UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
ITALO BAUMGARTNER
UM REVOLUCIONÁRIO NA CONSTITUINTE:
O SIGNIFICADO HISTÓRICO DO PROCESSO CONSTITUINTE DE
1987-1988 A PARTIR DO PENSAMENTO DE FLORESTAN
FERNANDES
Florianópolis 2019
ITALO BAUMGARTNER
UM REVOLUCIONÁRIO NA CONSTITUINTE:
O SIGNIFICADO HISTÓRICO DO PROCESSO CONSTITUINTE DE
1986-1987 A PARTIR DO PENSAMENTO DE FLORESTAN
FERNANDES
Monografia submetida à Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do título de Bacharel em Direito. Orientador: Matheus Felipe de Castro
Co-Orientador: Adaílton Pires Costa
Florianópolis 2019
COLEGIADO DO CURSO DE GliADUAÇÃO EM DIREITO
TERMO DE APROVAÇÃO
O presente Trabalho de Conclusão de Curso, intitulado "Um Revolucionário na
Constituinte: o signinlcado histórico do Processo Constituinte de 1987-1988 a
partir do pensamento de Florestan Femandes",elaborado pelo(a) acadêmico(a) "halo Baumgartner", defendido em 09/07/2019 e aprovado pela
Banca Examinadora .composta .pelos . membros abaixo assinados, obteve
aprovação com nota' ru'u C.(1}2i)Z...J,
cumprindo o requisito legal
previsto no art. 10 da Resolução nW09/2004/CES/CNE, regulamentado pela
Universidade Federal de Santa Catarina, através da Resolução n'
OI/CCGD/CCJ/2014.
Florianópolis, 09 de/2(ovembr+ de 2019
}0qMM\=.c'-latheus Felipe de Castro
Professor Orientador
n
.cel'Soares de Souza /ípmhrn Hp T:lnn''n bÜ b/XJ/ L/X V \+%r X-r %4aA%/\+ Priscilla Bàtista da S Membro de BancaDedico este trabalho à minha amiga, Fátima Ferreira.
AGRADECIMENTOS
Este trabalho e este título de Bacharel não teria sido possível sem as políticas de cotas sociais para a universidade pública dos governos do Partido dos Trabalhadores. O que não significa dizer que o acesso à universidade pública para a maioria dos filhos e filhas das classes trabalhadoras tenha deixado de ser uma exceção.
Nas pessoas de Juarez Baumgartner e Cássia I. A. Baumgartner, agradeço todo o empenho material e afetivo de meus familiares que nunca deixaram de medir esforços somente a uma formação profissional, mas principalmente a uma vida digna. A eles, devo as condições para aprender a ser livre.
Nas pessoas de Ana Zandoná, Felipe F. Ferro e Gabriel S. Ramos, agradeço o teto, o pão, o afeto, o conhecimento, o amor, o trabalho e, sobretudo, a vida dividida com todos os moradores da Casinha.
Nas pessoas de Keles Gonçalves e João Pina, agradeço o acolhimento do Movimento dos Focolares sua comunidade e juventude, por terem sido em Florianópolis o meu primeiro lar, família e amigos.
Na pessoa de Mariana Bellussi, agradeço a todos aqueles que foram no CCJ e no movimento estudantil companheiros de luta e de sonhos.
Na pessoa de Artur B. A. Ferreira, agradeço àqueles que simplesmente se deixaram ser amigos.
Na pessoa de Alice T. M. Sega, agradeço a todos os servidores da UFSC, indispensáveis para o zelo da produção pública de conhecimento.
Na pessoa de Aruanda e Super Patrine agradeço a todos os comunistas.
Na pessoa de Fátima Ferreira, agradeço a todos os colegas de trabalho nos tempos de Marista e a todos aqueles para quem a vida nunca deixou de ser luta.
Na pessoa de Adailton Pires Costa, agradeço a todos que foram inspiração intelectual para este trabalho.
Na pessoa de Mariana D’El Rei Martins, agradeço a todos aqueles que dividiram as mais íntimas companhias de tristeza e alegria.
“Embriagado pela tensão, pela maravilhosa profundidade do
silêncio e, além disso convencido de que nada faria se mover
aquela multidão pasmada pela fascinação da morte, José
Arcadio Segundo se ergueu a cima das cabeças que tinha pela
frente, e, pela primeira vez em sua vida, levantou a voz.
– Cornos! – gritou. — Podem levar de presente o minuto que
falta!”
COORDENADORIA DO CURSO DE DIREITO
TERMO DE RESPONSABILIDADE PELO INEDITISMO DO TCC E
ORIENTAÇÃO IDEOLÓGICA
Aluno(a): halo Baumgartner
RG: 5.571 .077
CPF: 094.771 .499-50
Matrícula: 14100216
Título do TCC: Um Revolucionário na Constituinte: o significado histórico do Processo Constituinte de 1987-1988 a partir do pensamento de Florestan
Femandes.
Orientador(a): Matheus Felipe de Castro
Eu, halo Baumgartner, acima qualificado(a); venho, pelo presente termo,
assumir integral responsabilidade pela originalidade e conteúdo ideológico apresentado no TCC de minha autoria, acima referido
Florianópolis, 09 de julho de 2019
RESUMO
Este trabalho teve como objetivo principal conhecer o significado histórico do Processo Constituinte de 1987-1988 a partir do pensamento do sociólogo, socialista e deputado constituinte Florestan Fernandes. Sua justificativa se deu em razão da necessidade de estudar a formação material do pacto social expresso pela Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 para melhor compreensão do tempo presente. Neste sentido as hipóteses consideravam que para Florestan Fernandes o Processo Constituinte havia sido: uma oportunidade histórica de rompimento com o regime autoritário e construção de vias institucionais para o desenvolvimento da autonomia da classe trabalhadora; a participação da classe trabalhadora no processo seria uma de suas principais tarefas naquele presente; o processo constituinte poderia representar um passo importante na direção para o socialismo. Desenvolvemos a pesquisa apoiados em artigos de revistas e livros sobre a vida de e obra de Florestan e o desenvolvimento da sociologia brasileira para situar historicamente o seu pensamento. A partir de suas própria obras, conhecemos aspectos gerais de seu pensamento, em especial a Teoria das formas de dominação burguesa. Com a bibliografia sobre o período do regime militar de 64, conhecemos a contextualização histórica que precede a formação do Partido dos Trabalhadores e a constituinte. A partir dos documentos fundadores do PT, conhecemos aspectos de sua forma de conceber a realidade política e a si próprio enquanto partido da classe trabalhadora. Com relatos e entrevistas encontradas em nossas fontes bibliográficas conhecemos as determinações da ligação entre Florestan, o Partido dos Trabalhadores e o Processo Constituinte. A partir de coletâneas de artigos a jornais e discursos parlamentares realizados por Florestan, conhecemos o seu pensamento político em sua forma mais concreta, direcionado às análises do processo constituinte. Concluímos que para Florestan este período histórico é marcado pela necessidade de superação da forma de dominação autocrática-burguesa aplicada através da ditadura militar por parte das classes dominantes. Esta forma de dominação ameaçava a própria continuidade do capitalismo. O processo constituinte tornava-se uma tarefa central para a classe trabalhadora na medida em que era um campo da luta de classes onde a luta deveria se dar por uma reforma política nacional e democrática que a possibilitasse se desenvolver enquanto classe autônoma. Para Florestan, a luta por reformas de caráter capitalista não realizadas pela burguesia tornavam-as em exigências socialistas. A própria necessidade de desenvolver o capitalismo fora dos marcos da dependência e do subdesenvolvimento tornava-se responsabilidade da classe trabalhadora. Desta forma, Florestan considerava que a participação da classe trabalhadora na direção do funcionamento e direcionamento do Estado favorecidas
por uma revolução democrática realizada a partir do Processo Constituinte poderia beneficiar a ligação entre reforma e revolução socialista.
