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A chegada do paradigma da complexidade nos estudos organizacionais

CAPÍTULO 1 – A HIPERMODENIDADE: ESGOTAMENTO LÓGICO E COMPLEXIDADE

1.4 A chegada do paradigma da complexidade nos estudos organizacionais

Para podermos chegar ao muito novo, nunca é demais lembrar de onde partimos assim, e voltando nosso foco aos estudos organizacionais, lembramos que foi Frederic Winslow

Taylor que fez a transposição “analogística” dos conceitos das ciências naturais para a teoria das organizações: “A melhor administração é uma ciência, que repousa sobre os fundamentos de leis, regras e princípios claramente definidos” (Taylor,apud Freedman,1992).

Mas, foi uma realidade instável, arrítmica e imersa numa complexificação globalizante que permitiu que a lógica pluralista da Complexidade se insinuasse como uma nova e inusitada alternativa às velhas e congestionadas vias em que, teimosamente, insistíamos não adotar:

“Parece que quanto mais nos tornamos receptivos às mudanças superficiais, mais cegos ficamos para o potencial de verdadeiras mudanças, mudanças de essência, de fundo”.(Bauer, 1999: 9).

Já em 1981, o sociólogo e estudioso das organizações Alberto Guerreiro Ramos (Guerreiro Ramos,1992) profeticamente apontava as limitações da teoria organizacional como uma espécie de antevisão das dificuldades que, até mesmo antes disso, atingiriam as organizações:

“A teoria organizacional existente já não pode mais esconder o seu paroquialismo e ela é paroquial porque focaliza os temas organizacionais mais do ponto de vista de critérios inerentes a um tipo de sociedade em que o mercado desempenha um papel de padrão e força abrangentes e integrativos. Torna-se muda, quando desafiada por temas organizacionais comuns a todas as sociedades. Além disso, é paroquial porque se alimenta da fantasia da localização simples, isto é, da ignorância da interligação interdependência das coisas no universo; lida com as coisas como se as coisas estivessem confinadas em seções mecânicas do espaço e do tempo”.(Guerreiro Ramos, 1989: 198)

Um dos primeiros a perceber as potencialidades da utilização da Complexidade no estudo das organizações foi Gareth Morgan (Gareth,1996) que propôs o uso das imagens, no esforço do conhecimento das organizações, como de fluxo em

transformação, para o que se valeu do conceito de auto-poiese de Varella: a organização, enquanto sistema autoprodutor, é parte de seu ambiente externo com o qual interage dilatando os seus limites e alterando os seus traços de identidade; assim, propugna a adoção de modelos circulares de interação no sentido de entender essas relações da organização com o seu exterior, agora muito menos externo, pela utilização da lógica da causalidade mútua; como o sistema se confunde, enquanto parte, com o ambiente, autonomia e dependência se esvaziam de seu caráter antitético e a complexidade assume o paradoxo da circularidade recursiva; na mesma direção, há que se fazer menção a Maruyana (Maruyana in Bauer, 1999) quando, se referindo à causalidade circular, supera a linearidade da noção de causa e feito no sentido de que causas são retroalimentadas por efeitos, donde as conformações passam a ser sistemas cujos produtos são necessários à sua própria produção.

Chamlat e Seguin-Bernard (Chamlat & Seguin-Bernard, 1987), acreditam que a adoção da complexidade seria uma via de reedificação da teoria organizacional, classificando-a em dois paradigmas: o funcionalista, que cuidaria da integração, do consenso e da ordem e o crítico que trataria de mudança e desordem mas, sempre atentos, para as

noções de ambigüidade, incerteza que, definitivamente, acreditam eles, se impõem a todo o fenômeno organizacional.

Em quase todos os quadrantes dos estudos organizacionais flexibilidade, criatividade, vêm superando o simplismo mecanicista das antigas noções de eficiência e começam a

impor uma mentalidade organicista que, com bastante gradualismo, está ultrapassando a pecha dos modismos inconseqüentes já que, enquanto enunciador de uma visão científica de mundo, ele de muito extravasa os míopes limites dos fazedores de moda na administração, ou seja, dos “consultores bem palestrantes” ainda que, num primeiro instante, o Paradigma forneceu-lhes material de subsistência pela impactação gerada pelos seus princípios.

