H ORIZONTE E PERSPECTIVA
1. O aspecto duplo do horizonte
Tínhamos citado, na introdução, o caráter finito como mais uma característica do espaço humano concreto que o distingue do espaço matemático abstrato. Mas havíamos hesitado, ao enumerar diferenças, porque a observação do caráter finito do espaço não pode ser feita com a mesma naturalidade que as outras. Requer inicialmente uma explicação.
Ocorre que chamamos a alguma coisa um espaço, tão logo esteja disponí-vel uma fronteira na qual ele termina. Numa caverna na montanha, essa fronteira é dada de forma bem palpável pela rocha circundante. Entre-tanto, o espaço vivenciado não está delimitado por essas paredes mate-riais. Quando primeiramente o consideramos no espaço diurno e de boa visibilidade, ele tem no horizonte uma fronteira de outro tipo. Horizonte significa, de acordo com a etimologia grega, aquilo que delimita ao re-dor.73 Delimita o campo de visão humano. Nessa sua fronteira, entretanto, percebe-se algo enigmático e intangível, de modo que devemos pergun-tar, inicialmente, em que sentido o horizonte constitui uma fronteira do espaço vivenciado e o torna, com isso, um espaço finito. Van Peursen tratou essa questão no volume “Situation” num ensaio profundo, sobre o qual podemos nos apoiar por longo trecho.74
73 Deve ser tratado mais à frente até que ponto o caráter finito é mantido, mesmo quando nenhum horizonte se mostre visível, como no exemplo do espaço noturno. Cf. nossas p. 239 et seq.
74 VAN PEURSEN, G. A. L’ horizon. Situation, p. 204 et seq.
6.
H ORIZONTE E PERSPECTIVA
1. O aspecto duplo do horizonte
Tínhamos citado, na introdução, o caráter finito como mais uma característica do espaço humano concreto que o distingue do espaço matemático abstrato. Mas havíamos hesitado, ao enumerar diferenças, porque a observação do caráter finito do espaço não pode ser feita com a mesma naturalidade que as outras. Requer inicialmente uma explicação.
Ocorre que chamamos a alguma coisa um espaço, tão logo esteja disponí-vel uma fronteira na qual ele termina. Numa caverna na montanha, essa fronteira é dada de forma bem palpável pela rocha circundante. Entre-tanto, o espaço vivenciado não está delimitado por essas paredes mate-riais. Quando primeiramente o consideramos no espaço diurno e de boa visibilidade, ele tem no horizonte uma fronteira de outro tipo. Horizonte significa, de acordo com a etimologia grega, aquilo que delimita ao re-dor.73 Delimita o campo de visão humano. Nessa sua fronteira, entretanto, percebe-se algo enigmático e intangível, de modo que devemos pergun-tar, inicialmente, em que sentido o horizonte constitui uma fronteira do espaço vivenciado e o torna, com isso, um espaço finito. Van Peursen tratou essa questão no volume “Situation” num ensaio profundo, sobre o qual podemos nos apoiar por longo trecho.74
73 Deve ser tratado mais à frente até que ponto o caráter finito é mantido, mesmo quando nenhum horizonte se mostre visível, como no exemplo do espaço noturno. Cf. nossas p. 239 et seq.
74 VAN PEURSEN, G. A. L’ horizon. Situation, p. 204 et seq.
OTTO FRIEDRICH BOLLNOW
O que vem a ser um horizonte? Uma definição geográfica sim-ples seria: a linha em que a abóbada celeste parece repousar sobre a superfície terrestre. Delimita nosso campo de visão natural na paisagem, para todos os lados, enquanto não for encoberto por quaisquer coisas. O horizonte se abre quando o homem sai de um vale estreito para a planí-cie. Falamos de um horizonte livre, aberto. O horizonte ainda pode ser mais estreito ou mais vasto. Da altura da montanha ele se amplia, e lá o olhar vagueia sobre as superfícies espalhadas e pode tomar uma expan-são avassaladora. Mas o notável é que quando o homem sobe na altura ele nunca deixa abaixo o seu horizonte. Este não fica para trás, mas sobe juntamente; sempre permanece na altura da pessoa. Experimentamos isso de modo muito impressionante quando, junto à costa marítima, subi-mos uma montanha e vesubi-mos como, árvore por árvore, morro por morro, são ultrapassados pelo horizonte, e logo sob ele naufragam. O horizonte denota, com isso, sempre o horizontal; no piscar de olhos em que o hori-zonte alcança um ponto no morro vizinho, eu sei que me encontro à mesma altura que ele.