SUMÁRIO
APRESENTAÇÃO 11
Florestan, quem? 11
INTRODUÇÃO 16
1. POSIÇÃO HISTÓRICA DE FLORESTAN FERNANDES 23
1.1. Adequação epistemológica 23
1. 2. Situando Florestan 26
1.3. A Compreensão de Florestan Fernandes sobre as formas específicas do
desenvolvimento do capitalismo brasileiro. 29
1.3.1. O estudo da Revolução Burguesa como ferramenta para compreensão da
realidade. 29
1.3.2. Os papéis da burguesia brasileira e da aristocracia agrária na formação da
dominação burguesa. 30
1.3.3. A contra-revolução de 1964 ou concretização da Revolução burguesa. 32 1.3.4. A forma de dominação política autocrático-burguesa e suas consequências
para a transformação capitalista. 34
1.3.5. A necessidade de superação da forma de dominação autocrática-burguesa. 37
2. FUNDAÇÃO DO PARTIDOS DOS TRABALHADORES E SUA RELAÇÃO COM
FLORESTAN FERNANDES 40
2.1. Do movimento operário para o movimento político 40
2.2. Documentos formadores do PT 47
2.3. A luta pela Constituinte, enfim Florestan no PT. 56
3. REFLEXÕES DE FLORESTAN AO PROCESSO CONSTITUINTE 62
3.1. Assembleia Nacional Constituinte ou Congresso Constituinte? 63
3.2. O constitucionalismo de Florestan 69
3.3. As potencialidades do Processo Constituinte de 87-88 para o desenvolvimento
do capitalismo e da luta de classes no Brasil 74
3.4. A concepção do papel da classe trabalhadora no Processo Constituinte de
87-88. 78
3.5. Concebendo tendências do desenvolvimento da luta de classes a partir do
produto final do Processo Constituinte 87-88. 83
CONCLUSÃO 87
APRESENTAÇÃO
Florestan, quem?
1Acreditamos que Florestan Fernandes, o sujeito que tem o seu pensamento como o objeto deste trabalho, não seja uma figura muito conhecida popularmente, talvez menos ainda na academia dos cursos de Direito. Para além disso, relacionar o seu pensamento especificamente ao Processo Constituinte de 1987-1988, não nos diz nada de antemão. Assim, o contato com o título deste trabalho, a primeira vista, pode ser algo muito desestimulante ao leitor que não está familiarizado com esta figura histórica. Torna-se, portanto, imperativo, para que possamos seguir juntos neste trabalho, uma breve apresentação deste sujeito, buscando situá-lo historicamente de modo a relacioná-lo com o Processo Constituinte de 1988.
Pois bem, Florestan Fernandes, paulista, nascido em 1920, foi um destacado sociólogo e socialista brasileiro, considerado por outros cientistas sociais, a exemplo Miriam Limoeiro e Osvaldo Coggiola, como o pai da sociologia moderna brasileira por ter desenvolvido sua trajetória acadêmica comprometendo-se em compreender a história da formação social do Brasil e suas consequências sociais mais práticas na vida de sua população . Florestan teve uma longa trajetória acadêmica, em 1947 foi2 titulado mestre em Antropologia pela Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo com a dissertação A organização social dos Tupinambá. Em 1951, tornou-se doutor em sociologia com A função social da guerra na sociedade Tupinambá. Em 1953, tornou-se livre docente da cadeira de Sociologia I da FFCL/USP com a tese O método de interpretação funcionalista na Sociologia . 3
Até então Florestan ainda não havia demonstrado o potencial transformador do seu pensamento, o que começou em 1950, em pesquisa em parceria a Roger Bastide, patrocinada pela UNESCO, quando juntos se colocaram a investigar a 1Esta breve biografia foi desenvolvida com o propósito de possibilitar uma primeira apresentação de Florestan Fernandes ao leitor não afeiçoado a sua figura. Alguns aspectos dessa apresentação eventualmente se repetirão no desenvolvimento desse trabalho. Outros não, servindo, portanto, como informações complementares do trabalho.
2 CERQUEIRA. L. Florestan Fernandes: Vida e Obra. P. 60 3Ibidem. P. 47.
formação da sociedade escravocrata brasileira, tendo como foco o preconceito racial contra os negros em São Paulo . Diz-se que pesquisadores causaram grande4
impacto na universidade, quando ao invés de estudar a população negra apenas enquanto objeto, como se fazia até então, mobilizaram a comunidade negra para participar da pesquisa enquanto sujeitos, levando-os para dentro da faculdade. Cerqueira (2004) diz que naquele momento, não somente foi possível romper a redoma em que se vivia na academia, como também se expôs a violência, o preconceito e a segregação contra os negros como elementos fundamentais na formação da sociedade brasileira . A obra5 A integração do negro na sociedade de classes de 1964 marca uma revolução na forma de interpretar o Brasil, principalmente quanto a questão negra ao passo que Florestan deixa de ser neutro em relação à sociedade de classes e passa a pesquisar os problemas que afetam particularmente, como ele mesmo dizia, “os debaixo”.
O conteúdo do pensamento de Florestan Fernandes é vasto, a continuidade de seu pensamento será melhor abordado no desenvolvimento deste trabalho, em capítulo próprio. Nesta breve apresentação, o que importa é destacar que o nosso sujeito-objeto também foi um homem de práxis, ou seja, buscou colocar o seu pensamento em prática, em ação libertadora na luta contra a ditadura e na busca do socialismo. Na sua juventude, nos anos 40, ainda antes de iniciar sua trajetória acadêmica, Florestan foi militante do Partido Socialista Revolucionário, seção brasileira da IV Internacional Trotskista, que embora nunca tenha atingido uma estatura político-organizativa realmente partidária, marcou sua vida profundamente. Osvaldo Coggiola assegura que a passagem de Florestan pelo PSR “teve para ele pelo menos tanta importância, na sua opção político-intelectual ulterior, quanto a sua origem social na classe operária” . Nos anos 50, uma “crise de consciência” marca 6
a sua saída da militância, relatada por ele mesmo em 1986:
Passado o período de militância, defrontei-me com uma acomodação improdutiva: ou ser militante, com o sacrifício de minhas possibilidades intelectuais, ou ser universitário, com atividades políticas de fachada, mistificadoras. Uma tormentosa crise foi resolvida com generosidade dos companheiros políticos, que viam
4Ibidem. P. 49. 5Ibidem. P. 53.
claro a realidade: a esquerda ainda não possuía partidos que pudessem aproveitar o intelectual rebelde de forma produtiva para o pensamento político revolucionário. 7
A necessidade de unir o pensamento à prática política se tornaria novamente uma urgência quando, em 1964, Florestan Fernandes entrou na lista dos atingidos pelo golpe militar. A repressão, quando chegou na USP, representou um impacto mortal no projeto de universidade sonhado pelos acadêmicos mais comprometidos com a consolidação da autonomia universitária e com a pesquisa científica . 8
Florestan foi preso, banido da USP e exilado no Canadá em 1969 por ter enfrentado as imposições da ditadura militar à universidade, que se dava desde a abertura de inquéritos militares da polícia política à implantação de uma reforma universitária oriunda do acordo MEC/USAID que importava um modelo norte-americano de educação superior ao Brasil. Na opinião de Florestan, a reforma tornava a universidade ainda mais elitista, apartada das necessidades sociais do povo brasileiro. No exílio, ofereceu cursos e palestras, mas sempre incomodado com a distância do Brasil, decidiu retornar ao país em 1972, quando ainda sofreu as dores do isolamento em razão da tensão psicológica que pairava sobre a intelectualidade brasileira.
