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4 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ECOTURISMO

5.2 A CONSTRUÇÃO DO ECOTURISMO COMO EXIGÊNCIA AMBIENTAL

5.2.2 A construção do ecoturismo como exigência ambiental

O processo de construção do ecoturismo como exigência ambiental não se deu de forma linear e uniforme, conforme análise que apresentamos a seguir.

Na ótica construtivista, as exigências ambientais são entendidas como problemas reais que são destacados e trabalhados politicamente por atores sociais. Quem cumpriu o papel de formular o ecoturismo como exigência ambiental? Considero que foram as ONGs ambientalistas em reação à pressão empresarial para que fossem abertas as áreas protegidas para o ecoturismo, transformando essa atividade em uma exigência ambiental, dados os riscos que o uso dessas áreas representa para os ecossistemas e para a biodiversidade – um dos patrimônios da humanidade - buscando, a partir disso, formas políticas de regulamentar a atividade e promovê-la dentro de parâmetros ecológicos. Essa conclusão decorre da observação de que, enquanto o ecoturismo vinha sendo realizado, desde os anos 80, em inúmeras áreas naturais do País, de forma amadorística, ele não foi objeto de questionamento como problema ambiental. Isso só passa a ocorrer a partir de meados dos anos 90, coincidindo com a ação política dos empresários para a abertura das áreas protegidas, até então fechadas ao acesso público. Como se processou a construção do ecoturismo como exigência ambiental?

Entre os passos que compreende o tratamento das questões ambientais, Hannigan (1995) destaca seis fatores: uma autoridade para validar as exigências; existência de propagadores que estabeleçam a relação entre o ambientalismo e a ciência; atenção da mídia; dramatização do problema em termos simbólicos e visuais; incentivos econômicos e a emergência de um patrocinador institucional. Orienta que é crucial ter um ou mais propagadores

científicos que possam transformar o que, de outra forma, permaneceria sendo uma investigação fascinante mas esotérica, numa exigência ambiental pró-ativa, conforme Hannigan (1995).

Hannigan admite que, em alguns casos, os próprios propagadores podem ser usados como cientistas e, em outros, os propagadores são atores ativistas cujo conhecimento científico vem em segundo lugar. Considerando que as primeiras ONGs a elaborarem e executarem projetos ecoturísticos no Brasil – a WWF, a SOS Mata Atlântica e a Conservation International – contrataram estudos de especialistas e/ou consultores, pode-se considerá-las como propagadoras do ecoturismo. Todavia considero que foi a WWF, em atuação no Brasil desde 1991, que cumpriu o papel mais amplo de validador, propagador e dramatizador dos problemas ambientais existentes no ecoturismo, na medida em que não só acumulou um conhecimento globalizado desde os anos 80, sistematizado em estudos70 com o objetivo de investigar a situação do ecoturismo e avaliar os impactos econômicos e ambientais da atividade, identificando seu potencial de crescimento, mas também formulou recomendações e estratégias para o planejamento, desenvolvimento e manejo do ecoturismo em áreas protegidas. Com esse estudo, a WWF cumpriu uma das necessidades para construção de um problema ambiental indicado por Hannigan (1995), que é a validação por parte de autoridade científica, desde que foi feito por especialistas, dentro de parâmetros técnicos, e que contou com o apoio de agência institucional, a U.S. Agency for International Development/USAID.

No Brasil, a WWF desenvolveu, a partir de 1994, um projeto sistemático e organizado sobre o ecoturismo, tendo estabelecido uma relação entre a ciência e o ambientalismo, ao realizar estudos técnicos para elaborar e desenvolver não só seu programa de ação ambiental,

70 A exemplo do estudo Ecoturismo: potenciales y escollos, publicado em 1990, conduzido por Elazabeth Boo que pesquisou experiências ecoturísticas em cinco países da América Latina e Caribe: Belize, Costa Rica, República Dominicana, Equador e México.

mas também o de ecoturismo. Segundo Silva71, essa entidade tem um programa - Turismo e Meio Ambiente - que desenvolve ações específicas na área, como elaboração de material, treinamentos, apoio e acompanhamento de projetos, participação no projeto de certificação e acompanhamento da legislação do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama). Assim, a WWF diferencia-se de outras ONGs ambientalistas, pois é a única entidade que tem um programa de ecoturismo implantado em vários Estados, com um técnico contratado, estrutura, orçamento e o objetivo geral de apoiar essa atividade como estratégia de turismo responsável e desenvolvimento e, ainda, como forma de proteger a natureza, conforme salienta o coordenador do programa.

