Capítulo 2 – Enquadramento prático…ou Morte
2.4.3. A ceifa…do teste
Estudar é o caminho para o sucesso.
Anónimo
epois das aulas e das atividades chegava a prova de fogo: o teste. Uma das tarefas que tínhamos, enquanto professores estagiários, era a de elaborar uma ficha sumativa, na qual todos os membros do núcleo deveriam colaborar. No nosso caso, procedemos à sua criação no decorrer do mês de março de 2019. Os conteúdos estariam subjacentes ao já referido Módulo 5 - O
LIBERALISMO – IDEOLOGIA E REVOLUÇÃO, MODELOS E PRÁTICAS NOS SÉCULOS XVIII e XIX.
Nós pensamos, desde cedo, em aproveitar essa situação para avaliar, através da introdução de questões baseadas na análise de pinturas, o trabalho que tínhamos vindo a desenvolver com os alunos. Assim, propusemos duas questões em que as pinturas seriam as grandes protagonistas. Essas sugestões foram prontamente aceites pelos restantes membros do núcleo. Aliás, era comum entre todos a vontade de incorporar documentos de tipologia variada, nomeadamente iconográficos.
Por ter sido um tema lecionado, essencialmente, através da observação e análise de pinturas, consideramos que a temática do processo de Independência do Brasil seria a mais indicada introduzir. Este conteúdo inseriu-se no Grupo II e intitulava-se Da
implantação ao triunfo Liberalismo em Portugal, correspondendo à questão número 2 do
teste, que se dividia por sua vez em duas sub-questões (2.1. e 2.2.). Começamos por pedir ao aluno que observasse atentamente quatro documentos iconográficos analisados em aula (Anexo 15).
Do conjunto das quatro pinturas, apenas a primeira (A Proclamação da
Independência de François-René Moreaux) não dispunha, propositadamente, de qualquer
dado sobre o seu conteúdo, isto é, o título da obra. O aluno só teve acesso ao nome do artista, assim como à técnica e às dimensões da tela. Todavia, as restantes já se apresentavam com o nome da obra, que acabavam por dar pistas sobre o seu conteúdo. Tal decisão encontra a sua justificação na primeira questão (2.1.) que surgia: Identifique
27 Inspirado na pintura “A ceifa” de Silva Porto, de 1844. Óleo sobre tela, 37,5 x 56 cm. Localizada na Casa Museu Anastácio Gonçalves.
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o acontecimento histórico retratado no documento 4. Ou seja, o aluno é que tinha de
identificar o acontecimento histórico retratado nessa pintura. Ao indicarmos o nome da obra estaríamos a dar a resposta. Para obter os 10 pontos que valiam esta questão (Anexo 16), o aluno teria de identificar esse momento como o Grito do Ipiranga, ou, de forma
mais geral, como o momento que marcou a independência do Brasil.
A questão que se seguia (2.2.) já se apresentava de forma mais complexa e exigia
um maior conhecimento dos documentos: Explique, a partir dos documentos 5, 6 e 7, o
processo que culminou no acontecimento histórico retratado no documento 4. Aqui, o
aluno, de modo a conseguir os 30 pontos, teria de começar por abordar a política das Cortes portuguesas que pretendia reconduzir o Brasil à condição de colónia (Documento 5 - Sessão das Cortes de Lisboa de Oscar Pereira da Silva.), a persistência de D. Pedro em ficar na colónia contrariando as decisões das Cortes (Documento 7 - D. Pedro de Simplício Rodrigues de Sá), o papel de Maria Leopoldina durante o processo, evidente na reunião de conselho de Estado em que se percebe que a independência é a única saída (Documento 6 - Sessão do Conselho de Estado com Maria Leopoldina de Georgina de Albuquerque) e, por último, o momento final em que D. Pedro proclama, finalmente, nas
margens do rio Ipiranga a independência (Documento 4 - A Proclamação da
Independência de François-René Moreaux).
10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 0 0 21 18 6 12 9 3 27 0 27 6 6 0 11 21 15 30 27 24 6 6 0 5 10 15 20 25 30 R1 R2 R3 R4 R5 R6 R7 R8 R9 R10 R11 R12 R13 R14 R15 R16 R17 R18 R19 R20 R21 R22 COTAÇÃO D AS RE SP OS TAS
IDENTIFICAÇÃO DOS ALUNOS
Resultados obtidos nas duas questões do teste pela turma dos Românticos
Questão 2.1. Questão 2.2. Gráfico 5 Resultados obtidos nas duas questões do teste pela turma dos Românticos
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Como podemos observar no gráfico 5, na turma dos Românticos, os resultados obtidos na questão 2.1. não podiam ter sido melhores. Afinal, todos os elementos da turma obtiveram a cotação máxima, uma vez que identificaram de forma correta o acontecimento retratado na pintura. O mesmo se verificou na turma dos Impressionistas, tal como se pode observar no gráfico 6. Todos os alunos responderam acertadamente, obtendo a cotação máxima de 10 pontos.
