CIDADE: POROSIDADE, PROPOSIÇÃO E PRÁTICA.
CARTOGRAFIA DE POTENCIALIDADES CRIATIVAS E SOCIALMENTE INOVADORAS NO CENTRO EXPANDIDO DE SÃO PAULO
São Paulo
2020
ELISABETE BARBOSA CASTANHEIRA
CIDADE: POROSIDADE, PROPOSIÇÃO E PRÁTICA.
CARTOGRAFIA DE POTENCIALIDADES CRIATIVAS E SOCIALMENTE INOVADORAS NO CENTRO EXPANDIDO DE SÃO PAULO
Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial para a obtenção do grau de doutora em Arquitetura e Urbanismo.
Orientador: Professor Doutor Carlos Leite de Souza
São Paulo
2020
C346c
Castanheira
,Elisabete Barbosa
.Cidade: porosidade, proposiçăo e prática:
cartografia de potencia- lidades criativas e socialmente inovadoras no centro expandido de São Paulo
/Elisabete Barbosa Castanheira
.318 f. : il. ; 30 cm
Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo)
– Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2020.Orientador:
Carlos Leite de Souza
. Bibliografia: f. 210-216.1.
Urbanismo
. 2. Inovaçăo Social. 3.São Paulo. 4. Apropriaçăo (urbanismo)
. 5.Criatividade
. I.Souza
,Carlos Leite de
. II. Título.
CDD 711
Bibliotecária responsável: Paola Damato CRB-8/6271
Para Papai,
com todo o meu amor.
AGRADECIMENTO
Muito tenho a agradecer!
O primeiro e maior agradecimento é para Papai e Mamãe. Mesmo não estando mais aqui sei que estão felizes por mais esta etapa concluída. Ao Papai, muito especialmente (que se foi no percurso do presente trabalho), o meu eterno agradecimento e amor.
Agradeço também ao Tatá, meu filho amado, pela interlocução cada vez mais lúcida e melódica.
Agradeço aos professores do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie e, deste grupo, agradeço muito especialmente ao meu orientador, Prof. Dr. Carlos Leite, pela generosidade e pela troca.
À Profª Eunice Helena S. Abascal, ex-Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o meu mais profundo reconhecimento.
Ao Mackenzie agradeço o apoio financeiro por meio da bolsa concedida (Bolsa Mackenzie – Modalidade Isenção Integral).
Aos queridos amigos da UNISOL que mais do que sonhar, ousam concretizar caminhos para uma nova economia, mais justa e solidária: a Economia Solidária, o meu muito obrigada. Ao Design Possível, na pessoa de Ivo Pons, que me apresentou a esse novo universo e me permitiu fazer parte dele, um muitíssimo obrigada, extensivo às queridas Julia Asche e Natália Toledo. Um enorme agradecimento a@s querid@s: Isadora Candian, Leonardo Pinho, Vicente Armonia, Celiane Rodrigues, Tays Ulisses e Jaqueline.
Um especialíssimo muito obrigada à equipe do projeto Economia Solidária como
Estratégia de Desenvolvimento na pessoa da sua queridíssima coordenadora, Alice
Naomi Takahashi Nishikiori, por todo o carinho e apoio num momento tão sensível da
minha vida.
O meu agradecimento aos colegas de docência, nas instituições Estácio e UNISA, muito especialmente, aos meus coordenadores queridos, Nathalia Mara Lorenzetti Lima, Paulo Eduardo Borzani Gonçalves e Olga Maria Lodi Rizzini, um carinhoso e expressivo muito obrigada.
À Associação Brasileira de Promoção do Design e Inovação Objeto Brasil, na pessoa de sua diretora, Joice Joppert Leal, um enorme agradecimento pelo apoio geral e irrestrito.
O agradecimento também é transatlântico. Zézinha, Natália, Carlos, o meu mais profundo reconhecimento e agradecimento por tudo, sempre.
À Ivone, querida amiga, um especial agradecimento pela valiosa contribuição e disponibilidade. À querida Sofia pela ajuda especial e derradeira.
Aos amigos do Mackenzie, Fê, Carol, Andraci e Rodrigo, um enorme agradecimento pelo companheirismo nessa empreitada!
E, por fim, cabe um especialíssimo muito obrigada aos coletivos Associação Parque Minhocão, Cidade Ativa, Coletivo Bijari, Formiga-me, Horta das Corujas, Mão na Praça, Microtopia, Ocupe & Abrace e (Se)Cura Humana que, tão gentilmente, participaram desta pesquisa. Mais do que agradecer a paciência no preenchimento do questionário, agradeço por compartilharem o arrojo de empreender uma cidade melhor.
Muito, muito, muito obrigada.
O homem está na cidade
como uma coisa está em outra
e a cidade está no homem
que está em outra cidade
Poema Sujo Ferreira GullarRESUMO
A percepção da cidade como espaço possível de ser apropriado e transformado, em microescala, a partir da iniciativa do cidadão que, articulado em rede, amplia o alcance de sua potência individual transformando-a em coletiva, constitui uma das muitas possibilidades de análise do espaço urbano contemporâneo. Nesta perspectiva, o presente trabalho apresenta um mapeamento de ações de base no centro paulistano.
Em uma leitura que busca aporte no referencial teórico do pensamento sobre o direito à cidade, nas reflexões acerca das manifestações de junho de 2013 e no conceito de inovação social busca-se discutir a motivação, o processo e o produto vinculados ao surgimento de inúmeras iniciativas coletivas de apropriação urbana. A partir de um levantamento de coletivos, instalados no centro expandido de São Paulo, que materializam transformações na cidade, foi estabelecido um mapeamento possível e, posteriormente, levantados dados complementares a partir de questionários online.
Organizadas entre pares e articuladas em rede (e pela rede) as iniciativas procuram promover a reflexão sobre o espaço urbano, sobre o protagonismo do cidadão, sobre a proatividade coletiva que efetiva a inovação social e, por consequência, a transformação do espaço urbano em microescala. O marco da ocupação da cidade em junho de 2013 deixa entrever, por meio do posterior surgimento de um conjunto de ações socialmente inovadoras, a construção de uma postura distinta na relação cidadão/cidade.
Palavras-chave: Inovação, Inovação Social, Urbanismo Tático, Apropriação Urbana,
Design Urbano.
ABSTRACT
The city can be perceived as a place that is susceptible to both appropriation and transformation.
Looking through the microscale, that starts with the citizen’s own initiative. Articulated between its own connections, the city broadens the reach of its individual potential, inviting the matter to be handled collectively. When it comes to analyzing the urban contemporary space, this interpretation constitutes one of many other possible tracks of thought. Within this perspective,
this current article presents an action map based on São Paulo’s city center. The followinginterpretation and its theoretical references are anchored on the realms of city access rights, reflections upon the June 2013 manifestations and the concept of social innovation. It aims to discuss motivation and the process/products leading to the outbreak of numerous collective initiatives for urban appropriation. A survey was conducted, in the expanded city center, to find
the collectives that accomplish concrete transformations for the city’s sake. A map was alsomade for, posteriorly, filling it in with complementary data obtained through online questionnaires. Organized in pairs, articulated between their connections (and by their connections), the initiatives aim to promote a reflection upon the urban space, tackling the
citizen’s protagonism into it. It also tackles collective proactivity which effectivates socialinnovation, consequently transforming the urban space in microscale. What the June 2013 city occupation hints at, taking into consideration the posterior outbreak of socially innovative actions, is building a new, distinct citizen/city standard.
