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3.2 ​O constitucionalismo de Florestan

3.4. A concepção do papel da classe trabalhadora no ​Processo

Constituinte de 87-88​.

Florestan assinala que naqueles dias o Brasil passava por uma das crises institucionais mais profundas que já havia enfrentado. Um importante aspecto social que destacamos, consequência da transformações que o Brasil passava, é o crescimento rápido do regime de classes e do seu impacto sobre a fragmentação de uma sociedade civil construída para o domínio de minorias oligárquicas e plutocráticas.151 O regime ditatorial havia levado a desorganização até o fim e até o fundo da sociedade civil e do Estado. Surgia um novo padrão de luta sindical e de luta políticas de classes, levantavam-se instituições e organizações civis liberalizantes, bem como massas de oprimidos em organizações de vanguarda dos sem-terra, indígenas, negros, mulheres, etc.152Para Florestan, havia algo como uma camisa de força para tolher as transformações necessárias, mas que no entanto somente garantiriam avassaladoras explosões sociais. A ANC seria uma oportunidade de ocupar o hiato histórico e político entre a transformação da sociedade e suas repercussões sobre a organização, funcionamento e rendimento das instituições chave.

A maioria social de trabalhadores e oprimidos já não deveria ser mais refém de promessas eleitorais ou dos programas dos partidos da ordem. Florestan defende a necessidade de se equacionar as grandes reivindicações proletárias em termos socialistas:

Se a minoria que monopoliza o poder bloqueia o campo das transformações (e da linguagem ou da ação liberal-radicais da burguesia), a maioria deve saltar à frente e servir como a alavanca da revolução democrática e da criação de um Estado democrático popular. Todas as forças vitais da esquerda, dos sindicatos aos partidos e às organizações culturais de frente devem aprender a lidar diretamente​com seus problemas e segundo uma estratégia própria​.

Primeiro, para conquista o centro dinâmico da ordem e da sociedade;

151​Ibidem. ​P. 20 152​Ibidem. ​P. 21.

segundo, para conferir a este a capacidade de ​alterar as estruturas,

os conteúdos e o rendimento do Estado​.153

Em artigo para a ​Folha​, nas vésperas da abertura da ANC , Florestan154

apresenta o longo desenvolvimento do movimento operário, desde quando tornou-se o substituto do trabalho escravo, até aquele momento, em que o seu movimento colocava em crise o esquema de paz social burguesa. Afirma que os proletários não lograram desenvolver uma autoconcepção do seu próprio papel histórico. Isso teria acontecido em razão do grande exército industrial de reserva, pela cultura de subalternização do oprimido e por ser uma novidade o sindicalismo combativo, consequência do passado colonial e escravista e do desenvolvimento de uma burguesia pró-imperialista. Este é o diagnóstico do desenvolvimento da consciência histórica da classe trabalhadora. Naquele momento, os trabalhadores percebiam que haviam de reduzir a supremacia burguesa no corpo a corpo, a começar pela fábrica, enquanto questões como a hegemonia proletária possuíam prioridade limitada.

Para Florestan, o resultado de um inquérito realizado pelo ​Núcleo do PT dos

Metalúrgicos, dos Plásticos, dos Químicos da Zona Sul que buscava avaliar a

presença das ideias socialistas na cabeça dos trabalhadores não correspondia às esperanças dos ativistas socialista. “[...] os trabalhadores se manifestaram em termos da situação concreta existente, das tarefas políticas que podem, efetivamente, desempenhar dentro dela” . Florestan sugere como a radiografia da155 realidade candente do movimento operário naquele momento, que “limitar o poder burguês dentro da fábrica, da sociedade civil e do Estado equivalia a aumentar o poder real do proletariado na sua luta política para enfraquecer, deslocar e derrubar a supremacia burguesa”.156 Importante destacar como Florestan tinha claro que o socialismo proletário não despontava como algo visível, como identidade característica dos trabalhadores.

No sentido da ausência de consciência revolucionária na cabeça dos trabalhadores, Florestan afirma que seria suficientemente revolucionário naquele momento que a CUT e o PT, resolvessem as debilidades organizativas, 153​Ibidem. ​P. 23.

