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5. A ÁGUA NA HISTÓRIA DA PAISAGEM E DAS CIDADES

5.7. A paisagem da Idade Moderna

5.7.2. O Barroco

5.7.2.2. A cidade barroca

Por se tratar de um movimento de massas, destinado ao público em geral, o Barroco regressou à cidade, deixando a sua marca no espaço urbano consolidado intramuros, através de novas construções ou alterações à estrutura dos edifícios e à forma urbana. Este regresso à cidade não resultou no abandono das villae; pelo contrário, a arquitetura dos edifícios tornou-se mais exuberante e os jardins seguiram a mesma linguagem, tornando-se mais “arquitetónicos”, o que esteve na origem do desenvolvimento da arte dos jardins a partir deste período.

Enquanto a anterior organização do espaço tinha como objetivo encontrar o equilíbrio, num espaço uno e limitado, em que todas as partes se completam, apelando à estaticidade, com o urbanismo barroco tem como objetivo um espaço amplo, aberto e dinâmico, que apela ao movimento.

De acordo com Helen Rosenau156, “(…) as cidades europeias receberam as suas principais características e grande parte dos seus imponentes edifícios durante o período barroco”, pois a criação de extensas avenidas e vistas retilíneas, com o objetivo de encaminhar o olhar para os edifícios e pontos mais importantes da cidade, tais como igrejas, palácios, monumentos e fontes, teve uma forte influência na definição da forma urbana.

Goitia (1982) faz referência a Pierre Lavedan, que afirma que os três princípios fundamentais do urbanismo barroco são a linha reta, a perspetiva monumental e a uniformidade. Segundo Goitia, os três princípios podem ser resumidos a apenas um único: a perspetiva e aquilo que a esta acrescentou à cidade, ou seja, a noção de vista ou panorama.

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Citado por GARCIA LAMAS, “Morfologia Urbana e Desenho da Cidade”, pp. 170

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138 Por sua vez, Mumford refere que “a avenida é o símbolo mais importante e o facto capital da cidade barroca”, pois apesar de a cidade não poder ser inteiramente planeada no estilo barroco, o simples traçado de novas avenidas e bairros podia redefinir o seu carácter. Isto porque a avenida induz ao movimento rápido através da cidade, impulsionado pelo uso generalizado de veículos nas cidades, em especial pelas classes sociais mais abastadas, o que conferia também um certo estatuto:

“O movimento em linha reta ao longo de uma avenida não era meramente uma economia, mas um prazer especial: trazia para dentro da cidade o estímulo e a animação do movimento rápido (…) Era possível aumentar esteticamente esse prazer por meio da distribuição regular de edifícios, com fachadas simétricas e cornijas uniformes, cujas linhas horizontais tendiam para o mesmo ponto distante (…)”157

Apesar de a perspetiva ser um conceito que começou a ser usado na pintura do Renascimento, ela só foi aplicada ao urbanismo a partir do período barroco, pois até aí, por se considerar o Homem no centro de todas as coisas, não havia a noção de distância nem de profundidade que permitissem ao Homem organizar a cidade como uma vista, ou como um conjunto de vistas.

“O barroco forma, ordena o mundo como panorama. É por essa simples razão que devia fatalmente descobrir o urbanismo como arte, e encontrar um instrumento que facilitasse a possibilidade de criar o panorama onde ele até aí não existia. Daqui que o urbanismo se ensaiasse primeiro nos jardins, cujos traçados influíram tão decisivamente nos das cidades e conjuntos urbanos”158

Com efeito, se pensarmos naquilo que começou a ser a organização dos jardins das villae renascentistas, com as suas axialidades e polaridades, facilmente encontramos paralelo com aquilo que mais tarde viria a ser o urbanismo barroco, com as suas extensas e largas avenidas, em linha reta, e com uma presença muito forte do movimento, que nos encaminha o olhar para um determinado ponto notável da cidade. O uso da perspetiva induz à contemplação do mundo a partir de um único ponto de vista, que abarca toda a panorâmica. Trata-se da exacerbação do poder humano e, em particular, do poder do príncipe ou do rei, uma visão centralista que se assemelha à organização monárquica e absolutista do Estado. Todas as residências reais europeias do século XVIII (Versailles, Aranjuez, Queluz…) se organizavam em função

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MUMFORD, Lewis, “A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas”, pp. 400

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139 da perspetiva, tendo como ponto focal o palácio. Este tipo de organização urbana transforma a cidade numa realidade política (GOITIA, 1982).