Keywords: Innovation, Social Innovation, Tactical Urbanism, Urban Appropriation,
Urban Design.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 | Manifestações Junho 2013 ... 2
Figura 2 | Projeto Olha o Degrau ... 3
Figura 3 | Projeto Boa Praça ... 3
Figura 4 | MASP... 8
Figura 5 | MST ... 53
Figura 6 | Divulgação Manifestações de Junho/ 2013 ... 54
Figura 7 | Marca Movimento Passe Livre ... 55
Figura 8 | Conexão 2P2 ... 59
Figura 9 | Manifestações Junho/2013 ... 61
Figura 10 | A liberdade guiando o povo... 67
Figura 11 | Linha do Temp | Movimentos Sociais ... 70
Figura 12 | Hacker Citizen ... 76
Figura 13 | Hacker Citizen ... 77
Figura 14 | Hacker Citizen | Palette Rails ... 77
Figura 15| Evolução da Inovação Social ... 85
Figura 16 | Marca A Batata Precisa de Você ... 93
Figura 17 | Largo de Pinheiros/1900 ... 94
Figura 18 | Largo de Pinheiros/1900 ... 95
Figura 19 | Largo de Pinheiros/1980 ... 95
Figura 20 | Largo de Pinheiros/2011 ... 96
Figura 21 | Largo de Pinheiros/ Junho de 2013 ... 97
Figura 22 | Largo de Pinheiros/2014 ... 97
Figura 23 | Largo de Pinheiros/2014 ... 99
Figura 24 | Marca ARRUA Coletivo ... 100
Figura 25| Atividade Paralela | Coletivo Arrua ... 102
Figura 26 | Atividade Paralela | Coletivo Arrua ... 102
Figura 27 | Marca Parque Minhocão ... 103
Figura 28 | Elevado João Goulart | São Silvestre ... 104
Figura 29 | Elevado João Goulart | Fins de Semana ... 104
Figura 30 | Elevado João Goulart ... 105
Figura 31 | Elevado João Goulart ... 105
Figura 32 | Divulgação Baixo Centro ... 106
Figura 33 | Divulgação Baixo Centro ... 109
Figura 34 | Evento Baixo Centro ... 109
Figura 35 | Evento Baixo Centro ... 110
Figura 36 | Marca Casa da Lapa ... 110
Figura 37 | Evento Casa da Lapa ... 111
Figura 38 | Divulgação Casa da Lapa ... 112
Figura 39 | Ação Casa da Lapa ... 112
Figura 40 | Marca CicloCidade ... 113
Figura 41 | Divulgação CicloCidade ... 114
Figura 42 | Divulgação CicloCidade ... 114
Figura 43 | Marca Cidade Ativa ... 115
Figura 44 | Cidade Ativa ... 115
Figura 45 | Projeto Olha o Degrau ... 116
Figura 46 | Projeto Olha o Degrau ... 117
Figura 47 | Marca Cidade a Pé ... 118
Figura 48 | Divulgação Cidade a Pé ... 120
Figura 49 | Divulgação Cidade a Pé ... 120
Figura 50 | Marca Corrida Amiga ... 121
Figura 51 | Divulgação Corrida Amiga... 121
Figura 52 | Divulgação Corrida Amiga... 122
Figura 53 | Divulgação Corrida Amiga... 122
Figura 54 | Divulgação Corrida Amiga... 123
Figura 55 | Marca BIJARI ... 123
Figura 56 | Carros Verdes ... 124
Figura 57 | Carros Verdes ... 125
Figura 58 | Praças (Im)Possíveis ... 125
Figura 59 | Intervenções Gráficas ... 126
Figura 60 | Marca Formiga-me ... 126
Figura 61 | Evento Formiga-me ... 127
Figura 62 | Divulgação do Florestas de Bolso ... 127
Figura 63 | Intervenção ... 128
Figura 64 | Intervenção ... 129
Figura 65 | Intervenção ... 129
Figura 66 | Intervenção ... 130
Figura 67 | Sinalização Horta das Corujas ... 130
Figura 68 | Página Grupo dos Hortelões Facebook ... 131
Figura 69 | Córrego das Corujas ... 132
Figura 70 | Horta das Corujas ... 135
Figura 71 | Horta das Corujas ... 135
Figura 72 | Marca Horta das Flores... 136
Figura 73 | Horta das Flores ... 137
Figura 74 | Horta das Flores ... 138
Figura 75 | Horta das Flores ... 138
Figura 76 | Marca Mão na Praça ... 139
Figura 77 | Intervenção ... 140
Figura 78 | Marca Matilha Cultural ... 140
Figura 79 | Intervenção ... 141
Figura 80 | Intervenção ... 142
Figura 81 | Evento ... 143
Figura 82 | Divulgação Microtopia ... 144
Figura 83 | Manifesto ... 145
Figura 84 | Evento ... 145
Figura 85 | Marca Movimento Boa Praça ... 146
Figura 86 | Depoimento ... 147
Figura 87 | Pic Nic ... 147
Figura 88 | Marco Ocupe & Abrace | Coletivo Praça das Nascente ... 148
Figura 89 | Praça Homero Silva | Antes ... 149
Figura 90 | Praça Homero Silva | Depois ... 149
Figura 91 | Atividades Movimento Ocupe e Abrace ... 150
Figura 92 | Mapa Afetivo ... 150
Figura 93 | Atividades ... 151
Figura 94 | Marca Parque Augusta ... 151
Figura 95 | Residência de Flávio Uchoa ... 152
Figura 96 | Colégio Des Oiseaux ... 152
Figura 97 | Abraço no Parque Augusta ... 154
Figura 98 | Ocupação do Parque Augusta ... 154
Figura 99 | Ocupação do Parque Augusta ... 155
Figura 100 | Placa Implantação do Parque Augusta ... 156
Figura 101 | Localização do Parque Augusta ... 157
Figura 102 | Projeto do Parque Augusta... 157
Figura 103 | Piquenique do Parque Augusta ... 158
Figura 104 | Marca Pimp My Carroça ... 159
Figura 105 | 1º Pimp My Carroça ... 160
Figura 106 | Pimp My Carroça ... 161
Figura 107 | Projeção (Se)Cura Humana ... 161
Figura 108 | Parque Aquático Móvel – Parque Augusta ... 162
Figura 109 | TV Secura ... 163
Figura 110 | Questionário Aplicado ... 169
Figura 111 | Questionário | Universo Respondente ... 172
Figura 112 | Pesquisa Como Anda ... 201
Figura 113 | Pesquisa Como Anda ... 201
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 | LInha do Tempo | Manifestações Junho/2013 ... 57
Tabela 2 | Comparativo | Os 3 marcos das Manifestações de Junho/2013 ... 60
