CAPÍTULO 2- VIRTUALIDADE, COMPLEXIDADE E COMUNICAÇÃO
2.1 O Universo virtual e a complexidade
Para podermos dar conta da tarefa de pensar a comunicação feita através dos multimeios e das conseqüências disto, há que buscarmos subsídios para, ainda que sempre de forma ampla, compreender as novas realidades criadas pela convivência simbiótica com as TCI.
Falar em universo virtual é uma outra forma hiperbólica e didaticamente necessária de se tratar de um aspecto deste momento histórico que já se chamou de Segunda Revolução Industrial e que seria marcada pelo advento das TCI e de seu espraiamento a todas as esferas da vida humana o que, também, permitiria falarmos em uma "sociedade informacional"; sociedade onde tanto a vida pública quanto a vida privada estariam cobertas por alguma forma de inteligência artificial (Schaff, 1996) e onde a totalidade de relações sociais que formam os sistemas de vida foram atingidas e modificadas.
A radicalidade dessas transformações é tão aguda que enseja reflexões outrora passíveis de serem taxadas de insanas mas, agora, merecedoras de atenção: avalia-se a possibilidade do aparecimento de uma sociedade sem a classe trabalhadora pela plena
automação da linha de produção o que demoliria quase que a totalidade das teorias políticas remanescentes dos escombros da modernidade gerando reações que, por si só, já denotariam uma das singularidades deste tempo ímpar:
"Contudo, isto se deve exclusivamente às características conservadoras do nosso pensamento, quando não - para piorar as coisas - ao mecanismo da cognitive dissonance, um mecanismo que torna a mente humana impermeável às verdades novas nos casos de conflito entre a ideologia que se defendeu até aqui e os fatos que a refutam, conflito que não pode ser resolvido recorrendo-se a argumentos racionais”.(Schaff, 1996: 42, 43)
À citada postura de negação apriorística é sempre necessário se colocar sua antítese hoje mais freqüente e não menos danosa, a "tirania do novo", tão paralizante e nociva quanto a anterior já que ela obriga a mudanças de origem exógena à organização e à própria existência privada, devendo ser assinalada como outra marca da nova história também ela de efeitos pouco avaliados pela sua extensão, custos materiais e humanos.
Da mesma forma e voltando-nos um pouco mais para o nosso foco, mas ainda tratando de grandes traços da questão, lembraríamos que essa reformulação social criada pela inteligência artificial gerou uma nova estrutura social pela posse da informação no seu sentido lato, que não deixa de ser o novo meio de produção e, portanto, fonte de poder: neste ponto, parece que a sensibilidade tanto da academia, quanto do mercado, já percebeu aí, de há muito, o núcleo de uma massa crítica de essencial importância, conferindo-lhe atenção e cuidado mas, da mesma forma, é interessante, ainda que inoportuno, notar como a "questão ideológica" dessa nova arrumação social limita e compromete as análises no que se referem ao universo organizacional.
Reações, de toda a origem a essa "nova ordem" devem ser entendidas quando se percebe que conceitos, milenarmente humanos e estáveis, foram subvertidos; as noções de tempo e espaço, parâmetros que nortearam a essência do devir humano, que tiranizaram e desafiaram milênios de trabalho passam, quase que por um estranho encantamento, a ter outras dimensões e a determinarem o ser humano também de forma diversa:
“Recortam-se o espaço-tempo clássico apenas aqui e ali, escapando a seus lugares comuns realistas: ubiqüidade, simultaneidade, distribuição irradiada ou massivamente paralela. A virtualização submete a narrativa clássica a uma prova rude: unidade de tempo sem unidade de lugar... A sincronização substitui a unidade de lugar, e a interconexão, a unidade de tempo. Mas, novamente, nem por isso o virtual é imaginário" (Morin, 1996: 21)
Nesse mundo virtualizado se opera, bem mais do que a decantada e discutível globalização anunciada nos anos sessenta, o advento de uma cultura que migra pela rede e que se faz total mas não-presente, que está conosco mas está muito longe ou nem se sabendo onde: tudo isso é minimamente assustador para nós, herdeiros dos horrores de um já longínquo Holocausto, submetidos ao contato com jovens que conversam numa língua que não é a sua , com outros jovens que, também, não falam em sua língua nativa e que, tanto uns quanto outros, desconhecem o espaço geográfico não mais tão significativo, pois relativizado, onde está seu interlocutor. Assim, nasceu, em nós "mais velhos", a necessidade de desenvolvermos uma habilidade intelectual presente nas novas gerações, a de intercambiar as diferenças, de fazê-las dialogar apesar de antiqüíssimas discrepâncias e antagonismos (temporais/espaciais/ideológicos...), de se compor não mais um novo todo, uma nova
unidade, mas uma infinidade de todos tão diversificados quanto, talvez, cada indivíduo que se perceba como tal:
“A multiplicação contemporânea dos espaços faz de nós nômades de um novo estilo: em vez de seguirmos linhas de errância e de migração dentro de uma extensão dada, saltamos de uma rede a outra, de um sistema de proximidade ao seguinte. Os espaços se metamorfoseiam e se bifurcam a nossos pés, forçando-nos à heterogênese."(Morin, 1996: 23)
Se os poucos acima mencionados corolários desse universo virtual já seriam mais que suficientes para exaurirem as possibilidades epistemológicas de outros paradigmas menos flexíveis que o da Complexidade solicitamos, ainda uma vez mais, espaço para uma pequena, mas emblemática reflexão a respeito desse ser humano nascido sob o signo informacional e designado por geração y. Tais indivíduos seriam marcados por uma completa integração com a inteligência artificial, desde o processo de socialização primária, através de jogos e vídeos, até à própria alfabetização. Assim, quando falamos em organizações complexas, quando nos debruçamos sobre as possibilidades da comunicação, não há como deixarmos de lado as questões concernentes aos agentes dos processos.
