1.3 A educação moral como construção da personalidade moral
1.3.3 Procedimentos da consciência moral
1.3.4.2 A compreensão
Ao mesmo tempo em que há diferença entre o juízo moral e a compreensão, ambos instrumentos procedimentais da consciência moral autônoma, há, também, complementaridade entre eles. O juízo moral é uma capacidade da consciência que apresenta a forma universal e incondicional da reflexão moral enquanto que a compreensão crítica é um instrumento que permite captar a dependência da reflexão com respeito às particularidades das situações concretas. A compreensão utiliza-se, além da razão, também da consciência, do sentimento de equidade, do espírito de conciliação, da benevolência e do amor (PUIG, 1998). A complementaridade aparece na medida em que cada situação moral controversa traz sempre o elemento circunstancial ao juízo moral. “É, portanto, neste sentido que afirmamos que a compreensão deve ser um tipo de reflexão moral que ajude a razão moral que é expressa no juízo” (PUIG, 1998, p. 107).
20 Tal princípio orienta a produção e a crítica de juízos morais e o faz de um modo dialógico. Serão, portanto
corretos aqueles julgamentos que tenham sido produzidos de acordo com as condições de uma situação ideal de diálogo. Isto é, uma situação em que todos os implicados reconheçam o conflito de valores, todos se comprometam em um processo de diálogo no qual se torne possível falar e argumentar sem coação, de maneira que se possa ter em conta os interesses dos afetados e valorar as possíveis consequências da adoção de certas normas. Tudo isso se consegue mediante um intercâmbio de razões que se orienta pela busca de um acordo nas melhores razões, e não na pressão, coação ou no engano. Um acordo cooperativo que, caso seja alcançado, exerceria uma forte motivação em todos aqueles que tivessem participado de sua consecução. Como se pode ver, encontra-se de novo a natureza dialógica da consciência, mas aqui convertida e utilizada como princípio ou critério de produção de juízos justos (PUIG, 1998, p. 106).
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No exemplo sugerido anteriormente, em que uma cena esboçava a agressão física de um professor contra um aluno, valendo-se somente do saber moral que determina incondicionalmente o que é certo, não há dúvidas de que o julgamento relacionado à atitude do professor seria somente condenatório. Contudo, a compreensão, por sua vez, propõe um saber moral complementar e, nesse caso, proporcionaria a reflexão sobre a ocorrência, levando em consideração o “saber de situação”, ou seja, os fatores e particularidades que levaram esse suposto professor a tal ato extremado.
A compreensão, quando entendida como processo que dá significado às situações concretas, também pode ser vista como um elemento que distancia a humanidade do reducionismo e da limitação. Sendo assim, como acontece também com os juízos, toma alcance universal na medida em que atinge a estrutura mais profunda do ser humano. E, conforme aponta o autor, um conceito epistemológico transforma-se em um conceito ontológico, uma vez que não se trata apenas de uma operação intelectual que sujeitos já constituídos realizam, mas também num modo de “ser” humano, algo constitutivo e indispensável na construção humana.
Porém, avaliada a sua necessidade e universalidade, Puig, ao explicar melhor como se dá processualmente a compreensão, inclusive destacando-a como um dos principais procedimentos da consciência moral, vale-se, fundamentalmente, dos escritos do filósofo alemão Hans-Georg Gadamer. Parte da premissa do próprio filósofo, ou seja, a de que “a compreensão começa onde algo nos interpela”. A compreensão, portanto, só se ativa mediante situações problemáticas. É mediante questionamentos suscitados nas situações em que o sistema de significados pelo qual os humanos são guiados no mundo falha, vacila, titubeia, etc., que a atividade compreensiva entra em ação.
O exercício da compreensão requer a capacidade de penetração na singularidade dos fatos e situações. Isso só acontece mediante o questionamento da posição moral anterior quando o humano é invadido pela dúvida em relação às modificações da sua paisagem habitual. Trata-se do rompimento com as seguranças pretéritas. Diante de tais ocorrências, a tarefa hermenêutica é iniciada e, sobretudo, orientada por questões. Surge daí, então, o processo de compreensão dos aspectos singulares e contextuais da nova realidade. Em relação a esse aspecto, Puig ressalta que
[...] esse processo circular para o qual contribuem um momento de análise e outro de síntese não seria possível se não contássemos desde o princípio com certas ideias
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prévias, ou pré-conceitos, que guiam os processos de compreensão (PUIG, 1998, p. 110).
Não é possível entender o novo se não for pelos esquemas de compreensão já desenvolvidos pelos julgamentos ou opiniões formados previamente. E isso acontece a cada nova situação em que experiências são contrapostas até se chegar a compreendê-las e, por conseguinte, incorporá-las como novas aos antigos esquemas, ou seja, a ressignificação é constante. Por isso, quem se compromete em um processo de compreensão, apesar de ter suas próprias convicções, tem que estar aberto a outras posições. Considerando outras posições e revisando as próprias, alcança-se a melhor compreensão de cada realidade interpelada.
Resumidamente, a compreensão supõe em primeira instância um problema comum a uma pessoa ou a um grupo de pessoas, desestabilizando estruturas e conceitos pré- estabelecidos. Em segundo lugar, a pessoa ou o grupo deve perceber o problema, mas é essencial que, além de perceber, exista o interesse em solucioná-lo, o que pode se dar pela via do entendimento. Entretanto, a compreensão supõe o entendimento das situações problemáticas por meio da razão ou de razões. É pela abertura a outros pontos de vista e pelo confronto com os seus próprios que a pessoa ou o grupo devem buscar a melhor solução, a mais justa, a mais coerente. Sendo assim, para que haja compreensão, faz-se necessário um movimento dialógico. Quanto a esse aspecto, Puig, mais uma vez, busca apoio em Habermas, afirmando que
[...] a compreensão é o diálogo racional com todas as posturas ou pontos de vista que têm algo a dizer sobre a realidade que se tornou problemática. Por meio deste compromisso de diálogo racional, podemos ampliar o círculo da compreensão e ver a realidade com novas cores (PUIG, 1998, p. 111).