Tabela 3 | Lista de Benefícios Projeto Horta das Corujas | Cláudia Visoni ... 133
Tabela 4 | Levantamento Geral de Coletivos | Centro Expandido ... 194
Tabela 5 | Levantamento Geral de Coletivos | Ano de Constituição ... 194
Tabela 6 | Levantamento do Universo de Respondentes | Coletivos Centro Expandido ... 195
Tabela 7 | Levantamento do Universo de Respondentes | Ano de Constituição ... 195
LISTA DE GRÁFICOS
Gráficos 1 | Questionário | Gráfico | Atuação do Coletivo ... 174
Gráficos 2 | Questionário | Gráfico | Área de Atuação do Coletivo ... 175
Gráficos 3 | Questionário | Gráfico | Percepção | Aumento de ações similares ... 184
LISTA DE MAPAS
Mapa 1| Mapa do Centro Expandido | São Paulo ... 166
Mapa 2 | Mapa de localização dos coletivos elencados. ... 191
Mapa 3 | Mapeamento de Coletivos Não Participantes na Pesquisa ... 192
Mapa 4 | Mapeamento de Coletivos Participantes na Pesquisa ... 193
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ... 1
MOTIVAÇÃO ... 4
A PESQUISA ... 5
CAPÍTULO 1 | O CONTINENTE ... 9
1.1. A CIDADE | O CONTINENTE ... 10
1.2. A CIDADE | A POROSIDADE ... 13
1.3. A CIDADE | O DIREITO ... 28
1.4. A CIDADE | A URBANIDADE ... 38
CAPÍTULO 2 | A CONTINGÊNCIA ... 50
2.1. A CIDADE | A CONTINGÊNCIA ... 51
2.2. A CONTINGÊNCIA | JUNHO/2013 | AS MANIFESTAÇÕES ... 52
2.3. A CONTINGÊNCIA | JUNHO/2013 | OS MANIFESTANTES ... 64
CAPÍTULO 3 | O CONTEÚDO ... 73
3.1. A CIDADE | O CONTEÚDO ... 74
3.2. A CIDADE | O INCONTIDO ... 75
3.2.1. A Inovação ... 78
3.2.2. Da Inovação Social | Conceito ... 81
3.2.3. Da Inovação Social | Evolução ... 83
3.2.4. Da Inovação Social | Contexto ... 86
3.2.5. Dos Coletivos ... 90
3.2.5.1. A BATATA PRECISA DE VOCÊ ... 93
3.2.5.2. ARRUA COLETIVO... 100
3.2.5.3. ASSOCIAÇÃO PARQUE MINHOCÃO ... 103
3.2.5.4. BAIXO CENTRO ... 106
3.2.5.5. CASA DA LAPA ... 110
3.2.5.6. CICLOCIDADE ... 113
3.2.5.7. CIDADE ATIVA ... 115
3.2.5.8. CIDADE A PÉ ... 118
3.2.5.9. CORRIDA AMIGA ... 121
3.2.5.10. COLETIVO BIJARI ... 123
3.2.5.11. FORMIGA-ME ... 126
3.2.5.12. FLORESTAS DE BOLSO ... 127
3.2.5.13. HORTA DAS CORUJAS ... 130
3.2.5.14. HORTA DAS FLORES ... 136
3.2.5.15. MÃO NA PRAÇA ... 139
3.2.5.16. MATILHA CULTURAL ... 140
3.2.5.17. MICROTOPIA ... 144
3.2.5.18. MOVIMENTO BOA PRAÇA ... 146
3.2.5.19. OCUPE E ABRACE ... 148
3.2.5.20. PARQUE AUGUSTA: COLETIVO ALIADOS DO PARQUE AUGUSTA e ORGANISMO PARQUE AUGUSTA ... 151
3.2.5.21. PIMP MY CARROÇA ... 159
3.2.5.22. (SE)CURA HUMANA ... 161
CAPÍTULO 4 | A PESQUISA ... 164
4.1. A PESQUISA ... 165
4.1.1. Indagações indutoras ... 165
4.1.2. Âmbito ... 165
4.1.3. Universo ... 166
4.2. O MÉTODO ... 168
4.3. A COLETA DE DADOS ... 172
4.4. A ANÁLISE DE DADOS ... 189
CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 203
REFERÊNCIAS ... 210
ANEXOS ... 217
APÊNDICES ... 221
INTRODUÇÃO
Junho de 2013 começou com o anúncio do aumento da tarifa de transporte público em São Paulo. São vinte centavos, apenas.
Estes que, para Gohn (2013), são os novíssimos sujeitos, se apropriaram da cidade para externar a insatisfação.
E externaram.
O descontentamento foi declarado em 7 grandes manifestações, sendo que a mais expressiva, e última, mobilizou um contingente superior a 1 milhão de pessoas em mais de 130 cidades. As reivindicações que, inicialmente, pareciam estar circunscritas ao debate sobre o direito de ir e vir, amplificaram questionamentos, sobretudo, em face dos grandes investimentos feitos para abrigar dois eventos de visibilidade internacional, a Copa do Mundo e as Olimpíadas.
Para Castells (2013) movimentos sociais como a Primavera Árabe, o Occupy (EUA) ou ainda os Indignados (Espanha), que aconteceram entre 2010 e 2011 e tinham como denominador comum o questionamento acerca das distinções sociais e econômicas, estão alinhados aos movimentos de junho de 2013, em São Paulo, não só pelo fato de terem sido articulados por meio das redes sociais, mas, também, pela ausência de liderança, pela autonomia, pela predominância do pensamento coletivo e ainda pela massiva presença no espaço urbano.
A configuração do movimento é jovem (muito provavelmente pelo fato de terem a sua articulação de origem nas redes sociais) e para o autor, o objetivo centra-se na procura de uma nova democracia e, embora muitos desses movimentos não estejam mais
"vigentes" a busca da construção de novos objetivos, valores e perspectivas consolidou
um legado para a compreensão da complexidade contemporânea (Castells, 2013).
As manifestações paulistanas desaceleram, o governo recua na decisão sobre o aumento das tarifas e dois grandes grupos ganham visibilidade, os Black Blocks e o MPL – Movimento Passe Livre.
Figura 1 | Manifestações Junho 2013
Fonte: Outra Palavras
Disponível em: < https://outraspalavras.net/sem-categoria/mpl-e-o-eterno-2013/> Acesso em: 01 de novembro de 2019.
Em paralelo é notável, na cidade de São Paulo, o surgimento de coletivos, muitos.
Embora a palavra “coletivo” possa, de imediato, remeter à ideia de arte e cultura, o coletivo de que trata a presente pesquisa recebe a denominação de coletivo urbano.