A prisão e o banimento estreitaram ainda mais seu vínculo político com os movimentos de esquerda. Bárbara Freitag, citada no livro Vida e Obra, afirma que a partir dos anos 70, Florestan passou por uma ruptura epistemológica, passando de “acadêmico-reformista” para “político-revolucionário” . A primeira fase corresponde9 ao debate e à reflexão da Sociologia, a análise antropológica do índio brasileiro e ao estudo pormenorizado da realidade brasileira. No livro, não temos acesso ao que Bárbara considera como característica marcante da segunda fase, mas Miriam Limoeiro afirma que a partir dos anos 70, Florestan intensificou a sua contribuição aos movimentos de esquerda com produção intelectual e análises de conjuntura, aprofundou seus estudos sobre o pensamento de Lenin e se dedicou à reedição de clássicos do marxismo.
7Ibidem. P. 10.
8 CERQUEIRA. L. Florestan Fernandes: Vida e Obra. P. 91. 9Ibidem. P. 113.
Neste contexto de esforços pelo desenvolvimento de uma leitura autêntica da realidade brasileira, Florestan Fernandes se destacou como um importante intelectual na construção de alternativas não só de superação do regime autoritário, mas principalmente da ordem social vigente naquele presente histórico. Não à toa, sua figura chamou a atenção do Partido dos Trabalhadores (PT), que logo após sua fundação em 1978, convidou Florestan para contribuir na construção do partido. O PT não era o partido de seus sonhos, mas mesmo que Florestan o considerasse recheado de características burguesas, avaliava que naquele momento não haviam condições para a construção de um partido revolucionário e que este era o partido mais próximo das condições que os trabalhadores dispunham para romper com a subalternização . Em um primeiro momento, Florestan se recusou a aceitar o10 convite, mas finalmente em 1986, quando o PT se preparava para disputar as eleições do Congresso Constituinte, Lula em ligação propôs a Florestan que se candidatasse a deputado constituinte:
Florestan agradeceu a gentileza e disse: “Não sou político profissional, portanto não sei fazer campanha política. Não tenho recursos para financiar uma campanha. Também estou recém-saído do hospital e a campanha vai ser muito desgastante para mim”. Lula insistiu. Aí Florestan perguntou: “o que o PT oferece para que eu seja candidato? Vocês vão me dar alguma coisa? Lula disse: “Nada. Você é que vai dar 30% de tudo o que recolher para o partido. Florestan deu uma gargalhada e disse: “Está bom, assim eu aceito. 11
Ao concordar com a proposta de disputar as eleições para o congresso constituinte, depois de uma intensa campanha, Florestan foi eleito com 50.024 votos, o quarto deputado mais bem votado do partido . Este fato, é o marco que 12 conecta Florestan diretamente à Constituição de Federal de 1988, cumprindo-se o primeiro objetivo deste trabalho, o mais básico: tentar situar o leitor quanto ao posicionamento histórico do nosso sujeito-objeto e sua relação direta com o evento que também é tema de nosso trabalho, o Processo Constituinte de 1988. Resumindo, em pouquíssimas palavras, Florestan Fernandes foi um sociólogo e
10Ibidem. P. 40. 11Ibidem. P. 123. 12Ibidem P. 127.
socialista que representou o Partido dos Trabalhadores como deputado constituinte no Processo Constituinte de 1988.
INTRODUÇÃO
Os leitores terão de nos desculpar por esta introdução. No entanto, ela permite-nos ousar propor uma síntese da compreensão por ele desenvolvida sobre o significado e função histórica da Instituição de conhecimento público onde estudou nos últimos cinco anos e meio. Logo a leitura se desenvolverá naturalmente para os requisitos formais esperado em um Trabalho de Conclusão de Curso. Assim, antes mesmo de demonstrar o problema central e as hipóteses que trazemos para o desenvolvimento desse trabalho, acreditamos que seja necessário muito bem justificá-lo. Pelos menos é o que entendemos como o mínimo ético para o desenvolvimento desta pesquisa que está sendo financiada por uma instituição pública. Não por ser uma ética no sentido de respeito a este Estado, mas no sentido de considerar que a universidade pública está a serviço da Sociedade que lhe sustenta. Se a realidade não é assim como queremos, ao menos nossa ética vai neste sentido, pois é assim que concebemos o seu dever-ser: a Universidade Federal de Santa Catarina, assim como todas as demais universidades e instituições públicas de produção de conhecimento, devem estar a serviço do desenvolvimento de sua Sociedade!
No entanto, percebemos que as possibilidades de concretização material desse imperativo categórico (desse dever-ser pertencente às instituições públicas de conhecimento), não passam das suas regras internas de lógica. Ora, se a Sociedade a qual sustenta a Universidade pública é uma sociedade de classes, então todas as classes deveriam receber desta os seus frutos, inclusive a classe trabalhadora que a compõe. Porém, não pode ser uma afirmativa que os frutos da produção de conhecimento das Universidades estejam atualmente sendo revertidos para as necessidades da classe trabalhadora. Inclusive, os frutos da universidade parecem estar em função oposta.
Assim aproveitamos o ensejo para denunciar que a classe trabalhadora não tem recebido os frutos da produção pública de conhecimento para o desenvolvimento de suas próprias condições de emancipação. Esta é uma das
contradições que sugerimos ter constatado durante estes anos universitários e o que, ainda que não precisamente comprovadas, faz o autor revisar a ética que lhe move neste trabalho, a que é ao menos a nossa intenção: que o seu produto possa servir à classe trabalhadora. Portanto, é no sentido de cumprir este dever ético de serviço do conhecimento universitário à Sociedade, mais especificamente à classe trabalhadora, que entendemos ser necessário uma boa justificativa para os conteúdos discutidos e desenvolvidos em nosso trabalho.
Pois bem, é importante considerar que a justificativa desse trabalho é muito marcada subjetivamente e ainda exige um grande esforço do autor para traduzi-la em termos acadêmicos, principalmente para os termos da disciplina do Direito. Isto por duas razões principais. A primeira porque os temas a que este trabalho pretende debater não possuem correspondência aos conteúdos apanhados nas disciplinas da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Santa Catarina. A segunda porque o autor não desenvolveu uma prática de pesquisa sistematizada.
Nosso trabalho se propunha inicialmente favorecer debates na área das disciplinas de Teoria Constitucional e Direito Constitucional Brasileiro. Dentro desta área do conhecimento, o que se buscou foi conhecer as relações sociais reais por trás da conformação da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Neste sentido, havíamos de encontrar na Teoria do Direito, mais especificamente na sua versão marxista, uma forma de conceber o Direito e a Constituição a partir de seu aspecto material, de suas funções concretas para a nossa sociedade.
O nosso primeiro paradigma portanto é Petr Ivanovich Stutchka (1987-1932), que possui como um de seus principais méritos colocar o problema do direito em geral sobre uma base científica, renunciando a uma visão puramente formal e vendo no direito um fenômeno social, que muda com a luta de classes, e não uma categoria eterna.13 Para Stutchka, o direito é uma forma de organização das relações sociais correspondente aos interesses da classe dominante e tutelado pela força organizada desta classe. O direito é um sistema ou ordenamento de normas que fixam e protegem, contra a violação, a citada forma de organização das relações sociais. Outro elemento característico do direito consiste em ser garantido pela 13 PAZELLO, R. P.; SOARES, M. A. As contribuições de P. I. Stutchka para o Pensamento Jurídico
classe dominante mediante um poder organizado (normalmente o Estado) cujo objetivo principal, uma vez que não é o único, consiste em proteger este ordenamento por corresponder aos interesses da própria classe dominante. 14
A Constituição, por ser um fenômeno jurídico-normativo, não deixaria de ser uma expressão social do direito em sua conformação material. Neste sentido, quem também contribui para a nossa forma de ver a Constituição é Ferdinand Lassale (1825-1864), para quem este fenômeno jurídico significa, em síntese, a soma dos fatores reais do poder que regem determinado país. A necessidade de uma constituição se dá em razão das transformações sofridas pela sociedade. Com a transformação dos fatores reais, se altera também a constituição vigente no país. Para Lassale, uma constituição somente pode ser duradoura se ela corresponder aos fatores reais de poder que regem o país. 15
Para nós, a CRFB de 1988 representa a formalização de um dos últimos grandes pactos sociais na conformação da ordem social brasileira. Acreditamos, portanto, que a compreensão das relações sociais na forma como se apresentavam no Processo Constituinte de 1987-1988 poderiam favorecer à apreciação dos dilemas do tempo presente.