Contudo, o mesmo não se verificou na questão 2.2., cujos resultados não foram tão extraordinários. Tanto na turma dos Românticos como na dos Impressionistas quatro discentes não tiveram pontuação. Uns porque nem sequer a tentaram fazer, outros porque responderam de forma breve e completamente imprecisa e equivocada.
Do conjunto total de 22 alunos em cada uma das turmas, 14 alunos situaram-se entre os níveis 1 e 2 definidos nos critérios, sendo que 9 são Românticos e 5
Impressionistas. Aqui vemos as respostas muito fracas, com uma interpretação incipiente
dos documentos iconográficos, e uma abordagem dos conteúdos muito genérica, e até mesmo errónea. Ora vejamos os seguintes exemplos:
• R5: (…) como por exemplo a sessão das cortes de Lisboa, representada no
documento 5, que explicita o facto de Portugal ficar sem corte, deixando o povo sem qualquer tipo de representalidade. (…)
• R15: (…) assim como também fizeram a sessão do concelho de Estado com Maria
Leopoldina representado no documento 6. (…)
10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 10 27 15 0 21 24 27 0 15 0 12 15 12 15 0 27 30 12 9 30 9 15 15 0 5 10 15 20 25 30
I1 I2 I3 I4 I5 I6 I7 I8 I9 I10 I11 I12 I13 I14 I15 I16 I17 I18 I19 I20 I21 I22
C O TA Ç Ã O D A S R ES P O A TA S
IDENTIFICAÇÃO DOS ALUNOS
Resultados obtidos nas duas questões do teste pela turma dos Impressionistas
Questão 2.1. Questão 2.2. Gráfico 6 Resultados obtidos nas duas questões do teste pela turma dos Impressionistas
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• I17: (…) Maria Leopoldina mulher de D. Pedro tentou governar Portugal
reunindo-se com o Conselho de Estado (doc. 6) de maneira e tentar reerguer o País que tinha ido à miséria. (…)
Num lugar mais satisfatório, situados entre os níveis 3 e 4, temos um total de 13 discentes. Na turma dos Impressionistas encontramos 8 e na dos Românticos 5. Estes, apresentam-se com falhas tanto a nível comunicacional, como na interpretação dos documentos. Aqui, vemos alunos que não completam o que os documentos lhes fornecem com os seus conhecimentos, e quando o fazem é de forma genérica. Seguem exemplos:
• R3: (…) D. Pedro no meio do conflito entre as cortes e o Brasil, decidiu ficar e
tornar o Brasil independente de Portugal, partindo para perto das margens do Ipiranga deixando D. Leopoldina encarregada do seu cargo (doc. 6). (…)
• R4: (…) D. Pedro (doc. 7) jura a independência do Brasil (doc. 4), no qual se
reconhece como grito do Ipiranga. (…)
• I13: (…) Em 1822 princesa regente (Leopoldina) assinou a Independência do
brasil pois D. Pedro estava fora de São Paulo (doc. 6) (…)
• I2: (…) nas cortes de Lisboa (doc 5) é autorizada a independência do Brasil, o que
no doc 4 D. Pedro confirma, com o grito do Ipiranga. (…)
Por último, na posição mais confortável de todas, no nível 5, temos um total de 9 discentes, 4 Românticos e 5 Impressionistas. Neste caso, apresentam-se as respostas completas ou quase completas, nas quais os alunos fazem uma boa interpretação dos documentos, articulando-a de forma pertinente com os seus conhecimentos. Atentemos nos seguintes exemplos, com os alunos que tiveram 30 (R18, I16 e I19) e 27 (R19) pontos: • R18: (…) As cortes de Lisboa não queiram que o Brasil conseguisse a sua
independência, muito pelo contrário, queriam que o Brasil voltasse a ser uma colónia, para isso reuniram e acabaram com as instituições existentes (documento 5) e pediram a D. Pedro para voltar a Portugal com o pretexto de terminar os seus estudos na Europa. (…)
• R19: (…) A independência do Brasil deveu-se, fulcralmente, à política das cortes
em Portugal (…) Observamos no doc. 5 uma dessas sessões das Cortes de Lisboa. (…)
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• I16: (…) Em Lisboa, nas cortes, as políticas anti-brasileiras eram diversas, desde
a revogação dos tratados de comércio de 1811 às leis que tiravam poder aos governos do Brasil (doc. 5) (…) a mulher de D. Pedro que é aconselhada a agir rapidamente, em prol da independência do Brasil, como mostra o documento 6. (…)
• I19: (…) Descontentes com as políticas vindas de Portugal, que retiravam poder
ao Brasil, e ansiando autonomia, Maria Leopoldina decidiu por via da Sessão do Concelho de Estado (documento 6) a futura independência do Brasil, efetivada com o Grito do Ipiranga por D. Pedro (…)
Estes alunos não só identificaram corretamente o acontecimento retratado, como também adicionaram aspetos importantes, mencionados nas aulas, enriquecendo a sua resposta de forma pertinente, ao completar o conteúdo da pintura com os seus conhecimentos. Era o que se pretendia.
