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A cobertura do assassinato de Edson Néris da Silva

2.5 O INÍCIO DA PROPAGAÇÃO DOS DISCURSOS SOBRE

2.5.1 A cobertura do assassinato de Edson Néris da Silva

Levo em conta no segmento, por fim, os registros de quando pela primeira vez um crime com motivação homossexual repercute nacionalmente recebendo da FSP persistente interesse. Na segunda-feira, 07.02.00, dia posterior ao crime, o caderno São Paulo noticia:

Página 7.

Era o início da cobertura jornalística da morte de Edson Néris da Silva, adestrador de cães de 35 anos, espancado por uma gangue na madrugada de domingo em plena Praça da República, no centro de São Paulo. A noticia revela que o ataque foi feito por um grupo de trinta jovens e que, segundo o delegado responsável pelo caso, o crime teria ocorrido pelo fato de as vítimas terem sido identificadas como homossexuais. No dia seguinte, 08.02.00, terça-feira, o assunto merece (bem) pequeno destaque na capa do jornal assim:

Fragmento da capa da edição do dia 08.02.00

Nas páginas internas do caderno São Paulo o crime aparece com grande relevo e rende diferentes matérias:

Abaixo da reportagem principal intitulada "Skinhead acusa companheiros por crime", outras matérias dividem espaço, com os títulos "Vítima ia retomar os estudos no curso de assistência social", "O ataque foi premeditado, diz ativista" e "Para polícia e promotor, indícios sustentam prisão em flagrante". Destaco aqui, no entanto, uma quarta a seguir reproduzida em maior tamanho:

Recorte da p. 6 do caderno São Paulo, do dia 08.02.00

Nela é dada a informação de que os homossexuais são as maiores vítimas dos ataques por parte de gangues de extrema direita, sendo que no Brasil desde 1992 foram contabilizadas pelo menos oito mortes naquelas circunstâncias.

Na página 6 há uma foto do irmão do homem assassinado e na página 7 outra do grupo acusado pelos crimes, sentado em uma escadaria da delegacia de polícia em que foram presos. Em comum está o uso de um subtítulo que lança mão do termo "racismo":

Página 7.

Detalhes da investigação policial começam a revelar que o crime foi praticado por uma gangue de "carecas do ABC" que prega o extermínio de negros, nordestinos, judeus e homossexuais. A associação do incidente com motivações homofóbicas prossegue, ainda que em momento algum o termo homofobia seja utilizado, em outra matéria: "Homossexual é principal alvo" com a ouvida de um representante do Poder Judiciário que afirma que diversas denúncias são recebidas indicando a atuação de grupos que invadem espaços frequentados por homossexuais com o objetivo de atacá-los. Ao lado a chamada "Ataque foi premeditado, diz ativista" abre espaço para participantes do movimento LGBT, com a menção ao levantamento do GGB segundo o qual "a cada dois dias um homossexual é morto no país".

Na quarta-feira, 09.02.00, mais uma vez o caderno São Paulo dedica página inteira ao tema, mas somente na edição de sábado, 12.02.00, mais uma vez sob a chamada "racismo", a real motivação do crime é noticiada:

Página 15.

A foto enxertada é do homem que fugiu (e sobreviveu) do ataque, identificado como amigo da vítima fatal. Em comum todas essas

reportagens encampavam um discurso de formato policial, com a escuta de uma vítima, testemunhas, advogados, autoridades policiais, judiciais e ativistas LGBT. Outro detalhe significativo é que todas elas comungam um subtítulo associando o incidente à prática de racismo, sem lançar mão da palavra homofobia em uma única oportunidade, não obstante estivessem as mesmas cobrindo caso de confirmada motivação homofóbica.

Um registro de oito meses depois, do dia 03.10.00, uma terça-feira, a coluna Tendências e Debates do Primeiro Caderno circulou com o um artigo de Luiz Mott:

Fragmento da tiragem do dia 03.10.00, página 3.

A opinião externada é interessante e em alguma medida dá o testemunho de uma fase de transição, já que em seu título recorre à expressão "violência anti-homossexual", mas em seu conteúdo encampa

discursos contra a homofobia, cujo significado é detidamente explicado: "é como a ciência chama o ódio doentio à homossexualidade. Ódio que vai do insulto e discriminação até a violência física e o assassinato.", para logo a seguir abrir espaço para os dados estatísticos do GGB:

O ódio anti-homossexual atinge entre nós patamares insuportáveis, a cada dois dias um homossexual - gay, lésbica ou travesti - é assassinado no Brasil, vítima da homofobia. São 1830 crimes homofóbicos de 1980 a 1999. Somente nos sete primeiros meses deste ano já foram registrados 82 assassinatos de homossexuais, entre eles Edson Néris, aquele trucidado por 18 "carecas" em janeiro, na Praça da República.

A cobertura tem um desfecho no dia 15.02.01, uma quinta-feira, quando o caderno Cotidiano com grande destaque estampa em sua capa a seguinte notícia:

Página C1.

Nela resta explicado que 2 dos skinheads identificados como autores do crime, justamente os que aparecem em uma foto disposta ao lado da notícia, foram condenados a 21 anos de prisão em regime fechado.

Com a superação da fase de surgimento e o amadurecimento do período inicial de difusão discursiva, um novo momento na história das práticas discursivas sobre a homofobia na FSP começou a se configurar, apresentando novas características, como passo a narrar e explicar no capítulo que segue.

3 DISCURSOS AMPLIFICADOS?

O título proposto ao capítulo ao mesmo tempo que destaca o considerável aumento quantitativo das práticas discursivas relacionadas com a homofobia, a contar do ano de 2004, faz uso do sinal de interrogação de modo a evidenciar o questionamento, a problematização que deve acompanhar a análise mais detida deste fenômeno. Neste objetivo, divido o capítulo em duas partes, de modo a - em um primeiro momento - esmiuçar a fermentação discursiva que se deu durantes os anos de 2004 até 2009 - e, na etapa subsequente - a explosão discursiva identificada durantes os anos de 2010 e 2011.

Levando em conta a grande quantidade do material analisado, com o propósito de tornar a leitura mais clara e objetiva, adotei, ainda, subdivisões para cada uma daquelas duas partes, procedendo as análises em blocos conforme a classificação dos tipos discursivos proposta, indicando as poucas vezes em que houve maior precisão terminológica. Especificamente com relação aos discursos do biênio 2010-2011, dada a quantidade de material, abri subdivisões para facilitar o análise e tornar a exposição mais clara, bem como para acompanhar a série de notícias sobre os ataques homofóbicos ocorridos no período, em especial um deles que se deu com uso de lâmpadas fluorescentes, conjuntamente com os protestos que surgiram na mesma época.

3.1 A FERMENTAÇÃO DISCURSIVA SOBRE A HOMOFOBIA NA