Algo semelhante se dá no movimento horizontal. Não importa quanto aquilo que está longe atraia o homem, ele nunca poderá alcançar o horizonte. Quanto mais longe caminha, mais se afasta também o hori-zonte. Nunca podemos dizer que nos aproximamos dele. As coisas que estavam no horizonte, as torres de uma cidade distante ou a cumeada de uma montanha, podem vir mais perto quando nos aproximamos, ou os mastros de um navio podem subir no mar sobre o horizonte. O horizonte permanece o mesmo. Seja qual for meu movimento, ele se movimenta junto. A importância evidente disso é por recuarem as formas individuais e o horizonte se mostrar com especial insistência. Para um viajante na estepe é amedrontador o estado enclausurado, sempre no mesmo hori-zonte, que o acompanha na marcha. “Diante deste horizonte que se mos-tra fixo, mesmo com nosso galopar desesperado, o pampa se tornava, para mim, uma prisão, que somente era maior que as outras prisões”.75 Quando definimos o homem como um ser que pode superar todas as suas fronteiras, sabemos que o horizonte ele não pode superar. É uma fronteira absoluta.
Por outro lado, o horizonte não é apenas fronteira, e o exem-plo da experiência amedrontadora de estar trancado já era um caso ex-tremo, anormal. Em geral, o horizonte não se estreita às pessoas, mas ao contrário: abre-se à frente delas num campo vasto de sua visão e de seu movimento rumo ao espaço. Ele é, na verdade, uma fronteira, mas não
75 SUPERVIELLE, J. apud BACHELARD, Poetik..., p. 252.
O HOMEMEOESPAÇO
uma fronteira aprisionante. À medida que recua, ele convida exatamente à busca do longínquo. Van Peursen trabalhou de modo muito claro esse caráter duplo do horizonte: estender o campo da evolução espacial para as pessoas e, ao mesmo tempo, delimitar novamente. “O horizonte”, as-sim diz, “determina uma fronteira à qual a pessoa não pode chegar, mas da mesma forma o território no qual a pessoa se expande... por seu olhar, por seus desejos”.76 Ele enfatiza o “aspecto duplo do horizonte”: “fronteira inatingível e espaço para avançar”.76
Mas o que “é”, então, o horizonte? Os geógrafos o caracteri-zam como a “linha pensada” na qual a abóbada celeste toca a terra. Mas há diversos tipos de linhas imaginárias. O horizonte é algo diferente do Equador, que não constitui nenhum risco visível sobre a superfície terres-tre. Mas assim mesmo ele tem sua posição definida. Podemos alcançá-lo e superá-lo e possivelmente até marcá-lo sobre a superfície terrestre (como em Mainz se marcou o paralelo 50 com uma faixa de metal sobre a calça-da calça-da rua. O horizonte, contudo, não podemos alcançar, pois ele não tem lugar determinado no espaço. Como o espaço limítrofe, ele não está pró-prio no espaço. Mas isso só faz repetir a pergunta: o que “é”, então, o horizonte?
Van Peursen desenvolveu essa questão em seu ensaio de for-ma muito convincente. O horizonte não é nada que possamos encontrar independentemente das pessoas. Não é alguma coisa no mundo. É “ir-real”. Mas nem por isso se restringe ao intelecto humano, como algo so-mente imaginado: pertence necessariaso-mente ao mundo. Toda a sorte de coisas que as pessoas encontram no espaço deve estar dentro de um ho-rizonte. Um mundo sem horizonte é impossível. Assim diz van Peursen:
“Sem horizonte o mundo não seria mais pobre, mas não seria o mesmo.
Um mundo sem horizonte não podemos imaginar”.77 É somente com o horizonte que as coisas que aparecem são finalizadas numa unidade. Mas, por outro lado, o horizonte pertence às pessoas de modo inseparável.
Estas somente vivem dentro de um horizonte e não podem nunca fugir à ligação com ele. “O homem não pode negar o horizonte. Superar o hori-zonte significaria absolver a pessoa. O horihori-zonte é, de algum modo, ligado com a pessoa”.77
Logo, o horizonte pertence a um âmbito que não se deixa classificar totalmente como da pessoa nem do mundo, mas compreende ambos em sua unidade originária. Nós o caracterizamos da melhor ma-neira com a noção Kantiana, ao constatarmos que pertence à
compreen-76 VAN PEURSEN, op. cit., p. 208. 77 Ibid., p. 207.
