CAPÍTULO 4 | A PESQUISA
4.1. A PESQUISA
4.3. A COLETA DE DADOS
4.4. A ANÁLISE DE DADOS
4.1. A PESQUISA
4.1.1. Indagações indutoras
A presente pesquisa centra-se no rol de iniciativas, de apropriação e transformação
urbana, empreendidas por grupos de indivíduos, por meio de articulação de uma rede
de cooperação, para atingir objetivos coletivos.
Algumas questões (motivaram e) nortearam este percurso:
▪ Existe de fato uma movimentação crescente ou apenas uma maior visibilidade
dessas iniciativas?
▪ É possível traçar um painel onde esteja presente um denominador comum, no
âmbito das movimentações sociais de apropriação urbana que a cidade de São
Paulo tem abrigado nos tempos mais recentes?
▪ Os acontecimentos de julho de 2013 podem ser considerados a gênese parcial
deste novo olhar urbano?
4.1.2. Âmbito
Tendo em vista que o interesse central da pesquisa está vinculado ao surgimento de
iniciativas de inovação social no núcleo central da cidade de São Paulo, foi delimitada
como área de interesse o chamado centro expandido. Com 150 quilômetros quadrados
de área, a região que, também corresponde ao perímetro de rodízio municipal de
veículos:
O Centro Expandido da cidade de São Paulo é uma área da cidade localizada
ao redor do centro histórico, e delimitada pelo chamado minianel viário,
composto pelas marginais Tietê e Pinheiros, mais as avenidas Salim Farah
Maluf, Afonso d'Escragnolle Taunay, Bandeirantes, Juntas Provisórias,
Presidente Tancredo Neves, Luís Inácio de Anhaia Melo e o Complexo Viário
Maria Maluf. Esta região da cidade concentra a maior parte dos serviços,
empregos e equipamentos culturais e de lazer da cidade, assim como a
população de maior renda, salvo exceções. Dentro desta área, vigora desde
1997 uma restrição municipal à circulação de automóveis em função do
número final das placas. Conhecida popularmente como "rodízio", esta
restrição recebe formalmente o nome de Operação Horário de Pico. Desde
2007, as placas de ruas desta região são identificadas por uma tarja horizontal
na cor cinza. (CET – COMPANHIA DE ENGENHARIA DE TRÁFEGO, 2018)29
29
Mapa 1| Mapa do Centro Expandido | São Paulo
Fonte: CET
Disponível em: < https://cadespinheiros.files.wordpress.com/2014/02/1920004_238242983022116_62749102_n.jpg> Acesso em:
01 de dezembro de 2017.
4.1.3. Universo
Foram elencados 23 coletivos que se encontram instalados no âmbito do centro
expandido da cidade de São Paulo e que foram convidados a participar da pesquisa
preliminar.
1. A Batata Precisa de Você
2. ARRUA Coletivo
3. Associação Parque do Minhocão
4. Baixo Centro
5. Casa da Lapa
6. Ciclocidade
7. Cidade Ativa
8. Cidade a Pé
9. Corrida Amiga
10.Coletivo Bijari
11.Florestas de Bolso
12.Formiga-me
13.Horta das Cotrujas
14.Horta das Flores
15.Mão na Praça
16.Matilha Cultural
17.Microtopia
18.Movimento Boa Praça
19.Ocupe e Abrace
20.Parque Augusta: Coletivo Aliados do Parque Augusta
21.Parque Augusta: Organismo Parque Augusta
22.Pimp My Carroça
23.(Se)Cura Humana
Como critério de participação os coletivos deveriam ter:
▪ A sua área de instalação (ou de origem) no centro expandido da cidade de São
Paulo;
▪ Empreendidos e efetivado, no sentido de materializar, ações de inovação social
na mesma área de instalação (ou de origem) e/ou outras áreas sob demanda e
que resultem alterações físicas no âmbito da cidade;
4.2. O MÉTODO
Foi elaborado e aplicado um questionário híbrido com 26 questões (abertas, de múltipla
escolha e sim/não).
Estruturalmente o questionário foi dividido em 6 grandes áreas:
▪ Identificação
A introdução, além da identificação do coletivo, pede que seja indicado o ano de
surgimento do grupo, âmbito (cultural, urbana, entre outros) em que os projetos
são desenvolvidos, área geográfica de instalação da base do grupo e área
geográfica de atuação.
