2 A MULTIDIMENSIONALIDADE DO ECOTURISMO
2.4 POLISSEMIA CONCEITUAL E DIFICULDADES TEÓRICAS
A definição de algum objeto, fenômeno ou atividade, que se constitui no ponto inicial de um estudo, é importante para precisar suas características fundamentais. Neste sentido, concordo com Shore (1999), para quem definições imprecisas debilitam o poder do conceito, contribui para ambiguidades e encoraja abusos da idéia. No caso do ecoturismo, a complicação se inicia com as dezenas de termos utilizados para designar a atividade. Paulo Pires (1998) listou 58 nomes, chamando a atenção para a similaridade e até a redundância de alguns termos. A inexistência de uma designação consensual sobre o ecoturismo é problemática em termos teóricos na medida em que esse fator promove a distinção entre essa modalidade e a de dezenas de outros tipos de turismo, em especial aquelas que são muito próximas, como as de turismo ecológico, turismo na natureza, turismo rural, turismo ambiental, turismo sustentável, turismo alternativo, turismo de aventuras, turismo esportivo, turismo verde.
A preocupação da Organização Mundial de Turismo (OMT) com a diversidade conceitual é tanta que este assunto constou da pauta da Cúpula Mundial do Ecoturismo (International Year of Ecotourism 2002)19 ocorrida em maio de 2002, em Quebec, no Canadá.
A multiplicidade de definições ecoturísticas também foi objeto de análise por parte de Serrano (1997) que se voltou para esmiuçar alguns dos sentidos da polissemia desse termo. Diferente de outras atividades, a falta de uma terminologia padrão tem resultado em uma míriade de definições de ecoturismo, segundo Mader (1998). Uma das razões da diversidade de conceitos criticada por diversos autores é o fato de os atores sociais definirem essa atividade de acordo com
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Com a finalidade de aprofundar o entendimento sobre a problemática do ecoturismo, o Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep), em conjunto com a OMT, propôs e a Assembléia Geral da ONU estabeleceu, através da Resolução A/Res/53/200 de 1998, o ano de 2002 como o Ano Internacional do Ecoturismo. A Cúpula Mundial foi o coroamento de um conjunto de eventos preparatórios.
seus interesses e necessidades, sejam econômicas, políticas ou ambientais. Isso faz com que o conteúdo das definições varie de acordo com suas conveniências, o que é compreensível dado o fato de o ecoturismo ser uma atividade que envolve fortes interesses políticos e econômicos.
Na literatura consultada, parte significativa dos autores utiliza os conceitos criados por Ceballos-Luscuráin (1998), talvez por ele ser reconhecido como o autor do termo ecoturismo, cunhado em 1983. O primeiro conceito que ele formulou em 1987 define:
[...] O ecoturismo é a realização de uma viagem a áreas naturais que se encontram relativamente sem distúrbios ou contaminação com o objetivo específico de estudar, admirar e desfrutar a paisagem juntamente com suas plantas e animais silvestres, assim como qualquer manifestação cultural (passada ou presente) que ocorra nestas áreas. (CEBALLOS-LUSCURÁIN, 1998, p. 7).
O outro conceito que desenvolveu em 1993 passou a ser adotado pela International Union Conservation Nature (IUCN), onde foi coordenador do programa de ecoturismo. Neste, incorpora outros elementos decorrentes de sua prática como consultor, resultando na concepção de que o ecoturismo é:
[...] aquela modalidade turística ambientalmente responsável, consistente em viajar ou visitar áreas naturais relativamente sem distúrbios com o fim de desfrutar, apreciar e estudar os atrativos naturais (paisagem, flora e fauna silvestres) das ditas áreas, assim como qualquer manifestação cultural (do presente e do passado) que possam encontrar-se no local, através de um processo que promove a conservação, tem baixo impacto ambiental e cultural e propicia um envolvimento ativo e sócio-econômico benéfico das populações locais”. (CEBALLOS-LUSCURÁIN,1998, p. 7).
Como se pode observar essa é uma concepção ampla e abrangente. Entretanto, para De Las Heras (1999), esse conceito é o que lhe parece mais completo por incluir todos os elementos que considera dever-se levar em conta, conforme sua formulação:
[...] ecoturismo es viajar a área naturales con el objetivo de apreciar los recursos, en um proceso controlado que garantice el minimo impacto ambiental negativo, asegurando la participacion de las poblaciones locales, para que se convierta en um instrumento de conservacion y en una herramienta de desarrollo sostenible. (DE LAS HERAS, 1999).