Segundo Serva (Serva, 1992), apenas pelo foco auto-referencial é que, doravante, será possível o entendimento das organizações em sua clausura organizacional, em sua crescente complexidade.

A luta contra o anacronismo, nessa nova visão organizacional deve, mais do que aceitar, provocar uma involuntária indeterminação no sistema; será, na fronteira do caos, (Bauer,1999) que a organização produzirá, de um lado, o equilíbrio necessário à sua rotina, de outro, o desequilíbrio vital à inovação; será a convivência espontânea com os sistemas caóticos que, em confronto mortal com o planejamento e o controle, passarão a determinar a sobrevida das organizações segundo essa nova ótica.

“As organizações tem necessidade de ordem e de desordem. Num universo onde os sistemas sofrem o aumento da desordem e tendem a desintegrar-se, a sua organização permite reprimir, captar e utilizar a desordem.” (Morin, 2001: 129)

E será, o mesmo Morin (Morin,1996) que acusará à burocracia, à obcecação de controles, bloqueios e engarrafamentos, fenômenos parasitários e paralisantes da dinâmica vital auto-poietica, justificadores da lógica da Complexidade pela sua

incondicional tolerância à desordem: conceitos, ainda hoje, de difícil penetração no universo gerencial, onde a idéia de ordem está profunda e inconscientemente entranhada no conceito de hierarquia e esta, ao de poder, gerando a dificuldade, na práxis organizacional, de se pensar em hierarquia entrelaçada, acaso organizacional e outros “paradoxos” da Complexidade que, mais do que provocar mudanças, têm explicado as transformações ocorridas na essência das estruturas de poder organizacionais que, rebeldes às antigas teorias, transformaram-se ao seu arrepio.

Morgan (Morgan, 1996), falando do princípio da mínima especificação crítica

prescrevendo que se deve buscar o mínimo essencial para o desenvolvimento de determinada organização – coloca a compreensão de que todo o controle, até o aprendizado auto-organizante, é um ato político e a delegação é parte indissociável da auto-poiese; e o poder, nessas condições, só pode existir enquanto derivação da autoridade, ou seja, o poder delegado, consentido, o que, por sua vez, reabre sob uma ótica renovada, a antiqüíssima questão da horizontalização e verticalização do poder nas organizações.

Como traço emblemático das dificuldades gerenciais de aceitar essa realidade complexificante, temos as políticas norteadoras dos departamentos de recursos humanos, filhos preteridos da gestão, onde predominam, grosso modo, forças padronizantes e despersonalizantes que reduzem diversidade e variedade, normalmente, a fatores mercadológicos de divulgação de uma imagem “politicamente

correta” e que, enquanto variante, nos proibimos de prosseguir mas que não perde seu valor indicativo para o tema.

Ainda Bauer (Bauer,1996) em sua “abordagem caótica”, traz uma interessante análise de outro polêmico binômio, generalização X especialização que, desde os primórdios da Revolução Industrial, tem tido um dos mais ortodoxos tratamentos afinal, “tudo é especialização” ou, nem tanto: a partir da aceitação de que a auto-construção organizacional assenta-se, também, na obtenção da variedade, da pluralidade enquanto matérias-primas essenciais à flexibilidade, a presença da redundância surge

numa intensidade nunca antes admitida nos domínios da eficiência uma vez que, é ela que a propicia: pelo treinamento de funcionários em tarefas que não as especificamente suas, é que se constrói o potencial de enfrentamento do imprevisto; pela multiplicidade de indivíduos e visões diferentes de situações organizacionais complexas é que se armazenam as soluções inovadoras; em tais casos, a especialização estrita é fator de esterilização dos potenciais de reação da organização ao novo, fazendo com que as partes sejam, no máximo, somadas e esvaziando-se toda a capacidade sinérgica. Aliás, essa multifuncionalidade é, também, outro dos fatores mais subterrâneos e menos confessados de resistência das estruturas conservadoras de poder.