OTTO FRIEDRICH BOLLNOW
O que vem a ser um horizonte? Uma definição geográfica sim-ples seria: a linha em que a abóbada celeste parece repousar sobre a superfície terrestre. Delimita nosso campo de visão natural na paisagem, para todos os lados, enquanto não for encoberto por quaisquer coisas. O horizonte se abre quando o homem sai de um vale estreito para a planí-cie. Falamos de um horizonte livre, aberto. O horizonte ainda pode ser mais estreito ou mais vasto. Da altura da montanha ele se amplia, e lá o olhar vagueia sobre as superfícies espalhadas e pode tomar uma expan-são avassaladora. Mas o notável é que quando o homem sobe na altura ele nunca deixa abaixo o seu horizonte. Este não fica para trás, mas sobe juntamente; sempre permanece na altura da pessoa. Experimentamos isso de modo muito impressionante quando, junto à costa marítima, subi-mos uma montanha e vesubi-mos como, árvore por árvore, morro por morro, são ultrapassados pelo horizonte, e logo sob ele naufragam. O horizonte denota, com isso, sempre o horizontal; no piscar de olhos em que o hori-zonte alcança um ponto no morro vizinho, eu sei que me encontro à mesma altura que ele.
Algo semelhante se dá no movimento horizontal. Não importa quanto aquilo que está longe atraia o homem, ele nunca poderá alcançar o horizonte. Quanto mais longe caminha, mais se afasta também o hori-zonte. Nunca podemos dizer que nos aproximamos dele. As coisas que estavam no horizonte, as torres de uma cidade distante ou a cumeada de uma montanha, podem vir mais perto quando nos aproximamos, ou os mastros de um navio podem subir no mar sobre o horizonte. O horizonte permanece o mesmo. Seja qual for meu movimento, ele se movimenta junto. A importância evidente disso é por recuarem as formas individuais e o horizonte se mostrar com especial insistência. Para um viajante na estepe é amedrontador o estado enclausurado, sempre no mesmo hori-zonte, que o acompanha na marcha. “Diante deste horizonte que se mos-tra fixo, mesmo com nosso galopar desesperado, o pampa se tornava, para mim, uma prisão, que somente era maior que as outras prisões”.75 Quando definimos o homem como um ser que pode superar todas as suas fronteiras, sabemos que o horizonte ele não pode superar. É uma fronteira absoluta.
Por outro lado, o horizonte não é apenas fronteira, e o exem-plo da experiência amedrontadora de estar trancado já era um caso ex-tremo, anormal. Em geral, o horizonte não se estreita às pessoas, mas ao contrário: abre-se à frente delas num campo vasto de sua visão e de seu movimento rumo ao espaço. Ele é, na verdade, uma fronteira, mas não
75 SUPERVIELLE, J. apud BACHELARD, Poetik..., p. 252.
O HOMEMEOESPAÇO
uma fronteira aprisionante. À medida que recua, ele convida exatamente à busca do longínquo. Van Peursen trabalhou de modo muito claro esse caráter duplo do horizonte: estender o campo da evolução espacial para as pessoas e, ao mesmo tempo, delimitar novamente. “O horizonte”, as-sim diz, “determina uma fronteira à qual a pessoa não pode chegar, mas da mesma forma o território no qual a pessoa se expande... por seu olhar, por seus desejos”.76 Ele enfatiza o “aspecto duplo do horizonte”: “fronteira inatingível e espaço para avançar”.76
Mas o que “é”, então, o horizonte? Os geógrafos o caracteri-zam como a “linha pensada” na qual a abóbada celeste toca a terra. Mas há diversos tipos de linhas imaginárias. O horizonte é algo diferente do Equador, que não constitui nenhum risco visível sobre a superfície terres-tre. Mas assim mesmo ele tem sua posição definida. Podemos alcançá-lo e superá-lo e possivelmente até marcá-lo sobre a superfície terrestre (como em Mainz se marcou o paralelo 50 com uma faixa de metal sobre a calça-da calça-da rua. O horizonte, contudo, não podemos alcançar, pois ele não tem lugar determinado no espaço. Como o espaço limítrofe, ele não está pró-prio no espaço. Mas isso só faz repetir a pergunta: o que “é”, então, o horizonte?
