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3 O caminho metodológico trilhado

3.3 A pesquisa de campo

3.3.1 Métodos e técnicas de coleta de dados

3.3.1.2 A observação participante

3.3.1.2.1 A contribuição da etnografia de Malinowski

A pesquisa etnográfica permite a percepção e a elucidação das nuances implícitas à dinâmica das relações sociais presentes em uma comunidade que outros métodos e suas respectivas técnicas o fariam de maneira limitada e, em alguns casos, sequer o possibilitariam.

Malinowski (1978, p. 29) refere que “há uma série de fenômenos de suma importância que de forma alguma podem ser registrados apenas com o auxílio de questionários ou documentos estatísticos, mas devem ser observados em sua plena realidade”. O autor os denomina de “os imponderáveis da vida real”, podendo ser incluídos nesta classificação:

[...] a rotina de trabalho diário do nativo; os detalhes de seus cuidados corporais; o modo como prepara a comida e se alimenta; o tom das conversas e da vida social ao redor das fogueiras; a existência de hostilidade ou de fortes laços de amizade, as simpatias ou aversões momentâneas entre as pessoas; a maneira sutil, porém inconfundível, como a vaidade e a ambição pessoal se refletem no comportamento de um indivíduo e nas reações emocionais daqueles. [...].

Pretendemos, desse modo, que toda a riqueza de detalhes das situações ou circunstâncias observáveis na comunidade em estudo, no que se refere à dinâmica das suas relações sociais, possam ser identificadas e analisadas.

É interessante perceber que a etnografia não se propõe apenas a descrever as relações sociais de uma determinada comunidade, ou, pelo menos, admitamos que ela pode ir muito mais além do que uma “simples descrição”, como nos lembra Frazer (MALINOWSKI, 1978, p. 6), referindo-se à obra de Malinowski, ao escrever o prefácio de “Argonautas do Pacífico”: “Além disso, ele sensatamente recusou limitar-se a uma simples descrição do processo de trocas: dispôs-se, em vez disso, a penetrar nos motivos que o fundamentam, bem como nos sentimentos que provoca nos nativos. [...]”.

Continuando e justificando o percurso metodológico de Malinowski, Frazer argumenta,

[...] Parece-me que alguns estudiosos defendem o ponto de vista de que a sociologia deve ater-se à descrição das ações, deixando para a psicologia o problema dos motivos e sentimentos. Sem dúvida, a análise das motivações e reações difere do estudo das ações e pertence, estritamente falando, ao âmbito da psicologia. Na prática, porém, o comportamento social nada significa para o observador, a não ser que ele conheça ou possa inferir pensamentos e emoções do agente. Assim, a simples descrição de atos, sem qualquer referência ao estado mental do agente, não vai de encontro aos propósitos da sociologia, cujo objetivo não é apenas registrar – mas, sim, entender o comportamento do ser humano na sociedade. Portanto, a sociologia não pode levar a cabo a sua tarefa sem amparar-se, a cada passo, na psicologia.

O método do Dr. Malinowski caracteriza-se pela preocupação em levar em conta a complexidade da natureza humana. Ele observa o ser humano em sua totalidade, ciente de que o homem é uma criatura dotada de paixões tanto quanto de razão, e não poupa esforços para descobrir a base

tanto racional quanto emocional do comportamento humano (MALINOWSKI, 1978, p. 6).

Outra característica interessante da etnografia é que o estudo de determinado aspecto ou sistema relacionado a uma comunidade pode nos levar a compreender os demais, ou mesmo a comunidade em sua totalidade, pois os sistemas que a constituem estão inter-relacionados. Assim, ao estudar um aspecto da comunidade estamos trazendo à tona outros que são ao primeiro ligados. A acuidade do pesquisador, neste caso, é fundamental para percebê-los.

Sobre este ponto, apresentamos a seguir um comentário de Frazer sobre a postura de Malinowski em sua pesquisa:

A grande preocupação do Dr. Malinowski em seu presente estudo é a análise de fatos que, à primeira vista, poderíamos interpretar como uma atividade puramente econômica dos habitantes das ilhas Trobriand; todavia, com a grande abertura de perspectiva e acuidade que o caracterizam, ele se dá ao cuidado de nos demonstrar que essa curiosa circulação de riquezas entre os habitantes das ilhas Trobriand e os das demais ilhas, embora acompanhada por um comércio de tipo comum, não constitui, de maneira alguma, uma forma de transação estritamente comercial; ele nos mostra que essa modalidade de troca não se fundamenta num mero cálculo utilitário de lucros e perdas; e que ela vem de encontro a necessidades emocionais e estéticas de ordem mais elevada que o simples atendimento aos requisitos da natureza animal. (MALINOWSKI, 1978, p. 6-7).