▪ Premissas de Origem e Objetivos
A parte de Premissas de Origem e Objetivos solicita que, em poucas palavras,
seja explicitada a ideia que esteve na origem do coletivo, quais os objetivos
traçados e se o coletivo entende que tais metas foram ou estão em vias de serem
alcançadas.
▪ Ações e Desdobramentos
Foi solicitado que os coletivos compartilhassem os projetos desenvolvidos e/ou
em desenvolvimento e, também, eventuais desdobramentos em curso ou em
fase de desenvolvimento.
▪ Métodos
Este extrato do questionário aborda o método de pesquisa, a elaboração e o
desenvolvimento das ações bem como procura saber se os coletivos entendem
que tais opções metodológicas têm sido adequadas.
▪ Percepção
coletivos acerca das iniciativas colaborativas similares àquelas que os próprios
realizam e se existe a percepção do aumento dessas práticas. Em caso afirmativo,
pede-se que mencionem quais seriam as motivações.
▪ Informações Adicionais
Na parte final do questionário foi deixado um espaço para que os coletivos
pudessem inserir informações que julgassem relevantes e que, por qualquer
motivo, não tivessem sido contempladas no conjunto de perguntas.
Para o efeito foi utilizada a plataforma de formulários eletrônicos Google Forms que,
além de armazenar os questionários respondidos também gerencia os resultados
apresentando o conteúdo de forma individual e global.
4.3. A COLETA DE DADOS
UNIVERSO RESPONDENTE
Dos 23 coletivos elencados, a pesquisa obteve a resposta de 9 deles, perfazendo 39% de
respondentes.
Figura 111 | Questionário | Universo Respondente
Fonte: Google Forms | Elaborado pela autora
São eles:
▪ Associação Parque Minhocão
▪ Cidade Ativa
▪ Coletivo Bijari
▪ Formiga-me
▪ Horta das Corujas
▪ Mão na Praça
▪ Microtopia
▪ Ocupe & Abrace
IDENTIFICAÇÃO
Ano de Instituição
4 dos 9 coletivos foram formados antes de 2013. Os restantes foram formados em 2013
(1), 2014 (1), 2015 (2) e 2016 (1).
Deste universo 33% está formalizado como ONG ou OSCIP
30.
Área de Atuação
O questionário contempla uma pergunta sobre as áreas de atuação dos agrupamentos
com as seguintes opções:
A. Artístico (Produz e replica projetos artísticos dos integrantes/convidados do
coletivo)
B. Ativismo
C. Apropriação Urbana (Utilização ou alteração de espaço público para utilização
coletiva)
D. Cultural (Media a produção cultural de artistas e grupos locais)
E. Desenvolvimento Social
F. Educação
G. Mídia
H. Produção Urbana de Alimentos
I. Resgate da Memória Local
J. Urbanismo
K. Outros
30 ONG – Organização Não Governamental
Gráficos 1 | Questionário | Gráfico | Atuação do Coletivo
Fonte: Google Forms | Elaborado pela autora
Deste contingente 44,4% referem que as atividades desenvolvidas são de Apropriação
Urbana; 33,3% de Outros; 11,1% de Urbanismo; 11,1% de Produção Urbana de
Alimentos.
Áreas Geográfica de Atuação
Em termos da área geográfica de atuação, 44,4% dos coletivos também atua na área de
instalação; 44,4% atuam, em exclusivo, e 11,1% não atuam. O universo de coletivos
pesquisado está concentrado nos seguintes bairros/áreas:
▪ Aclimação
▪ Barra Funda
▪ Consolação
▪ Lapa
▪ Móoca
▪ Perdizes/Pompéia/Sumaré
▪ Pinheiros
Gráficos 2 | Questionário | Gráfico | Área de Atuação do Coletivo
Fonte: Google Forms | Elaborado pela autora
PREMISSAS DE ORIGEM E OBJETIVOS
Os coletivos definem assim as respectivas premissas de origem e os objetivos traçados
inicialmente.
▪ Associação Parque Minhocão
Origem: Garantir o uso do Minhocão como área de lazer, esporte, arte e
convívio.
Objetivos: Expandir o horário para as pessoas e oficializar o espaço como Parque
Municipal
▪ Cidade Ativa
Origem: Promover cidades mais ativas.
Objetivos: Promover o conceito active design; desenvolver projetos que
seguissem metodologia. Hoje a atuação é mais ampla.
▪ Coletivo Bijari
Origem: Coletivo de criação de artes visuais e multimídia que tem como objeto
de interesse as narrativas, discursos, poéticas e conflitos que moldam e dão vida
à paisagem urbana. A reflexão crítica sobre a produção simbólica dos espaços
nas cidades é expressa em trabalhos na fronteira entre arte, política e vida
cotidiana com o objetivo de deixar à mostra as fissuras sociais.