Não prescinde do caráter artístico e cultural. Pelo contrário. Mas tem uma perspectiva mais abrangente, articulada e transversal. Essa retomada do espaço urbano paulistano, por meio de iniciativas colaborativas, visa a coletividade e repensa a relação continente- conteúdo em face das contingências contemporâneas.
A questão da escala é uma recorrência nas referidas iniciativas. Ao contrário da monumentalidade que se esperaria de uma cidade com a dimensão de São Paulo, as pequenas intervenções tratam de uma necessidade percebida no contexto e com recursos locais.
Esta dimensão, um tanto cirúrgica, faz conviver empreendimentos quase totalmente
desconhecidos dos meios de comunicação (como o Mão na Praça) com outros, cuja
visibilidade faz extrapolar a fronteira nacional, como é o caso do projeto A Batata Precisa de Você.
No âmbito urbano paulistano (e não só), a menção da palavra apropriação remete à ação de tomar algo cuja propriedade é pertença de outrem, portanto, iniciativa indevida. A definição Aureliana para o termo menciona acomodação, aplicação, atribuição além do fato de significar se "tornar ou ser adequado ou conveniente a"
alguém.
A derivação da ação de apropriar (tornar próprio) contempla também, segundo consta do dicionário Aurélio, a qualidade daquilo que é peculiar, um sinal característico.
A presente pesquisa trabalha o termo apropriação a partir desta noção, por meio de iniciativas a partir da base, onde habitantes da cidade tomam para si a responsabilidade de concretizar ações urbanas em benefício da coletividade.
Figura 2 | Projeto Olha o Degrau
Fonte: UOL Urban Taste
Disponível em: <https://spape.blogosfera.uol.com.br/2018/07/09/cidade-ativa-falar-de-andar-a-pe-e-falar-sobre-a-cidade-de- forma-ampla/> Acesso em: 01 de novembro de 2019.
Figura 3 | Projeto Boa Praça
Fonte: Criança e Natureza
Disponível em: < https://criancaenatureza.org.br/noticias/uma-praca-para-chamar-de-sua/> Acesso em: 01 de novembro de 2019.
MOTIVAÇÃO
Uma urbanidade fruto da experimentação, dos processos colaborativos e que procura construir o inclusivo em detrimento do exclusivo norteou a pesquisa desenvolvida no mestrado e que contemplava um paralelo entre:
A polivalência de algumas estruturas urbanas híbridas, similarmente presentes nas cidades de Paris, Nova York e São Paulo (respectivamente: o Promenade Plantée, o High Line e o Elevado Costa e Silva, também conhecido como Minhocão), para pontuar a micro escala da inovação não tecnológica no âmbito da cidade, as práticas criativas que hibridizam, ressignificam e inventam territórios: uma economia criativa na escala urbana (CASTANHEIRA, 2015 p.122).
Para a realização do referido trabalho a investigação percorreu um trajeto que teve início no conceito da criatividade, passando pelo conceito da economia criativa para então se ater nas manifestações de microplanejamento urbano (que podem ou não ter desdobramentos de monta como é o caso do HighLine, em Nova York, por exemplo).
Na continuidade, com vistas ao doutorado, novas leituras do conceito de economia criativa surgiram, nomeadamente de lideranças culturais do perímetro alargado da cidade de São Paulo e que definiam esta prática, cuja base é o patrimônio imaterial, como uma descoberta recente da classe privilegiada dos grandes centros das cidades.
Segundo essas lideranças, que não se reveem nesta conceituação (tida como contemporânea), há muito que a “dita economia criativa” habita a periferia na construção de uma identidade cultural e social, mas, sobretudo, na busca de soluções para as lacunas não preenchidas pelas instâncias governamentais.
O amplo espectro de tais ações, que tanto pode contemplar a realização de uma festa junina, como a instalação de um equipamento social básico ou ainda o beneficiamento de determinada área para um entorno onde inexiste uma praça, por exemplo, pode constituir o que se conhece como apropriação urbana. Por outro lado,
Como consequência das transformações que aconteceram no mundo nas últimas décadas e que acabaram por influenciar as mudanças de focos nos movimentos sociais em geral e na América Latina, em particular, permitindo- nos afirmar que os movimentos sociais não mais se limitam à política, à religião ou às demandas socioeconômicas e trabalhistas. Desta maneira, os movimentos sociais locais por reconhecimento, indenitários e culturais,
ganharam destaque ao lado de movimentos sociais globais. (ZIGLIO, 2015 p.
24)
A partir do surgimento de inúmeras iniciativas da sociedade civil (e a visibilidade de seus desdobramentos), no âmbito do centro expandido de São Paulo, com o objetivo de apropriação de espaços da cidade e da realização de ações e beneficiamentos coletivos, surgem questionamentos:
▪ Existe de fato uma movimentação crescente ou apenas uma maior visibilidade dessas iniciativas?
▪ É possível traçar um painel onde esteja presente um denominador comum, no âmbito das movimentações sociais de apropriação urbana que a cidade de São Paulo tem abrigado nos tempos mais recentes?
▪ Os acontecimentos de junho de 2013 podem ser considerados a gênese deste novo olhar urbano?
A PESQUISA
Neste contexto, a hipótese primária da presente tese centra-se no fato de que as manifestações de 2013 (em São Paulo) desencadearam uma percepção distinta da relação cidadão-cidade, o que converge para o conceito da liberdade de escolha e da responsabilização em Sartre (1967), alterando a partir daí, significativamente, os processos de apropriação urbana.
Em função da profundidade da discussão e da adesão alcançada, as manifestações de
2013 constituem um marco social para São Paulo por terem mobilizado os "praticantes
ordinários" de Certeau (1982) ao mesmo tempo em que intensificaram o caráter político
(Arendt, 2000) presente na relação que se estabelece (ou deveria ser estabelecida) com
a cidade.
A tese está estruturada em 3 parâmetros, que constituem os seus 3 primeiros capítulos:
o Continente, a Contingência e o Conteúdo.
No primeiro parâmetro, o Continente, trabalha-se a ideia de recipiente, de contentor, de espaço delimitado. Aqui, onde segundo Ascher (2010), o público e o privado devem empreender formas de efetivação urbana tendo em conta os objetivos coletivos, se faz necessário a enunciação de novas regulamentações e novos formatos projetuais que contemplem a pluralidade social contemporânea. O capítulo, por sua vez, aborda a cidade e a porosidade, a cidade e o direito além da cidade e a urbanidade. Embora se possa entender que a analogia entre cidade e porosidade, seja elaborada em função da materialidade das edificações ali presentes, em Benjamin (2012) está relacionada com a propriedade de urdimento presente na cidade.
E esta cidade é pertença de quem?
Em Harvey (2013), o direito à cidade é o direito à transformação o que não prescinde da perspectiva de uma forma superior dos direitos em Lefebvre (2016), que o define como o direito à liberdade.
A liberdade de construção de uma cidade desejada encerra o conceito de urbanidade.
Este que, pode ser definido como o espaço de convivência ideal, em sua materialização se confronta com a ordem imaginada de Harari (2019) seja pela materialidade, seja pelo sistema de regras, seja pelo indivíduo.
