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A CIDADE | A URBANIDADE

No documento São Paulo (páginas 57-69)

CAPÍTULO 1 | O CONTINENTE

1.4. A CIDADE | A URBANIDADE

Urbanus. Urbano. Relativo ou pertencente à cidade.

Urbanitas. Urbanidade. Qualidade do que é urbano. Civilidade. Afabilidade.

A cidade deriva da relação estabelecida entre o indivíduo e a natureza. Esta conexão,

cujo domínio é pertença do sujeito, não só amplifica esta supremacia como também

desenha as interpretações e os sentidos que o indivíduo é capaz de construir e que se

consolidam como o repertório de leitura do seu contexto (Carlos, 2015).

Resulta também da perspectiva, por meio da qual, o sujeito constrói este vínculo, o que

rege a forma como se dará o processo de entendimento e de explicitação de seu

entorno.

Fruto do processo de sedentarização (imaginação e articulação) dos indivíduos que é,

quando estes determinam uma nova relação com o espaço habitado a cidade passa a se

consolidar por meio da articulação dos processos de reprodução e produção do espaço

urbano (Rolnik, 2015).

A reprodução do espaço urbano, em termos da geografia, diz da capacidade de

materialização e acumulação. Reproduzir o espaço é efetivar a vida cotidiana. Tal

vínculo, diretamente relacionado à renda, ou seja, a capacidade econômica do

indivíduo, decreta a sua forma de estar no espaço urbano, seja em termos da localização

de sua moradia, da forma como é essa moradia e, sobretudo, onde está inserida essa

moradia.

A cidade, enquanto mercado, surge, em proporção direta à aglomeração de pessoas

que, por consequência, fomenta o locus que fomenta a mútua colaboração e troca,

regulando demanda e produção (Rolnik, 1988).

Em termos unitários é prover.

Em termos coletivos, prever e organizar.

Em termos unitários é o processo colaborativo.

Em termos coletivos, a especialização.

Em termos unitários é local, circunscrito.

Em termos coletivos, a expansão e a articulação.

Em termos unitários é sobrevivência.

Em termos coletivos, o mercado.

Coexistindo com a prática acumulativa está a dimensão humana que, ao contemplar o

desenvolvimento do indivíduo em toda a sua transversalidade, encerra, obviamente, um

paradoxo que, nas palavras de Carlos (2015), constitui um conglomerado de

significações contrastantes.

Já a conceituação de produção do espaço urbano transcende a abordagem exclusiva da

“concentração do processo produtivo” (CARLOS, 2015 p. 26), e, numa perspectiva de

maior amplitude, contempla o:

Momento histórico, não só que se refere à determinação econômica do processo (produção, distribuição, circulação e troca) mas também às determinações sociais, políticas, ideológicas, jurídicas, que se articulam na totalidade da formação econômica e social (CARLOS, 2015 p. 27).

O desenvolvimento desigual que está na origem da segregação que, por sua vez, deriva

dos formatos de apropriação, acontece a partir das relações pessoais e do

desenvolvimento do coletivo, da sociedade.

A consciência do conjunto, resultado dos processos sociais, se dá em determinado

momento histórico apresentando como contexto a altercação entre aquilo que é bom

para o fortalecimento do capital e aquilo que é bom para o coletivo.

Deste conflito resulta a identificação individual enquanto parte integrante daquilo que

se convencionou chamar de classe e que caracteriza, justamente, a distinção entre as

muitas existentes.

Na luta, na possibilidade da troca, de mudanças de transformação da vida cotidiana há a identificação com o outro, criam-se laços de união e solidariedade entre as pessoas envolvidas, e com isso, a consciência do coletivo como base de qualquer movimento social. (CARLOS, 2015 p. 30).

Para Carlos (2015) é de fundamental importância o entendimento que “a classe se

produz pelos homens ao viver sua própria história, as classes não existem

independentemente das relações e lutas históricas”. Na perspectiva da autora o espaço

enquanto unidade autônoma não existe posto que, a sua produção não prescinde

daquilo que resulta do coletivo, da sociedade.

O espaço é reproduzido em decorrência daquilo que é social e histórico, daquilo que é

a “forma de ocupação e/ou utilização de determinado lugar (...). A reprodução do

espaço (urbano) recria constantemente as condições gerais a partir das quais se realiza

o processo de reprodução do capital, da vida humana, da sociedade como um todo”.

(CARLOS, 2015 p. 30).

