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As Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAU (páginas 133-138)

Podemos dizer, então, que a TL apontou para uma prática pastoral de transformação social, englobando todas as dimensões: social, econômica, política, cultural e pedagógica (FERRARO, 2007). De uma forma geral, para se reverter em prática, a TL contou com dois instrumentos: as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e as pastorais sociais.

Em 1979, ocorreu outra Conferência de bispos latino-americanos em Puebla, México, que, embora tenha ratificado as teses defendidas em Medellin, contou com a contraofensiva da ala mais conservadora da Igreja, de modo a enfraquecer a TL, tendência que se observou durante o papado de João Paulo II. O documento de Puebla enfatiza a importância dos agentes pastorais e do método de trabalho então desenvolvido nas pastorais sociais: o Ver-Julgar-Agir que serviu de suporte para a sistematização do trabalho da educação social de rua.

4.4 As Comunidades Eclesiais de Base e as Pastorais Sociais

Do ponto de vista prático, a Teologia da Libertação teve a sua mais forte expressão nas CEBs. Surgidas no Brasil, a partir da segunda metade dos anos de 1950, no plano de constituições das pastorais (MATTEI, 2010, p. 477), atuaram duas décadas posteriores e, em Teresina, tiveram importância na constituição dos educadores sociais de rua, como recorda James:

O trabalho de Educador de Rua, aqui em Teresina ele surge e está ancorado na questão religiosa. Questão religiosa. Ele se baseia ou vem se desenvolvendo ao longo do tempo, mesmo com a modificação de nome, mas sempre está ancorado, neste, neste pilar: religião, não religião estritamente, né? Católica e tal, mas com este viés, com essa formalidade ou nessa informalidade, na verdade. Porque é... As pastorais, no caso a Pastoral do Meio Operário, a Pastoral da Juventude, daí esses educadores ou esses militantes destas pastorais passaram a... A tratar um pouco o tema da criança e de adolescente, de algumas formas ou de várias formas, cada um com seu viés. E ele surge basicamente assim, com essa cor, com essa cara de Igreja. (James, outubro de 2014).

Outro ponto importante que envolve o papel da Igreja em relação à constituição dos educadores sociais de rua diz respeito à atuação das pastorais sociais e à capilaridade que elas atingiram em Teresina na constituição do ethos cristão discutido anteriormente.

De acordo com o documento “A Missão da Pastoral Social”, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), existia uma pastoral social na Igreja, mas ela não conseguia dar respostas aos novos desafios. Assim, “[...] no Brasil, as Pastorais Sociais, com a atual configuração, nasceram na década de 1970, tem como motivação a insuficiência das mediações de trabalho social da ICAR.” (CNBB, 2008, p. 14).

Como a TL, as Pastorais Sociais surgem como uma tradução do Concílio Vaticano II. Na visão da Igreja, a prática das pastorais sociais visa traduzir o evangelho na vida eclesial e social. Como ação religiosa de cunho pastoral e partindo da lógica da opção preferencial pelos pobres, as pastorais sociais atuam em vários setores da sociedade, como saúde, infância e juventude, mulheres, etc. As ações pastorais foram ratificadas em Medellin e Puebla, orientadas na lógica da opção pelos pobres e marginalizados, impulsionando e apoiando as pastorais sociais.

De acordo com documento da CNBB (2008, p. 14), o Concílio Vaticano II e a Conferência Episcopal de Medellin ainda não tinham conseguido ser traduzidos em práticas sociais inovadoras. O encontro de Puebla deu, então, um impulso para essa finalidade. Vemos que o próprio documento da CNBB faz referências às práticas sociais, sendo nesse âmbito que encaixamos a educação social de rua, no qual surge, também, o termo agente pastoral, uma das primeiras denominações dadas aos educadores sociais de rua, exatamente pelo papel por ele desempenhado. Como recorda Romualdo:

O agente era uma denominação proveniente dos círculos de pastorais da Igreja, que eram pessoas com características voluntárias, mas que em certo momento passaram a ser remunerados para fazer este trabalho, como que de dedicação exclusiva para fazer este trabalho. Então eles eram denominados Agentes de Pastoral. Claro que não existe esta denominação para o Ministério do Trabalho. Era uma denominação produzida no interior das Pastorais Sociais da Igreja. (Romualdo, outubro de 2014).