Objetivos: Fazer projetos de arte e design de forma autoral e sustentáveis.
▪ Formiga-me
Origem: Mapear, conectar e divulgar as iniciativas dos coletivos e cidadãos
comuns. Transformar a cidade e se apropriar dos espaços públicos (hortas
urbanas, tapar buracos, enfeitar árvores e postes etc.)
Objetivos: Produzir reportagens sobre as iniciativas e se estabelecer como
referência no tema.
▪ Horta das Corujas
Origem: Construção de urbanidades e participação popular.
Objetivos: Educação ambiental, educação nutricional, atividades comunitárias,
reconexão com a natureza, regeneração ambiental.
▪ Mão na Praça
Origem: Revitalizar uma praça
Objetivos: Revitalizar uma praça: plantio de mudas de ornamentais e árvores, e
arte urbana
▪ Microtopia
Origem: Criar uma horta comunitária.
Objetivos: Melhoria do espaço público
▪ Ocupe & Abrace
Origem: Ocupar de forma amorosa um espaço amplo e verde do bairro, trazendo
de volta a sua origem: um espaço de lazer na cidade e de reconexão com a
natureza. Começamos fazendo festivais na praça - um dia de atividades culturais
e sustentáveis, com música, oficinas com apoio de artistas e outros coletivos,
sendo um a cada estação do ano. E aos poucos fomos fazendo também
mudanças estruturais (plantas, pintar muro, abrir as nascentes, colocar cacimba,
horta, etc).
Objetivos: Queríamos incentivar as pessoas a usarem o espaço novamente que
estava deixado de lado. A ideia sempre foi ser um dos atores a atuar na praça, e
desde o início tivemos muito apoio de outros coletivos, organizações e também
cobramos uma atuação mais presente da Subprefeitura da Lapa (da qual a Praça
faz parte).
▪ (Se)Cura Humana
Origem: Materializar utopias em busca de uma nova cidade para todos,
integrando meio ambiente com a sociedade.
Objetivos: Dar visibilidade às águas que existem em São Paulo.
88,8% do universo respondente entende que os objetivos propostos inicialmente já
foram alcançados e 11,1% foram alcançados em parte. E explicam:
▪ Associação Parque Minhocão
Conseguimos através do vereador Police Neto aprovar a Lei 16833 de 7 de
fevereiro de 2018 que criou o Parque Minhocão e ampliou os horários para as
pessoas (fechamento para os carros às 20 horas, sábado integral).
▪ Cidade Ativa
O coletivo se absteve de responder.
▪ Coletivo Bijari
Uma combinação entre o fazer artístico e o fazer comercial que financia o
coletivo. Seria impossível sobreviver apenas fazendo projetos de arte política e
ativismo no Brasil.
Porque em duas pessoas, com trabalho basicamente voluntário, é muito difícil
produzir reportagens suficientes. Elas são trabalhosas, tomam tempo para
produzir, e não tivemos tanto retorno em visibilidade. A balança não se
equilibrou, então mudamos o foco.
▪ Horta das Corujas
O coletivo se absteve de responder.
▪ Mão na Praça
Realizamos 5 ações.
▪ Microtopia
Houve grande adesão da comunidade.
▪ Ocupe & Abrace
As pessoas começaram a usar a praça da nascente para diversos motivos.
Inicialmente a partir das nossas sugestões, e hoje naturalmente as pessoas estão
lá -com suas crianças no parquinho, curtindo o lago, plantando ou simplesmente
curtindo a praça.
▪ (Se)Cura Humana
Devido aos trabalhos realizados: Parque Aquático Móvel, Lagos de concreto e
Rio Paralelo Tamanduateí.
AÇÕES E DESDOBRAMENTOS
Em termos dos projetos desenvolvidos pelos coletivos, bem como os desdobramentos
em curso ou em fase de desenvolvimento, os coletivos forneceram as seguintes
informações:
Ações: Até agora foi o marco legal. Estamos trabalhando para a prefeitura criar
o Conselho Gestor do Parque Minhocão. Obtivemos em 8/8/2018 a instalação
de uma base da GCM sobre a rampa de acesso na Praça Marechal.
Desdobramentos: A recém-criada Associação dos Moradores da Praça Roosevelt
é parceira.
▪ Cidade Ativa
Ações: Olhe o Degrau; Como Anda.
