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A trajetória da sociologia ambiental ao centro da teoria social

4 A CONSTRUÇÃO SOCIAL DO ECOTURISMO

4.2 A ANÁLISE DO ECOTURISMO SOB A PERSPECTIVA CONSTRUTIVISTA

4.2.1 A trajetória da sociologia ambiental ao centro da teoria social

A sociologia ambiental, ramo da sociologia de constituição recente, é definida, no geral, como o estudo das inter-relações entre a sociedade e o meio ambiente e, em termos específicos, conforme Buttel e Humprey (apud FERT, 2001), propõe-se a estudar aspectos relacionados com valores culturais e crenças que levam os indivíduos a usarem o meio ambiente e como isso repercute em termos da constituição de conflitos e de consensos.

Por volta dos anos 70, ainda não havia um campo teórico que orientasse investigações específicas sobre a relação entre a sociedade e o meio ambiente, tendo surgido apenas trabalhos isolados no âmbito da sociologia rural, tratando dos recursos naturais e do meio ambiente, sem que os mesmos fossem integrados, conformando um corpo teórico. Historicamente, para Hannigan (1995, p. 16), a geografia é a ciência que aporta as primeiras contribuições sobre o mundo natural para a sociologia, mais precisamente com Buckle, no século XIX, cuja tese central era que a sociedade humana é produto das forças naturais sendo, portanto, susceptível de explicação natural, registrando-se também as idéias de outros geógrafos como a tentativa de estabelecer correlação entre clima e saúde, energia e processos mentais.

Segundo Hannigan (1995), o mundo natural entra na sociologia através dos conceitos darwinistas de evolução, seleção natural e sobrevivência dos mais aptos, que foram usados por sociólogos conservadores que aplicaram esses princípios para analisarem a sociedade,

a exemplo de Hebert Spencer, que propôs uma doutrina evolutiva, seguido por Summer, que formulou o conceito de competição da vida, no qual o ser humano se apresentava em luta com seus pares e com outras espécies. Nos anos 20, as doutrinas evolutivas do século XIX deram lugar a planificação e à reforma social, com preocupações com a melhoria do bem-estar da sociedade, o que gerou uma fase de aversão a explicações que usassem argumentos biológicos e ambientais a partir da evidência da tradição psicológica e, posteriormente. da cultura. Apesar disso, o que se observou é que, mesmo tendo-se desembaraçado de explicações pela biologia, a sociologia ligou-se a uma terminologia biológica distinta através do funcionalismo que se tornou a teoria líder da América nos anos 50, sustentada na idéia da Durkheim de que a sociedade constituía um organismo social que precisava adaptar-se constantemente ao ambiente físico e social exterior.

Em fins dos anos 70, os sociólogos rurais Catton e Dunlap (apud HANNIGAN, 1995), criticaram grande parte de seus colegas por ignorarem as restrições potenciais de fenômenos ambientais, como a mudança climática, enquanto se prendiam à imagem fundamental das sociedades humanas como sendo livres dos princípios e restrições que governam as outras espécies e aceitavam a idéia da possibilidade de um crescimento e progressos ilimitados através do desenvolvimento científico e tecnológico. Já Hannigan (1995) critica a produção sociológica do período entre 1955 e 1975, observando que algumas especialidades sociológicas tornaram-se vendedoras ambulantes em benefício da inovação tecnológica e do desenvolvimento econômico, processo que teve seu auge nos anos 60. Essa crítica se aplica particularmente em relação ao meio rural, considerando que os trabalhos realizados enfocavam, em geral, questões aplicadas como a resistência dos agricultores na adoção de novas tecnologias, a influências dos insumos na produção agrícola, características das comunidades rurais entre outros assuntos correlatos. Generalizando a crítica, observa que a maioria dos sociólogos, hipnotizados pelos benefícios do

desenvolvimento e da modernidade individual, ignoraram completamente o ambiente natural ou o viram como algo a ser ultrapassado, registrando-se poucos autores a reconhecerem as limitações impostas pelo ambiente, a exemplo do que ocorre com o clima, o solo e outras variáveis sobre a agricultura.

O aumento do interesse sociológico sobre o meio ambiente ocorreu no último quartel de século XX, período em que este assunto passou a fazer parte do debate de organizações sociológicas e multiplicaram-se os estudos e publicações em jornais e os eventos de entidades internacionais de sociologia, em que foram apresentados trabalhos sobre riscos e desastres ambientais. Buttel (apud FERT NETO, 2001), associa a emergência da sociologia ambiental com o surgimento do movimento ambientalista e o clima sociocultural dos anos 60 e 70, que motivaram muitos estudos. Outros fatores que contribuíram para conformação desse campo foram os estudos da sociologia rural sobre o desenvolvimento da agricultura, como esta provoca impactos no meio ambiente e como este influencia a produção agrícola e a vida no meio rural bem como a adesão de pesquisadores de várias áreas – como da sociologia da ciência, da sociologia do risco, da teoria dos movimentos sociais - interessados em estudar questões ambientais, ecológicas e biológicas, promovendo uma verdadeira invasão da sociologia ambiental. Assim, no geral, o objeto de estudo da sociologia ambiental são os aspectos sociais dos problemas e questões ambientais, envolvendo tanto fenômenos com implicações ambientais, como o impacto da produção e consumo no meio ambiente, as práticas ambientais estruturais, como estudos de comportamento ambiental, ou modelos institucionais relevantes, como os movimentos ambientalistas, problemas de regulação ambiental, programas de reciclagem etc., que seriam as práticas ambientais intencionais.