Apontaríamos uma única questão sobre essa geração y suficiente para abrir, ao menos, uma grande linha de conjecturas: será que essa íntima e intensa convivência com o texto informacional, o hipertexto, não estaria, ou mesmo já teria, provocado o nascimento de, quiçá, uma "lógica nova" ou, ao menos, uma corruptela das antigas condutas de pensamento e, por conseqüência, expressão? O texto linear antigo “, da esquerda para a direita, de cima para baixo, obrigava a um tipo de raciocínio e de sua
adequada comunicação. Agora, a relação do leitor com o hipertexto é fragmentada, é não linear pelas possibilidades inigualavelmente amplas (mas previamente limitadas) de interação com o mesmo; essa não-linearidade nos remete à essência mesma do modo de ser do entendimento, surge a possibilidade de uma nova hermenêutica, sua navegação caleidoscópica e instantânea permitiria uma visão do todo mas do todo de cada um ou sempre do todo de seu desenhista? Essa coexistência teórica do macro e do micro no hipertexto, essa polifonia das interfaces, sua multiplicidade de encaixes das escalas faz ressaltar sua característica fractal, uma estrutura reticular que enseja a construção de redes dentro de redes ad infinitum em tese sem qualquer centralização. Se como quer Lévy (Lévy, 1998) o hipertexto está repleto de condições que possibilitam a valorização da inconsciência; se Vannevar Bush (criador do analisador Diferencial, 1930) (Bairon,1995: 138) partia do pressuposto de que o raciocínio humano não funciona por hierarquias de palavras classificadas em organogramas conceituais mas por variadas associações que percorreriam uma complexa rede de trilhas desconexas de representações, não estaria o hipertexto, a hipermídia ou multimídia interativa, como se queira, provocando uma revolução subterrânea e silenciosamente expressiva no modo de como as pessoas estariam se comunicando ou deixando de conseguí-lo? Não estaria a artificialidade da leitura, que sempre foi um fator de dificultação da comunicação entre os mais e os menos letrados, ganhando conotações efetivas de complexidade? Ainda uma vez, necessitaríamos de um viés da qualidade e da flexibilidade da Teoria do Caos para podermos encaminhar tais perguntas a um "horizonte equacionador" e que foge aos nossos limites aqui.
E finalizando, dentro das limitações propostas, e pela magnitude do quadro compósito e inextricável virtualização/complexidade, trazemos a questão profundamente complexa, pois ideológica e apaixonante, das potencialidades redentoras/apocalípticas das atuais técnicas de comunicação que, se para alguns, poderiam significar uma redefinição antropológica da humanidade ao permitir que, nações inteiras, se integrassem aos coletivos inteligentes a partir da queda completa dos mecanismos de restrição e acesso às informações e à comunicação; considerando, por conseqüência, que a rapidez dessa transformação teria enfraquecido, pela burla inconsciente, a própria essência do poder estatal, o controle e, portanto, estabelecendo a semente de uma possível nova ordem mundial. Para outra linha de interpretações não menos possíveis mas, certamente, menos estimulante pelo seu amargo conservadorismo pessimista, surgem perguntas sobre as limitações e conseqüências da exclusão digital; aparecem notícias sobre as muito sofisticadas e eficientes formas de invasão e controle da privacidade; retoma-se a desconfiança do que se disponibiliza na rede, de quem disponibiliza e para que o faz. E, quando os Estados Unidos reconhecem assustados que um grupo de jovens , com PCs quase domésticos e parcos, usaram a rede para operar o desastre de 11 de setembro, quer seja, quer não seja verdadeiro, a partir daí, a rede não mais será igual pois, longe do que pensávamos, já era muito diferente e, complexificante e uma nova ordem poderá surgir do apocalipse ou ele mesmo ser a nova ordem.
E é nesse muito mais amplo e inseguro panorama que se deve, não apenas, repensar a trajetória das organizações mas de sua essencial matéria-prima, o ser humano, agora muito mais do que renovado, transmutado e transmutador.