5. A ÁGUA NA HISTÓRIA DA PAISAGEM E DAS CIDADES
5.3. A água nas cidades da Grécia Antiga
5.3.2. O papel da água na génese e desenvolvimento da cidade grega
Aparentemente a génese e o desenvolvimento da polis grega não está relacionada com a disponibilidade de água e a sua distribuição. Provavelmente porque, existindo uma relação tão íntima com a natureza e com o mar, ou devido ao seu conceito de paisagem ideal (a existente), o Homem grego não sentiu a necessidade de criar simbolismos associados à água.
Da mesma forma, uma vez que o jardim é uma representação da paisagem ideal de uma cultura, sendo a paisagem ideal da cultura grega a própria paisagem real, não haveria necessidade da sua representação, pelo que a ideia de jardim grego é muito vaga, se existente.
No entanto, como refere Thacker62, a propósito da herança helenística que os romanos viriam a receber e na qual basearam a sua cultura, a maior parte dos nomes utilizados nos jardins e villae romanas possuem uma sonoridade grega: peristylon (pátio interior), ornithon (aviário), peripteros (pérgola) e oporotheca (pomar).63
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Op. cit., pp. 19
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De acordo com Cláudia Nunes, docente e investigadora do Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design da Faculdade de Arquitectura de Lisboa, em artigo da “Revista Convergências”(a), intitulado “Desenho de
Jardins Históricos”, os jardins gregos possuíam características próximas das naturais e neles se plantavam as plantas
úteis e hortas. Eram plantadas grande variedade de flores e muitas árvores de ornamento, como ciprestes, salgueiros, choupos e a videira.
(a) Disponível na www: URL< http://convergencias.esart.ipcb.pt/artigo/82> [consultada em 30/08/2011]. O artigo possui boas referências bibliográficas e, no caso concreto dos jardins gregos, faz citação de G. Santos (1936), “The Garden Vision of Paradise”.
74 Também na maior parte dos casos, as cidades eram fundadas em zonas próximas de cursos de água, como no caso de Atenas, na planície da Ática, atravessada por pequenos rios, como o Cefiso, o Eridanos e o Ilissos, que poderão ter constituído uma fonte de água potável para a cidade e ter sido condicionantes no seu desenvolvimento.
Figura 26 - Planta da cidade de Atenas na Antiguidade Clássica, onde se pode verificar o curso dos rios
Eridanos e Ilissos. O primeiro atravessa a cidade muralhada e quase que “toca” a ágora. O segundo, localizado extramuros passa junto ao Estádio Olímpico e aos Templos exteriores. Fonte: www: URLhttp://en.wikipedia.org/wiki/File:Map_ancient_athens.png, acedido a 17/02/2012.
Segundo Mumford64, um dos mais célebres tratados de Hipócrates65 é, precisamente, “Dos Ares, Águas e Lugares”, no qual são traçados os contornos da higiene pública em relação à escolha dos lugares e ao planeamento das cidades: deviam ser escolhidos locais onde a obtenção de água pura fosse possível, não só para abastecimento regular como para tratamento de doentes.
Estas prescrições não foram introduzidas de forma rápida, porquanto:
“Era mais fácil para os ricos e os ociosos visitar um sanatório distante, quando estavam doentes, do que para uma municipalidade proporcionar o capital necessário a grandes obras de engenharia, que traria água pura do alto das colinas, proporcionariam amplos espaços abertos para
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Op. cit., pp. 158
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recreação dentro da cidade, abririam os bairros residenciais apinhados e assegurariam a circulação do ar (…)”66
A teoria hipocrática não viria, assim, a ser colocada em prática urbana senão quando foram construídas as novas cidades helenísticas, primeiro na Grécia e depois nas cidades romanas ou de colonização romana. Com efeito, o tempo encarregou-se de introduzir na cidade água pura para beber e para os banhos, bem como parques espaçosos destinados ao exercício físico e ao rejuvenescimento espiritual (MUMFORD, 1961).
Na periferia de Atenas, junto ao Cefiso, segundo refere Thacker67, existiam os jardins da Academia (séc. IV a.C.), um bosque sagrado com plátanos e oliveiras, destinado ao culto e ao exercício gímnico e onde, mais tarde, viriam a ser criados os banhos públicos.
A compreensão da importância da água pura, parafraseando Mumford68, não proporcionou apenas um incentivo ao melhoramento da salubridade urbana, pois provocou também a exploração das propriedades terapêuticas das fontes minerais, de tal forma que os sanatórios e ginásios originais se transformaram em banhos públicos, que se especializaram em banhos naturais, quentes e frios, e num copioso beber de água.