É preciso atrair para a continuidade desta leitura o contexto histórico-político em que este trabalho se estabelece: o Brasil presente tem sido marcado por um contexto político conturbado, principalmente para as entidades que se apresentaram nos últimos anos como autênticos representantes da classe trabalhadora. As recentes trepidações no tabuleiro político nacional vem derrubando e perseguindo lideranças e movimentos e também parecem apresentar o fim de um pacto social sustentado por décadas no país, ao menos desde de 88. É o que pode ser visto a partir do golpe que levou a queda da ex-presidenta Dilma Rousseff (PT), da prisão do ex-presidente Lula (PT), da aprovação da Emenda Constitucional nº 95 que aprovou o congelamento dos gastos que diminui recursos na área da saúde e da educação, da aprovação da Lei 13.467/17 que reformou a legislação trabalhista, bem como as tentativas presentes de aprovação de uma Reforma da Previdência.
14 STUCKA, Petr Ivanovich. Direito e luta de classes: teoria geral do direito. Tradução de Silvio Donizete Chagas. São Paulo: Acadêmica, 1988, p. 114.
A disposição que nos leva a buscar compreender o tempo presente, nos impõe o retorno ao passado em busca dos fatos que, desenvolvidos historicamente, possam ter permitido nos encontrar com a realidade que nos deparamos. Em razão de ainda não dispor do conteúdo intelectual suficiente para avançar no desenvolvimento de algumas afirmações relativas à sugerida decomposição do
pacto social de 88, o que nos resta é passar por um pedágio onde devemos antes
buscar evidências da conformação desse pacto com, é claro, os aspectos materiais que lhe envolvem.
Em nossa análise da formação destepacto social, o Processo Constituinte de 87-88 torna-se o nosso palco de análise onde se desenvolverão as relações entre os seus autores. Neste sentido, ganha atenção especial para a nossa análise, a forma como se dispuseram as forças sociais da classe trabalhadora também presentes no evento constituinte. Assim, o primeiro aspecto que nos interessa conhecer é o significado histórico desse momento para o desenvolvimento da classe trabalhadora e a luta de classes.
Sabíamos que por questões de necessidade de limitações da pesquisa - para que ela fosse possível de ser realizada a tempo e nas condições de graduando - não nos seria permitido conhecer o significado do Processo Constituinte de 87-88 de forma mais vasta para a classe trabalhadora. Desta forma, decidimos limitar à pesquisa à análise do significado desse processo para o pensamento de Florestan Fernandes, o que não deixaria de ser um trabalho complexo. Esse sujeito ocupa um lugar especial na história. Foi ao mesmo tempo: um importante cientista na construção da sociologia brasileira, atuando como um dos importantes desveladores da formação social do Brasil; um socialista convicto da necessidade de superação do sistema de produção capitalista, intelectual orgânico dos caminhos para o socialismo; e um deputado constituinte em 86-88 e representante da classe trabalhadora através do Partido dos Trabalhadores. Florestan se torna, portanto, o nosso ponto referencial para a compreensão desse evento histórico dentro do contexto geral de desenvolvimento da luta de classes.
Tínhamos a nossa disposição as suas principais obras, que nos permitiram conhecer o seu pensamento em sua forma mais abstrata, bem como tínhamos obras
mais específicas em que o mesmo relatava a partir de sua experiência na Assembleia Nacional Constituinte, de onde extraímos o seu pensamento mais concreto acerca desse momento histórico.
Portanto, tornou-se o problema central de nosso trabalho, conhecer: Qual é o significado histórico do Processo Constituinte de 1987-1988 no pensamento de Florestan Fernandes?
Nosso objetivo foi ao reconstituir, na medida do possível em uma monografia, o período histórico marcado pelo processo constituinte de 1987-1988, analisar e identificar, através do pensamento político de Florestan Fernandes enquanto deputado constituinte, o significado deste momento histórico e o lugar reservado para a Constituinte dentro do desenvolvimento da luta de classes no Brasil.
Nossa primeira hipótese para a pesquisa foi no sentido de que para Florestan o significado do Processo Constituinte de 1987-1988 seria o de oportunidade histórica para o rompimento com o regime autoritário.
Nossa segunda hipótese era de que o rompimento com o regime autoritário, permitiria a construção de vias institucionais para o atendimento das demandas históricas da classe trabalhadora e consequentemente o seu desenvolvimento enquanto classe autônoma.
Nossa terceira hipótese foi que, no pensamento de Florestan, a participação ativa da classe trabalhadora organizada na constituinte, através da representação de seus parlamentares eleitos, era uma das tarefas principais para o beneficiamento de uma Revolução Social onde os trabalhadores pudessem assumir o controle hegemônico do poder político . A Constituição Federal de 1988, ocuparia, portanto, um papel central dentro de uma estratégia revolucionária neste sentido.
Estas hipóteses se colocam primeiramente em razão do contexto da ditadura militar e da forma como o Estado atuava sobre a classe trabalhadora, que será interessante conhecer de forma mais aprofundada.
Sabe-se que a classe trabalhadora ousou se fazer representada nesse processo constituinte, de onde se sugere que os seus representantes atuaram a partir de um projeto próprio para toda a sociedade - no caso de Florestan, através da legenda do PT. Florestan, por ser um socialista, provavelmente pensa a sociedade a
partir da necessidade da superação de seustatus capitalista e assim deve conceber alternativas para o cumprimento destes caminhos.
Aos sugerimos que Florestan se orientava nas buscas da direção ao socialismo, entendemos que por alguma razão o processo constituinte atravessa este caminho em seu pensamento. Assim, acreditamos que a participação da classe trabalhadora na constituinte tornou-se um imperativo a partir do pensamento de Florestan. Se essas hipóteses não forem verdadeiras, será muito interessante conhecer as razões que tornavam a participação da classe trabalhadora na constituinte uma necessidade histórica em seu pensamento.
Portanto, o tema da nossa pesquisa é o pensamento político de Florestan acerca da constituinte, muito mais do que o próprio processo em si. Na verdade, através do pensamento de Florestan, adentramos também outras áreas, como, por exemplo, a Sociologia e a História a partir do acesso aos estudos e ferramentais desenvolvidos por nosso sujeito-objeto na análise da formação social brasileira e na análise do evento constituinte. Para os interlocutores do Direito, acreditamos que esse trabalho também possa ousar contribuir para a disciplina da História do Direito no Brasil.
Ainda queremos ressaltar um último aspecto da escolha do nosso sujeito-objeto. Por alguns autores , ele é considerado uma das bases de16
pensamento da formação de um projeto de revolução social chamado Projeto Democrático Popular. Este teria sido o projeto hegemônico que orientou as lutas da classe trabalhadora nos últimos anos, em um período histórico muito coincidente com a formação do PT e o Processo Constituinte de 1987-1988. Para nós, ainda é cedo para entrarmos em uma discussão mais aprofundada sobre os aspectos propostos por estes autores, que consideram que este projeto vive hoje o seu apodrecimento. No entanto, estaremos atentos para observar nas relações entre Florestan, o PT e o Processo Constituinte, dentro dos limites desta monografia, possíveis pistas para a introdução a este debate sobre o qual se propõe ao estudo das formas atuais de luta da classe trabalhadora.
16 MARTINS, C. PRADO, F.C. et. al. A “estratégia democrática e popular” e um inventário da
esquerda revolucionária. Marx e o Marxismo v.2, n.3, ago/dez 2014.
