Diante de uma cidade que crescia, a escola aparecia como elemento atrativo e condição necessária para se viver na “cidade letrada”. Assim, uma das demandas era pela educação escolarizada. Apresentaremos alguns elementos para problematizar o oferecimento desse serviço e as demandas, mesmo que de forma panorâmica.
No ano de 1991, a população do Piauí era de 2.582.137 habitantes, de acordo com dados da Fundação CEPRO (PIAUÍ, [200?]). Desses, 706.151 tinham entre zero e dez anos. Entretanto, segundo dados publicados pelo jornal O Dia, edição de 20 de agosto de 1990, 200 mil crianças estavam fora da escola. Considerando como crianças indivíduos com menos de 12 anos, de acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente, podemos, por aproximação, dizer que cerca de um terço das crianças em idade de escolarização no estado não frequentavam escola.
Segundo dados do IBGE, em 1991, Teresina contava com uma população de 599.272 habitantes20. Deste total, 150.417 indivíduos (25,1%) tinham menos de 10 anos. Se considerarmos a população com menos de 14 anos, esse percentual subia para 226.524 (37,8%) habitantes em idade de escolarização. Inferimos, por esses dados, que havia uma demanda por escola a ser suprimida. Daí, o fato de haver concursos públicos tanto na rede municipal quanto na rede estadual, no final da década de 1980.
Faltavam escolas e a década de 1990 começava assolada por greves, que atravessaram o período de 1986 a 1990, com perda de períodos letivos, sucateamento de prédios e desvalorização do professor. Como registro desse período, temos a forma como o jornal O Dia noticiava o fato em suas manchetes, como as destacadas, dos anos de 1990: “Professores cancelam o ano letivo definitivamente”; “Professores param e escola pública volta a fechar”. Uma dessas manchetes, ilustramos a seguir:
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Imagem 5 – Jornal O Dia, 6/7 de janeiro de 1991
Fonte: Arquivo Público do Piauí- Casa Anísio Brito
Tendo em vista que os concursos públicos visavam suprir a demanda por escola, é de se supor que esses professores seriam lotados nas escolas das vilas e das favelas que surgiam na cidade.
Nesse caso, abriremos parênteses para pensar como a cultura escolar reagiu diante desses novos usuários da escola. Para tanto, posiciono-me21 como testemunha dos acontecimentos que vivenciei. Do que me recordo, para cobrir essas demandas por escolas públicas, a partir da década de 1980, ocorrem os primeiros concursos públicos das redes municipais e estaduais de ensino. As tensões no interior das escolas, ao receberem essas novas demandas, também não foram menores. Lembro-me da reação dos professores ao receberem as crianças das Vilas. Não eram meninos arrumados e fardados, que correspondem ao ideal de aluno construído pela cultura escolar. Sua indumentária era rota, sandálias gastas nos pés, desalinho nos cabelos e descuido no material escolar. Sua linguagem também não era polida, refletia o falar espontâneo e nem sempre gentil das áreas de onde vinham. Às vezes, diante das tensões provocadas pelas culturas que se cruzavam no interior da escola, eram chamados de “ratos de esgotos”, de “índios”. Vistos, algumas vezes, como carentes, sobre eles recaiam o estereótipo de só quererem ir à escola por causa da merenda.
Eram esses pequenos bárbaros, incivilizados, “ratos de esgotos”, que chegavam à escola pública e eram seus novos usuários, que não possuíam a cultura escolar e que, por isso, acabavam se evadindo. A eles restavam as ruas, como espaço de lazer, de trabalho, algumas vezes de moradia e, por muitas vezes, seu espaço de educação. Esse era também o público atendido pelos educadores sociais.
Assim, se, por um lado, a população crescia sem que os serviços públicos retornassem com a mesma velocidade das demandas, por outro, havia um processo de sucateamento da escola pública estadual.
Recordar esses acontecimentos nos permite visualizar as tensões entre a cultura escolar e os novos sujeitos que chegavam à cidade. Como exemplo das respostas dadas pela sociedade e pelo poder público aos novos usuários da escola, surgem os projetos de Escolas Abertas, criados pela Prefeitura Municipal, e se cria a Escola Técnica Nossa Senhora da Paz. As primeiras se propunham a ser mais tolerantes com a cultura dos alunos e a acrescentar no currículo da escola cursos profissionalizantes e oficinas. A segunda foi idealizada por padres italianos e se centrava na religiosidade e na preparação para o trabalho dos moradores da Vila, onde foi instalada.
Outro caminho foi o da organização da própria comunidade, por meio dos movimentos sociais. Na trajetória dos educadores sociais de rua, alguns vivenciaram esse momento, ainda como crianças, como podemos constatar nos trechos a seguir:
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Como já explicitei no início do trabalho, este período estudado corresponde ao início de minha carreira profissional e que me deixou fortes impressões.
[Os movimentos sociais] Estavam nascendo naquela época. MST, os trabalhadores rurais, sindicatos. Tinha o Centro Piauiense de Ação Cultural (CEPAC), que também desenvolvia um trabalho. Então, eles faziam todo esse trabalho com a gente. Esses educadores, eles tinham todo o apoio destes grupos para fazer um trabalho com a gente. Faziam encontros, palestras, seminários. Traziam material para a comunidade sobre DST e sobre outras coisas. E eles iam buscar esse pessoal. Esse pessoal vinha para a comunidade. Naquela época, tinha o famoso slide, eles vinham mostrando algumas coisas. (Arimateia Nazareno, março de 2015).