Além de contemplar o processo de produzir e consumir, agir e pensar, ver e sentir, entre

tantos outros, o espaço é dinâmico (em função de todas as construções ali consolidadas)

e, além de se consubstanciar em termos do indivíduo e, posteriormente, em termos da

coletividade, passa a existir fora do sujeito, enquanto produção social real (Carlos,

2015). O protagonismo do sujeito, “ser social agente da vida econômica e da produção

do espaço, que tendo por base as relações sociais, realiza profundas modificações no

quadro econômico-político e social” (CARLOS, 2015 p. 32).

Nesta perspectiva o espaço se materializa enquanto obra do sujeito e esta obra é, ao

mesmo tempo resultado e modus operandi, do próprio sujeito e, portanto, o “espaço é

um produto social em ininterrupto processo de reprodução” (CARLOS, 2015 p. 32)

Além da condição política fica patente também que a cidade se constitui, em essência,

enquanto construção coletiva. O coletivo, enquanto reunião de unidades, em termos

urbanos, fala do indivíduo e da massa. O indivíduo está relacionado com a ideia de

fragmento de uma totalidade. A massa, diz de um conjunto compacto de cidadãos,

permanentemente dirigidos e organizados em seus fluxos, desde o semáforo, que

sistematiza o trânsito, passando pelos horários de funcionamento das instituições, entre

tantos outros (Rolnik, 1988).

A regulação dos fluxos é uma constante urbana. É o que orquestra a

justaposição/sobreposição das várias unidades que efetivam a cidade e que se

evidencia, enquanto essência organizacional, quando estabelece a polaridade

permissão/proibição.

A convivência urbana fala dos muitos indivíduos cuja coabitação faz reverter múltiplos

unos em coletivo. Fala do conjunto.

Esta convivência faz coexistir o indivíduo e tantos outros distintos dele. Aquele que fora

do indivíduo, espelha o próprio, seja pela similaridade, oposição, alinhamento,

dissensão, entre tantas outras possibilidades, encontra aporte no conceito do Outro. “A

definição de nossas identidades envolve um movimento de reapropriação:

reconhecer-se através do reconhecimento das características e idiossincrasias que constituem o

Outro como Outro” (AGUIAR, 2012 p.44).

É o alinhamento nos posicionamentos, ou a falta dele, que diz de uma coexistência

pacífica ou tensionada. A primeira contempla a convivência entre similares onde está

presente um denominador comum e um alinhamento conceitual; já na segunda, a

distinção dos posicionamentos, pode fazer coexistir as diferenças ou estar na origem de

conflitos e embates.

Trata-se da contraposição entre urbanidade e a tensão, como refere Aguiar (2012).

A urbanidade define o espaço de convivência ideal.

Já a tensão, derivada que é da distinção social, de seu sistema de classes e,

consequentemente, da produção de contextos socioeconômicos que apartam e

distanciam, propicia a consolidação do “campo social” (Bourdieu, 1989 apud Aguiar,

2012 p. 45). Espaço que abriga o embate, o campo social em Bordieu (1989), diz de uma

cidade que não se restringe ao somatório das unidades que compõem o coletivo, posto

que a resultante desta interação, a interface, também influencia e caracteriza este

campo de ação, o espaço urbano.

Enquanto conceituação, a Teoria do Campo, desenvolvida por Bordieu (1989), refere

que a distinção, e, sobretudo, a pluralidade, dos indivíduos, constitui um leque de

oportunidades, denominado pelo autor de “forças” e, por meio de distintas

intensidades, qualidades e posicionamentos, determinam múltiplas interfaces, com

capacidade de articular estratégias de ação.

Abordar o tema do urbano e, sobretudo, a sua qualidade, em uma perspectiva

preliminar, pode fazer com que se estabeleçam conexões, em exclusivo, com a

infraestrutura de uma cidade. Esta perspectiva, estritamente funcionalista, diz de uma

abordagem necessária, como é óbvio, mas, de forma alguma suficiente.

Conhecida como urbanidade a qualidade de vida na cidade, a par da óbvia relação com

o urbano, em termos semânticos, elenca uma série atributos que definem o espaço

citadino.

A cidade é o equipamento, a via, o meio de transporte, o serviço, o edifício, a

propriedade. É também, a forma como este conjunto é utilizado. Da intersecção entre o

cidadão e tudo quanto a cidade oferta resulta uma experiência que, podendo ser

positiva, negativa ou neutra, diz da qualidade da interface.

Parte desta interface, que decorre da interação, é passível de ser mensurada.