IASI, M., FIGUEIREDO, I.M., NEVES, V. A Estratégia Democrático Popular: um inventário crítico. Maríia: Lutas Anticapital. 2019.
Enfim, apresentamos este trabalho nos tópicos estruturantes de seu desenvolvimento. A começar por um primeiro capítulo onde buscamos apresentar o pensamento político de Florestan, principalmente naquilo que é considerado a sua fase político-revolucionária. Para tanto, investigaremos em suas principais obras, aspectos mais gerais sob as suas concepções acerca da formação social brasileira. O que privilegiamos foi o aspecto político do conteúdo do seu pensamento, o que não diminui a sua relevância enquanto sociólogo. Consideramos que o conteúdo sociológico e político do seu pensamento é indissociável, pois como se vê em sua obra e vida, a sociologia crítica compõe a sua disposição política.
No segundo capítulo, buscaremos apresentar aspectos da história da formação do Partido dos Trabalhadores. Buscaremos compreender o seu desenvolvimento e projeção na política nacional principalmente quanto ao papel que buscava representar no desenvolvimento da classe trabalhadora na luta por sua emancipação. Neste capítulo será interessante também apresentar o desenvolvimento da relação de Florestan Fernandes com o Partido dos Trabalhadores.
Em um último capítulo do desenvolvimento deste trabalho, apresentaremos a leitura específica de Florestan acerca do evento histórico constituinte. O faremos através dos artigos de jornais e discursos parlamentares realizados por Florestan durante às vésperas e durante o processo constituinte.
Acreditamos que esse trajeto será suficiente para a realização das conclusões de nossa pesquisa. E esperamos que o desenvolvimento e a conclusão possam manter o interesse do leitor no decorrer de sua leitura.
1. POSIÇÃO HISTÓRICA DE FLORESTAN FERNANDES
O pensamento político de Florestan Fernandes mostrou-se como objeto central de nossa investigação. Nosso principal objetivo é compreender o que ele pensava especificamente sobre o Processo Constituinte de 1988, no entanto, antes de irmos diretamente às fontes específicas sobre esse acontecimento histórico buscaremos, neste capítulo, conhecer o seu pensamento dentro de um aspecto mais global que leve em consideração o seu papel histórico para a sociologia e para o pensamento marxista no Brasil. Este percurso se impõe, uma vez que o papel histórico exercido por Florestan poderá informar diretamente as suas posições acerca do evento constituinte.
1.1. Adequação epistemológica
Na busca de analisar o pensamento de Florestan de forma mais global, enfrentamos, logo de início, o problema da vastidão de seu pensamento. Florestan iniciou a sua carreira como intelectual e acadêmico em 1945 e desde então nunca 17 deixou de escrever, até a sua morte em 1995. A grandeza de sua obra não se restringe à quantidade de tempo em atividade ininterrupta, mas principalmente ao complexo de conhecimento desenvolvido, o que implica em várias formas de interpretação do produto do seu conhecimento. Torna-se necessário delimitar quais aspectos do seu produto intelectual ajudariam a responder nosso problema e colocar à prova nossas hipóteses.
O problema da interpretação do pensamento de Florestan já foi objeto de estudo de pesquisadores que se esforçaram em desenvolver modelos de sistematização do conjunto de seu pensamento os quais nos apoiaremos de forma a otimizar o nosso recorte epistemológico. A título de exemplo da vastidão do pensamento de Florestan, nos serve o estudo de Bárbara Freitag, o primeiro esforço
mais amplo e abrangente de conhecimento da sociologia de Florestan . Para a 18 autora, o pensamento de Florestan pode ser dividido em duas fases: uma como acadêmico-reformista e outra como político-revolucionário.
A primeira fase acadêmico-reformista, corresponderia ao período anterior a sua aposentadoria compulsória na USP, depois do Ato Institucional nº 5 em 1968, onde a problemática dos seus estudos estaria focalizada na sociologia enquanto disciplina, na antropologia do índio brasileiro e no estudo pormenorizado da realidade brasileira, com aporte às teorias sociológicas clássica e moderna, europeia e norte-americana. Já na fase político-revolucionária, posterior a sua aposentadoria, sua postura teórica estaria baseada nas categorias fornecidas pelo materialismo histórico e na análise do processo histórico brasileiro inspirando-se nos modelos revolucionários da América Latina, como o caso cubano assumindo forte importância. Freitag defende a tese de que Florestan teria passado por uma ruptura epistemológica em seu pensamento, rompendo em sua segunda fase com qualquer “compromisso científico”.
Costa não acredita que o caminho mais adequado para construir uma sistematização coerente do pensamento de Florestan seja o de verificar se houve ou não uma ruptura epistemológica em seu pensamento. Para esse autor, o caminho correto seria de perquirir como as ideias básicas do marxismo sempre estiveram presentes no projeto teórico de construção da disciplina sociológica , haja visto que19
para Florestan a oposição entre ciência e socialismo não se justifica, podendo a sociologia ser verdadeira arma de combate revolucionária, necessitando mais rigor na prática científica sob pena de se forjarem táticas e estratégias de luta equivocadas. 20
O autor oferece os critérios de uma visão mais corrente sobre a sociologia de Florestan Fernandes, a qual a classifica em duas grandes vertentes interpretativas: a institucionalista e a político-radical. O que diferencia uma classificação da outra seria o modo de ser considerado, por parte dos intérpretes de Florestan, as relações entre
18Revista Florestan dos alunos de graduação em Ciências Sociais da UFSCar. Dossiê: Pensamento político e social brasileiro - As interpretações da sociologia de Florestan: uma classificação. Diogo Valença de Azevedo Costa. P. 84. São Carlos, junho de 2015.
19Ibdem. 92. 20Ibdem. 94.
sociologia e marxismo, a forma como são concebidos os vínculos entre teoria e prática e por último:
O último e decisivo critério de classificação concerne à excessiva ênfase que é colocada, na visão institucionalista, aos imperativos da construção da carreira acadêmica por Florestan Fernandes, baseando-a numa concepção universalista, autonomista, racionalista e intelectualista de solução dos problemas práticos da coletividade por uma ciência sociológica distanciada dos choques e conflitos entre grupos, classes e frações de classe, constitutivos da formação social brasileira. Em contraponto, a versão político-radical irá situar a evolução do ponto de vista teórico da sociologia de Florestan nos quadros de uma
Weltanschauung21 radical e socialista vinculada às suas condições sociais de origem, à socialização política indireta adquirida nos períodos da infância, da juventude e da inserção na atividade acadêmica e aos interesses dos setores subalternos, marginalizados, colonizados, explorados e dominados da sociedade brasileira. (grifo nosso). 22
Aproveitamos a sistematização de Freitag, que divide o pensamento de Florestan entre o acadêmico-reformista e o político-revolucionário, não em razão de sua tese da ruptura epistemológica em seu pensamento, mas da demarcação cronológica que aponta a sua aposentadoria compulsória em 1968 como um marco para o engajamento prático-político de Florestan. Quanto à sistematização de Diogo, aproveitaremos o seu modelo de formas de interpretação do pensamento de Florestan, ligando-nos à vertente político-radical que aponta para a relevância do elemento político na estruturação do seu ponto de vista teórico.
Assim, não haverá nesse trabalho separação entre o pensamento sociológico de Florestan e o desenvolvimento de seu pensamento político direcionado ao socialismo, ambos serão entendidos como complementares na definição de sua
práxis, ou seja, seu produto teórico e sua ação prática. Consideramos que não há
como entender Florestan enquanto político se o desconsiderarmos enquanto sociólogo e vice-versa. Inclusive, a preocupação entre a unidade entre teoria e prática, principalmente quanto à perspectiva teórica a ser adotada no trabalho intelectual e sua vinculação com a prática política e o desenvolvimento histórico real,
21 Conjunto ordenado de valores, impressões, sentimentos e concepções de natureza intuitiva,
anteriores à reflexão, a respeito da época ou do mundo em que se vive; cosmovisão, mundividência.
segundo Coggiola, foi um dilema que atormentou Florestan durante toda a sua existência . Neste sentido, o marxismo foi seu ponto de referência “na medida em23 que a teoria (e o programa) marxista aparecem como o ponto potencial de confluência entre os intelectuais de esquerda e o desenvolvimento revolucionário do proletariado” . 24
1. 2.
