Subdivisão II – As estruturas personalizadas
29. Outras estruturas de Direito Privado
29.2. Fins e funções
29.3.4. Os novos movimentos sociais
I. De uma maneira geral, podemos dizer que um movimento social é uma
estrutura relativamente descentralizada e não hierarquizada, por intermédio da qual um
conjunto maior ou menor de pessoas procura influenciar os processos de decisão
política, no sentido da alteração de um ou outro aspecto relevante da disciplina jurídica
de uma dada relação da vida social.
Em todo o caso, numa “definição tão detalhada e precisa quanto possível,
articulando o fundamental do contributo dos Autores mais significativos
473”, há quem
considere preferível dizer que um movimento social é – numa noção de cortar o fôlego
– “uma «rede de interacções informais entre indivíduos, grupos e/ou organizações que,
em interacção habitualmente conflitual com autoridades políticas, elites e oponentes e
compartilhando uma identidade colectiva diferenciada na origem mas com tendência a
confundir-se com identidades convencionais do «mundo interior» –, procuram
introduzir mudanças (só em potência anti-sistémicas) no exercício ou distribuição do
poder em favor de interesses cujos titulares são colectivos ou categorias sociais
indeterminados e indetermináveis»”
474.
II. Vamos partir de dois critérios para proceder à classificação dos movimentos
sociais.
– O primeiro critério atende às dinâmicas, à estrutura organizativa, às ideologias
e aos objectivos e distingue entre os velhos e os NMS
475, ou noutros termos, entre os
movimentos sociais da primeira modernidade e os movimentos sociais da pós-
modernidade, com a ressalva de que, em bom rigor, esta teve o seu início simbólico em
1973
476.
472 Idem, Ibidem, p. 207.
473 M. José Stock (Coord.), ob. cit., p. 247.
474 Ibarra e Letemendía, s. o. i., in M. C. Badia, Manual de Ciência Política, Madrid, 2001, p. 400, apud,
M. José Stock (Coord.), ob. cit., p. 249.
475
Cfr., M. José Stock (Coord.), ob. cit., p. 236. Trata-se de “uma distinção que (…) deve ser considerada com cautela teórica, pois não apenas os chamados velhos movimentos ganham hoje novas e reactualizadas roupagens, mantendo no essencial os seus princípios e metas, como os denominados novos movimentos se inspiram, partem ou reagem aos velhos, sendo difícil descortinar os elementos de continuidade e os elementos de ruptura e de novidade”. Idem, Ibidem.
476 A. Giddens ob. cit., pp. 443, col. 2 e 444, col. 1, tem uma posição diferente. Segundo o Autor, a partir
da década de 1990, como reflexo dos riscos que as Sociedades pós-modernas enfrentam, houve uma explosão, nos países do Ocidente, dos denominados NMS – expressão que procura diferenciar os movimentos sociais contemporâneos daqueles que os precederam nas décadas anteriores. Os NMS são
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– O segundo critério, por sua vez, tem em atenção “o tipo de mudança que [os
movimentos sociais] intentam operar (se no indivíduo ou se na Sociedade) e (…) o grau
de mudança desejada (ou parcial, não afectando a Sociedade no seu todo, ou total,
implicando uma transformação sistémica)[, e distingue entre movimentos]
“revolucionários, redentores, alternativos e reformistas”
477, embora tenha de se
reconhecer “que esta classificação padece de uma certa unilateralidade ideológica, visto
que não considera[, p. ex.,] os movimentos (…) de fundo moralista, que lutam pela
recuperação ou restauração de tradições, costumes e leis já ultrapassadas pela História
ou caídas em desuso”
478.
III. Articulando os termos destas duas classificações, conseguimos isolar a
espécie de movimento social que, de uma maneira geral, vamos ter presente ao longo da
tese – os NMS reformistas –, ou seja, os movimentos sociais que, para além de terem
“uma dimensão [essencialmente] política [e não] um teor preponderantemente
económico, cultural ou religioso”
479, também “não estabelecem como meta principal
ameaçar o sistema social e político vigente, procurando antes introduzir alterações e
mudanças significativas em certos aspectos [–] mais do que revolucionar a Sociedade,
um produto da Sociedade pós-moderna, profundamente diferentes nos seus métodos, motivações e orientações das formas de acção colectiva precedentes. As condições são propícias para o seu desenvolvimento. As instituições políticas tradicionais revelam-se, de um modo geral, incapazes de lidar com muitos dos novos riscos e desafios, designadamente as ameaças que pairam sobre o ambiente e os perigos representados pela energia nuclear e pelos organismos geneticamente modificados. Os efeitos acumulados destes novos riscos e desafios acabam por revelar que as pessoas sentem que estão a perder o controlo das suas vidas: sentem-se mais inseguras e isoladas; sentem que perderam poder. Em contrapartida, os Governos, as empresas e os media vão dominando cada vez mais aspectos da vida do homem comum. O crescimento dos NMS demonstra, portanto, que nas Sociedades pós-modernas, os que não governam não são cidadãos apáticos nem estão desinteressados da Política. O que sucede, é que dão prevalência a formas de participação política não convencional. Seja como for, o que é certo, porém, é que a distinção entre os movimentos sociais tradicionais e modernos é relevante para diversos efeitos, designadamente para arrumar as teorias clássicas – a abordagem do comportamento colectivo como um fenómeno patológico; a teoria das tensões estruturais; a teoria do conflito; a teoria da privação relativa; e a teoria da Sociedade de massas – e as teorias contemporâneas dos movimentos sociais – a teoria da acção colectiva; a teoria da mobilização de recursos; a teoria da estrutura de oportunidades políticas; as teorias da identidade colectiva; e as teorias dos NMS. Cfr., M. José Stock (Coord.), ob. cit., pp. 261 e ss.
477 M. José Stock (Coord.), ob. cit., pp. 250 e 251. Em resumo, “os «movimentos revolucionários» visam
a substituição da ordem social, política, económica ou religiosa por outra, tida como mais justa, fraterna e solidária ou mais verdadeira e humana aos olhos dos activistas revolucionários (…). Os «movimentos redentores» [têm] por fim libertar os indivíduos do que entendem ser a degradação moral ou a falsidade das religiões existentes e propondo uma adesão total e incondicional ao movimento (…). Os «movimentos alternativos» [surgem] com o objectivo de oferecer estilos de vida alternativos, sem que isso implique necessariamente mudanças profundas ou sequer reformas na Sociedade”. Idem, Ibidem, pp. 251 e 252.
478 M. José Stock (Coord.), ob. cit., p. 250. Na verdade, em resposta aos movimentos sociais que desafiam
as regras da ordem estabelecida, surgem por vezes contra-movimentos sociais em defesa do status quo. Assim, p. ex., a campanha pelo do direito das mulheres à IVG, tem sido desafiada por activistas antiaborto. É o caso, entre nós, do Movimento Pró-Vida. Cfr., A. Giddens, ob. cit., p. 443, col. 2.