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5. A ÁGUA NA HISTÓRIA DA PAISAGEM E DAS CIDADES

5.7. A paisagem da Idade Moderna

5.7.1. O Renascimento

5.7.1.2. A cidade do Renascimento

Terá esta revolução na forma de pensar, em especial no que diz respeito à conceção arquitetónica e às artes em geral, provocado também uma significativa alteração na forma e na morfologia das cidades? A maioria dos autores é da opinião que não. Veja- se Fernando Chueca Goitia que, na sua Breve História do Urbanismo, inicia o capítulo dedicado à cidade do Renascimento desta forma:

“Seria lógico pensar que, durante o Renascimento, com o mundo em expansão, na ânsia de novas realizações, quando o homem se liberta de tantos vínculos tradicionais, quando a crítica dá novas asas ao pensamento e quando tantos costumes do passado são revistos, se produzisse uma profunda transformação nas cidades dos homens. Não obstante, nada disto, ou quase nada acontece”.142

Também Leonardo Benevolo, na História da Cidade, refere:

“O novo método de projeção estabelecido no início do século XV aplica-se teoricamente a todo o género de objetos, desde os artefactos menores à cidade e ao território. Mas na prática o novo método não consegue produzir grandes transformações nos organismos urbanos e territoriais. A expansão demográfica e a colonização do continente europeu estão exauridas depois da metade do século XIV; não há necessidade de fundar novas cidades ou de aumentar em larga escala as já existentes (excetuando poucos casos excecionais).”143

Segundo Garcia Lamas (2004), a partir do século XV a arquitetura, as teorias estéticas e os princípios urbanísticos irão obedecer ao desejo de ordem e disciplina geométrica, pelo que a integração entre arquitetura e urbanística está presente desde o início do Renascimento. Contudo, será a arquitetura a primeira a absorver as novas ideias nas realizações, enquanto o urbanismo se desenvolve teoricamente, desde a conceção da cidade ideal de Vitrúvio aos tratados de arquitetura e desenho de cidades de Alberti. Ainda de acordo com o mesmo autor,

“a urbanística renascentista vai de início manifestar-se em alguns campos específicos: construção de sistemas de fortificações; modificação de zonas da cidade com a criação de espaços públicos ou praças e arruamentos retilíneos; reestruturação de cidades pelo rasgamento de nova rede

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GOITIA, Fernando Chueca, “Breve História do Urbanismo”, pp. 95.

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viária; construção de novos bairros e expansões urbanas, utilizando quadrículas regulares”.144

Com efeito, é a partir da cidade ideal de Vitrúvio que se produz a teoria urbanística do Renascimento. Nos capítulos IV a VII do Livro I de Vitrúvio, “De Architectura”, surge a descrição dos requisitos básicos a que deve obedecer uma cidade: firmitas, utilitas e venustas145. Deste modelo surge a cidade ideal do Renascimento: um modelo utópico, assente em considerações teóricas e humanistas, mais intelectual que real e que se baseia na definição de um traçado que defenda a cidade dos ventos dominantes. Tendo em conta que os ventos dominantes são oito, a planta da cidade renascentista é ortogonal, sendo o traçado retilíneo das ruas defendido por uma muralha em forma de octógono.

Temos referido que o modelo de cidade renascentista foi mais teórico que prático. Com efeito, o Renascimento produziu poucas cidades, em comparação com os períodos anteriores da história da civilização ocidental, uma vez que a maioria das cidades europeias ficou estabelecida durante a Idade Média. Exceção constituem, por exemplo, as cidades de Palma Nuova, em Itália, Grammicheld e Avola, na Sicília, e algumas praças militares de França e de Holanda.

Tendo em conta que a maior parte dos centros urbanos já se encontrava consolidada desde o período medieval, a atividade urbanística dos séculos XV e XVI resume-se a alterações no interior muralhado, com ligeiras alterações na estrutura geral. As principais realizações urbanas consistem na abertura de algumas ruas novas, compostas por edifícios solenes e uniformes, bem como na criação de praças regulares, na maior parte das vezes para enquadrar um monumento, uma estátua ou uma fonte, ou para a realização de festividades públicas, realizações que o terão continuidade, em maior escala, durante o período barroco (GOITIA, 1982).

Como vimos atrás, durante o Renascimento a ideia de dimensão e de escala humana é fundamental, uma vez que se considerava o Homem como a medida de todas as coisas. Esta escala humana remete para a construção do espaço e da paisagem à dimensão humana, através da noção de escala de proximidade.

Surge também no Renascimento a noção de espaço contínuo, sendo dada uma maior ênfase à continuidade da paisagem, nas suas mais diversas escalas: continuidade

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GARCIA LAMAS, José M. Ressano, “Morfologia Urbana e Desenho da Cidade”, pp. 168.

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Firmitas refere-se à estabilidade, à resistência, portanto à segurança. A cidade deve ser segura, resistente e bem

estruturada, pelo que deve ser rodeada de fortificações que a defendam de ataques externos; Utilitas, está associada à comodidade e à função; Venustas refere-se à beleza e à apreciação estética.

128 entre a casa, o jardim, a cidade e a própria paisagem. A noção de continuidade está associada ao conceito de unidade, segundo o qual as partes se relacionam com o todo, bem como ao conceito de geometria, que se baseia nos conceitos canónicos de proporção, harmonia, regularidade e claridade. O princípio de composição deixa de ser a verticalidade, que durante séculos imperou na Idade Média, passando a horizontalidade a ditar as regras de transformação da paisagem, passando a existir relações visuais entre a cidade e a sua periferia.

Neste contexto, surgem associadas à cidade e ao espaço urbano, novos espaços pragmáticos, baseados na tradição romana clássica: as villae. Trata-se de novas realidades espaciais que se localizam na periferia das cidades, a partir das quais se possa avistar a cidade (e que possam ser avistadas da cidade), permitindo assim estabelecer a continuidade da paisagem.

Em Itália estes espaços designam-se por Villa (Villae, no plural), Casa del Campo, em Espanha e Quintas de Recreio em Portugal. Em qualquer dos casos, funcionam como espaços de ócio e de recreio para uma população que vive na cidade e escolhe o campo para passar o tempo livre, sendo por isso próprias de uma classe burguesa e aristocrata.

A Villa estabelece a continuidade entre o espaço urbano e o espaço natural, relacionando-se visualmente com a paisagem, a cidade e as Villae circundantes. Pela primeira vez se começa a construir à escala do território. Trata-se de uma arquitetura da paisagem à grande escala, com base na geometria euclidiana: segundo a teoria renascentista o edifício deve possuir formas regulares, pelo que também o jardim, a cidade e a paisagem as devem possuir, para respeitar a continuidade do espaço. Estes novos espaços de recreio, para além de constituírem uma alternativa ao bulício da cidade e uma forma de ostentação de riqueza e poder, são criados e vivem em função do espaço urbano, não só pela continuidade espacial e visual, mas também porque são um produto da cultura urbana. São, por isso, mais realidades urbanas que rurais, apesar de se inserirem na fronteira entre urbano e rural.

As villae, as casas del campo e as quintas de recreio, como espaços de ócio, possuíam sempre extensos jardins, onde predominavam as axialidades, os terraços, escadarias, muros, esculturas, grutas, arquiteturas de prazer e bosques. Na construção e na definição destas novas realidades espaciais, a água desempenhou um papel fundamental.

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