Situando Florestan
Para fins de contextualização histórica, é importante destacar que Florestan, dentro da história do desenvolvimento da sociologia no Brasil, corresponde à terceira geração de sociólogos brasileiros. “Em uma primeira geração, por assim dizer, predomina a pesquisa de cunho histórico ao passo que, na segunda, passa-se a valorizar a pesquisa de Campo”. A passagem de uma geração para outra equivale 25 ao momento em que a sociologia ganha status de científica no Brasil, pois a análise histórica-sociológica se transforma em investigação positiva e é introduzida a pesquisa de campo como recurso sistemático de trabalho. A terceira geração surge na década de 40, beneficiada pelos esforços acumulados, inaugura novo horizonte, seja pela continuidade, seja pela dissidência em relação às gerações anteriores.
Coggiola, partidário da vertente que considera que o marxismo sempre esteve no horizonte intelectual de Florestan, afirma que este só passou a ter uso mais sistemático em sua atividade intelectual a partir da pesquisa iniciada em 1955 sobre o negro na sociedade de classes brasileira quando realizou sólidas pesquisas sobre a especificidade dos modos de produção no Brasil e que, Florestan evitou a ortodoxia reinante no pensamento marxista sem hesitar buscar recursos teóricos em autores não-marxistas. Coggiola afirma que isso equivale a dizer que Florestan defrontou-se com uma tarefa tríplice:
1) Fundar uma sociologia científica no Brasil; 2) Fazê-lo com base no desenvolvimento do pensamento marxista; 3) Fazer ambas as coisas combatendo o dogmatismo, de cunho stalinista, perigo inevitável 23 FERNANDES, F. Em busca do socialismo. P. 9-10.
24 Ibdem. P. 12.
diante da preponderância do PCB na intelectualidade de esquerda brasileira. 26
Para Coggiola, Florestan sempre foi consciente da separação total entre a sociologia marxista e a não marxista. “Fora da sociologia marxista, prevalece o intento de explicar a revolução burguesa somente pelo passado, ignorando-se ou esquecendo-se a outra face da moeda, com frequência mais decisiva: a imposição da dominação burguesa à classe operária.” 27 Segundo o autor, Florestan teria enfrentado de forma bem sucedida a este dilema, haja visto sua militância anterior no Partido Socialista Revolucionário e à corrente que se filiou ligada à IV Internacional Comunista na década de 40, não nutrindo ilusões quanto à potencialidade da sociologia enquanto disciplina, cujas origens remontam às crises do capitalismo e a necessidade de adequação ordeira da sociedade. Nesta tarefa, portanto, haveria ainda um outro desdobramento: introduzir a modernidade sociológica ao mesmo tempo que desenvolveria a sua própria crítica, que vem com aportes no marxismo . 28
É através do caminho para o cumprimento destas tarefas que Florestan será considerado por vários sociólogos o pai da sociologia crítica, como por exemplo Octávio Ianni. O autor cita que, para Florestan, a sociologia para estar em condições de apreender as contradições da sociedade de classes em expansão em suas condições, causas e efeitos, necessitaria adaptar suas técnicas de pesquisa a um padrão de objetividade que incorporasse a própria negação desta ordem social . 29
Outro mérito que este mesmo autor assinala à trajetória de Florestan, é deste ter sido autor de uma nova interpretação do Brasil, construída com base na pesquisa sobre a colonização, a escravatura e a revolução burguesa que permitiram desvendar dimensões fundamentais da formação social no Brasil . 30
Ianni contribui com a busca da compreensão de Florestan ao sistematizar as cinco principais fontes do desenvolvimento da sociologia crítica por ele capitaneada: 1) A sociologia clássica e moderna, sobressaindo Mannheim; 2) O pensamento
26 FERNANDES, F. Em busca do socialismo. P. 12.
27 FERNANDES, F. Revolução Burguesa e capitalismo dependente. Debate e Crítica nº 1. SP. 1973. 28 FERNANDES, F. Em busca do socialismo. P. 15-16.
29Ibdem. P. 17. 30Ibdem. P. 22.
marxista; 3) A corrente mais crítica do pensamento brasileiro; 4) O significado dos desafios de sua época; 5) A presença dos grupos e classes sociais que compreendem a maioria do povo . 31
Coggiola afirma que Florestan era otimista com a escola de pensamento que desenvolvia institucionalmente. O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso é exemplo de um membro dessa escola que tinha anseios políticos diametralmente opostos aos de Florestan. O otimismo cresceria ainda mais com a revolução cubana. Acreditava-se que a intelligentsia latino americana descobriria os meios potenciais da revolução socialista e acumularia novos conhecimentos sobre a estrutura e a dinâmica do sistema de classe sob o capitalismo dependente. Em resumo, se esperava da escola da sociologia crítica e da intelligentsia a base para uma teoria viável da revolução socialista na América Latina. Independente da concretização destas previsões, o que se pode constatar sobre Florestan é que suas obras tornaram-se base teórica para a elaboração de reivindicações democráticas históricas dos sem-terra, índios e negros . 32
Com este apanhado de informações sobre Florestan e sua relação com o desenvolvimento da sociologia e do pensamento marxista, podemos compreender melhor aspectos determinantes do seu pensamento político. Florestan ocupa lugar de vanguarda no desenvolvimento da sociologia crítica no Brasil trabalhando com um arsenal de fontes e ferramentas que o permitiriam desvelar inúmeras contradições da formação da sociedade brasileira insistindo que o produto do conhecimento desta sociologia servisse de ferramental para as lutas de emancipação das classes oprimidas.
O que nos importa agora é poder conhecer aspectos mais gerais do produto do seu conhecimento, buscando compreendê-lo principalmente quanto ao desvelamento sugerido das contradições da formação social brasileira.
31Ibdem. P. 19-22.
1.3. A Compreensão de Florestan Fernandes sobre as formas
específicas do desenvolvimento do capitalismo brasileiro.
1.3.1. O estudo da Revolução Burguesa como ferramenta para compreensão da
realidade.
Neste tópico, apresentaremos aspectos do pensamento teórico de Florestan em sua forma mais desenvolvida. Escolhemos a obra Revolução Burguesa no Brasil para cumprir esse papel por ser conhecida como uma de suas obras mais importante para o estudo da formação e do desenvolvimento do capitalismo no Brasil . O estudo deste objeto era, para Florestan, determinante na compreensão da33 realidade material em que se vivia na época. A compreensão do presente da sociedade brasileira demandava conhecer a sua constituição material.
É importante destacar que nessa obra Florestan vive sua fase como político-radical onde o desenvolvimento do seu pensamento se direciona principalmente ao embasamento científico das rotas para o socialismo. Ele está inserido em um debate intelectual que buscava compreender a situação política da sociedade brasileira de seu tempo, que nesse caso, já vivia a alguns anos a ditadura militar de 1964. Um aspecto que estava em discussão naquele tempo dizia respeito à qual etapa histórica de desenvolvimento econômico o Brasil se encontrava. Neste sentido, Florestan buscava portanto resumir as principais linhas de evolução do capitalismo e da sociedade de classes no Brasil. 34
Para Florestan a Revolução burguesa ganha preocupação especial sendo considerado um tema crucial no estudo do sociólogo sobre a formação e desenvolvimento do capitalismo no Brasil. Essa revolução se trataria do marco histórico da etapa em que se inicia a consolidação do regime capitalista no Brasil como uma realidade parcialmente autônoma, com tendência bem definidas à
33 CERQUEIRA, L. Florestan Fernandes: Vida e Obra. P. 69-74. 34 FERNANDES, F. A Revolução Burguesa no Brasil. P. 04.
vigência universal e à integração nacional. 35 O conceito parece confuso, mas poderemos vê-lo logo em suas formas mais concretas, pois Florestan atribui a esse fato social uma série de elementos.