Resumindo, na turma dos Românticos, a média final da primeira questão foi de
10 em 10 pontos, sendo que na segunda a média não foi além dos 12,5 em 30 pontos. Na turma dos Impressionistas, a média final da primeira questão foi de 10 em 10 pontos, enquanto na segunda foi de 15 em 30 pontos. Assim sendo, nesta turma os resultados foram ligeiramente melhores.
Ora, apresentados os resultados das duas turmas, impõe-se uma breve reflexão sobre os mesmos. Comecemos pela primeira questão que foi um verdadeiro sucesso, uma vez que, em ambas as turmas, todos os alunos responderam corretamente. Por isso mesmo, a média das turmas foi de 10 pontos, o máximo possível. Este é um desfecho que se pode explicar muito facilmente, e por um conjunto de possíveis motivos.
Em primeiro lugar, e não querendo retirar mérito algum, era uma pergunta de resposta curta, na qual o aluno não tinha que desenvolver nada, mas sim indicar o nome do acontecimento retratado. Depois, a obra em questão havia sido analisada exaustivamente na sala de aula, e representava um acontecimento de grande importância no processo de Independência do Brasil e que fica, de certo modo, facilmente gravado na memória. Por último, a pintura serviu de objeto de trabalho a alguns alunos, nas duas atividades que antecederam este teste, o que certamente ajudou ainda mais.
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Na segunda questão, o desenlace foi mais desanimador, tanto para nós como para os alunos. Juntando os resultados das duas turmas, nesta questão, a média final não passou dos 13,75 em 30 pontos. Infelizmente, não correu como desejávamos.
Esta era uma questão mais difícil, que exigia um maior desenvolvimento e um
bom domínio dos conteúdos. Além disso, o aluno tinha, obrigatoriamente, de recorrer a todas as pinturas disponíveis, para construir uma resposta completa. Cada uma representava um momento fulcral que tinha que ser mencionado. Na verdade, a legenda, que indicava o nome da obra, já dava indícios fortes do que estava retratado. Todavia, o aluno tinha de ir mais longe e aprofundar os conteúdos.
Este insucesso é o reflexo de diferentes lacunas que acabaram por ser cruzar em alguns casos. Em primeiro lugar, ficou evidente que parte dos alunos não havia um total conhecimento dos conteúdos em causa. Em segundo lugar, está a recusa em olhar para os documentos iconográficos como uma fonte legítima, e tão ou mais rica do que os escritos. Depois, muitos deles chegam ao teste preparados para debitar a matéria decorada, e sem qualquer capacidade de inflexão e reflexão perante as adversidades. Os discentes estão habituados a estudar através do texto escrito e não da observação de imagens. Com efeito, alguns deles não estavam de todo preparados para o desafio que propusemos, e limitaram- se a despejar tudo o que sabiam sobre o tema. Alguns aproveitaram a legenda das pinturas para introduzir de forma generalizada na resposta, sem qualquer aprofundamento dos conteúdos, o que revelava o não conhecimento do “argumento” presente na pintura. Apenas os alunos com capacidade de reflexão, ou que estiveram com uma maior atenção no momento que foi realizada a análise das pinturas em aula, tiveram a capacidade de conciliar a utilização das pinturas como fonte, com os conhecimentos que já traziam, criando uma resposta lógica e rica em conteúdo.
Este fiasco nos resultados serviu também para nos relembrar que este é um
processo que tem de ser contínuo e que, apesar da diversidade de estratégias em que as
pinturas eram o centro das atenções, parecia que não havíamos feito o suficiente, pois ainda existiam alguns alunos que mostravam não estar recetivos à sua utilização. Todavia, o facto de existirem alguns, apesar de em minoria, que correspondiam ao que lhes era solicitado, recorrendo à pintura, e provando o seu potencial nas aulas de História, demonstrava que a nossa metodologia e o nosso trabalho não tinham falhado na totalidade. Ainda assim, tínhamos de fazer mais e melhor.
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