Subdivisão I – As ideologias
21. A coexistência e a sucessão das ideologias
De um ponto de vista cronológico, “surgem primeiro as ideias, por vezes
dispersas e variadas; depois vão-se desenvolvendo as doutrinas com vista o aprofundar
e divulgar o substrato das ideias; e, por fim, aparecem as ideologias quando o substrato
das ideias foi assimilado e aceite pelo menos por uma parte da Sociedade (…). As ideias
nascem espontaneamente, ou vão-se gerando através da observação dos factos. Mas
para produzirem os efeitos subjacentes à sua força transformadora, carecem de ser
interiorizados, assimilados, pela Sociedade, ou por uma parte [dela]. E a interiorização
(…) dos princípios e objectivos integrantes das ideias faz-se através do trabalho
interpretativo dos respectivos doutrinários (…). A ideia necessita de ser doutrinada para
se transformar em ideologia”
235.
Pode dizer-se, em resumo, que as ideologias que influenciaram e/ou
determinaram decisivamente o exercício do poder político ao longo da História
236,
foram o civismo clássico, a teocracia, o feudalismo, o absolutismo, o liberalismo, o
socialismo, a democracia-cristã, o fascismo e a tecnocracia
237, e acrescentar que todas
230
A. Marques Guedes, ob. cit., p. 16.
231 Idem, Ibidem.
232 J. F. Revel, La Tentation Totalitaire, Paris, 1976, p. 229, apud A. Marques Guedes, ob. cit., p. 16. 233 A. Marques Guedes, ob. cit., pp. 15 e 16.
234
Idem, Ibidem, p. 17.
235
António J. Fernandes, Introdução, p. 232.
236
Cfr., Idem, Ibidem.
237 Numa perspectiva cronológica, António J. Fernandes, Introdução, pp. 263 e 264, sintetiza-as da
seguinte forma: “o exercício do poder político fundamenta-se sempre num conjunto de crenças, valores, sentimentos; é enformado por uma ideologia orientadora. E daí que as ideologias orientadoras da afirmação do poder se tenham sucedido [e até] coexistido no tempo e no espaço. Assim, ao civismo clássico [do séc. V a. C.] sucedeu o sacerdotalismo medieval e o feudalismo, e a estes sucedeu o absolutismo como ideologia dominante nos sécs. XVII e XVIII. Contra a concentração dos poderes do regime absolutista afirmou-se o liberalismo nos finais do séc. XVIII, tornando-se a ideologia orientadora
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elas apresentam mais ou menos gradações que se traduzem, designadamente em
autores e em correntes
238.
E, naturalmente, as ideologias políticas coexistem, mais ou menos em
articulação, mais ou menos em conflito, com as ideologias filosóficas, religiosas
239e
durante o [séc.] XIX e o primeiro cartel do séc. XX. Entretanto, durante o séc. XIX, várias correntes socialistas insurgiram-se contra o modelo de organização política, económica e social suscitado pelo Estado liberal, contribuindo para a formação e afirmação de duas ideologias[, o] socialismo/comunismo e o socialismo reformista ou socialismo democrático – que marcaram os destinos políticos de muitas sociedades no séc. XX. Paralelamente, sob inspiração da DSI e contra as desigualdades propiciadas pelo «Estado do laissez faire, laissez passez» e o colectivismo propugnado pelo marxismo, emergiu o personalismo democrata-cristão advogando uma forma de organização política e social assente no institucionalismo e na descentralização administrativa. No final da [I GM], começa[m] a afirmar-se (…) nova[s] concepção do mundo e da vida – o fascismo – que não tolera a fraqueza do Estado democrático liberal, nem admite[m] a ditadura do proletariado prosseguido pelo marxismo-leninismo, mas pretende[m] construir um Estado forte, interventor e gestor, dirigido pela elite dominante e obrigatoriamente tolerado e apoiado pelas massas. [Todas estas ideologias, coexistiram, durante mais ou menos tempo, em algumas Sociedades do séc. XX], influenciando o exercício do poder, alternadamente em diferentes espaços geográficos. Depois da II GM, o desenvolvimento tecnológico subjacente à terceira revolução industrial, criou condições à afirmação do «normativismo instrumental», que se traduz na superação do idealismo político pelo utilitarismo material. Começa, então, a falar-se em «regimes sem ideologia», na «despolitização dos interesses e atitudes», na «morte das ideologias», na «era dos tecnocratas». A especialização técnica torna-se imprescindível ao recrutamento dos dirigentes políticos, e o «tecnocracia utilitária» passa a influenciar o exercício do poder”.
238 Assim, no que respeita, p. ex., ao socialismo, encontramos utopistas, como Thomas More, Campanella
e Charles Fourrier; igualitaristas, como Babeuf e Louis-Auguste Blanqui; associacionistas, como Saint- Simon, Louis Blanc e Philippe Buchez; anarquistas, como P. Joseph Proudhon, Mikhail Bakunin, Piotr Kropotkin, Errico Malatesta, Paul Goodmann e Noam Chomsky e, num sentido lato do termo, Rudi Dustschke, Bernard Rabehl e Daniel Cohn-Bendit (cfr., Angel J. Cappelletti, A Ideoloxia Anarquista, Móstoles, 1991, pp. 67 e ss) –; socialistas científicos, como K. Marx e F. Engels, nacionais-socialistas, como Adolf Hitler, e socialistas reformistas ou sociais-democratas, como Sidney Webb, Edouard Bernstein e Jean Jaurès. A inserção do nacional-socialismo neste grupo é discutível. Em todo o caso, parece tratar-se de uma forma de socialismo com base na raça. Mas, como justamente observa Marlis Steinert, ob. cit., p. 218, “os juízos perspicazes alternam com a dificuldade de delimitarem a verdadeira natureza do fenómeno e de o cingirem a conceitos conhecidos (…) querendo uns ver nele uma forma de totalitarismo, outros de fascismo (…) ou, ainda, de qualquer coisa de sui generis, mas reagindo sempre como se um excluísse o outro. Trata-se (…) de um fenómeno com múltiplas facetas. Tem as suas origens no mesmo terreno socioeconómico e cultural do fascismo italiano e de outros movimentos europeus semelhantes; o seu totalitarismo inspira-se, em parte, na Itália, mas ultrapassa-a de longe e assemelha-se, antes, ao estalinismo. Mas traz (…) uma marca especificamente alemã, em particular a do seu chefe”.
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Fernando Catroga, O Estado Laico, in CNCCR, Catálogo da Exposição Viva a República! 1910-2010, p. 119, escreve a propósito: “o discurso religioso é (…) a modalidade suprema de fundamentação e reprodução de uma dada mundividência. Respondendo às perguntas acerca da origem e da finalidade do mundo e da vida, exprimindo-se em linguagens diversificadas, que vão de formulações intelectualizadas (teológicas) a expressões simbólicas e rituais, e assumindo-se como poder (pelo menos espiritual), as religiões veiculam de um modo exemplar as necessidades ideológicas da humanidade”. De resto, o que os dados da experiência demonstram é que “os homens nunca praticam o mal tão completa e entusiasticamente como quando o fazem por convicção religiosa”. Umberto Eco, O Cemitério de Praga, p. 25.