbolismo das quatro portas, quatro janelas e quatro cores, que representam os quatro pontos cardeais. A construção da cabana sagrada repete a Cosmogonia, pois este pequeno edifício corporifica o mundo.77 Exatamente o mesmo, entretanto, vale, sob condições muito mais evoluídas, para a igreja cristã. Por exemplo, Sedlmayr resume o sim-bolismo das igrejas bizantinas da seguinte maneira:

As quatro partes do interior da igreja simbolizam as quatro direções do mundo. O interior da igreja é o universo. O altar é o paraíso, que é orientado para o Leste (...) Diante dele, o Oeste é a região da escuridão, do horror, da morte, a região das eternas habitações dos mortos, que aguardam a ressurreição e o julgamento (...) O centro do edifício da igreja é a Terra. (...) As quatro partes do interior da igreja simbolizam as quatro direções do mundo.78

O interior da igreja simboliza, portanto, o mundo no todo, e nele cada espaço tem seu significado especial, como podemos demons-trar detalhada-mente. Basta aqui justapor essas duas citações, de origens completamente distintas, para revelar o princípio geral de composição.

75 ELIADE, op. cit., p. 27.

76 Ibid., p. 32.

77 Ibid., p. 28, outros exemplos se encontram em CASSIRER.

78 SEDLMAYR, H. Die Entstehung der Kathedrale. Zürich, 1950. p.

115. Cf. antes de tudo SAUER, J. Symbolik des Kirchengebäudes. 2. ed. Freiburg i.

Br., 1924.

O HOMEMEOESPAÇO

4. A cidade

Encontramos circunstâncias análogas na cidade, pois ela não é mais que uma grande casa. Por esse motivo, em sua fundação se repetem os problemas da construção da casa ou do templo. A cidade não surge de um empilhamento arbitrário de casas, mas de uma fundação consciente.

Nessa linha de pensamento, não é possível adentrar a vastidão de ques-tões pertinentes à fundação da cidade. Deve ser suficiente indicar rapida-mente um exemplo conhecido: a fundação de Roma, seguindo o relato de Plutarco.79 Eu destaco somente o mais importante para o nosso con-texto:

1. Inicialmente foi instalada uma cova redonda, na qual foi colocado tudo o que era necessário à vida. Essa cova, chamada mundus, denotava, de acordo com Eliade, o umbigo do mundo; mas ao mesmo tempo é “imagem do cosmo e modelo exemplar do assentamento huma-no”.80 Essa cova foi então fechada com uma pedra, a pedra da alma, que se chamava lápis manalis e que somente podia ser retirada em três dias santos, nos quais a ela desciam os Manos, os espíritos dos mortos. Essa cova comunica, pois, o mundo dos vivos com o mundo dos mortos.

2. Assim, com um arado tracionado por um touro e uma vaca, o construtor puxou um profundo sulco ao longo da linha de frontei-ra, em que mais tarde o muro deveria ser construído. Apenas sobre os locais previstos para os portões levantou-se o arado, e Plutarco acrescen-ta, explicando: “Por esse motivo, todo o muro, exceto os portões, é consi-derado santo; mas se se quisesse considerar santos também os portões, seria necessário ter escrúpulos com respeito às coisas a levar e trazer atra-vés deles, na verdade necessárias mas impuras”.81 Com isso é identificado um processo tão tipicamente recorrente que Frobenius, em sua “História da cultura da África”, descreve até nas minúcias o mesmo processo nas fundações de cidades africanas.82

3. Acrescenta-se a cruz dos eixos de duas ruas que se cortam em ângulo reto, em correspondência exata com as duas direções funda-mentais, originadas na adivinhação romana. Assim, pois, esse sistema de ruas tem um vínculo sagrado, e dele deriva a denominação da Roma quadrata, dividida em quatro quadrantes (não, porém, quadrática). É

79 Apud VON VACANO, op. cit., p. 28.

80 ELIADE, op. cit., p. 28.

81 Apud VON VACANO, op. cit., p. 28.

82 FROBENIUS, op. cit., p. 177, 179.

OTTO FRIEDRICH BOLLNOW

Daí serem tão elucidativos os ritos ancestrais que fazem parte da constru-ção de uma tal casa.