No entanto, outra parte significativa, não se tangibiliza.

É imaterial, mas, carrega em si, a potência que só os encontros, ou confrontos, podem

determinar. É a forma como as relações são construídas.

Durante um longo período, a abordagem da temática urbana era incompatível com

palavras tão etéreas como afetividade, experimentação, criatividade ou coletivo.

A tecnicidade urbana, por razões óbvias, estava próxima de vocábulos mais objetivos

(quiça, pragmáticos). Planejamento, plano, projeto, programa, licença, protocolo, são

algumas delas.

A qualidade da infraestrutura ofertada pela cidade estabelece experiências. Domínio da

química, a experiência, enquanto método científico (o experimento), insere-se também

no domínio da filosofia enquanto resultante do processo de interação que, neste caso é

sensorial. A experiência é, portanto, uma aquisição intangível obtida por meio dos

sentidos.

Vocábulo usual, também, da área da comunicação, a experiência é usada aqui enquanto

vivência cotidiana urbana na perspectiva da tessitura da interação, ou seja, da interface

entre cidadão e cidade.

Bonsiepe (1997), discorrendo sobre a atividade projetiva voltada, em exclusivo, à forma,

propõe um diagrama tripartido e que contempla: o domínio do usuário, o domínio da

tarefa a ser executada e o domínio da ferramenta, por meio da qual, o usuário efetiva a

sua ação. Para o autor, somente em face do acoplamento dos três domínios é possível

atingir o objetivo, a efetiva ação. A resultante do acoplamento recebe o nome da

interface.

Temos que levar em conta que interface não é uma "coisa", mas o espaço no qual se estrutura a interação entre corpo, ferramenta (objeto ou signo) e objetivo da ação. É exatamente este o domínio central do design. A interface revela o caráter da ferramenta dos objetos e o conteúdo comunicativo das informações. A interface transforma objetos em produtos. A interface transforma sinais em informação interpretável. A interface transforma simples presença física (Vorhandenheit) em disponibilidade (Zuhandenheit) (BONSIEPE, 1997 p. 12)

Para o autor, cuja área de atuação e reflexão é o design, este não se limita à tangibilidade

de produtos e artefatos. A perspectiva tradicional de sua interpretação como forma,

função ou estilo há muito que não diz de sua real extensão: "o domínio da ação efetiva"

(BONSIEPE, 1997 p. 16). E acrescenta ainda, buscando aporte em Maturana (1990) e no

seu conceito de acoplamento estrutural, que o âmbito desta efetividade é o corpo, onde

as ferramentas (sejam materiais ou imateriais) deverão ser acopladas afim de que a

efetiva interação possa acontecer.

Quando há um acoplamento estrutural, o processo comunicativo de um sistema aparece no outro não apenas como uma perturbação, mas também como uma ferramenta auxiliar de funcionamento das operações; seu significado, no entanto, vai ser construído apenas dentro do próprio sistema em que foi realizado o processo comunicativo, de forma independente do significado que tinha naquele sistema original. Pelo acoplamento estrutural um sistema "empresta" de um outro sistema, que é visto como parte do ambiente daquele primeiro, as estruturas necessárias para realizar as suas operações. (NEVES, 2005 p. 55)

Há uma relação de ludicidade nesta interação que, em Luckesi (2006), traduziria a

plenitude de determinada experiência. Na classificação aristotélica do homem há aquele

que produz, o Homo Faber; aquele que aprende, o Homo Sapiens; e aquele que cria, no

sentido da criatividade, o Homo Ludens.

Embora, enquanto conceito, esteja intimamente vinculado ao jogo, o lúdico representa,

também, tudo quanto seja prazeroso no desenvolvimento de uma ação, uma atividade,

na interação com os objetos, com o outro.

A experiência prazerosa que está na origem da ludicidade resulta da interação entre

pares.

Esse encontro cotidiano e plural é, na perspectiva de Calliari (2016), a “essência da

civilidade” (CALLIARI, 2016 p. 46). Para o autor tudo quanto é arregimentado para que

os indivíduos coexistam, ainda que se desconheçam, de forma minimamente

indulgente, é o que rege um sistema de normas a que se denomina civilidade. O autor

se vale de Freud para explicitar que esta convivência contempla conflitos cotidianos que

estariam assentes na ideia que o primeiro deles é o interno, ou seja, o embate do

indivíduo com o seu próprio instinto.

