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PROCESSOS ADMINISTRATIVOS MAIS COMPLEXOS

3.4.7 Análise final dos dados

Na análise mais restrita do caso estudado, algumas conclusões já nos permitiram entrever possibilidades de, mais adiante, no fechamento da dissertação, fazer confluir nossos pressupostos teóricos com os dados concretos obtidos na análise deste caso.

Assim foi que, de forma bastante conclusiva, ficou claro que, desde a arquitetura, até a implantação de um espaço virtual de comunicação organizacional, as dimensões novas por ele criadas, seus principais efeitos e, sobretudo, seus desdobramentos humanos, não apenas ficam ofuscados para seus atores pelos poder imagético da modernidade

pressuposta e implantada como, também, se olvida a importância de tais modificações na cultura organizacional já que, mudança tecnológica e mudança de clima ou de estruturas informais, aparecem como universos paralelos e distantes: nos despertou especial cuidado o fato de que, uma das ferramentas de informalidade designada no portal como comunicador, olvidada propositadamente nas questões oferecidas, não foi objeto de nenhuma menção: tal espaço que, por vocação manifesta, seria uma sala de bate-papo, sem quaisquer controles, acabou por se transformar num mecanismo de verificação de presenças uma vez que indicadores assinalam se o interlocutor buscado se encontraria ligado na rede e que, num movimento previsível mas muito amplo e forte, tem sido utilizado como "índice de adesão às mudanças" pela rádio peão que fez questão de se colocar no ar para comentar a pesquisa:

“Cada um em sua escala, os atores da comunicação ou os elementos de uma mensagem constroem e remodelam universos de sentido. Chamaremos estes mundos de significação de hipertextos”.(Lévy, 1997: 25)

A reclamação por mais espaço e mais habilitações na rede é um fator que aponta em direção oposta àquela mencionada pelo setor acima citado de limitar e controlar o meio: parece que a intranet, para a parcela maior da média administração, se estadeia como uma ferramenta que atende aos anseios pessoais e profissionais e que, numa latência insuspeitada e instigante permite um novo universo de relações e conexões:

“A era de relações requer, por sua vez, uma nova ecologia cognitiva, traduzida na criação de novos ambientes de aprendizagem que privilegiem a circulação de informações... Uma nova ecologia cognitiva significa uma nova relação com a cognição, com o conhecimento, com os outros, uma nova dinâmica nos processos de construção do saber, que esclareça a existência de relações entre diferentes organismos, que indique que tudo que existe, coexiste e que nada existe fora de suas conexões e relações”. (Moraes, 1997: 27)

Analisando o efeito da multiplicidade e riqueza das telas do portal e das informações nelas contidas, a possibilidade de visão do todo organizacional, conferiu aos estratos operacionais uma segurança de conhecimento que, ainda que menor do que a acusada, nasceu dessa dimensão panorâmica agora obtida a que somaríamos, enquanto parcela olvidada, a "ilusão mágica" da modernidade tecnológica informacional e sua insuspeitada capacidade de atrofiar o senso crítico: isso fica muito nítido na dificuldade dos usuários de perceber que, junto com o fascínio e as facilidades, existem tarefas exaustivas e severos controles. Em contraste com liberdades jamais imaginadas, podem haver mecanismos constantes e intangíveis de dominação.

Também confirmando esse embotamento de consciência, a clara e aceita simplificação do padrão de comunicação formal como fator chave de modificações, ou é desconhecida ou sufocada pela dinâmica dos fatos, haja vista que se mencionam todas as "novas facilidades" mas se olvidam, liminarmente, outras tão importantes conseqüências: seria de se imaginar que, os níveis mais esclarecidos, devessem ter dado um pouco mais de atenção para a "silenciosamente eloqüente" revolução que se operava nos canais institucionais de comunicação e que, os níveis operacionais, apesar de mais atingidos pelo concreto das mudanças, se dessem conta da imensidão de novas possibilidades de trabalho e vida oferecidas.

Há que se mencionar, recorrentemente, a sensibilidade de um segmento da administração intermediária que, entrevendo o potencial de mudança contido na

intranet, numa indisfarçável e honesta postura autoritária, pede mais controles na administração do portal: tal apelo veio de um setor que usa intensamente o meio analisado e, assim, nos fornece rico subsídio para reforçar nossas crenças nas possibilidades inimaginadas do espaço virtual.

Por fim, após uma releitura muito detida das aparentes contradições encontradas, dos silêncios inexplicados, das ignorâncias insuspeitadas, surgiu aquela que nos pareceu a maior descoberta do nosso estudo e que, como tudo o que é evidente, deixávamos passar quase desapercebida. Um dos traços mais marcantes da estrutura organizacional da Fundação F e que se cristalizou num longo processo de cinqüenta anos, foi um mal disfarçado isolacionismo entre unidades acadêmicas, departamentos, institutos e outras formações administrativas, provocado por um crescimento alheio a planos estratégicos que atendeu, ou às necessidades de sobrevivência, ou a projetos isolados mal cosidos à administração central da Mantenedora. Tal arquipélago organizacional, evidentemente, consagrou feudos e seus respectivos senhores que foram definindo fronteiras pela mais secular das formas, o poder que derivava da importância político-financeira dos serviços prestados pelo seu setor. Nesse contexto acontecia, em igual proporção, uma comunicação nos mais antigos padrões burocráticos da "papelocracia" que, aqui, era represada, ali, fluía mais célere sem nenhum problema, não fosse o fato de que o mundo exterior já havia transitado para os info-meios. Assim, por mais democrática que pudesse ter sido a implantação do portal corporativo, essa abertura da comunicação para o todo da organização trouxe, em seu âmago, a pouco definida sensação de invasão que apenas um dos gerentes pesquisados acusou. Daí, o que poderia parecer

reação à verticalidade do processo foi, opostamente, reação à abertura democrática das comunicações e, por extensão, dos espaços organizacionais a todos os "habilitados" que, na maioria dos casos, não eram "agregados da gleba" e que passaram a transitar com uma insuportável impudência, se comunicando direto com os "chefes", sabendo de aniversários e "eventos particulares". Tais constatações demandariam estudos posteriores no sentido de se circunscrever e entender as grandes linhas de alterações provocadas na cultura da organização por esse processo de "desenfeudização" comunicacional que, em essência, seria o desdobrar necessário deste estudo.

Será que as novas modalidades de "informalismo eletrônico" acelerarão, ainda mais, pela sua sofisticação crescente e, conseqüente complexidade de símbolos e códigos, os diferentes níveis hierárquicos? Será que as "novas estruturas informais" estabelecerão barreiras mais resistentes porque mais constantes e elaboradas?

“... as futuras equipes de arquitetos cognitivos não irão construir novas cidades em campo aberto para indivíduos sem história e sem passado... Estes arquitetos deverão partir de modos de interação em vigor nas organizações os quais diferem de acordo com os locais e as culturas” (Lévy, 1997: 53).

Concluindo, a análise final nos permite afirmar que o constructo atingiu aos desígnios iniciais uma vez que nos permitirá, não apenas um conhecimento mais efetivo da organização analisada, bem como o encaminhamento teórico no sentido de corroborarmos algumas das hipóteses inicialmente oferecidas e subsidiarmos indicações para outros trabalhos conforme acima apontado.