Verifiquei também que a estratégia utilizada pela WWF para promover o ecoturismo, através do apoio a projetos, constitui-se em uma forma de validação uma vez que, na prática, contrata consultoria para realizar estudo de cenário, com vistas a construir uma visão da região e indicar as possibilidades de intervenção e, a partir disso e em função do contexto, identifica atores e elabora estratégias de ação. Depois dos projetos implantados, publicam-se documentos com os resultados.

A depender da novidade do assunto, Hannigan (1995) chama a atenção para a necessidade de dramatização do problema em termos simbólicos e visuais. Entendo que a estratégia de dramatização utilizada pela WWF no Brasil consistiu na execução de projetos que tinham como objetivos identificar os problemas que ocorrem em determinadas áreas e, a partir deles, apresentar resultados que apontassem o ecoturismo como alternativa, conforme explicou o coordenador72 do Programa de Ecoturismo dessa entidade. Nesse sentido, dramatizou-se o assunto pela positividade, buscando mostrar as potencialidades do ecoturismo.

Nesse processo, Hannigan (1995) destaca o uso de incentivos econômicos com as entidades, vinculando o problema ambiental a custos ou incentivos para determinados grupos. Identifiquei duas ações realizadas utilizando-se essa estratégia. Uma da WWF, que elaborou um amplo programa, envolvendo oito projetos em diversos biomas, com o objetivo de propor, testar e aperfeiçoar uma metodologia a fim de capacitar organizações ambientais brasileiras para desenvolver ecoturismo com base comunitária73, tendo como objetivo maior a certificação da atividade no Brasil, um estágio mais avançado dentro da atividade ecoturística. As discussões sobre certificação se iniciaram em 1999, com a WWF liderando um movimento que culminou com a criação do Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável (CBTS), através do qual introduziram no cenário político um novo conceito74, o de turismo responsável, considerado como mais adequado do que o de ecoturismo, com base na concepção de que todo mundo deve ser responsável na hora de implantar o turismo. Outro exemplo é o da SOS Mata Atlântica que, para a implantação do Pólo Ecoturístico do Lagamar, no Vale do Ribeira, ao sul do Estado de São Paulo, difundiu na população que o projeto geraria emprego e renda, ou seja, também trabalhou com incentivos econômicos como forma de atrair a simpatia da população para o projeto.

Dentre os fatores necessários para a construção com êxito de um problema ambiental, Hannigan (1995) destaca a atenção dos meios de comunicação social em que o problema é ‘estruturado’ como novidade e importante. Enquanto formuladores e encaminhadores de exigências, as ONGs ambientalistas cumpriram também um papel de dramatização junto à mídia, atraindo sua atenção para a novidade e importância do assunto, algo que vinha sendo feito de forma mais limitada pelo trade ecoturístico, ao divulgar seus pacotes. Exemplo disso foi a

73 A exemplo do ecoturismo de base comunitária que se desenvolve no município de Silves, no Estado do Amazonas. Informação disponível em: < http://www.wwf.org.br >

74 Essa nova concepção surgiu em encontros internacionais que a entidade promove, onde se discutem temas e tomam-se deliberações.

ação da ONG ambientalista SOS Mata Atlântica, através do projeto Pólo Ecoturístico do Lagamar, elaborado como um projeto de desenvolvimento regional para o Vale da Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, em 1995. Com ampla utilização da mídia, dramatizou o projeto através de palestras, debates e famtours, eventos nos quais disseminou não só a idéia de que ele protegeria a natureza, mas também proporcionaria desenvolvimento local.

Nos últimos anos, a cobertura da mídia, principalmente a impressa, sobre o ecoturismo tem-se ampliado, inclusive com títulos específicos sobre o assunto. Identifiquei duas fontes básicas – mas não únicas – que são os cadernos de turismo dos grandes jornais e as revistas sobre viagem e turismo, que se multiplicaram nos últimos anos. Analiso que o tratamento desse assunto na mídia é diferente dos enfoques anteriores e tradicionais sobre a questão ambiental. Se, antes, as reportagens tratavam dos inúmeros problemas e destacavam as denúncias das ONGs ambientalistas e de cientistas, na atualidade e em relação ao ecoturismo, a mídia prioriza a promoção dos atrativos, ressaltando os aspectos positivos e/ou exóticos dos locais, a exemplo da Chapada dos Veadeiros, da qual se explora o misticismo e o esoterismo associados com a natureza privilegiada. Complementam as reportagens a divulgação de ofertas e pacotes feitas por operadores e agências de viagens e orientações sobre como se comportar na natureza e, inclusive, dicas do que levar e usar nas localidades. A dificuldade que tive em publicar um artigo no Caderno de Turismo de A Tarde, jornal diário editado em Salvador, sobre os impactos do turismo em um local outrora paradisíaco chamado Morro de São Paulo, na Bahia, mostra o controle dos assuntos para divulgação. Constatei75, na prática, que se priorizam os assuntos mais