O segundo parâmetro aborda a Contingência, enquanto conceito da psicologia
experimental que, na qualidade de fenômeno, pode determinar a alteração de um
comportamento estabelecido. A Contingência que, pode estar associada a eventos
ambientais e comportamentais, sempre na forma condicional (Todorov, 1991),
demanda, invariavelmente, a articulação de uma estratégia como resposta. As
manifestações que marcaram 2013, no Brasil, se materializaram como decorrência
natural de um processo que emergiu no início da presente década, e que buscaram
discutir e, sobretudo, externar, a grande insatisfação diante de um quadro de severa
incongruência social, econômica e ambiental.
Já o terceiro parâmetro trata do rol de iniciativas que, em face da Contingência (os eventos de Junho de 2013), movimentaram o Conteúdo (os cidadãos), alterando o Continente (a cidade de São Paulo).
São iniciativas de base, articuladas a partir de diagnósticos, prognósticos e intervenções coletivas que efetivam um tipo de inovação, a social
Esta que, para Manzini (2008) só se concretiza ante a alteração comportamental diante de situações que demandam soluções para o coletivo e onde haja, efetivamente, a interrupção dos sistemas estabelecidos, pactua uma ruptura capaz de reorganizar formas, objetivos e princípios.
Aqui é abordada a maneira através da qual a porosidade do continente/conteúdo absorveu e trabalhou a Contingência, apresentando novas propostas que se materializaram de forma atípica.
Para entender o universo de trabalho, primeiramente, a pesquisa se debruçou sobre o conjunto de iniciativas similares que atua na borda da cidade e cujo levantamento preliminar listou mais de 60 coletivos (APÊNDICE A).
Posteriormente, a pesquisa buscou delimitar os coletivos que atuam no centro expandido da cidade de São Paulo, procurando entender motivações, áreas de atuação, temáticas desenvolvidas, desdobramentos, surgimento, percepções sobre as respectivas atividades, entre outras considerações. (APÊNDICE B).
O quarto capítulo apresenta a pesquisa elaborada, bem como os dados obtidos e a respectiva leitura. Ainda que a opção pelo método cartográfico de pesquisa esteja, em certo sentido, em oposição à recolha sistemática de dados, em função de estar vinculado ao processo e às manifestações daí decorrentes, se optou por uma abordagem híbrida, capaz de congregar a percepção qualitativa dos eventos do método cartográfico e a recolha quantitativa de dados por meio de pesquisa sistematizada (APÊNDICE C).
Por fim, apresentam-se as considerações.
Sem pretender constituir um levantamento censitário, absoluto, até porque a pesquisa trata de coletivos cujas ações efetivem alterações materiais na cidade, a pesquisa listou mais de 20 coletivos cujo âmago de ação efetiva centra-se nas práticas de base, por meio de formatos colaborativos e com objetivos coletivos.
Relevante ainda referir a utopia do desejo de uma urbanidade calcada na visão do pretérito. As transformações se sucedem alterando contextos, conceitos e ideais. Nesta perspectiva, a urbanidade desejada na contemporaneidade, só é factível se considerado o contexto atual, com todas as incongruências, os paradoxos e os temores que lhe são inerentes.
Seja qual for a dimensão ou estratégia adotadas, os movimentos urbanos marcam a cidade e o cidadão transformando o urbano e a urbanidade.
Figura 4 | MASP
Fonte: Elaborado pela autora
CAPÍTULO 1 | O CONTINENTE
PARÂMETRO 1 | O CONTINENTE
1.1. A CIDADE | O CONTINENTE
1.2. A CIDADE | A POROSIDADE
1.3. A CIDADE | O DIREITO
1.4. A CIDADE | A URBANIDADE
1.1. A CIDADE | O CONTINENTE
Dei a volta ao continente Sem sair deste lugar Interroguei toda a gente Como o cego ou o demente Cuja sina é perguntar
Balada José SaramagoDo Latim Continente
Adj. Que tem a virtude da continência; moderado; casto; s.m. grande extensão de terra sem interrupção de continuidade; aquilo que contém alguma coisa; terra firme; velho ___: Europa, Ásia e África; novo ___: América; novíssimo ___: Oceania.
O parâmetro 1, o Continente, diz respeito ao espaço onde ocorre o conjunto de ações objeto da presente pesquisa. No âmbito da geografia, Continente diz respeito à parte continental de um país.
Torna- se oportuno o resgate etimológico da palavra continente: oriunda do latim continere, cujos sentidos podem ser “abarcar”, “manter unido”, tem na raiz do seu sufixo tenere menção de “guardar” ou “segurar”. Continente insinua, portanto, “aquilo que guarda”, “que contém alguma coisa”. Para além da forma, ele se revela recheado de “conteúdos” (BOTELHO, 2012 s/p)
Diametralmente oposta está a ilha, uma porção limitada que, circundada de mar,
constitui uma área restrita e delimitada. Surge assim a primeira incongruência na
tentativa de construção de conceitos ou definições. Neste caso o Continente assume o
viés de um contentor que, por sua limitação espacial circunscreve a área, objeto de
estudo desta pesquisa. Este parâmetro encerra um paradoxo na medida em que é, ao
mesmo tempo, continente e ilha.
O continente, enquanto conceito, também é pertença do campo da psicologia e tem em Bion (1978) uma das vozes de relevância que, por meio da relação entre continente e conteúdo, procura apreender a díade pensamento-mente, como conteúdo e continente, respectivamente.
Bion (1978 apud Zimerman, 2007) partiu do conceito de Melanie Klein, a noção de identificação projetiva
1, para chegar à conclusão “que para todo um conteúdo projetado deve haver um continente receptor”, ou seja, todo o conteúdo pressupõe um continente.
Esse termo, por sua vez, de acordo com a sua etimologia latina (Continere = conter), designa uma condição pela qual a mãe consegue, não só acolher e permitir que as cargas projetivas do filho penetrem dentro dela, como ainda alude a outras funções que processam o destino dessas projeções. Muitos autores preferem a utilização do termo Contido, no lugar de Continente, enquanto muitos outros os usam de forma sinônima (ZIMERMAN, 2007 p.
74).
Embora o contido esteja, por condição, no interior do continente, os conceitos se distinguem, pois, o “continente” apresenta o atributo da disponibilidade, mas, não necessariamente, da integração, ou seja, o “continente” pode “conter”, mas, sem que haja interação. Por outro lado, o “contido”, para Zimerman (2007), pressupõe o caráter de assimilação
2.
Continente e conteúdo interagem enquanto forma e essência, o que é visível e o que é invisível.
Na perspectiva de Bion (1978 apud Zimerman, 2007) o binômio continente-conteúdo configura-se como conceituação em desenvolvimento, cuja premissa poderá ser reiterada, reconfigurada ou, ainda, ampliada, segundo a perspectiva de cada estudioso.