Uma das contribuições de Beck e Giddens tem sido trazer os riscos para o centro da teoria social, como já temos mencionado (GUIVANT, 1998). As sociedades altamente

industrializadas enfrentam riscos ambientais e tecnológicos, que são centrais e constitutivos delas, os quais ameaçam a vida no planeta, fruto da autonomização das forças sociais, com o progresso se tornando fonte potencial de autodestruição da sociedade, à medida em que gera novos riscos. Entre outros pontos trabalhados por esses autores, destaco a interpretação de Giddens (apud GUIVANT, 1996), de que o conceito de sociedade de risco não só indica a introdução de novos riscos mas também a produção de novas relações sociais, mudanças de comportamento, conflitos sociais, novas formas de ação política, com o avanço da preocupação com o futuro e a segurança e a ação reflexiva dos indivíduos que se reapropriam do conhecimento perito para uso tanto na intimidade quanto na política.

Como os riscos ambientais se destacam entre aqueles produzidos pela sociedade industrial, Giddens e Beck, ao colocarem essa temática no âmago da discussão na sociologia, também destacaram a importância da sociologia ambiental para a análise da relação entre o meio ambiente e a sociedade, dando margem a que se pudesse selecionar uma abordagem nesse campo para analisar a temática do ecoturismo.

No campo da sociologia ambiental, Guivant (2002a) observa que ela passou a ter uma característica dual, estruturando-se em duas correntes. Uma que tem a influência de uma linha realista-materialista, que enfatiza aspectos ecológicos-materiais da sociedade moderna, e outra, centrada na sociologia cultural e no construtivismo cultural, divergência esta que tem sido vista de forma positiva por contribuir para aclarar as posições sobre como lidar com problemas ambientais. A diferença fundamental entre essas duas correntes decorre do fato de que os realistas defendem a existência objetiva dos problemas ambientais, independentemente da forma como os atores sociais os percebem. Enquanto isso, os construtivistas centram-se nas representações sociais sobre os problemas ambientais, não dando igual importância à verdade sobre o problema mas a como se define este e que significados lhe são atribuídos por diversos grupos e atores.

Uma das críticas principais identificada por Irwin (apud GUIVANT, 2002a) é que os realistas questionam os construtivistas de terem esvaziado a realidade dos problemas ambientais caindo em um relativismo que levaria à inação, ao que os segundos respondem que os primeiros perdem de vista um aspecto central que é como e por que determinados assuntos e temas passam, em certos momentos, a serem considerados como relevantes e reais. Ademais, conforme registra Guivant (2002a), as diversas versões do construtivismo, defendidas por Adams (1995), Castrec e Braun (1998), Macnaghten e Urry (1998), Hannigan (1995) e Irwin (2001), não negam a realidade objetiva dos problemas ambientais, sendo difícil dentro dessa corrente encontrar posições radicais ou de relativismo forte pois, ao invés de pensar a natureza como uma realidade única, esses autores preferem considerar diferentes construções e significados que socialmente são dados ao conceito de natureza. Assim, apesar das confluências que existem entre as duas correntes, os dois lados têm dificuldades em reconhecê-las, podendo-se visualizar no quadro a seguir os pontos principais defendidos por cada uma delas.

Quadro 1 - Temas de debates entre realistas e construtivistas

Correntes Teóricas Relações Ciências Naturais e Sociais Relações entre Sociedade e Natureza Relações entre indivíduos e Sociedade

Realistas Modelo das ciências naturais para as ciências sociais (procura de leis universais e gerais, predomínio da sociedade sobre o indivíduo) Sociedade e natureza completamente diferentes, sendo objetos de diferentes ciências. Prioridade da

totalidade social sobre os indivíduos.

Construtivistas Ciências sociais com especificidade, mas com mesmo nível de

objetividade das ciências naturais. Modelo positivista das ciências naturais não questionado. Sociedade e natureza completamente diferentes, sendo objetos de diferentes ciências. Prioridade da autonomia dos indivíduos ante a sociedade.

O debate entre essas duas correntes permitiu identificar que a posição realista não tem a flexibilidade necessária para lidar e entender diferentes percepções ambientais, porque não admite a idéia de que podem existir diferentes tipos de racionalidades e conhecimentos, o que nos ajudou a selecionar a posição construtivista para nossa pesquisa, conforme descrito nos itens a seguir.