Essa construção da casa segue o exemplo do cosmo, cuja cria-ção deve mesmo ser nela simbolizada. “A criacria-ção do mundo se torna arquétipo de toda a obra de criação humana”.75 “A casa é uma imago mundi”.76 Qualquer iniciativa de estudar como isso varia, de forma recor-rente, para cada diferente povo seria demais aqui. Um ou outro exemplo deve bastar. Assim, Eliade relata de certas tribos indígenas:

A cabana sagrada na qual acontece sua iniciação representa o uni-verso. Seu telhado simboliza a cúpula do céu, o chão a terra, as quatro paredes as quatro direções do espaço cósmico. A construção ritual do espaço é representada pelo triplo simbolismo das quatro portas, quatro janelas e quatro cores, que representam os quatro pontos cardeais. A construção da cabana sagrada repete a Cosmogonia, pois este pequeno edifício corporifica o mundo.77 Exatamente o mesmo, entretanto, vale, sob condições muito mais evoluídas, para a igreja cristã. Por exemplo, Sedlmayr resume o sim-bolismo das igrejas bizantinas da seguinte maneira:

As quatro partes do interior da igreja simbolizam as quatro direções do mundo. O interior da igreja é o universo. O altar é o paraíso, que é orientado para o Leste (...) Diante dele, o Oeste é a região da escuridão, do horror, da morte, a região das eternas habitações dos mortos, que aguardam a ressurreição e o julgamento (...) O centro do edifício da igreja é a Terra. (...) As quatro partes do interior da igreja simbolizam as quatro direções do mundo.78

O interior da igreja simboliza, portanto, o mundo no todo, e nele cada espaço tem seu significado especial, como podemos demons-trar detalhada-mente. Basta aqui justapor essas duas citações, de origens completamente distintas, para revelar o princípio geral de composição.

75 ELIADE, op. cit., p. 27.

76 Ibid., p. 32.

77 Ibid., p. 28, outros exemplos se encontram em CASSIRER.

78 SEDLMAYR, H. Die Entstehung der Kathedrale. Zürich, 1950. p.

115. Cf. antes de tudo SAUER, J. Symbolik des Kirchengebäudes. 2. ed. Freiburg i.

Br., 1924.

O HOMEMEOESPAÇO

4. A cidade

Encontramos circunstâncias análogas na cidade, pois ela não é mais que uma grande casa. Por esse motivo, em sua fundação se repetem os problemas da construção da casa ou do templo. A cidade não surge de um empilhamento arbitrário de casas, mas de uma fundação consciente.

Nessa linha de pensamento, não é possível adentrar a vastidão de ques-tões pertinentes à fundação da cidade. Deve ser suficiente indicar rapida-mente um exemplo conhecido: a fundação de Roma, seguindo o relato de Plutarco.79 Eu destaco somente o mais importante para o nosso con-texto:

1. Inicialmente foi instalada uma cova redonda, na qual foi colocado tudo o que era necessário à vida. Essa cova, chamada mundus, denotava, de acordo com Eliade, o umbigo do mundo; mas ao mesmo tempo é “imagem do cosmo e modelo exemplar do assentamento huma-no”.80 Essa cova foi então fechada com uma pedra, a pedra da alma, que se chamava lápis manalis e que somente podia ser retirada em três dias santos, nos quais a ela desciam os Manos, os espíritos dos mortos. Essa cova comunica, pois, o mundo dos vivos com o mundo dos mortos.

2. Assim, com um arado tracionado por um touro e uma vaca, o construtor puxou um profundo sulco ao longo da linha de frontei-ra, em que mais tarde o muro deveria ser construído. Apenas sobre os locais previstos para os portões levantou-se o arado, e Plutarco acrescen-ta, explicando: “Por esse motivo, todo o muro, exceto os portões, é consi-derado santo; mas se se quisesse considerar santos também os portões, seria necessário ter escrúpulos com respeito às coisas a levar e trazer atra-vés deles, na verdade necessárias mas impuras”.81 Com isso é identificado um processo tão tipicamente recorrente que Frobenius, em sua “História da cultura da África”, descreve até nas minúcias o mesmo processo nas fundações de cidades africanas.82