1A identificação projetiva pode ser compreendida como uma fantasia inconsciente entre analista e analisando, tendo um caráter mais agressivo e expulsivo, portanto defensivo, ou um caráter mais comunicativo, sendo que os mecanismos de cisão e projeção, em intensidades diversas, estão sempre implicados (RIBEIRO, 2016 p. 15)
2 Assim, reservo a expressão ‘continente’ para uma condição de disponibilidade para receber um “conteúdo”, que consiste numa carga projetiva - de necessidades, angústias, desejos, demandas, um terror sem nome, objetos bizarros, etc. - que está à espera de ser contido. Deste modo, o termo “contido” sugere que já houve uma incorporação de algo que foi projetado (pela criança, ou paciente) e que, agora, está contido (pelo paciente, ou analista), de forma sadia ou patológica (ZIMERMAN, 2007 p. 74).
Utilizando-se da referida prerrogativa Zimerman (2007) deriva o conceito de subcontinente, numa “geo-analogia”, que tem como característica o fato de comportar distintas zonas que ofertam distintas combinações.
Outra característica do continente está relacionada à sua capacidade de
armazenamento, ou seja, a auto-continência. Tal atributo, por sua vez, está diretamente
relacionado ao limiar, àquilo que impõe limite. No fundo, o conteúdo. O continente
pode receber o que vem do outro, claro, mas, a sua capacidade de conter deve, também,
contemplar a carga que lhe é inerente, a sua própria carga que, segundo Zimerman
(2007) estaria relacionado ao conceito de capacidade negativa de Bion (1970).
1.2. A CIDADE | A POROSIDADE
Porosidade diz daquilo que é, por natureza, poroso, ou seja, apresenta certa quantidade de poros por meio dos quais as substâncias transitam e/ou ficam armazenadas. Nesta perspectiva, a porosidade mensura todo o espaço disponível em determinados materiais e, por consequência, a respectiva capacidade de armazenamento dos fluídos estabelecendo uma proporção entre a dimensão total e a dimensão dos poros, que pode ser expressa em termos percentuais ou decimais (Berryman e Wang, 2000).
Os vazios, ou seja, o contingente de poros, podem ainda, em termos estruturais totais, estar instalados de forma isolada ou em rede. No primeiro caso, quando os poros não se comunicam entre si está equacionada a denominada porosidade absoluta ou total. Já no segundo, para o mesmo autor, apresenta-se a porosidade efetiva, e que contempla a relação entre a rede de poros e o volume total do meio, ou seja, onde acontece, efetivamente a troca e, por consequência, o trânsito dos fluídos (Medeiros, 2015).
A diminuição do teor de porosidade pode acontecer como resultado de dois processos:
o preenchimento dos poros derivado das propriedades dos materiais circulantes, que se considera como natural, e outro, de natureza mecânica, denominado compactação:
que, em presença de condicionantes externas, faz com que os poros entrem em colapso (Azevedo, 2005).
Em termos estruturais, alguns materiais, podem se apresentar heterogêneos, ou seja,
apresentam um alicerce, formado por unidades menores (grãos), e por poros, espaços
vazios constituídos por fraturas e microfissuras, segundo Azevedo (2005). Para o mesmo
autor, “quando um carregamento é aplicado à rocha, os espaços vazios, por
apresentarem maior compressibilidade, deformam-se primeiro do que os grãos,
alterando as trajetórias de fluxo e, consequentemente, as propriedades de fluxo do
meio” (AZEVEDO, 2005 p. 24).
O autor refere ainda que as distintas instâncias, alicerce e poros, constituem igualmente distintas porosidades: a matriz e a de fissuras/fraturas. A primeira, a matriz, ocupa as porções limitadas de depósito.
De fundamental importância para a geologia, química, engenharias, entre tantas outras áreas, a porosidade guarda estreita relação com outro conceito, a permeabilidade, que diz da capacidade de trânsito dos fluídos em determinados materiais, sem que para tanto, haja alterações estruturais internas.
E é justamente esse atributo, a permeabilidade, que é encontrada no segundo tipo de porosidade, a de fissuras/fraturas. Embora resulte num preenchimento menos volumoso que a porosidade matriz, a porosidade de fissuras/fraturas, como o próprio nome revela se distribui de forma capilar e, apresenta em seu trajeto alta permeabilidade.
Ainda que convergentes, as duas propriedades, porosidade e permeabilidade, estão relacionadas, mas, não são vinculantes, podendo ou não acontecer em simultâneo.
Determinado elemento pode ser permeável e, por consequência, poroso, mas, nem todo o material poroso é permeável.
Esta condição tem conexão com a forma de instalação dos poros, anteriormente mencionada, interligados ou sem conexão, cuja característica de isolamento está diretamente relacionada com a incapacidade de contribuir para o efetivo escoamento, como refere Martins (2006), distanciando a porosidade efetiva da porosidade real. Os distintos materiais e meios possibilitam porosidades e permeabilidades distintas.
Características como forma, granulometria (que sintetiza especificidades materiais, mais
concretamente os diâmetros dos materiais que compõem o solo) ou ainda, a forma
como as partículas se organizam, em termos espaciais, segundo Medeiros (2015), são
condicionantes que respondem pela porosidade dos meios.
Os tamanhos dos poros também, por razões óbvias, respondem pela forma de escoamento e podem ser classificados, em termos crescentes, como macroporos, mesoporos, microporos e ultramicroporos.
Segundo Wang e Park (2002 apud Azevedo, 2005), a permeabilidade está diretamente relacionada à duas escalas. A microscópica, que contempla características como dimensão, forma e a constituição em rede, e a macroscópica, que diz respeito à possibilidade de abertura de microfraturas e as respectivas especificidades e forma de distribuição.
O empacotamento é a forma como o material se acomoda em determinados espaços.
Tal comportamento gera um Fator de Empacotamento (FE) capaz de identificar a proporcionalidade de ocupação, segundo Medeiros (2015).
Este, que se constitui como critério de análise no campo da geologia, entre outros, é, em Benjamin (2012), característica igualmente presente no aglomerado urbano.
Carlos (2015), a partir da analogia de Benjamin (2012), refere que a arquitetura, a ação e o movimento estabelecem relação. Desta maneira, as formas construídas empreendem a noção do cotidiano urbano, expresso pelo conjunto de pontos de referências locais, por meio dos quais o sujeito interage com o espaço citadino.
Ninguém se orienta pela numeração das casas. São lojas, fontes e igrejas que dão os pontos de referência. Nem sempre fáceis. Pois, a igreja napolitana3, em geral, não se ostenta num espaço gigantesco visto à distância com transeptos, coros e cúpulas. Fica escondida, encaixada; frequentemente as altas cúpulas são visíveis apenas de poucos lugares, e mesmo assim não é fácil achar o caminho até elas; impossível distinguir o volume da igreja do volume das construções profanas vizinhas. (BENJAMIN, 2012 p. 150).
É a percepção de uma paisagem, não a bucólica ou natural, mas a construída. É a relação formal que se materializa, por meio da paisagem humana, histórica e social (Carlos, 2015).