No contexto europeu, as principais conceções urbanas do período barroco são, como vimos, as novas cidades reais, criadas para demonstrar o poder do rei, sendo a cidade de Versailles, nos arredores de Paris, o melhor exemplo desta nova forma de organizar o espaço urbano.

Em Versailles, para além da imponência do Palácio/Château de Louis XIV, o Rei Sol, e dos jardins por ele mandados executar a Le Notre, também o desenho da cidade tem importância, uma vez que se processa de forma radial em torno do palácio, ao qual se acede por meio de três avenidas que confluem diretamente à Praça de Armas do Palácio, em forma de U aberto para a cidade. Através das imponentes avenidas consegue-se um panorama único do palácio, que funciona como ponto focal e que demonstra ser ali o local do poder absoluto. Pode dizer-se que a cidade é consequência do Palácio e deve a ele a sua existência e a sua forma.

Figura 55 – Vista aérea da cidade e do Palácio de Versailles, onde se pode verificar a continuidade axial

e a forma como a presença do palácio determinou o desenho da cidade (Fonte: http://www.flickr.com/photos/jassy-50/2070191104/, acedido em 12/04/2012).

No contexto mediterrânico, os melhores exemplos de desenho urbano barroco encontram-se em Roma, na Praça do Povo e na Praça de São Pedro, desenhadas por

140 Bernini. O seu desenho iria influenciar a organização das cidades reais europeias, que se desenvolveram em função de um ponto central, o palácio, ao qual as principais avenidas tinham ligação física e visual.

Nas cidades que já possuíam um núcleo desenvolvido desde a Idade Média, a principais alterações do período barroco residem na abertura de novas avenidas, que ligam pontos importantes do espaço urbano, e na criação de novas fortificações. Com efeito, o desenvolvimento de novas técnicas militares, em especial da pirobalística, obrigou ao abandono do sistema de muralhas simples, protegidas apenas por um fosso e situadas no alto das colinas. Na verdade, esta localização tornava-as ainda mais vulneráveis aos novos instrumentos de artilharia, pelo que houve necessidade de reformular as fortificações.

É desta forma que surgem as fortificações abaluartadas, muito mais complexas que as muralhas medievais e possuindo baluartes, revelins, ressaltos e bastiões que avançavam sobre o espaço envolvente à cidade, criando uma primeira linha de defesa que a protegia e, ao mesmo tempo, a deixava suficientemente afastada do campo de combate (MUMFORD, 1967).

O espaço ocupado pela muralha era, na maioria dos casos, maior que a própria cidade, o que obrigou a que os subúrbios, os jardins, as hortas e os pomares fossem afastados do núcleo urbano central e, por isso, apenas acessível às classes mais ricas. Os espaços abertos no interior eram ocupados por construções, em especial por edifícios e espaços afetos ao serviço militar: os quartéis, os campos de instrução, as paradas e os arsenais. Em torno destes edifícios militares formava-se depois uma série de construções que serviam de abrigo aos ofícios e serviços que podiam ser disponibilizados aos exércitos: lojistas, alfaiates, tabernas e outros (MUMFORD, 1967).

Para além disso, a par das exigências de tráfego sobre rodas, as novas avenidas e praças amplas respondiam ainda à necessidade das movimentações militares. A avenida e a praça são, por isso, durante o período barroco, um campo de manobras militares e políticas, bem como o lugar de distinção entre as classes ricas e as classes pobres: no centro passam os carros dos ricos, a corte e o rei, protegidos pela coluna militar, e nas laterais, a pé, circulam os pobres.

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