154​Ibidem. ​P. 39-42. 155​Ibidem. ​P. 41. 156​Ibidem. ​P. 41.

depreendendo-se do espontaneísmo para corresponder organicamente às tarefas políticas do vir-a-ser socialista da classe trabalhadora. Sem a superação dessa defasagem, nunca haveria luta pela conquista do poder. 157

Face a conformação dos partidos da ordem que antecipavam os resultados da ANC como uma transição pacífica e asseguradora de privilégios, onde o PMDB se apresentava como principal partido assegurador, quando na verdade deveria ser a oposição frontal, Florestan defende que os partidos de esquerda deveriam trilhar seu próprio caminho. Seria dever da esquerda “levar ao Congresso Constituinte os nexos que os unem à sociedade civil existente - não a que está nas cabeças esclerosadas dos líderes dos partidos da ordem - e todas as causas decorrentes”.

A conformação do Congresso apresentava um caráter autocrático. Para sair do ponto-morto da passagem do passado e do presente para o futuro, Florestan sugere dois caminhos concorrentes: Primeiro, consiste na mobilização da massa popular e na ativação do pólo proletário na luta de classes. Segundo, é o surgimento de um poder paralelo, como por exemplo conselhos populares. Florestan não necessariamente limita a execução deste percurso e luta por revolução social em torno do Processo Constituinte ou do Parlamento.158 Seria “extremismo infantil” confundir as coisas e ignorar quais são as tarefas históricas dos partidos socialistas e comunistas proletários no atual contexto político. A revolução vai da sociedade civil para o Parlamento e não o contrário. 159

Para Florestan, independente da vontade dos de cima, a Constituição teria de ser um ruptura revolucionária dentro da ordem. Ele afirma que isso estava muito longe do seu gosto e de suas esperanças, mas o que era necessário era que se elaborasse uma constituição que acelerasse a democratização da sociedade civil e servisse de instrumento para a organização de um Estado burguês democrático. 160

Uma nova composição da sociedade brasileira nestes marcos permitiria que os oprimidos pudessem manejar a luta de classes com a mesma desenvoltura e eficácia dos patrões, nacionais ou estrangeiros.

157​Ibidem. ​P. 42 158​Ibidem. ​P. 57. 159​Ibidem. ​P. 256. 160​Ibidem. ​P. 70.

A nova Carta Constitucional precisa fazer face, pois, a dois tipos de problemas: aqueles que nasceram do horizonte cultural retrógrado de nossa burguesia, e os que dizem respeito ao próprio movimento operário, que ao crescer, exige para os trabalhadores a eliminação de formas pré-capitalistas de exploração econômica, a conquista de padrões decentes de vida e a capacidade de terem peso e voz na sociedade civil.161

Em discurso realizado em julho de 87, Florestan tenta levar aos constituintes a necessidade de incorporação de medidas socialistas na constituição.162 Devemos levar em consideração o que já foi afirmado que, frente a uma burguesia vacilante que não cumpre os seus deveres históricos, pautas capitalistas tornam-se pautas socialistas. O que não equivale dizer que a revolução proletária deva se limitar à revolução dentro da ordem, mas que algumas reformas fazem parte das necessidades socialistas. Florestan afirmava que nenhuma nação moderna pode descuidar-se da importância do socialismo para desenvolver-se enquanto nação, lograr soberania e independência e atingir estágio verdadeiramente democrático.

Os trabalhadores terão de conquistar o poder, primeiro, para em seguir implantar ou difundir o seu órgão de representação e de governo, que se interpenetram e se mesclam. O que estava em jogo, nas eleições de 86 consistia como passar de uma ditadura anti-operária e autocrática para um Estado norteado pela forma de democracia burguesa, com firmes polaridades proletárias e populares. A constituição por si mesma exprimiria uma vitória. Ela seria o fim da ditadura e início de um Estado democrático de participação ampliada. O resto teria de ser conseguido depois, dentro ou contra as normas constitucionais, pela própria luta de classes.

Em artigo à ​Folha ​em julho de 1988, cada vez mais próximo do encerramento dos trabalhos da ANC, Florestan denuncia o movimento da burguesia em perseguir os avanços conquistados na Constituição que proporcionariam aos trabalhadores o espaço político para travarem as suas tarefas históricas. Quais eram os pontos os quais Florestan afirmava serem de defesa prioritária para a luta operária? No sentido de demonstrarmos as pautas que Florestan não somente defendidas no Parlamento, mas no conjunto da luta da classe trabalhadora, apresentamos uma longa citação

161​Ibidem. ​P. 101. 162​Ibidem. ​P. 97-102.

que pode ser incômoda ao leitor. No entanto, demonstrará em termos concretos o significado da luta por reformas:

A liberdade de organização de seus sindicatos e partidos; o direito irrestrito de greve; a liberdade de organização sindical dos trabalhadores nos serviços públicos; o direito de greve desses trabalhadores, embora sujeitos às disposições de lei complementar (uma limitação terrível); o mandado de segurança coletivo e o mandado de injunção, como um instrumento de defesa efetiva de todos os cidadãos (e, inclusive, portanto, dos trabalhadores) de se verem protegidos em seus direitos e garantias fundamentais; a relação de emprego protegida (que não substitui as reivindicações dos trabalhadores e sindicatos pela proibição da dispensa não motivada); o acréscimo de um terço de salário na remuneração das férias; a jornada máxima de seis horas para os trabalhos realizados em turnos ininterruptos; e o aviso prévio proporcional ao tempo; o limite de cinco anos como prazo conferido aos trabalhadores rurais e urbanos na defesa de seus direitos junto à Justiça do Trabalho; a liberdade da Justiça do Trabalho de estabelecer normas e condições para cumprimento de dissídio coletivo nos casos de conflito inconciliável das partes; a exclusão da saúde da área de comercialização das multinacionais; a licença paternidade (aliás amplamente praticadas por várias empresas); a assistência gratuita aos filhos e dependentes até seis anos de idade, em creches e pré-escolas mantidas pelas empresas; a proibição da distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos; a igualdade de direitos entre o trabalhador com vínculo empregatício permanente e o trabalhador avulso; fixação pela Assembleia Geral, da contribuição de categoria profissional, a ser descontada em folha, para custeio do sistema confederativo, independentemente da contribuição prevista em lei; proibição da dispensa do empregado sindicalizado, a partir do momento da candidatura a cargo de direção e de representação sindical até um ano após o final do mandato, se eleito, o mesmo aplicando-se a seu suplente; controle estatal das telecomunicações e estatizações de serviços públicos que tenham sido contempladas na Constituição (note-se: prevaleceu uma estrita orientação privatista, que restringiu aquilo que deveria ser feito em um país com desenvolvimento capitalista desigual); resguardar as atribuições do Estado como agente regulador e normativo da atividade econômica, nas poucas esferas nas quais elas foram respeitadas; batalhar pela permanência e efetividade do imposto sobre as grandes fortunas (contra uma política fiscal atrasada e pirata, que converte o Estado em agente da acumulação capitalista privada e se evade de suas funções em todas as áreas vitais de distribuição indireta da renda e de bem-estar social); intervir na proteção dos recursos minerais da nação e na limitação do campo de atividades e da liberdade de exploração semicolonial da grandes empresas estrangeiras; fortalecer a defesa de todas as medidas que envolvem descentralização, planejamento em escala regional e correção das desigualdades sociais, raciais e regionais que contribuam ativamente para reproduzir o chamado “Brasil arcaico”; empenhar-se em manter as medidas que se relacionem com a liberdade dos partidos, o plebiscito, o referendo popular, a iniciativa popular na elaboração das leis (embora tudo tenha ficado longe de uma democracia participativa burguesa) e a

democratização dos direitos e liberdades individuais e coletivas, inclusive o direito de voto aos dezesseis anos de idade, a defensoria pública e o fortalecimento das atribuições do controle direto e indireto do Executivo pelo Legislativo.163

Florestan afirma que para os socialistas radicais o dilema não estaria em assinar ou não assinar o texto constitucional, e sim no desafio de aproveitar o espaço político das classes trabalhadoras para seus próprios objetivos: erigir uma República em que a democracia burguesa não pudesse impedir a existência e o fortalecimento do poder popular. Diante da ameaça de perda das conquistas, tornava-se imperativo conjugar reforma e revolução. Neste sentido, o Parlamento tornava-se campo da luta de classes, onde os trabalhadores deveriam taticamente “deter e anular o movimento burguês, mantendo na carta constitucional aquilo que não foi concedido graças à boa vontade e à colaboração de classe”. 164 Florestan ainda afirma que esta tática já havia se mostrado a única possível e com resultados efetivos.

O desafio posterior da classe trabalhadora, suas entidades e aliados, seria o de impedir que a constituição virasse letra morta e fazer com que se mantenha e intensifique as transformações em processo na sociedade civil “de modo a inaugurar uma era de reformas sociais dentro do capitalismo e de cavar o solo histórico propício à aceleração da luta de classes e a passagem do reformismo dentro da ordem à revolução socialista”. 165

3.5. Concebendo tendências do desenvolvimento da luta de