Van Peursen desenvolveu essa questão em seu ensaio de for-ma muito convincente. O horizonte não é nada que possamos encontrar independentemente das pessoas. Não é alguma coisa no mundo. É “ir-real”. Mas nem por isso se restringe ao intelecto humano, como algo so-mente imaginado: pertence necessariaso-mente ao mundo. Toda a sorte de coisas que as pessoas encontram no espaço deve estar dentro de um ho-rizonte. Um mundo sem horizonte é impossível. Assim diz van Peursen:
“Sem horizonte o mundo não seria mais pobre, mas não seria o mesmo.
Um mundo sem horizonte não podemos imaginar”.77 É somente com o horizonte que as coisas que aparecem são finalizadas numa unidade. Mas, por outro lado, o horizonte pertence às pessoas de modo inseparável.
Estas somente vivem dentro de um horizonte e não podem nunca fugir à ligação com ele. “O homem não pode negar o horizonte. Superar o hori-zonte significaria absolver a pessoa. O horihori-zonte é, de algum modo, ligado com a pessoa”.77
Logo, o horizonte pertence a um âmbito que não se deixa classificar totalmente como da pessoa nem do mundo, mas compreende ambos em sua unidade originária. Nós o caracterizamos da melhor ma-neira com a noção Kantiana, ao constatarmos que pertence à
compreen-76 VAN PEURSEN, op. cit., p. 208.
77 Ibid., p. 207.
OTTO FRIEDRICH BOLLNOW
são transcendental do ser-no-mundo humano. Por tal motivo, o horizonte não é nada dentro do espaço, mas pertence de modo inseparável à espacialidade da existência humana. A pessoa expande seu espaço a par-tir do centro, em que se encontra, sempre dentro de um horizonte limitador e unificador. O fato de a pessoa nunca alcançar seu horizonte, mas de este caminhar junto, mostra somente que o horizonte é inseparável da pessoa (aqui, podemos dizer realmente: como a casa da lesma). A pessoa, assim, permanece o centro de seu espaço, que é circundado pelo horizonte. “O horizonte coloca a pessoa no meio da realidade.”78 Logo, a posição da pessoa no meio de seu espaço e a desse horizonte circundante estão rela-cionadas entre si.
Aqui, talvez pudéssemos nos perguntar se a abóbada celeste, como aparece qual campânula azulada ou coberta de nuvens, seria uma continuação natural do horizonte, pois nela o círculo ao redor se expande até uma pele circundante e dá ao horizonte toda a extensão espacial.
Van Peursen acrescenta ainda um pensamento muito interes-sante e transcendente: o horizonte é ao mesmo tempo o que permite aos seres humanos sentir-se em casa no mundo e habitá-lo. Pois “num mun-do infinito a pessoa não poderia viver, e um campo de vista infinito a iria amedrontar”, ela iria sentir-se abandonada. Ali está o horizonte, que resu-me o espaço e o humano a uma região finita e visível. “O horizonte mos-tra esse elemento de proteção”.79 “O horizonte”, diz van Peursen, “cerca-o e dá-lhe um lar”.80 Faz do mundo uma espécie de casa protetora, mesmo que uma casa especial, que a pessoa não pode deixar e tornar a procurar, mas com que está consolidada. No horizonte se revela o que em outro contexto ainda iremos encontrar, o caráter originariamente protetor do espaço. O espaço não é, para o ser humano, um meio estranho. Nele, ele se sente em casa, sente-se um com seu espaço.
2. A perspectiva
Inseparável do horizonte é a perspectiva. Significa primeira-mente – com sua origem nos problemas da representação pictórica, prin-cipalmente na arquitetura – a visão que uma coisa me causa de um deter-minado ponto de vista. Cada coisa se nos mostra numa perspectiva determinada. Daí eu poder ver a coisa, sempre, apenas de um lado, não
78 VAN PEURSEN, op. cit., p. 217.
79 Ibid., p. 233.
80 Ibid., p. 234.
O HOMEMEOESPAÇO
de todos os lados ao mesmo tempo. Portanto, quando eu vejo de um lado, outros lados me permanecem ocultos. Cada visão é necessariamen-te unilanecessariamen-teral. Daqui também decorre o fato de que o objeto sempre se apresenta numa determinada “abreviatura de perspectiva”, de modo que as linhas paralelas pareçam se encontrar no infinito, etc. Quando eu ando ao redor de uma edificação, mudam constantemente as perspectivas. Pos-so, com isPos-so, escolher algumas vantajosas para a representação. Mas que mudem as perspectivas, a uma delas eu estarei sempre vinculado. Eu não posso fugir do condicionamento a uma perspectiva. Nunca posso ver uma coisa independentemente de um ponto de vista especial, nunca posso vê-la como “na verdade” é.