75 Strelow-Lima (2001) produz uma análise sobre representações de ecoturismo veiculadas em revistas e mostra que a mídia divulga de forma atraente novas formas de apropriação da natureza pela sociedade. Segundo essa autora, associa-se o ecoturismo com formas alternativas de relacionamento com a natureza, a uma forma divertida, harmonizante ou adrenalizante de se aproximar ou conviver na natureza, no meio das quais inserem-se indicações para sua conservação.

amenos que divulguem o lado bom dos atrativos, em detrimento de análises críticas sobre locais e situações.

Em síntese, observei que algumas ONGs, como a WWF, a SOS Mata Atlântica e Conservation International76, passaram da teoria à prática, executando projetos com vistas a construir resultados positivos, de forma a torná-los vitrines para conquistar apoio institucional para a idéia do ecoturismo como instrumento de compatibilização do desenvolvimento com a preservação ambiental.

Na esteira da ação inicial de entidades como a WWF, outras ONGs tendem a seguir essa linha, a exemplo das que estão reunidas no Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, conforme depoimento de seu diretor no VII Seminário Nacional realizado em Florianópolis, em outubro de 2001. Depoimento de Costa77, que é também da direção dessa rede, indica que esta passou a defender o ecoturismo como uma das formas de dar retorno financeiro a proprietários que tinham áreas rurais, orientando que os particulares transformassem suas áreas em Reservas Particulares do Patrimônio Natural, as RPPN’s. Ainda segundo o depoimento, a orientação da rede não resultou de definições específicas, mas decorreu da idéia expressa no Dossiê Mata Atlântica 200178, que indica a utilização da Mata Atlântica em condições que assegurem a preservação do meio ambiente e o uso múltiplo de seus recursos naturais (CNRBMA, 2001). Confirmando essa linha de atuação, o diretor do Conselho Nacional da Reserva da Biosfera da Mata Atlântica (CNRBMA) informou que este Conselho possui um programa de ecoturismo, cujo objetivo é promover em áreas com essa vocação o desenvolvimento sustentável da Mata Atlântica e das comunidades locais através do turismo

76 Essa entidade, em parceria com o Instituto de Estudos Socioeconômicos do Sul da Bahia (IESB), desenvolve o Ecoparque de Una, na Bahia.

77Rafael Costa é diretor do Grupo Ambientalista da Bahia/Gambá, criado em 1981, com sede em Salvador e atuação de âmbito nacional. Entrevista em 26 de janeiro de 2001.

ecologicamente correto e socialmente justo (informação verbal)79. No Estado de São Paulo, o programa abrange cursos básicos, de especialização e aperfeiçoamento para monitores ambientais, intercâmbio, oficinas de interpretação e avaliação, seminários e workshops, e conta com a parceria de comitês estaduais, de ONGs, do SEBRAE, associações de monitores locais, pousadas, da WWF, da Secretaria de Meio Ambiente de São Paulo e do Instituto Florestal. Portanto, promover o ecoturismo na natureza preservada é a posição que passou a ser adotada por um grupo expressivo e representativo de ONGs ambientalistas do Brasil, legitimando dessa forma a reivindicação dos empresários e a postura do Estado em abrir as áreas protegidas para atividades turísticas.

Cabe observar, contudo, que até o presente não houve uma corrida das ONGs ambientalistas no sentido do ecoturismo. Os dados coletados mostram que estavam diretamente envolvidas com projetos de ecoturismo, em início de 2000, apenas as quatro ONGs citadas anteriormente. A explicação para isso é que, até recentemente, o ecoturismo não se colocava como uma alternativa concreta de trabalho para essas entidades, o que só começa a se descortinar a partir de início do novo século, quando começam a surgir os resultados das experiências das ONGs pioneiras. Outro ponto que pesou na decisão de elas utilizarem o ecoturismo foi a possibilidade de realização de projetos, através dos quais fariam captação de recursos para desenvolver atividades em locais selecionados. Um dos objetivos do “Seminário Mata Atlântica: a preservação como oportunidade de negócios e investimentos”80 foi

[...] demonstrar as oportunidades de negócios e investimentos que a preservação, recuperação e uso sustentável não madeireira da Mata Atlântica podem proporcionar aos órgãos públicos, ONGs, proprietários de áreas florestais e instituições de ensino e pesquisa. (SEMINÁRIO MATA ATLÂNTICA, 2001).