Podemos constatar, então, que, como a escola formal não atingia a todos, para suprir a necessidade de cidadãos educados, outras formas de educação, surgidas da realidade concreta dos sujeitos, iam se modelando, criando formas. Até que ponto estão impregnadas pelos modelos escolares? Destoam-se em seus objetivos, parecem se aproximar em seus instrumentos. Isso nos leva a refletir sobre o sentido educativo assumido pelos movimentos organizados pela sociedade civil, nos momentos em que suas práticas comunitárias e populares se convertem em educação. Nesse sentido, não serão mais os professores os únicos detentores dessa licença para educar, já que os fazeres de tal ação se constroem na prática.
Então, chegamos a uma encruzilhada em que a cidade requer sujeitos educados, visto que o ideal de “cidade capital” requer condutas e comportamentos aceitáveis. Essas condutas dizem respeito a como um cidadão deve andar pelas ruas. De forma implícita, o comportamento em determinados espaços e o próprio traçado arquitetônico levam ao seguinte questionamento: Por onde é permitido circular os que não moram nos perímetros da cidade urbanizada? O traçado urbano das cidades responde a essa questão, dando a entender que não pode conviver com indivíduos que lhes sejam alheios, e, por isso, fica expresso pelo modo como esses mesmos espaços segregam os sujeitos. Ilustrando o que estamos conjecturando, reportar-nos-emos à manchete noticiada no jornal O Dia, edição de 12 de janeiro de 1990, em matéria sobre a utilização de telefones públicos, que adverte: “Vândalos depredam telefones”. Ao lado da manchete aparece a imagem de um grupo de crianças usando o telefone, mas o comportamento delas não nos leva a inferir o que a manchete afirma.
Vemos, por meio das lentes da imprensa, que era preciso uma ação civilizatória possibilitadora de que os novos moradores da capital fossem capazes de conviver nela. Nas imagens, é possível observar a surpresa das crianças diante do novo equipamento urbano, provavelmente por elas desconhecidos. Mas, para o texto da reportagem, os usuários que mexiam no aparelho não eram dignos de tal modernidade urbana, pois eram “vândalos” e “depredadores” dos bens públicos.
Acrescentamos também outro dado colhido por meio dos jornais da época: cerca de quatro mil crianças perambulavam pelas ruas do Centro, no ano de 1990. Se a sociedade reclama da presença desses novos cidadãos e lhes cobra uma norma de comportamento, a quem cabe educar? É possível uma educação em meio aberto? Ou, melhor dizendo, é possível a convivência com cidadãos não civilizados em uma cidade idealizada? Qual o papel do Estado diante desse dilema?
É possível conhecer uma das saídas encontradas pelo Estado por meio de um fato recordado por um educador social. Diante de uma situação em que a cidade “civilizada”, a
pólis, vê-se diante de novos sujeitos, o Estado tem como uma das reações proporcionar uma
limpeza no centro dela, recolhendo tais sujeitos:
Um projeto que não vou agora me lembrar aqui o nome, me perdi aqui. Que levava todos os meninos para um lugar só, meninos de diferentes comunidades, meninos que agora que estavam, é... Agora que estavam chegando no centro, tava vendendo pirulito, estava vendendo um dindin22... Levavam os meninos e misturavam com os meninos que eram usurários [de drogas]23. [...] A Igreja foi pra cima, porque, quando davam seis horas [da tarde], saiam recolhendo os meninos... Botavam nos caminhões, pegavam e, aí, levavam para esse projeto. Ficou conhecido como “carrocinhas de meninos” esse projeto, com essa limpeza étnica, essa limpeza social, na verdade. (James, outubro de 2014).
A partir dos depoimentos desse educador, podemos compreender as formas de respostas dadas à questão das crianças que estavam nas ruas. Percebemos que, naquele momento, a questão ainda não aparece como um problema a ser respondido pela área educacional e que parece estar mais em evidência a preocupação com a ocupação do centro da cidade e não com a situação dos meninos. Então, se, de um lado, os órgãos públicos veem como saída o recolhimento das crianças, para a Igreja se torna uma questão humanitária. Consideramos que essas duas formas de pensar a questão se relacionam à maneira como, historicamente, desenvolveram-se as políticas de atendimento às crianças pobres no Brasil, que oscilou entre a caridade, a filantropia e o assistencialismo.
No entanto, as duas situações nos deixam antever que o modo de viver das sociedades urbanas é atravessado por uma ideia de ordenamento, em que viver nas cidades requer
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“Dindin” é como é conhecido um suco de frutas acondicionados em pequeno saco plástico cilindríco e congelado, vendido nas ruas. Corresponde à denominação de “sacolé” ou “geladinho” usada em algumas regiões do Brasil. Devido às condições climáticas da cidade de Teresina, sempre foi bem-vindo entre seus moradores.
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O educador refere-se aqui ao Projeto Esperança, que foi desenvolvido pelo Serviço Social do Estado (SERSE) durante o Governo Mão Santa, período de 1995-2001.
atitudes e condutas desejáveis e homogêneas, para todo o conjunto da sociedade. Nem que essa homogeneização se dê por vias coercitivas, por meio do aparato estatal, como vimos no exemplo citado.