O fato de um mesmo autor formular vários conceitos sobre o ecoturismo mostra a complexidade da questão e justifica por que o aspecto conceitual ainda é uma questão inconclusa.
A análise da literatura revela ainda o que chamo de rebuscamento conceitual, que consiste na sofisticação a partir de formulações básicas. Exemplo disso é o caso do Center for Ecotourism da Universidade de Pretória (2000), que, a partir da idéia inicial de Ceballos- Luscuráin (1998) de viagem baseada na natureza para áreas relativamente não perturbadas com ênfase na educação, ampliou o conceito concebendo o ecoturismo, segundo eles, em uma perspectiva científica, como:
[...] iluminação, experiência de viagem participativa para o meio ambiente, natural e cultural, que garanta o uso sustentável, em nível apropriado, de recursos ambientais, enquanto produz oportunidades econômicas viáveis para a indústria turística e os hospedeiros, fazendo o uso desse recurso em beneficio da conservação para todos que jogam papel no turismo. (CENTER FOR ECOTURISM UNIVERSITY OF PRETORIA, 2000)
Existe uma polêmica entre atores em relação ao uso dos termos e conceitos de ecoturismo e turismo sustentável, assunto este que é atualíssimo dado o fato de o recém-criado Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável (CBTS) patrocinar essa polêmica. Para essa entidade, a idéia de turismo sustentável é mais ampla e apropriada do que a de ecoturismo. Já, para De Las Heras (1999), este é um termo derivado da idéia de desenvolvimento sustentável e, em decorrência, deve ser mantido no tempo, devendo-se obter dele o máximo de rentabilidade, protegendo os recursos naturais que o sustentam.
No País, diferentemente da literatura internacional, nota-se um tripé de conceitos, onde pontuam o do Estado, o dos empresários e de ONGs como a WWF e IUCN. Um dos mais utilizados20 é o da Empresa Brasileira de Turismo (Embratur)21, que conceitua o ecoturismo como:
[...] um segmento da atividade turística que utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista pela interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações. (EMBRATUR, 1994, p. 20)
Em termos analíticos, é difícil estabelecer o contraponto dessa definição com a de outros atores sociais como o trade, na medida em que as definições são muito próximas. Por exemplo, para o Instituto de Ecoturismo do Brasil (IEB), organismo de representação empresarial:
O ecoturismo é a prática de turismo de lazer, esportivo ou educacional, em áreas naturais, que se utiliza de forma sustentável dos patrimônios natural e cultural, incentiva a sua conservação, promove a formação da consciência ambientalista e garante o bem estar das populações envolvidas”. (IEB, 1995).
Como se pode observar essa definição praticamente reproduz a da Embratur, com exceção da parte inicial que destaca a prática de atividades turísticas, o que indica uma estreita convergência de idéias entre esses atores.
20 Esse conceito é citado, entre outros, por Aulicino (1997), Endres (1998), Leony (1997), Serrano (1997) e Paulo Pires (1998).
21 É interessante observar que esse conceito foi desenvolvido pela empresa de consultoria Ruschel & Associados Marketing Ecológico e divulgado na 1ª Bienal de Ecoturismo de Canela, em 1995.
Mas, outros fatores interferem na formulação conceitual, como a grande interface entre o ecoturismo e um grupo de modalidades turísticas22 – turismo rural, turismo verde, turismo
cultural, turismo de aventura, agroturismo, turismo esportivo – conforme observa Paulo Pires (1998). Isso ocorre devido à interseção de alguns elementos, como a localização física, o meio rural ou natural que é comum a eles pois, se efetivamente se adotasse uma formulação rígida, o ecoturismo seria uma modalidade de turismo rural, uma vez que este é definido como qualquer atividade turística implantada no meio rural Assim, se se considera meio rural todas as áreas não urbanizadas, ou mesmo com edificação rarefeita, esse conceito abarca tudo: campos, montanhas, lagoas, vales etc. De Las Heras (1999) contribui para equacionar esse problema argumentando que, apesar de vários autores considerarem o ecoturismo como um subsector do turismo de natureza ou do turismo rural, opina que se deveria considerá-lo como um setor à parte, que tem aspectos comuns com outros tipos que se realizam no meio rural, mas com uma amplitude maior. Também o ecoturismo se diferencia do convencional porque incorpora princípios ecológicos e realiza-se na natureza. Nesse sentido, não se pode – ou deve – associar ao termo (e também ao conceito) modalidades como o turismo de aventura ou esportivo, pelo fato de estes incorporarem atividades que tendem a impactar o ambiente – mais do que já ocorre com o próprio turismo ecológico, conforme observa Paulo Pires (2000).