A título de comentário, quase compulsivo do acima afirmado e já que é muito difícil silenciar o educador, lembramos o quão resistente é a noção de que o mundo é, apenas, dos grandes especialistas: emblematicamente encontramos, nas estruturas

curriculares do ensino superior de administração, um grande número de instituições que, ao arrepio mesmo da orientação dada pelo Conselho Federal de Administração para a reforma curricular de 1995, se valendo da “cultura do especialista-mecanicista” subjacente, criam especializações em seus programas de graduação, para uma faixa etária e objetivos pedagógicos discutíveis, para vender modernidade; e, do outro lado, Bauer (Bauer,1999), ao falar da organização auto-poietica, frisa a importância dela investir em estoques de conhecimentos genéricos e habilidades diversificadas.

Também de caráter desconcertante dentro dos ajustes provocados pela Complexidade nos estudos organizacionais, é a afirmação de que ambientes e sistemas fazem-se reciprocamente. Tomando por outro ângulo, a Teoria da Causalidade Circular, retira do

ambiente o papel hegemônico e determinístico de transformação que, por sua vez, se torna um prolongamento externo da organização; assim, quem geraria a organização seria a própria identidade dela que, por sua vez, só poderia ser conservada nesse mutualismo dinâmico; tal dinamismo que, doravante, gera um impasse novo uma vez que identidade sempre se constituiu em mecanismo imobilizante, já que ligada a um passado de êxitos, presa “ao que deu certo”. Tal revalorização da identidade reforça, a fortiori, por sua vez, a importância que a cultura organizacional readquire no novo "paradigma" ao reiterar que o que a organização necessita para se autoconstruir está nela mesma, está no seu conhecimento de si e que é produto de regularidades

observadas pela experimentação de forma cumulativa e validada com as estruturas de referência consagradas e cujas representações do ambiente externo lhe conferem

significado; nesse difícil e sutil mecanismo de contrapesos entre tradição e renovação e que aparece como outro inicial paradoxo, reside o potencial de sobrevivência da maior parte das modernas organizações que balançam, perigosamente, entre as ameaças de reengenharias modernizantes e descacterizadoras de suas culturas e o imobilismo comatoso do tradicionalismo que vitimou muitas corporações sólidas.

Ainda que os últimos tempos tenham sido marcados por muitas iniciativas e estudos nas áreas da aprendizagem e, de forma correlata, da cultura da organização e de forma significativa nas iniciativas das universidades corporativas, nos perguntamos o quanto tais ações poderiam estar marcadas pelos produtos da consciência da Complexidade e o quanto, num espaço muito menos audacioso, haja vista conteúdos e grades curriculares das referidas universidades corporativas, não seriam programas mais sofisticados de treinamento e que não facilitariam o "desejado" movimento auto-renovador nos quais a verticalidade da ação impediria com que as ondas da realidade interagissem com o maior número de observadores (Wheatley, 1992); lembrando que, se falamos de cultura organizacional, inferimos o processo de conhecimento enquanto resultante do trânsito coletivo dos dados da organização o que, ante os novos recursos, é um de nossos focos:

“Para que um sistema funcione, as informações não são suficientes, é necessário que elas levem uma sensação compartilhada. A consciência da finalidade é indispensável, tanto para elementos de base como sobre a totalidade”.(Genelot, 1998: 183).

Nunca é demais lembrar que a pouca linearidade destes tópicos, de descosida apresentação da Complexidade, foi resultante não apenas do atendimento às nossas

necessidades específicas no trabalho, tanto quanto, é forçoso declarar, da própria dimensão do paradigma para a qual não tivemos nem a pretensão, nem a competência de uma síntese mais coesa e coerente, fazendo-nos, o mais possível, próximos de nossos guias na “letra da lei” o que, no entanto, não impediu de incentivar um certo arrojo:

“Vai-se tentar aqui um discurso multidimensional não totalitário, teórico, mas não doutrinal (a doutrina é teoria fechada, auto-suficiente, logo insuficiente) aberto para a incerteza e a ultrapassagem; não ideal/idealista, sabendo que a coisa nunca será encerrada no conceito, e que o mundo nunca será aprisionado no discurso”.(Morin, 2001: 73).