78 Elaborado pelo Projeto Monitoramento Participativo da Mata Atlântica, da Rede de ONGs da Mata Atlântica. 79 Pronunciamento feito no VII Seminário Nacional, realizado em outubro de 2001, em Florianópolis.

Esse evento, que apontou o ecoturismo como uma das alternativas econômicas para o ecossistema da Mata Atlântica, indicou mecanismos de captação de recursos para projetos ambientais e propiciou oportunidade de discussão com instituições financeiras e fundos públicos, abrindo novas perspectivas para atuação das ONGs ambientalistas na atividade.

O fato novo nesse processo foi a mudança de posição das ONGs ambientalistas que, de uma postura conservacionista, de vetar qualquer atividade social na natureza, passaram a aceitar a idéia que circulava entre os empresários, e também no governo federal, de utilizar no ecoturismo ecossistemas singulares e os biomas nacionais, a exemplo da Mata Atlântica, do Cerrado, da Amazônia, do Pantanal, dos Campos Sulinos, o Costeiro e as áreas de transição Amazônia-caatinga-cerrado e Mata Atlântica-caatinga-cerrado.

A eleição do ecoturismo pelas ONGs ambientalistas como instrumento para ser utilizado em áreas protegidas, na suposição de compatibilizar o desenvolvimento com o meio ambiente, pode ser vista também de dois outros ângulos. De um lado, como um fator que pode contribuir para que se mantenha acesa a defesa do ecoturismo como uma exigência ambiental no Brasil, vez que envolvimento delas no próprio processo ecoturístico concorre para a defesa de princípios ambientais. De outro lado, entendo que, paradoxalmente, essa decisão dos ambientalistas reforça a pressão dos empresários pela abertura das citadas áreas porque a mesma é entendida como uma concordância, um aval, com a posição destes atores. Ressalto que, diferentemente da ação dos empresários, essa decisão das ONGs ambientalistas ocorreu associando a preocupação com a proteção ambiental com os problemas sociais. A inclusão de aspectos sociais entre as exigências ambientais é um aspecto novo e importante em termos de

demandas ambientalistas81, vez que parte significativa dos conflitos ocorridos com as populações nativas que habitavam áreas de preservação, resultaram de iniciativas preservacionistas defendidas por eles. Nesse sentido, a posição dos ambientalistas evoluiu no sentido de defender a posição de que o ecoturismo se constitua em instrumento de desenvolvimento local, como alternativa socioeconômica das comunidades, a exemplo do projeto Pólo Ecoturístico do Lagamar da SOS Mata Atlântica, programado para a região considerada mais pobre do Estado de São Paulo, e do Projeto Veadeiros da WWF, na Chapada dos Veadeiros, em que o ecoturismo era um dos componentes de um projeto mais amplo e integrado para a região. Segue nessa linha a posição do CNRBMA que preconiza o desenvolvimento sustentável da Mata Atlântica e das comunidades locais através do turismo ecologicamente correto e socialmente justo. Em vista disso, as pressões que exercem sobre o governo federal se voltaram e se voltam, exatamente, para que, de um lado, se estabeleça uma política global82, nacional, com normas e regulamentos e, de

outro, para que se promovam medidas de controle, fiscalização e, em especial, incentivos para as comunidades.

Ressalto também que, apesar da mudança de posição, as ONGs ambientalistas continuaram a empreender lutas pela criação de áreas protegidas ao longo dos anos 90. Exemplo disso foi a luta que a WWF encampou, pela criação de Reservas Particulares do Patrimônio Nacional (RPPNs) e pela criação da Reserva da Biosfera na Chapada dos Veadeiros, na segunda metade dos anos 90. O diferencial é que, de um lado, essas áreas tendem a se constituir em espaços de realização do ecoturismo e, de outro, como instrumentos de marketing a exemplo do

81 Segundo Foladori (2000), as mudanças político-ideológicas que sofreram os ambientalistas os aproximam dos aspectos sociais.

82 Sobre o assunto, ver artigo de Sérgio Salazar coordenador de ecoturismo da WWF (que é também coordenador do Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável (CBTS), de 2001, no site: < www.wwf.org.br >.

que está a ocorrer com o símbolo ecológico em que foi transformada a Reserva da Biosfera citada acima, conforme análise que apresento no capítulo 6.

Em síntese, trabalhei neste item a ação das ONGs ambientalistas validando, propagando e dramatizando o ecoturismo como exigência ambiental. Em seguida, analiso a forma como elas encaminharam essa exigência nos fóruns políticos.

5.3 O ECOTURISMO NA MESA DE NEGOCIAÇÃO: O ENCAMINHAMENTO DAS