A forma utilizada para resolver o embate com o turismo convencional foi utilizando-se o termo turismo alternativo, o qual reunia as alternativas ao chamado turismo de massa23, simbolizando, conforme observa Paulo Pires (1998, p. 147), o antagonismo ao turismo
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Ressalto que todos esses tipos de turismo estão controlados e organizados por uma das maiores indústrias do mundo, a indústria turística ou “las industrias del ocio”, como designam Turner y Ash (1991, p. 11).
23 Segundo Barreto (2000), o termo turismo de massa se refere ao número de pessoas que habitualmente demanda certo tipo de serviço ou de destinações. Ressalta que o termo turismo de massa não se refere ao número de pessoas que viajam ao mesmo tempo, mas a idéia que se disseminou é a do deslocamento de milhões de pessoas ao mesmo tempo para determinados locais – a exemplo das praias - provocando impactos em vários setores, seja antes, na construção da infra-estrutura, seja depois, como resultante da intensa concentração de pessoas nos locais.
convencional e tudo o que de ruim ou negativo haja nesse modelo de turismo. Mowforth (apud PIRES, P., 1998) pondera que o termo turismo alternativo abarca todos os demais, ao mesmo tempo em que todos estabelecem uma diferença clara em relação ao turismo de massas. Colocando-se como um contraponto ao turismo de multidões, o turismo alternativo constitui-se em um outro tipo de turismo, o turismo de minorias, termo que designa um tipo de turismo cujos destinos são procurados por poucas pessoas, conforme Barreto (2000). Para melhor caracterização, cito Acerenza (apud Barreto, 2000) que chama o turismo de minorias de turismo seletivo que também pode ser enquadrado como turismo de interesse específico. Todas essas designações voltam-se para definir um tipo de turismo que é dirigido para públicos específicos e destinações diferentes daquelas procuradas pela massa, podendo, portanto, serem rotulados de alternativos.
Porém o conceito de Turismo Alternativo (TA) é criticado pela sua amplitude na medida em que ele:
[...] puede ser tan amplio y vago como el que se opone diametralmente, al englobar muchos y muy diversos tipos de actividades de ocio que se clasifican como turismo alternativo, entre los que se incluyen los viajes de aventura, el excursionismo o los viajes en solitario de los trotamundos. (WEARING; NEIL; FIGGIS, 1999, p. 22)
Assim como em relação ao conceito de ecoturismo, diferentes autores formulam diferentes definições para turismo alternativo. O importante é a observação de que, se se considera um conjunto de características do chamado turismo alternativo, o ecoturismo pode ser enquadrado como tal. Porém, Wearing, Neil e Figgis (1999, p. 22) observam que:
[...] las terminologias de turismo alternativo y de masas mantienen una relación de interdependencia y se basean cada una en juicios cargados de valores em torno a los cuales se estructura el contenido que se condensa en la definición de los términos.
Essa observação abre espaço para que eu questione a forma como é empregado o termo turismo alternativo com a pergunta: Alternativo a quê? Ao turismo convencional? Mas as chamadas alternativas não se constituem também em uma atividade turística que mobiliza milhares de pessoas para determinados destinos? O turismo convencional não continua a acontecer na mesma forma de sempre, provocando os impactos detectados por diversos estudos? O ecoturismo não é uma modalidade integrante da indústria turística que objetiva ter uma demanda sempre crescente? Isto será discutido, com maiores detalhes, no final desta tese, a partir dos elementos do estudo de caso.
Em vista desses questionamentos, parece-me que o termo mais adequado para designar as atividades surgidas dentro do turismo convencional é opções. Nesse sentido, acompanho observação de Boullon (2000) para quem sempre aparecem diferentes opções no sistema produtivo. De fato, entendo que ocorreu apenas a criação de novas opções ao turismo de massas.
A bibliografia indica que a insatisfação de uma parte dos turistas em freqüentar espaços superlotados – em geral, praias e locais históricos e culturais - por uma crescente massa de turistas e mudanças culturais que alteraram a forma de percepção da sociedade em relação à natureza, entre os anos 60 e 80, criou um público ávido por alternativas mais seletivas, forçando o
trade a pensar outras opções de destinos. Assim, parece-me pertinente o ponto de vista defendido
por Paulo Pires (1998), que apresenta o ecoturismo como um termo que designa um tipo de turismo inserido em um conjunto de alternativas turísticas, entendendo alternativa em um dos sentidos que ele apresenta: o de se escolher o que mais convenha de forma excludente e não no
outro sentido, o de alternar, substituir outra atividade porque compreendo que o ecoturismo não veio para substituir o turismo convencional, mas foi criado apenas como uma opção a mais dentro do leque de modalidades existentes.
