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2 A MULTIDIMENSIONALIDADE DO ECOTURISMO

2.5 O MODELO PADRONIZADO DE ECOTURISMO

A bibliografia consultada mostra que não existe um único modelo ecoturístico. La Paz [199-] e Molina (1991) denominam de modelo de ecoturismo massivo a forma de turismo que inclui na oferta turística convencional, práticas ecoturísticas de curta duração, em que a contemplação da natureza não é a motivação principal. La Paz [199-] destaca que, nessas práticas, o aspecto econômico prevalece vez que a procura de economias de escala leva inevitavelmente a uma forma de turismo que compreenda um maior número de pessoas e à realização de viagens mais freqüentes, o que se traduz em grandes pressões sobre os recursos naturais e humanos nos destinos receptores.

Todavia esse entendimento não é consensual. Apesar da definição acima, Mourão (2000) e a WWF (2000) afirmam que o fato de agências levarem turistas para a natureza não se constitui em uma atividade ecoturística, mas apenas em oportunismo de mercado. Por que esses atores se preocuparam em desqualificar esse tipo de atividade que são realizadas por empresas turísticas? Com base na bibliografia, entendo que essa posição sinaliza a disputa por um nicho de mercado, indicando as tensões e os conflitos entre os atores sociais que atuam na atividade.

Organismos como a União Mundial para Conservação da Natureza (IUCN) e a WWF (2000), que questionam a idéia de ecoturismo de massas, buscaram produzir uma definição a partir da crítica de que, no geral, os empreendimentos existentes limitam-se à exploração do turismo da natureza, sem adotarem os verdadeiros princípios do ecoturismo. Para a WWF, o

verdadeiro princípio do ecoturismo é o de que ele seja uma fonte para a sustentação dos recursos naturais, concebendo-o como um instrumento de conservação e de desenvolvimento sustentável da natureza. Portanto, pela visão da WWF, iniciativas individuais ou mesmo de agências em visitar um espaço natural, ainda preservado, fazendo caminhadas, acampando ou simplesmente fazendo contemplação não constituem ecoturismo porque nem se está pagando pelo uso do espaço nem se está submetido a normas de preservação do local.

Todavia a bibliografia não classifica o tipo de ecoturismo que é feito por turistas autônomos, o que me leva a concluir que os sistemas de classificação só trabalham com processos institucionalizados. Considerando os dois tipos citados acima, verifico que coexistem sob tensão a idéia de áreas protegidas defendida por ONGs, acadêmicos, organismos estatais e multilaterais, com concepções mais amplas e generalizadas adotadas pelo trade, que entende que os espaços naturais com valor paisagístico podem ser transformados em mercadoria cuja realização se dá com a prática do ecoturismo24. Identifiquei que esse conflito e essa tensão entre empresários e ambientalistas, buscando conformar o ecoturismo de acordo com seus interesses, ocorrem, por exemplo, entre os empresários que defendem o agroturismo e aqueles que desenvolvem o turismo rural25.

O fundamental é que, na argumentação da WWF em defesa das áreas protegidas, situa-se um dos pontos-chaves para o entendimento do que Molina (1991) e La Paz [199-] chamam de modelo integral, e que o segundo autor reforça chamando de modelo de ecoturismo propriamente dito. Ambos afirmam que, além de o ecoturismo ocorrer em áreas protegidas, os turistas que o praticam têm interesse no funcionamento dos ecossistemas e em temáticas que

24 Esse assunto foi objeto de análise por parte de Bely Pires (1999) em dissertação de mestrado apresentada na FEA/USP.

25 Elementos colhidos em entrevista com o ex-presidente da Associação Brasileira de Agroturismo, em levantamento que realizei sobre Turismo Rural em Santa Catarina, em 1999.

levem à aprendizagem e ao desenvolvimento pessoal. Para tanto, as empresas trabalham com pessoal especializado e essa atividade não se dirige para mercados massivos, conforme ressalta Molina (1991), para quem o ecoturismo, rigorosamente, é um turismo de nova geração, regido por um conjunto de condições que superam a prática do turismo convencional de massas. Enfim, o argumento que foi construído e difundido por alguns atores transnacionais, é que o ecoturismo é uma atividade que combina o aspecto econômico com o da preservação ambiental, sendo que esta fica subordinada àquela, na linha do chamado desenvolvimento sustentável.

Apesar do exposto acima, La Paz chama a atenção para o caráter mercantil do ecoturismo ao observar que, ao usar um instrumental tecnológico - a capacidade de carga - para se definir o número máximo de pessoas que a área pode suportar, também se deve determinar o número mínimo para que o negócio seja rentável, pois conforme Bareaton (apud LA PAZ, [199-], ecoturismo também significa negócio e, portanto, busca de rentabilidade econômica. Conclui-se, então, que o elemento distintivo entre esses dois modelos é que o segundo tem como objetivo principal os espaços naturais pouco ou nada humanizados, ou seja,

[...] é aquele turismo interessado em visitar espaços naturais protegidos (parques naturais, parques nacionais, reservas) e conhecer a flora e a fauna dos países e estados visitados. (OXINALDE, 1994, p. 26). (grifos do autor)

Molina (1991) completa essa opinião observando que o ecoturismo tanto pode efetivar-se em propriedades públicas quanto privadas, ressalvando que a questão central é que sejam protegidas. As áreas protegidas são um grande achado para o mercado. De um lado, guardam recursos e belezas imensuráveis, de outro, permitem que se realizem atividades de forma controlada, fiscalizada e paga, as quais, supostamente, vão assegurar a preservação ambiental. Assim, em termos de modelo, verifica-se a construção de uma atividade formal,

normatizada e espacialmente limitada. A limitação do ecoturismo a espaços protegidos, além de ser um ponto fundamental e distintivo dessa modalidade, constitui-se, a meu juízo, em um aspecto sociológico importante na medida em que restringe e limita econômica, cultural, administrativa e ambientalmente o espaço de realização social dessa atividade.

Em síntese, entendo que devemos falar em modelos de ecoturismo. O modelo de massas, baseado nas leis do mercado, e o modelo integral (ou ecoturismo propriamente dito), que incorpora princípios ecológicos e sociais. Mas, além desses tipos, identifiquei que não existe uma classificação, um rótulo único para a prática de visitas à natureza, promovida pelos turistas autônomos. Assim, considero a existência de três modelos ou formas de se fazer ecoturismo – com infinitas variações locais - mesmo que a segunda forma seja criticada pelos defensores do modelo integral, por não preservar o ambiente e não beneficiar as populações locais, além da acusação de ecoportunismo que pesa sobre os atores que realizam esse trabalho. Parece-me que isso é apenas um jogo de palavras que esconde a disputa pelo nicho de mercado, vez que ambos os grupos de atores utilizam a natureza como produto no mercado turístico, assunto esse que analiso no item a seguir.