No âmbito do Documento de Puebla, encontramos referência sobre o que seriam os agentes de pastorais, parágrafo nº 7, do título “Os agentes de pastoral”, na mensagem inicial do texto final da Conferência:

Com palavras afetuosas saudamos aos abnegados agentes de pastoral de nossas Igrejas particulares, sem distinguir as categorias a que pertençam. Exortando-vos a continuar vossos trabalhos em prol da pastoral das vocações, onde se incluem os ministérios que se confiam aos leigos em razão de seu batismo e confirmação. (CELAM, 1979, p. 59).

Em consonância com a proposta do Documento de Puebla, a Igreja, no Brasil, inicia o desenvolvimento do trabalho das Pastorais Sociais, cujos membros agiam motivados pela fé em nome dos Evangelhos, imbuídos de uma “solidariedade libertadora”. Nesse processo, as Pastorais Sociais dispuseram-se a se colocar a serviços dos setores excluídos, das crianças, dos negros, dos dependentes químicos, dos idosos (CNBB, 2008, p. 21).

A conversão dessa intenção em prática dava-se no que se chamava “gesto concreto”. No caso das ações voltadas para as crianças e os adolescentes, como forma de vivenciar os propósitos das pastorais, cabe destacar a Campanha da Fraternidade de 1987, que tematizava a infância pobre, denominada “Menor” e que tinha como lema: “Quem acolhe o menor, a mim acolhe”.

Imagem 6 – Campanha da Fraternidade 1987

Em Teresina, como gesto concreto à Campanha da Fraternidade, ocorrem duas ações importantes: a criação da Pastoral do Menor e a realização do I Tribunal do Menor, sendo que, sobre esta, discutiremos no capítulo referente aos movimentos sociais, destacando a forte participação da sociedade civil. Sobre a Pastoral do Menor:

1985. Foi a instalação da chamada Pastoral do Menor. Depois da Campanha da Fraternidade o gesto concreto aqui em Teresina foi exatamente a criação de um serviço, dentro da Ação Social Arquidiocesana para o atendimento destas crianças que viviam em situação de rua. Foi quando se deu também o I Tribunal do Menor, que teve a participação de várias autoridades de renome aqui em Teresina. A partir daí a Arquidiocese assumiu esse trabalho. Então éramos praticamente, se não me falha a memória, cinco educadores: o Ariosto, o Ananias Cruz, a Lenir, que eram agentes de pastoral liberados para fazer este trabalho. (Romualdo, janeiro de 2015)39.

O final dos anos de 1980 torna-se um referencial temporal importante para a constituição dos educadores sociais de rua em Teresina, pois, com a atuação da Pastoral do Menor, foi a partir daqueles anos que se forjaram pessoas ligadas às pastorais católicas para desenvolver o trabalho na rua com crianças e adolescentes. Mas, aliado ao apelo do ethos

cristão para intervir na situação da criança, dois outros eventos também colaboram para a discussão da situação da infância: a declaração do ano de 1979 como o Ano Internacional da Criança; e o Código de Menores, lançado no mesmo ano.

Aliado à ideia da atuação das pastorais, outro mecanismo de concretização da TL foi a atuação das CEBs, que se tornaram importantes no contexto de modernização da Igreja, proposta pelo Concílio Vaticano II, por dar importância ao contexto local dos grupos formulados nas paróquias, como destaca o Documento de Puebla, em especial nos parágrafos 96 e 97:

96. As comunidades eclesiais de base que em 1968 eram apenas uma experiência incipiente amadureceram e multiplicaram-se sobretudo em alguns países. Em comunhão com os seus bispos e como o pedia Medellín, converteram-se em centros de evangelização e em motores de libertação e de desenvolvimento.

97. A vitalidade das CEBs começa a dar seus frutos; é uma das fontes de onde brotam os ministérios confiados aos leigos: animação de comunidades, catequese, missão. (CELAM, 1979).

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A Campanha da Fraternidade que tematizava especificamente sobre o “Menor”, data de 1987, data posterior à citada pelo entrevistado. Mas nos anos anteriores a questão já vinha sendo discutida pela CNBB, como, por exemplo, a Campanha de 1984, “Fraternidade e Vida” e Pão para quem tem fome, de 1985 que indiretamente dirigem-se às crianças pobres.