Desdobramentos: O Olhe o Degrau está indo para sua 5a ação.
▪ Coletivo Bijari
Ações: Carro Verde, natureza Urbana, Praças (im)possíveis
Desdobramentos: Sim os carros verdes foram replicados em várias cidades.
▪ Formiga-me
Ações: Guia Mulheres na Cidade.
Desdobramentos: Não.
▪ Horta das Corujas
Ações: Cuidar da horta.
Desdobramentos: Sim, inicialmente começamos com um grupo fechado de
coletivos para mapear as iniciativas, depois abrimos para dezenas de voluntárias.
Hoje há mulheres de outras cidades pedindo que seja levado para lá.
▪ Mão na Praça
Ações: Praça na Vila Madalena.
Desdobramentos: Sim, em uma pequena praça na av. Pacaembu.
▪ Microtopia
Ações: Sala de Aula Pública
▪ Ocupe & Abrace
Ações: Agora estamos com uma ação no Ministério Público para evitar que seja
construído um empreendimento no perímetro da praça. Esse é o nosso maior
foco da ação, porque já ouvimos diversos especialistas que dizem que duas
torres de 22 andares, afetará diretamente as nascentes da praça. Provavelmente
a água será jogada para sarjeta, e o ecossistema acostumado com essa
quantidade atual de água, será afetada com a diminuição do fluxo. Além disso,
fazemos mutirões para manutenção do lago e acompanhamento da qualidade
da água pelo SOS Mata Atlântida. Fazemos algumas intervenções ocasionais,
como receber criança de escolas para conhecer a praça, participação em eventos
(como será o caso da Virada Sustentável, etc). Organização dos Festivais.
Desdobramentos: Sim, já participações de ações e mutirões promovidos por
outros espaços que querem abrir as nascentes, como foi o caso do Iquiririm,
entre outros. Além disso, participamos de eventos como Virada Sustentável,
Cocidade, Path, TEDx e algumas iniciativas do SESC, levando a nossa experiência
para outros espaços. Além disso, servimos de exemplos e apoio para outras
iniciativas como Parque Augusta, Parque dos Búfalos, Largo da Batata, etc.
▪ Se(Cura) Humana
Ações: Parque Aquático Móvel, Lagos de Concreto e Rio Paralelo Tamanduateí.
Desdobramentos: Sim, já participações de ações e mutirões promovidos por
outros espaços que querem abrir as nascentes, como foi o caso do Iquiririm,
entre outros. Além disso, participamos de eventos como Virada Sustentável,
Cocidade, Path, TEDx e algumas iniciativas do SESC, levando a nossa experiência
pra outros espaços. Além disso, servimos de exemplos e apoio para outras
iniciativas como Parque Augusta, Parque dos Búfalos, Largo da Batata, etc.
MÉTODO DE DESENVOLVIMENTO
O método de pesquisa, elaboração e desenvolvimento das ações é de interesse para a
presente pesquisa e desta forma foi perguntado aos coletivos sobre as práticas de
efetivação bem como a adequação destes métodos e respectivos resultados
metodológicos.
▪ Associação Parque Minhocão
Método: Não desperdiçamos nenhuma oportunidade de avançar, mesmo pouco
e lentamente com apoio e orientação de um Vereador atuante.
Adequação: Adequação total. Por que tivemos resultados positivos.
Resultado: Foi até mais rápido que o esperado.
▪ Cidade Ativa
Método: O "Olhe o Degrau" é desenvolvido a partir de pesquisa (levantamento
de dados em campo, que incluem informações sobre o ambiente e
comportamento das pessoas; inclui olhar técnico e também opinião de usuários
através de entrevistas); oficinas colaborativas (no local de intervenção, ativando
espaço temporariamente e convidando usuários e stakeholders a darem opinião
sobre espaço); desenvolvimento de análises; projeto (pactuado com
stakeholders, incluindo gestão pública); execução de melhorias (em forma de
mutirão e engajando atores locais, como mão de obra contratada ou voluntária);
medição do sucesso (coleta de dados para avaliar processo e estratégias de
projeto).
Adequação: Adequação parcial. Verificamos que cada contexto pede adaptações
ao processo inicialmente desenhado.
Resultado: Positivo. Resultado varia de acordo com o contexto (nível de
engajamento, pós ocupação)
▪ Coletivo Bijari
Método: As ações são advindas da identificação de urgências na cidade, na
sociedade, nos nossos corpos. Á partir dessas urgências elaboramos
intervenções.