Reforçando a idéia de opções, Pires afirma que, devido ao esgotamento dos modelos tradicionais de turismo, desde os anos 60 e 70 há uma tendência à especialização da oferta turística. Serrano (1997, p. 16) reafirma esse ponto de vista ao observar que:
[...] hoje, o turismo de massas, ao menos na Europa e nos Estados Unidos, passa por uma retração. Isso vem se refletindo num recuo da demanda por pacotes estandardizados, de um lado, e da procura cada vez maior por roteiros personalizados, de outro. Nesse movimento, ganham destaque os destinos turísticos considerados “exóticos” e/ou dirigidos a ambientes de grande interesse paisagístico-ecológico.
As chamadas alternativas turísticas representam, em realidade, áreas e/ou aspectos especializados dentro da indústria turística que, de um lado, necessita a cada ano criar novos atrativos; de outro, necessitam apresentar alternativas para um público seleto com renda média a alta que está sempre a requerer atrações diferenciadas. Depreendo desse debate que o ecoturismo se distingue – em termos políticos e culturais - de outras modalidades, não só por estar associado intrinsecamente com a natureza, na qual tem sua identificação, como assinala Paulo Pires (1998), mas pelo fato de que foi eleito pelo trade, por organismos multilaterais e ONGs ambientalistas como um símbolo duplo: de um lado, para modificar a imagem impactante do turismo de massas; de outro, por se constituir em um instrumento para experiências de desenvolvimento sustentável, a exemplo de investimentos feitos por ONGs, como a WWF, a SOS Mata Atlântica e a Conservation International, em projetos ecoturísticos, com o objetivo de testar modelos de desenvolvimento sustentável. De acordo com Silva (1997), esse conceito não é utilizado apenas para ressignificar o turismo, mas também outras práticas econômicas, a exemplo do
ecoportunismo, denunciado por Mourão (2000), em que operadoras e/ou agências rotulam pacotes convencionais como ecoturísticos.
Ainda em relação aos conceitos, com a indicação de princípios e/ou critérios completa-se o rol de elementos que permitem dar uma idéia bem clara do que seja a concepção geral do ecoturismo. Em termos de princípios, para Wearing, Neil e Figgis (1999), o ecoturismo pressupõe quatro elementos fundamentais: viagem a zonas naturais relativamente inexploradas ou protegidas, a íntima ligação com a natureza, orientação para a conservação e viagem de caráter educativo. A partir da análise de dezenas de conceitos, Paulo Pires (1998) relaciona o que chama de pontos fundamentais na construção do conceito de ecoturismo: ênfase na natureza, na história natural e nas culturas autóctones dos destinos caracterizados pela sua originalidade e autenticidade; a preocupação com os impactos socioambientais da atividade nos destinos e com a sustentabilidade dos recursos utilizados; a prioridade na geração de benefícios advindos da atividade para as comunidades locais e preocupação com o seu bem-estar; o apoio e engajamento nas ações de desenvolvimento conservacionista junto aos destinos; a opção pelo desfrute e pelo conhecimento, via educação ambiental, dos ambientes visitados. Nessa linha, Mader (2000) ressalta que o ecoturismo é uma forma especial de turismo que observa três critérios: ele provê medidas para conservação; engloba significante participação da comunidade e é útil e pode sustentar-se a si próprio. Assim, podem ser identificados cinco aspectos básicos contidos nas inúmeras definições do ecoturismo: a tentativa de distinguir a modalidade; o local onde ele se realiza; o objetivo a que se propõe, a forma como é conduzido e o tipo do turista que o pratica. Complementa esse rol, a formulação da WWF (2000) que entende o ecoturismo como uma atividade que se realiza em áreas protegiadas e funciona como um instrumento para promover o desenvolvimento sustentável e para gerar recursos que funcionem como uma fonte para a sustentação dos recursos naturais.
Vistos os diversos aspectos que envolvem a questão conceitual, avanço agora para identificar como foi construído o modelo internacional de ecoturismo que serviu como matriz para o que vem sendo implantado no Brasil.