Ora, se a própria convivência com outros homens é uma ameaça à felicidade individual, por que então vivemos em sociedade? Para Freud, o “homem civilizado trocou um tanto de felicidade por um tanto de segurança”. Ou seja, a liberdade da vida solitária é teórica; ela tornou-se inexequível diante da ameaças e provações que o homem experimentou ao longo da sua história. (CALLIARI, 2016 p. 47)

A par da sombria perspectiva freudiana, a convivência entre distintos atores, a

pluralidade, induziu o reenquadramento do binômio eu/outro. A construção do eu, em

Freud (1923), contempla o outro, pois, é a partir dessa interação que o contorno do eu

se materializa. A par do impulso sexual e do narcisismo, a transmutação conceitual do

eu se consolida como decorrente do contexto, da realidade, da presença do outro, para

quem o “eu desenvolve respostas e, portanto, comportamentos.

A constituição do espaço público passa pela justaposição entre distintas abrangências:

a escala mínima, da convivência entre os integrantes de um agrupamento de indivíduos

que moram próximos uns dos outros, os vizinhos; passando pela escala mediana que

amplia esse espectro de convivência, como os locais de trabalho e estudos, por exemplo;

até a escala máxima que faz conviver indivíduos que não se conhecem, mas, que

apresentam entre si um denominador comum: seja uma manifestação política, por

exemplo, ou uma reunião na praça para assistir a um show, entre tantas possibilidades.

Todas essas escalas de interação, todos esses fenômenos, resultam em aspectos

simbólicos que induzem e, sobretudo, consolidam a identidade, aquilo que identifica,

que faz a singularidade dos lugares.

A transformação histórica do simbólico urbano é, para Calliari (2016), o que determina

as muitas cidades surgidas ao longo do desenvolvimento humano, mas, sobretudo, faz

perceber o grau de relevância a elas atribuído seja por meio da convivência que propicia,

dos encontros que promove ou das manifestações que faz eclodir.

O panorama da alteração urbana traçado pelo autor dá a conhecer as muitas cidades

seja por meio de certa ambiguidade espacial, no Egito e na Mesopotâmia; passando pela

monumentalidade dos espaços nas civilizações mesoamericanas; pela condição grega

tripartida do urbano – o público, o privado e o sagrado; pela justaposição entre o público

e o privado, no império árabe; pelo o confinamento medieval e pelo protagonismo

adquirido pela forma, na renascença; pela materialização do poder nas cidades coloniais

e barrocas; pela incisão industrial e automotiva na cidade moderna; até, finalmente,

chegar à cidade contemporânea e as muitas camadas que consolidam a sua

complexidade.

O espaço público é feito da convivência, que pode ser positiva ou negativa. A positiva é

a urbanidade. A negativa, o conflito. “Se o conflito é inevitável na história desta cidade,

São Paulo, - entre ricos e pobres, incluídos e excluídos -, talvez estejamos a ponto de ver

um novo conflito nascendo: entre uma aspiração e uma cidade construída”. (CALLIARI,

2016 p. 25)

Espaço público é espaço, no sentido da espacialidade ocupada, e é público, no sentido,

daquilo que é publicado, mas, a extensão de seu significado é pluridimensional, como

refere Calliari (2016), cuja abordagem apresenta ainda, além do aspecto físico da cidade,

os enfoques jurídico e político.

A dimensão jurídica, faz referência ao sentido da posse, portanto da propriedade e do

capital.

E, por fim, o enfoque político, contempla o sentido da polis e da organização,

fundamental para a convivência em sociedade, mas, também, o aspecto organizativo

em termos funcionais.

Para Lefebvre (2016), o indivíduo, a par das necessidades cotidianas, produtos e bens

materiais consumíveis, se constitui também, por meio da atividade criadora, da

realização da obra. E acrescenta a necessidade, igualmente relevante, da informação,

do simbolismo, do imaginário, das atividades lúdicas.

A dicotomia negócio e ócio, na perspectiva de Cacciari (2009), configura um dos muitos

paradoxos contidos na cidade e que surge da aspiração do cidadão, ao mesmo tempo,

deseja a cidade enquanto lugar de encontro, acolhimento e, sobretudo, de

concretização do coletivo, e, por outro lado, enxerga na cidade, a possibilidade de

efetivação do negotia, dos negócios.

Na Grécia antiga o trabalho era considerado um fator de degradação da liberdade

individual. É preciso lembrar que labor (do latim labore) significa fadiga, como refere

Gomes (s/d) e deriva do esforço demandado pelo cultivo agrícola. Também do latim, a

palavra trabalho, propriamente dita, está associada a um instrumento de tortura, o

tripalium, também utilizado no preparo da terra para o plantio, como refere a mesma

autora.