Contudo, a perspectiva ainda significa que as coisas mudam de tamanho de acordo com a distância que têm do observador. As coisas longínquas parecem menores. Isso inclui a chamada perspectiva aérea, que torna as coisas distantes mais claras e azuladas. E finalmente seria de considerar que as coisas mais à frente parcialmente escondem aquelas mais atrás, ocupando nosso olhar. Com isso, por meio da perspectiva, as coisas se ordenam de acordo com as relações da proximidade e distância, relacionadas à pessoa como o centro de seu espaço. Assim, a perspectiva é, por um lado, expressão da “subjetividade” de seu espaço, i.e. do fato de a pessoa em seu espaço se encontrar amarrada a um ponto em espe-cial, de poder observá-lo sempre somente “de dentro”, mas por outro lado lhe permite reconhecer essa vinculação a seu ponto de vista.
Assim, horizonte e perspectiva existem em conjunto, insepará-veis. A perspectiva ordena as coisas dentro do horizonte, mas o horizonte, no qual todas as linhas paralelas convergem, dá à perspectiva um local fixo (naturalmente, isso vale apenas para as paralelas na horizontal, mas aqui se mostra renovadamente a diferença em relação ao espaço mate-mático: no espaço vivenciado há, além das verticais, que pela regra da aula de desenho são sempre verticais, somente paralelas horizontais).
Horizonte e perspectiva unem, pois, a pessoa ao caráter finito de sua exis-tência no espaço, mas ao mesmo tempo lhe permitem a ação no espaço.
Colocam a pessoa não somente numa situação determinada no espaço, mas lhe permitem reconhecer essa situação e, com isso, ganhar em seu espaço uma posição fixa e uma visão geral.
OTTO FRIEDRICH BOLLNOW
são transcendental do ser-no-mundo humano. Por tal motivo, o horizonte não é nada dentro do espaço, mas pertence de modo inseparável à espacialidade da existência humana. A pessoa expande seu espaço a par-tir do centro, em que se encontra, sempre dentro de um horizonte limitador e unificador. O fato de a pessoa nunca alcançar seu horizonte, mas de este caminhar junto, mostra somente que o horizonte é inseparável da pessoa (aqui, podemos dizer realmente: como a casa da lesma). A pessoa, assim, permanece o centro de seu espaço, que é circundado pelo horizonte. “O horizonte coloca a pessoa no meio da realidade.”78 Logo, a posição da pessoa no meio de seu espaço e a desse horizonte circundante estão rela-cionadas entre si.
Aqui, talvez pudéssemos nos perguntar se a abóbada celeste, como aparece qual campânula azulada ou coberta de nuvens, seria uma continuação natural do horizonte, pois nela o círculo ao redor se expande até uma pele circundante e dá ao horizonte toda a extensão espacial.
Van Peursen acrescenta ainda um pensamento muito interes-sante e transcendente: o horizonte é ao mesmo tempo o que permite aos seres humanos sentir-se em casa no mundo e habitá-lo. Pois “num mun-do infinito a pessoa não poderia viver, e um campo de vista infinito a iria amedrontar”, ela iria sentir-se abandonada. Ali está o horizonte, que resu-me o espaço e o humano a uma região finita e visível. “O horizonte mos-tra esse elemento de proteção”.79 “O horizonte”, diz van Peursen, “cerca-o e dá-lhe um lar”.80 Faz do mundo uma espécie de casa protetora, mesmo que uma casa especial, que a pessoa não pode deixar e tornar a procurar, mas com que está consolidada. No horizonte se revela o que em outro contexto ainda iremos encontrar, o caráter originariamente protetor do espaço. O espaço não é, para o ser humano, um meio estranho. Nele, ele se sente em casa, sente-se um com seu espaço.
2. A perspectiva
Inseparável do horizonte é a perspectiva. Significa primeira-mente – com sua origem nos problemas da representação pictórica, prin-cipalmente na arquitetura – a visão que uma coisa me causa de um deter-minado ponto de vista. Cada coisa se nos mostra numa perspectiva determinada. Daí eu poder ver a coisa, sempre, apenas de um lado, não
Inseparável do horizonte é a perspectiva. Significa primeira-mente – com sua origem nos problemas da representação pictórica, prin-cipalmente na arquitetura – a visão que uma coisa me causa de um deter-minado ponto de vista. Cada coisa se nos mostra numa perspectiva determinada. Daí eu poder ver a coisa, sempre, apenas de um lado, não