Ainda em Mumford encontramos referência à água no espaço urbano, ainda que de forma muito breve. A propósito da ágora e das suas funções, o autor refere que este espaço urbano da polis grega é, antes de mais, “um espaço aberto de propriedade pública, que pode ser ocupado para finalidades públicas” e que “ os edifícios adjacentes são lançados ao redor numa ordem irregular, aqui um templo, ali a estátua de um herói ou uma fonte”.69
Também Aristóteles (384-322 a.C.), como existencialista, traduziu os seus princípios filosóficos na definição de uma estrutura física da cidade. Para além de prever a orientação da cidade a sul, para beneficiar de ventos mais favoráveis à saúde humana, defendia a importância de uma abundância de fontes e mananciais na sua área geográfica, ou, na sua falta, a existência de um reservatório e cisterna para recolher a água da chuva.70
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MUMFORD, Lewis, Op. cit., pp. 158-159
67 Idem, pp. 18 68 Op. cit, pp. 159 69 Op. cit, pp. 167 70
76 Mas, como nos refere Jellicoe, a propósito da organização da cidade grega:
“Este tipo de organização era subsidiário de uma conceção mais ampla, não planeada e intuitiva, que atingiu o seu clímax no século V a.C. (…) A essência do ordenamento intuitivo do território grego era a mesma da arquitetura: fossem templos, teatros, ágoras ou academias, todos se inscreviam e construíam com a paisagem natural (…) A mudança nestes valores naturais começou com a cidade planeada de Mileto e as repercussões que isso teve no helenismo”. 71
Com efeito, após a sua destruição pelos Persas, em 494 a.C., a cidade grega de Mileto, na costa da Jónia (Ásia Menor), foi totalmente reconstruída no século V, de forma planeada, de acordo com um plano regular, ortogonal e reticulado a que se chamou planta hipodâmica, por se supor que a mesma se deve ao arquiteto Hippodamus de Mileto.
Figura 27 – Planta da cidade de Mileto, no século V a.C. A figura da direita apresenta a cidade dividida
por zonas. (Fonte: BENEVOLO, História da Cidade, pp. 116).
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77 É a partir deste modelo de cidade regular que as novas cidades gregas se irão desenvolver, sendo também este tipo de desenho o que virá a ser adotado nas cidades planeadas das culturas ocidentais que se seguiram à grega, como no caso das cidades do Império Romano.
Apesar da sua geometria rigorosa, o urbanismo funcional das cidades hipodâmicas, ou mileseanas, continua a responder às características da cultura grega e à sua relação com a paisagem. Apesar do traçado regular, as funções principais da cidade (políticas e administrativas, religiosas, económicas e sociais) eram nitidamente inscritas no interior de amplas zonas reservadas entre os quarteirões residenciais.
Portos, ágoras, mercados, templos, teatros e edifícios gímnicos, dispunham-se ligando-se uns aos outros, criando um conjunto topográfico e arquitetónico muito harmonioso, que não colocava em risco o equilíbrio entre a natureza e a obra do Homem, diminuindo o contraste entre a cidade e a paisagem envolvente.
Este novo modo de fazer a cidade, funcional e baseado na regularidade do traçado, na abertura de vias e na ênfase colocada na monumentalidade, proporcionou que o planeamento da cidade helenística fosse também orientado por atributos estéticos. Com efeito, e tal como refere Mumford72, a cidade helenística, com a sua rede sistemática de ruas, viria a levantar o ânimo da população grega, através da realização de grandes obras públicas, como teatros e casas de banho, do aperfeiçoado suprimento de água, muitas vezes canalizado das colinas envolventes, e da criação de espaços ornamentais, chegando-se a plantar árvores no interior da área construída e a colocar vasos de plantas de forma decorativa, com o intuito de compensar a propagação da cidade e a forma como era cada vez menos acessível o campo envolvente.
Com o fim da ameaça persa e graças às conquistas de Alexandre Magno (356-323 a.C.), a cultura grega pôde expandir-se por todo o Oriente. Mas, segundo Chueca Goitia, “não chegou a ser, no entanto, uma cultura grego-oriental porque permaneceu quase exclusivamente grega, sem penetrar nas camadas profundas da sociedade, nem nas populações agrícolas. Foi uma cultura evidentemente urbana e cosmopolita”.73
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Op. cit., pp. 220-221
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