Por outro lado, o ócio, um presente dos deuses, se mostrava como a única forma

possível para atingir a elevação espiritual, fundamental ao desenvolvimento do

intelecto.

Vem deste contexto a polaridade entre trabalho e ócio. Entre negócio e ócio.

Posteriormente, na Idade Média e Renascimento, a moradia servia tanto para morar

quanto para trabalhar, não havendo, portanto, uma divisão entre o espaço laboral e

residencial o que se refletia também, em termos sociais.

A sociedade, ao se transformar em industrial, deixa claro a divisão entre trabalho e lazer

(Thomas, 1964 apud Dias, 2018). Para muitos povos, inclusive, há apenas uma palavra

para definir trabalho e lazer. Porém, para o mesmo autor, esta intersecção entre

trabalho e não trabalho está presente desde as sociedades primitivas.

Com a Revolução Industrial fica especificado a divisão entre atividade laboral e não

laboral, organizando assim, do ponto de vista social, o tempo e a vida do trabalhador

assalariado.

Para Munné (1980 apud AQUINO, 2007) o tempo social contempla o tempo

psicobiológico, o socioeconômico e o sociocultural. O primeiro está relacionado com as

necessidades elementares, o segundo está diretamente ligado com o cumprimento das

atividades cotidianas, incluindo a obtenção de recursos, e a terceira, com aspectos de

sociabilidade.

Paulatinamente, a sociedade industrial vai sendo transformada em sociedade de

serviços, fruto que é, da sociedade do conhecimento.

O período Pós-Revolução Industrial foi marcado por uma profunda referência ao trabalho, tanto na estruturação social como na produção do sujeito moderno. Com a crise da sociedade centrada no trabalho, alguns valores e categorias são resgatados e demandam uma nova caracterização. O domínio do trabalho na estruturação social passa a ser questionado e surgem ideias que colocam o tempo livre, o ócio e o lazer no papel de elementos estruturantes do novo contexto social. (AQUINO, 2007 p. 479)

A cidade, enquanto repositório de objetos que, por sua vez, determinam distintas

interfaces, se materializa por seu aspecto qualitativo e quantitativo. Para Carlos (2015)

fica explícito o processo de avaliação do indivíduo em função da qualidade e da

quantidade de seus objetos, de suas posses. É a heterogeneidade urbana enquanto

produto da desigualdade e hierarquização social, segundo Carlos (2015), refletida que é

na forma distinta de apropriação urbana.

Portanto, a cidade aparece como produto apropriado diferencialmente pelos cidadãos. Essa apropriação se refere às formas mais amplas da vida na cidade; e nesse contexto se coloca a cidade como palco privilegiado das lutas de classe, pois o motor do processo é determinado pelo conflito decorrente das contradições inerentes às diferentes necessidades e pontos de vista de uma sociedade de classes. Como consequência surgem os movimentos sociais urbanos pelo direito à cidade no seu sentido pleno – o habitar e tudo que isso implica, não se restringindo apenas à luta por equipamentos urbanos. (CARLOS, 2015 p. 23)

Num dado momento “a obra do homem parece se sobrepor ao próprio homem e as

formas concretas visíveis escondem o seu real significado: a de obra sem sujeito”

(CARLOS, 2015 p. 12). Para a autora este paradoxo fica explícito quando se pensa na

construção de catedrais e da cidade contemporânea: enquanto a primeira, assim que se

materializa, torna-se pertença de Deus, a segunda está diretamente relacionada à

produção de capital.

Em oposição ao que é anônimo surge a cidade enquanto “palco de grandes

acontecimentos” (CARLOS, 2015 p. 13) e do que é imediato.

Aqui onde o ganho de velocidade é exponencial e a troca de informações, vertiginosa,

torna a convivência entre múltiplos fluxos, descomunal.

Tudo isto tecendo, de forma imperceptível, um mapa preciso e articulado, de perfis e

existências. O controle deixa de ser físico para ser intangível, virtual, e, certamente,

avassaladoramente abrangente.

Ainda que descentralizado, este controle que, procura proteger, também reprime e

domina. É a narrativa urbana que, permeada pelas restrições de materiais e processos

construtivos, ao longo da história, é também, calcada no desenvolvimento social e

econômico construído pelo homem.

CAPÍTULO 2 | A CONTINGÊNCIA

No documento São Paulo (páginas 57-69)