3. Acrescenta-se a cruz dos eixos de duas ruas que se cortam em ângulo reto, em correspondência exata com as duas direções funda-mentais, originadas na adivinhação romana. Assim, pois, esse sistema de ruas tem um vínculo sagrado, e dele deriva a denominação da Roma quadrata, dividida em quatro quadrantes (não, porém, quadrática). É

79 Apud VON VACANO, op. cit., p. 28.

80 ELIADE, op. cit., p. 28.

81 Apud VON VACANO, op. cit., p. 28.

82 FROBENIUS, op. cit., p. 177, 179.

OTTO FRIEDRICH BOLLNOW

sabido que em cada acampamento romano, o Castrum, retorna esse sis-tema de eixos, que determina que mesmo as valetas circundantes rece-bem uma forma rigorosamente retangular. Mas também aqui se trata de um tipo que transborda em muito do território de influência romano.

Werner Müller difundiu, em seu livro sobre “a cidade sagrada”,83 um rico material sobre a ocorrência desse tipo de cidade, que convida a mais consi-derações.

Muito interessante é, também aqui, uma indicação de Brunner, segundo a qual na escrita egípcia existe um hieróglifo peculiar para “cida-de”: um círculo contendo uma cruz em diagonal. Brunner observa: “sem dúvida, representa o sinal de uma planta de cidade, e na verdade em forma circular, embora a massa das casas seja dividida em quatro quartos pelas ruas que se cruzam, no centro, em ângulo reto”.84 Isso é tanto mais interessante quanto constatamos que os próprios egípcios não construí-ram suas cidades segundo esse esquema, um símbolo de cidade ideal que para eles não tinha relação com o mundo cotidiano.

Também a cidade romana, como acima se deu com a casa e o templo, se notabiliza como reflexo da ordem mundial e por meio de sua ordem inserida na ordem maior do cosmos e dos deuses. Nesse sentido, von Vacano resume:

Esta divisão do espaço (...) determina (...) delimitando, e dando a referência sagrada, o sentimento de lugar do indivíduo e até mesmo da população. A cidade estabelecida de acordo com estes princípi-os, “rite”, cultualmente correta, não é antes a carroceria de uma liga residencial e econômica, mas o centro sagrado de um mundo criado e mantido pelos deuses.85

5. O resultado

Não podemos continuar a análise dessas perspectivas, em si tão interessantes. Elas tinham somente o objetivo de esclarecer, no caso mais puro e mais primitivo, o que ainda se vê de forma atenuada, porém efetiva, na construção de casas contemporânea. Isso pode nos ajudar na compreensão de nossa própria casa, pois também nossa habitação de

83 MÜLLER, W. op. cit.

84 BRUNNER, op. cit., p. 618.

85 VON VACANO, op. cit., p. 27.

O HOMEMEOESPAÇO

hoje ainda tem ali suas raízes. Não por acaso têm-se mantido os costumes artesanais de modo mais forte que em outros setores, na colocação da pedra fundamental, na festa dos carpinteiros* e na inauguração que acom-panham a construção da casa. Talvez possamos, a partir daqui numa re-trospectiva, reconhecer alguns aspectos mais nítidos do habitar caseiro, que nos tinham escapado à análise:

1. A casa segue sendo o “centro” do mundo, mas este apa-rece agora menos nítido e assim mais difícil de reconhecer. O que valia de modo “objetivo” para a estrutura do mundo mítico agora deve se trans-por à estrutura do espaço “subjetivamente” vivenciado e vivido.

2. A casa mantém um caráter próprio, que somente com-preendemos na analogia com o sagrado. Partindo de lá, comcom-preendemos o julgamento desproporcionalmente grave da violação do domicílio, pois contém, mesmo que de maneira não explícita, o caráter de um sacrilégio.

De lá, compreendemos também a invulnerabilidade do direito de hospi-talidade, ainda mantida na vida atual, mas que em tempos idos era muito mais significativa.

3. Assim, a casa segue sendo, num significado profundo, um território inviolável da paz, desse modo nitidamente separada do mundo

3. Assim, a casa segue sendo, num significado profundo, um território inviolável da paz, desse modo nitidamente separada do mundo

No documento Tradução deAloísio Leoni Schmid (páginas 157-169)