3Nota da autora: O autor empreendeu uma viagem à Nápoles, entre outras, a partir da qual, tece a leitura da cidade pela lente da porosidade.
A percepção da urbe, por meio de seus elementos compositivos, móveis e fixos, é apreendida de forma fragmentada em contextos e condições distintas, como refere Lynch (2011). O modelo de leitura urbana proposto pelo autor leva em conta o binômio estático/dinâmico, grande paradoxo que a cidade guarda. Se por um lado se apresenta como estática, ante a materialidade das edificações, por outro, a cidade é dinâmica diante da constante alteração da paisagem e dos detalhes que a constituem o que, por consequência, estaria diretamente relacionado ao atributo da legibilidade.
Na construção da escrita, a tipográfica, a legibilidade também é critério de análise, além da leiturabilidade. O primeiro diz da capacidade que o leitor tem em reconhecer cada uma das letras, enquanto arranjo formal. Já a segunda está relacionada com a facilidade de apreender o conjunto, ou seja, a articulação entre os caracteres e que permite a construção das palavras e, por derivação, as frases.
Tanto na escrita quanto na percepção urbana a leiturabilidade remete à facilidade de reconhecimento e, por conseguinte, à organização, dotando assim, tanto a prática da leitura tipográfica quanto da leitura urbana, do elemento identificador permitindo a apreensão dos respectivos conteúdos.
O aspecto da legibilidade, no âmbito do método de leitura da paisagem urbana é, para Lynch (2011), condição sine qua non, pois, diz da facilidade no reconhecimento da cidade, enquanto aspecto formal, o que contribui para a localização do indivíduo no espaço e facilita o seu deslocamento.
Em Benjamin (2012), a trama resultante da tessitura urbana guarda a qualidade do que é inacabado, de um movimento contínuo e incessante de construção e, portanto, sempre em busca da concretização, mas, nunca alcançando a respectiva finalização.
Nesta perspectiva, ao se tratar do espaço urbano, a ideia de definitivo inexiste.
Construção e ação se entrelaçam uma à outra em pátios, arcadas e escadas.
Em todos os lugares se preservam espaço capazes de se tornar cenários de novas e inéditas constelações de eventos. Evita-se o definitivo, o gravado.
Nenhuma situação aparece, como é destinada para todo o sempre; nenhuma forma declara o seu ‘desta maneira e não da outra’. Aqui é assim que se
materializa a arquitetura, essa componente mais concisa da rítmica da sociedade (BENJAMIN, 2012 p. 150).
O caráter dinâmico de que se reveste a cidade é, para Carlos (2015), uma das muitas dimensões de análise. Resultante que é do desenvolvimento das forças produtivas, o dinamismo urbano produz um processo contínuo de alterações, das mais variadas, que acabam também por alterar o espaço e os intervenientes. A autora referencia Balzac e a “constituição incessante do novo” para pautar o aspecto histórico que a constitui, mas, por outro lado, não a resume, pois, sem a personalidade do habitante e os vínculos construídos não se sedimenta o lugar. “A cidade é um modo de viver, pensar, mas, também de sentir. O modo de vida urbano produz ideias, comportamentos, valores, conhecimentos, formas de lazer, e também uma cultura” (CARLOS, 2015 p. 26).
Da quebra dessa virtuosidade deriva o questionamento “da normatização da cidade e da vida urbana” que a consolida como “campo privilegiado de lutas de classe e movimentos sociais de toda a espécie” (CARLOS, 2015 p. 26).
O dinamismo remete ao tempo que, embora intangível, é o grande mediador contemporâneo. Se por um lado organiza, por outro subjuga. É o homem contemporâneo no âmbito de seu paradoxo temporal. A pressa no deslocamento pressupõe uma urgência em se alcançar uma meta. Neste caso, um ponto geográfico.
Uma trajetória entre dois pontos. Convenciona-se assim a coexistência entre infinitos fluxos de forma anônima e solitária, mas, também, notável e coletiva. Este que se configura como um paradoxo é o que Carlos (2015) denomina de “multidão amorfa”.
A relação estabelecida com o tempo, mediada que é pela máquina, na contemporaneidade, diz de uma conexão empreendida sob o signo do conflito e da contradição, como refere Carlos (2015). A rapidez que transmuta a cidade é a mesma que opera a transformação, por consequência, do seu habitante. As temporalidades entranhadas no urbano imprimem ritmos específicos dotando a intangibilidade desta relação de novos ritmos e novas percepções. A ferocidade que, para Aguiar (2012), parece engolir os tempos individuais é a resultante da gradativa sequência de “trocas”
que imprime o aumento das demandas transformando em vertiginoso, os “múltiplos
ritmos temporais que viabilizam o urbano como heterotemporalidade” (AGUIAR, 2012 p. 40).
A forma urbana se manifesta enquanto reprodução do capital, impondo um tempo e um ritmo. São as muitas componentes que constituem o continente que é a cidade. As componentes do tempo, do ritmo, da cor, da tecnologia, da máquina, entre tantos outros. A componente do tempo se reflete na dependência temporal contemporânea e, como esta, determina o ritmo, a cadência urbana.
É esta confluência transformadora entre espaço e tempo que, além de acelerar os fluxos, se apresenta como vetor de desconstrução, em Carlos (2015). Não está e nem estará acabado.
A ideia daquilo que é passível de ser revogado, pode, numa abordagem preliminar ser entendido como o que é instável, que não apresenta equilíbrio. Mas, a partir da construção conceitual de Benjamin (2012), sob a ótica da porosidade, é possível empreender duas leituras, entre outras: a ideia de simultaneidade e de improvisação.
Simultaneidade, enquanto comparativo, a partir da convivência dos vazios que consolidam a porosidade, estaria relacionada com as concretizações individuais que, contaminadas pelo conjunto, constituem a vida comunitária. O coletivo, composto e expresso pelas muitas frações unitárias, diz do indivíduo enquanto integrante da sociedade e da coexistência entre unidade e conjunto, entre uno e coletivo.
Já a ideia de improvisação se revela, quando relacionada ao conceito de porosidade,
quando as condições alteram os perfis dos poros, alterando por consequência, a forma
como os fluídos transitam; por outro lado, quando relacionada ao urbano, fala da
flexibilidade em se empreender novas práticas obtendo, por consequência, novos
resultados e produtos, reforçando a ideia daquilo que é dinâmico, moldável e indefinido.
Tal característica estaria ainda relacionada à possibilidade de hibridização na utilização das edificações guardando, igualmente, um quê de teatralidade urbana por meio das muitas cenas cotidianas que o cidadão assiste, ao mesmo tempo em que integra e empreende, diariamente. Esta perspectiva converge para Lynch (2011) e sua ideia de que o habitante, mais do que mero observador, é parte integrante do espetáculo contido no espaço urbano.