A Revolução burguesa e o desenvolvimento econômico capitalista foram quase sinônimos na história do capitalismo em seus moldes “clássicos” europeus. Um dos aspectos sociais da revolução burguesa tratava-se da universalização do trabalho assalariado e a expansão da ordem social competitiva. Para Florestan, sem estes requisitos, não se poderia falar na existência de uma economia de bases monetárias e capitalistas no Brasil. Assim, Florestan considerava que necessariamente também havíamos passado por um Revolução burguesa. 36
No entanto, Florestan logo assinala que o nosso desenvolvimento capitalista não seguiu aos padrões clássicos de seu desenvolvimento histórico. Na verdade o desenvolvimento do nosso capitalismo seria marcado pela dupla articulação entre desenvolvimento desigual interno e a dominação imperialista externa, que lhe conferem os adjetivos subdesenvolvido e dependente. Esse fato daria não somente à transformação capitalista brasileira um caráter específico, mas também ao modelo de dominação de classes.
Daremos sequência em nossos estudos com atenção aos aspectos destacados por Florestan acerca das conformações das ordens sociais baseadas pelo modo de produção econômica capitalista no Brasil.
1.3.2. Os papéis da burguesia brasileira e da aristocracia agrária na formação da
dominação burguesa.
Florestan afirma que, diferente da história da Europa, no Brasil não tínhamos uma burguesia em conflito de vida e morte com a aristocracia agrária. 37 Aqui, o poder da burguesia havia sido forjado no terreno político, e não no econômico, pois
35Ibidem. P. 13. 36Ibidem. P. 20. 37Ibidem. P. 210.
antes mesmo da dominação sócio-econômico se converter em poder político indireto, a burguesia já havia convergido para o Estado. Por exemplo, as associações de classe visavam exercer pressão e influência sobre o Estado e, de modo mais concreto, orientar e controlar a aplicação do poder político estatal, de acordo com seus fins particulares. O seu impacto inovador não era apenas diluído38 pela hegemonia oligárquica, mas pela própria burguesia que “se ajustara à situação segundo uma linha de múltiplos interesses e de adaptações ambíguas, preferindo a mudança gradual e a composição a uma modernização impetuosa, intransigente e avassaladora”.39 Neste sentido, a burguesia não assume o papel de paladina da civilização e de instrumento de modernidade, apenas se compromete por igual com tudo que lhe fosse vantajoso.
Por sua vez, a aristocracia agrária foi “engolfada” no cerne da transformação capitalista em razão do êxito comercial da grande lavoura cafeeira no século XIX, atividade da base econômica escravista das fases neocolonial da formação da sociedade brasileira. O problema central da aristocracia, ao se tornar a oligarquia moderna da sociedade de classes no Brasil, era o de preservar as condições extremamente favoráveis de acumulação originária coloniais e neocoloniais ao lado de condições propriamente modernas de acumulação de capital.
Portanto, não foi a burguesia, mas a aristocracia agrária em sua faceta oligárquica moderna, a responsável por transitar o Brasil do mundo pré-capitalista para o mundo capitalista. De sobra, a oligarquia ainda lhe reservava a preservação 40 e a renovação das estruturas de poder garantindo-lhe sua hegemonia econômica, social e política. Foi desta forma que a oligarquia “logrou a possibilidade de plasmar a mentalidade burguesa e, mais ainda, de determinar o próprio padrão de dominação burguesa” . 41
Para Florestan, estes fatos suscitam um importante debate histórico, haja visto que restava claro que as tarefas da burguesia no Brasil não era a de liderar a transformação capitalista similar a que ocorreu nos países centrais e hegemônicos: o que deveria fazer, no plano histórico, uma burguesia cuja tarefa era a de tornar a 38Ibdem. P. 204.
39Ibdem. P. 205. 40Ibdem. P. 210.
transformação capitalista possível e durável em condições de dependência e subdesenvolvimento? Como a burguesia poderia conciliar a expansão interna do capitalismo com os resquícios ainda vivos do passado colonial e neocolonial?. 42 Florestan constata que a condição de dependência tornavam difícil a transformação capitalista, deixando poucas alternativas para a burguesia. A dominação burguesa surge como conexão histórica do capitalismo dependente e da transformação capitalista que ele supõe, e não da revolução nacional e democrática. “Ao fechar o espaço político aberto à mudança social construtiva, a burguesia garante-se o único caminho que permite conciliar a sua existência e florescimento com a continuidade e expansão do capitalismo dependente” . 43
1.3.3. A contra-revolução de 1964 ou concretização da Revolução burguesa.
Florestan assinala que nas vésperas do golpe de 64 se vivia uma crise do poder burguês no Brasil, que deveria ser o problema central da investigação histórico-sociológica da Revolução Burguesa no Brasil. Esta crise emergia da transição do capitalismo competitivo para o capitalismo monopolista.
O que determinou essa transição não foi a vontade revolucionária da burguesia, mas o grau de avanço relativo e de potencialidades da economia capitalista no Brasil que podia passar, de um momento para outro, por um amplo e profundo processo de absorção de práticas financeiras, de produção industrial e de consumo inerentes ao capitalismo monopolista. Esse avanço foi aproveitado pela burguesia para modificar seus laços de associação com o imperialismo. 44
Depois da década de 30, a burguesia via sua hegemonia ameaçada, por três pressões: 1. Pressões vindas de fora pelo dinamismo do capitalismo monopolista mundial. 2. Pressões proveniente do proletariado e das massas populares que expunham a burguesia à iminência de aceitar um novo pacto social. 3. Pressões
42Ibdem. P. 213.
43Ibdem. P. 214. 44Ibdem. P. 215.
procedentes das proporções assumidas pela intervenção direta do Estado na esfera econômica. 45
O ideal francês de desenvolvimento da burguesia que permitiria uma Revolução burguesa em grande estilo - nacional e democrática - de repente se deslocou. Para reagir às três pressões que afetavam o poder burguês, a forma e as funções da dominação burguesa haviam de se transformar. “A experiência ensinava-lhes que o controle direto do Estado surgia como a única real garantia de autoproteção para o predatório privatismo existente”. 46
Neste momento, a burguesia prepara uma contra-revolução defensiva, unindo setores dominantes das classes altas e médias com as forças armadas para o golpe de Estado que lhe garantiria uma nova posição de força e de barganha, para dar continuidade ao padrão histórico de transformação capitalista e impor sua modernização tecnológica, de aceleração do crescimento econômico e de aprofundamento da acumulação capitalista que se inaugurava.
Para Florestan, este seria o momento da concretização da Revolução Burguesa no Brasil:
Visando, predominantemente e de imediato, proteger-se contra os riscos diretos e indiretos de um pacto social suicida, a burguesia brasileira conquistou uma posição de poder que lhe facultava ir além. Pois, ao mudar seu relacionamento com o poder político estatal e o funcionamento do Estado, também mudou sua capacidade de relacionamento com o capital financeiro internacional e com a intervenção do Estado na vida econômica, ganhando maior controle da situação interna e maior flexibilidade na fixação de uma política econômica. Pela primeira vez na história do País, a dominação burguesa mostrou-se plenamente como ela é, evidenciando as forças sociais que a compõem e como ela própria funciona; e pela primeira vez também, ela se manifestou de modo coletivo (não através de um setor hegemônico, de uma conglomeração passageira ou de um grupo reinante), logrando como tal a transformação política qual lutara desorientadamente desde a década de 20. 47
45Ibidem. P. 216-217. 46Ibidem. P. 217 47IbidemP. 218.