As CEBs conheceram seu auge nos anos 1950 e 1960, mas foi nos de 1980 que se fez sentir, no âmbito social, o resultado da opção preferencial pelos pobres propalada pela Teologia da Libertação. Esta, visando “libertar” o homem na América Latina, usa o método histórico-dialético, expresso por meio do “gesto concreto” e do método Ver-Julgar-Agir, praticado nas Pastorais Sociais, como nos recorda um dos educadores:

Devido ter formação superior em Filosofia, do Seminário, a direção achou por bem que eu coordenasse a chamada equipe pedagógica, que seria um espaço para a reflexão, a mística e a ação da Pastoral do Menor, baseada naquele método Ver-Julgar-Agir. (Romualdo, outubro de 2014, grifos nossos).

O Documento de Puebla explicita o método que seria utilizado para orientar o trabalho da Igreja na América Latina, composto de cinco etapas, partindo da visão pastoral sobre a América Latina e finalizando com a ação sobre a realidade:

Não se trata de uma justaposição de partes, pois elas possuem uma estrutura e um eixo. A estrutura se desenvolve segundo o método teológico-pastoral de ver a realidade analiticamente (primeira parte), julgá-la com os critérios da fé (segunda parte) e agir pastoralmente para transformá-la (terceira, quarta e quinta parte). (CELAM, 1979, p. 41).

Nesse particular, é que chamamos atenção para dois aspectos: um, a semelhança entre os pressupostos do materialismo histórico do método Ver-Julgar-Agir e a análise do materialismo histórico ao partir da tese-antítese-tese; outro, essa forma de atuação, por ser algo sistematizado, supõe uma pedagogia, como destaca o Documento da CNBB (2008, p. 7): “A metodologia da atuação na linha da Pedagogia e da Educação como prática da Liberdade.” Com relação ao fazer do educador social de rua, esses dois aspectos pedagógico e educativo foram assimilados em suas práticas.

Podemos dizer que as pastorais sociais em Teresina investiram-se de um papel político e social marcante, por possibilitarem o aparecimento de vários movimentos sociais, em especial os de cunho popular. Colocando-se nas fronteiras da evangelização no mundo dos pobres e marginalizados, assumiram uma perspectiva diferente de assistência, que não se limita a socorrer o outro com esmola, pois “A missão das Pastorais Sociais passa, portanto, pelo percurso da organização dos excluídos, chegando até o comprometimento político.” (CNBB, 2008, p. 36).

Vê-se, então, que a perspectiva de trabalho das pastorais sociais é um serviço, daí o trabalho com crianças ser chamado de Serviço de Educação de Rua. E se considerarmos que as pastorais sociais usavam o método Ver-Julgar-Agir, podemos dizer que este, ao ser

aplicado no cotidiano, dava suporte para a organização da ação educativa da prática destes órgãos, em especial, daquela que nos interessa, a Pastoral do Menor, o que coloca o trabalho dos educadores sociais de rua na tese que defendemos: ser também uma forma de alargamento das formas escolares, onde se vivenciam “a dimensão social da fé”, constituindo-se em uma ação histórica, numa perspectiva de religiosidade popular. Sai, assim, do âmbito religioso para o âmbito social e daí para o educativo, como podemos ver de forma similar pelas funções de outras pastorais:

Então a Pastoral da Juventude, ela contribuiu muito com minha formação integral, no sentido da minha capacitação, descobrir essa dimensão da afetividade, da minha relação comigo mesmo, da minha relação com os outros, a socialização com outras pessoas, dentro é claro num processo de educação da fé, onde o jovem evangelizava outro jovem, a partir das temáticas que eram inerentes à própria juventude: dúvidas, questionamentos, anseios... Então a própria proposta da PJ ela contribuía muito para o fortalecimento da formação pessoal, nossa enquanto jovens. O grupo de jovens era esse lugar de debate de discussão, de debate, de troca de ideias. Em meio a isso fui conhecendo outras pessoas de outros movimentos sociais, de outros movimentos populares, dentro das pastorais sociais da Igreja Católica. (Francimauro, outubro de 2015).

A fala de Francimauro revela como o trabalho das pastorais, na sociabilidade dos participantes, entrelaçava a ampliação da dimensão religiosa com o engajamento social e político. Em Teresina, a Pastoral do Menor assumiu esse papel ao denunciar a situação das crianças de rua e ao propor intervenções para a questão, em especial por meio de entidades como a Ação Social Arquidiocesana (ASA).

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DO PIAU (páginas 133-138)