A inexatidão espacial encontra aporte em Cacciari (2009) e no conceito de cidade- território, que, para o autor, revela o caráter de indefinição, mas, também de homogeneização espacial que responde a um difuso conjunto de demandas que não estabelece vínculo com o coletivo, mas, antes, o sobrepõe. É a pósmetrópole que ultrapassa o binômio centro-periferia e, subjugada pelo fator velocidade, impossibilita a construção da estabilidade, da memória, da permanência.
A fluidez de sua estruturação está na origem do “desenraizamento” e, consequentemente, da temporalidade que faz o território contemporâneo desafiar qualquer formato convencional de vida comunitária.
O habitar não tem lugar lá onde se dorme e, por vezes, se come, onde se vê televisão e se diverte com o computador da casa; o lugar do habitar não é mero alojamento. Só uma cidade pode ser habitada; mas, não é possível habitar a cidade se ela não se dispuser a ser habitada, ou seja, se não “der”
lugares. O lugar é o sítio onde paramos: é pausa – é análogo ao silêncio de uma partitura. Não há música sem silêncio. O território pós-metropolitano ignora o silêncio numa partitura; não nos permite parar, “recolher-nos” no habitar. Ou seja, não conhece, não pode conhecer distâncias. As distâncias são o seu inimigo. (CACCIARI, 2009 p. 67)
A pósmetróple segue “congelada em espaços fechados” constituída que é de
“contentores tradicionais” aos quais novos contentores foram acrescentados, ainda que sob distintas motivações o que amplia a representatividade da “pobreza simbólica”
(CACCIARI, 2009 p. 49). O encapsulamento (Castanheira, 2015) urbano diz da política
higienizadora de uma cidade-cenário que, do alto do seu paradoxo existencial, por um
lado remete ao que é “comunidade”, por outro remete ao que é “privado” e seguro,
promovendo a coabitação entre indiferentes.
O indivíduo segue na certeza que habita a cidade, mas, na verdade, existe no condomínio.
Há muito que as fronteiras das cidades são meras formalidades governativas e, tal constatação, reforça a tese que, na contemporaneidade, o habitar se dá em um território amorfo, indefinido. A incerteza de uma possível vida em comunidade diz de uma cidade enquanto conjunto de distintas formas de vida urbana onde o indivíduo habita um território, desterritorializado, e caracterizado pelo geofato, ou pela geografia dos acontecimentos.
O que isto quer dizer?
Que tudo quanto ocorre no espaço pós-metropolitano, como resposta à vertiginosa transformação, configura-se como um acontecimento, um evento (Cacciari, 2009). Hoje é possível que em determinado espaço seja construído um supermercado que, em algum tempo dará lugar a outra atividade e, portanto, outro acontecimento que constrói uma sucessão de fatos, a geografia dos acontecimentos.
Assiste-se a um fenômeno que, a certo ponto, parece irreversível: esta expansão torna-se cada vez mais ocasional, cade vez menos programável e governável. Quanto mais a “rede nervosa” se dilata, mais devora o território circundante e mais o seu “espírito” parece perder-se; quanto mais ela se torna “poderosa”, menos parece ser capaz de ordenar-racionalizar a vida que nela se desenrola. (CACCIARI, 2009 p. 58)
O território não se reconhece mais na medição espacial, mas, antes em termos temporais e, dado que o espaço é inerte (Cacciari, 2009), configura-se na atualidade, apenas como um enorme obstáculo a ser vencido e muito pouco vivido.
O que se revela um grande problema, pois, de um lado, a nossa mente raciocina em termos de ubiquidade e, portanto, vive o espaço como maldição, mas, por outro, exigimos que a cidade se organize em lugares, ainda por cima, acolhedores. Habitamos em territórios cuja métrica já não é espacial; já não existe qualquer possibilidade de definir, como para a metrópole antiga, os percursos de difusão ou “delírio” segundo eixos espaciais precisos (aqui o centro, ali a periferia). O modelo de irradiação a partir do centro, segundo determinados eixos, previa que à medida que se saía do centro, ao longo de vias bem definidas, quase canais antigos, se encontravam as funções residenciais, industriais, etc. Esta lógica, típica da organização urbana e metropolitana, deixou de ter validade. As mesmas funções podem ser encontradas por todo o lado, sobretudo, se se acentuar o grande problema
da reutilização dos velhos espaços industriais; podem encontrar-se, então, funções riquíssimas e centrais na antiga periferia. (CACCIARI, 2009 p. 54)
A convivência entre a celeridade dos fatos, “o tempo da metrópole” (Cacciari, 2009) , e a sua espacialidade, esbarra na intransponibilidade da materialidade edificada que, num processo de autofagia, produz e consome. O ininterrupto desenrolar de acontecimentos cobra do habitante a pronta resposta ao estímulo, mas, para Cacciari, 2009, segue sendo fundamental o acolhimento das “estadias demoradas”:
Como se, por um lado, o nosso córtex cerebral tivesse desenvolvido estas formas de mobilidade impetuosa, violenta, mas, por outro, nalguma zona profunda do cérebro continuasse a existir a necessidade de casa, proteção:
uma dissociação que, agora, diz respeito à nossa estrutura fisiológica.
(CACCIARI, 2009 p. 58)
A intransponibilidade da materialidade edificada demanda, no âmbito do território pós- metropolitano, “lugares que exprimam e reflictam
4o tempo, o movimento” (CACCIARI, 2009 p. 59). Esta possibilidade, apontada pelo autor, está vinculada à flexibilidade requerida pela pósmetrópole e contraria, num certo sentido, o paradoxo que reside no desejo de onipresença do indivíduo e a construção, por este mesmo indivíduo, dos espaços delimitados. Polivalência, multifuncionalidade, flexibilidade de usos e interações são alguns dos atributos fundamentais para a construção de “lugares adequados à utilização, lugares correspondentes às exigências e aos problemas do próprio tempo” (CACCIARI, 2009 p. 59), ultrapassando a compartimentação e, sobretudo, a rigidez de corpos hiper-estáveis nos territórios onde se ausenta o lugar. O simbolismo do lugar só se efetiva se o denominador comum da identidade estiver presente. De outra maneira será apenas e tão somente o território pós-metropolitano.
A cidade, enquanto locus da diversidade (LEITE, 2012), se consolida como polo promotor e difusor da criatividade e da inovação. Teóricos como Giovanni Botero (1606 apud Leite, 2012 p. 74), ou Jane Jacobs, na década de 1960, ou ainda Richard Florida (2011), já no século XXI, são unânimes, embora com perspectivas distintas, quanto à relevância da
4Foi mantida a grafia em português de Portugal, que consta da tradução da obra referenciada.
criatividade, como resultado da pluralidade, e sua potencialidade enquanto vetor de transformação sustentável, enquanto perspectiva econômica, social e ambiental.
Reciclar o território é mais inteligente do que o substituir. Reestruturá-lo produtivamente é possível e desejável no planejamento estratégico metropolitano. Ou seja: regenerar produtivamente territórios metropolitanos existentes deve ser face da mesma moeda dos novos processos de inovação econômica e tecnológica. (LEITE, 2012 p. 13)