Florestan evidencia que a revolução burguesa ao se concretizar no Brasil transcendeu ao seu modelo histórico “clássico”. Não somente porque este modelo estaria superado historicamente, mas porque os países capitalistas retardatários com suas peculiaridades de desenvolvimento, se chocavam com um novo tipo de capitalismo mundial. No entanto, ao passo que a burguesia brasileira atingia a sua maturidade e plenitude de poder, as demais condições que haviam tornado a sociedade brasileira explosiva também se viam mantidas e agravadas. Esse fato tornava imperativo à dominação burguesa a intensificação do seu caráter autocrático e opressivo. Já lhe era impossível conciliar o modelo neo-imperialista de desenvolvimento capitalista com os velhos ideais da Revolução Burguesa nacional-democrática. 48
1.3.4. A forma de dominação política autocrático-burguesa e suas consequências
para a transformação capitalista.
Para Florestan, a forma de dominação política determinada pela transformação capitalista biarticulada é a forma autocrático-burguesa. Este seria o ponto de partida para a compreensão sociológica das aspirações sócio-econômicas e as identificações políticas das classes que compõe a burguesia no Brasil. Esta seria a forma pela qual as classes burguesas tentam compatibilizar revolução
nacional com capitalismo dependente e subdesenvolvido, pois, nos capitalismos
periféricos, esta também seria necessária. 49
A revolução nacional é indispensável para a burguesia, trata-se do meio pelo qual o poder burguês se consolida através do fortalecimento das estruturas e funções nacionais de sua dominação de classe. Florestan apresenta uma lição do que é para ele a revolução nacional fora do seu sentido ideológico burguês. Para ele, a revolução nacional, na verdade, não são as compulsões igualitárias (por mais formais e abstratas que sejam) de uma comunidade política nacional, mais ou menos complexa e heterogênea. O seu verdadeiro sentido material se daria pelo alcance dentro do qual certos interesses especificamente de classe podem ser
48 Ibidem. P. 220. 49Ibidem. P. 300-301.
universalizados, impostos por mediação do Estado a toda a comunidade nacional e tratados como se fossem “os interesses da Nação como um tudo”.50 Revolução nacional significa:
1) integração horizontal, em sentido e em escala nacionais, dos interesses das classes burguesas; 2) probabilidade de impor tais interesses a toda a comunidade nacional de modo coercitivo e ”legítimo”. Essa é a base política da continuidade da transformação capitalista e dela pode resultar, indiretamente a longo prazo em consequências mais ou menos úteis para as demais classes. 51
No entanto, para o Brasil, o problema é a integração nacional de uma economia capitalista em diferenciação e em crescimento, sob as condições e os efeitos inerentes à dupla articulação. Na medida em que a revolução nacional visa assegurar a dominação burguesa, de modo a criar a base política necessária à continuidade da transformação capitalista, ela também engendra uma variedade especial de dominação burguesa que resiste organizada e institucionalmente às pressões igualitárias da ordem estabelecida, sobrepondo-se e mesmo negando as impulsões integrativas delas decorrentes. A burguesia atua portanto como déspota que separa nação da sociedade civil, a sua revolução identifica a dominação burguesa como um direito natural revolucionário e absoluto em benefício apenas dos sujeitos da ordem competitiva. 52
A burguesia nacional não pode, sob o capitalismo dependente e subdesenvolvido, impor-se coativamente e suplantar os conflitos de classes apoiando-se exclusivamente nos meios privados de dominação de classe e nas funções convencionais do Estado democrático-burguês. O Estado nacional brasileiro foi plasmado pelas necessidades e interesses das classes burguesas nestes padrões.53 Assim, a dominação burguesa em sua forma autocrática, é uma força sócio-econômica espontânea e uma força econômica regulativa que garante politicamente toda a rede de ação autodefensiva e repressiva da empresa ao
50Ibidem. P. 301.
51Ibidem. P. 301. 52Ibdem. P. 302.
Estado, dando origem a uma poderosa superestrutura de opressão e de bloqueio convertida em poder legítimo. Ela regula qualquer mudança social relevante e impõe barreira a qualquer tentativa de oposição às suas concepções. 54
Florestan se propõe a responder “a que necessidades econômicas, sociais e políticas responde essa máquina de opressão de classe institucionalizada?” Para55 ele, sua função global é garantir a existência e o aperfeiçoamento do capitalismo selvagem. Desta função, derivam três outras específicas: 1. Preservar as condições determinantes da própria existência, reprodução e exercício do poder burguês. 2. Ampliar e aprofundar a incorporação estrutural e dinâmica da economia brasileira no mercado, no sistema de produção e no sistema de financiamento das nações capitalistas hegemônicas. 3. Preservar, alargar e unificar os controles diretos e indiretos da máquina do Estado pelas classes burguesas, de maneira a elevar ao máximo a fluidez entre o poder político estatal e a própria dominação burguesa. 56
Florestan apresenta em formas mais concretas as consequência da dupla articulação para a transformação capitalista:
A dupla articulação faz com que vários focos de desenvolvimento econômico pré ou sub-capitalistas mantenham, indefinidamente , estruturas sócio-econômicas e políticas arcaicas ou semi-arcaicas operando como impedimento à reforma agrária, à valorização do trabalho, à proletarização do trabalhador, à expansão do mercado interno etc. [...] Ela impede também que as estruturas econômicas efetivamente modernas ou modernizadas fiquem expostas a controle societário eficiente, permitindo que a eclosão industrial continue largamente submetida ao velho modelo dos ciclos econômicos, tão destrutivo para o desenvolvimento orgânico de uma economia capitalista integrada em escala nacional. A ausência desse controle societário eficiente confere, ainda, uma liberdade quase total à “grande empresa”, nacional ou estrangeira, em todos os ramos de negócios, e à devastadora penetração imperialista em todos os meandros da vida econômica brasileira. 57
54Ibdem. P. 303. 55Ibdem. P. 303 56Ibdem. P. 304. 57Ibdem. P. 306.
Para Florestan, essa forma de dominação burguesa aliena as classes burguesas pela anulação de tarefas econômicas, socioculturais e políticas que cabem à burguesia, enquanto o desenvolvimento capitalista representar a fonte de dinamização da revolução nacional. “A dupla articulação faz com que, naturalmente, o desenvolvimento desigual interno e a dominação imperialista externa criem e reforcem pontos de estrangulamento estruturais no seio mesmo da transformação capitalista” . Florestan afirma que para libertar-se do capitalismo dependente e58 subdesenvolvido a burguesia brasileira precisaria livrar-se antes do atual padrão autocrático de dominação burguesa e solidariedade de classe. 59
É diante da necessidade de superação da forma autocrática-burguesa, contemporânea da crise do poder burguês no final da ditadura militar, que arrastava a sociedade brasileira para um período onde as necessidades de transformações sociais estavam explodindo, que o processo constituinte surge como um dos campos em que a burguesia buscaria dar as respostas sobre a sua nova forma de dominação.
1.3.5. A necessidade de superação da forma de dominação autocrática-burguesa.
Em síntese, queremos dizer que para Florestan, o Brasil em 1986 era considerado um país capitalista com características de capitalismo dependente e
subdesenvolvido. Estas características haviam se dado em razão do modelo de
transformação capitalista duplamente articulado pelo desenvolvimento desigual interno e a dominação imperialista externa. Para manter esse modelo de transformação capitalista, a forma adotada pela burguesia para manter a sua hegemonia política foi a autocrática-burguesa. No entanto, esta forma de dominação política estrangula a própria transformação do capitalismo em si. Para se libertar do capitalismo dependente e subdesenvoldido e dar continuidade à transformação capitalista, a revolução nacional se tornava novamente imperativa, dessa vez com a necessidade de superação de seu padrão de dominação.
58Ibidem. P. 306. 59Ibidem. P. 306.