Continuando, o autor afirma:

[...] o Dr. Malinowski demonstra que a transação de objetos úteis, parte integrante do Kula, ocupa, na mente dos nativos, uma posição inteiramente subordinada à troca de certos objetos que é feita sem quaisquer finalidades utilitárias. Combinando transações comerciais, organização social, mitos e rituais mágicos – o Kula, essa extraordinária instituição nativa que chega a abranger enorme extensão geográfica, parece não ter paralelos nos anais de antropologia. [...] (MALINOWSKI, 1978, p. 7).

Malinowski consegue mostrar na sua rica descrição sobre o Kula como a magia está subjacente a todo o processo que o caracteriza, sendo a mola propulsora de todo o sistema de trocas.

Como nos lembra Frazer (MALINOWSKI, 1978, p. 7), Malinowski nos conta que “A fé no poder da magia é uma das principais forças psicológicas que permitem a organização e sistematização do esforço econômico nas ilhas Trobriand”.

Nas palavras de Malinowski,

[...] para que um trabalho etnográfico seja válido, é imprescindível que cubra a totalidade de todos os aspectos – social, cultural e psicológico – da comunidade; pois esses aspectos são de tal forma interdependentes que um não pode ser estudado e entendido a não ser levantando-se em consideração todos os demais [...]. (MALINOWSKI, 1978, p. 11-12).

Sobre esse aspecto Malinowski ressalta que

A lei, a ordem e a coerência que prevalecem em cada um desses aspectos são as mesmas que os unem e fazem deles um todo coerente.

O etnógrafo que se propõe estudar apenas a religião, ou somente a tecnologia, ou ainda exclusivamente a organização social, estabelece um campo de pesquisa artificial e acaba por prejudicar seriamente seu trabalho (MALINOWSKI, 1978, p. 24).

Na introdução de Argonautas do Pacífico, Malinowski faz uma cuidadosa reflexão sobre o tema, método e objetivo de sua pesquisa, trazendo à tona aspectos importantes que devem ser considerados durante a nossa preparação antes de iniciarmos a pesquisa de campo e para quando estivermos imersos neste.

A leitura da obra de Malinowski nos conduz a um mergulho no universo por ele investigado e a experimentar de alguma forma – pela riqueza de detalhes com que descreve e analisa todas as circunstâncias e eventos observados -, os desafios, as dificuldades e as saídas encontradas pelo autor diante das situações vivenciadas.

Ressalto ainda em relação à cuidadosa descrição etnográfica feita por Malinowski sobre o sistema de comércio, o Kula: a preocupação com a fidedignidade dos dados

coletados, o envolvimento do pesquisador com o grupo e o universo estudado, a acuidade com que observou a vida dos nativos da sociedade Trobriand em todos os seus aspectos, o respeito para com a cultura estudada, o rigor metodológico em todo o percurso do trabalho de campo intercalado com os momentos em que se dedicou à análise do material coletado para, em seguida, continuar a pesquisa de campo, procedimento que lhe permitia visualizar as “lacunas” ainda existentes após cada período de observação, e que lhe possibilitava voltar a campo com mais maturidade em termos teóricos e metodológicos para buscar resolver novos “problemas” que se impunham acerca do seu objeto de estudo.

Malinowski (1978, p. 24) nos ensina, referindo-se à sua experiência etnográfica, que para construirmos a anatomia da cultura de uma comunidade é preciso “estabelecer o contorno firme e claro da constituição tribal e delinear as leis e os padrões de todos os fenômenos culturais, isolando-os de fatos irrelevantes. É necessário, em primeiro lugar, descobrir-se o esquema básico da vida tribal”.

O autor nos lembra que para que esse objetivo seja atingido é importante fazermos um levantamento de todos os fenômenos observáveis, e não meramente “um inventário” daquilo que nos parece singular, atípico, extraordinário e engraçado (MALINOWSKI, 1978, p. 24).

Segundo Malinowski (1978, p. 24), “o etnógrafo de campo deve analisar com seriedade e moderação todos os fenômenos que caracterizam cada aspecto da cultura tribal sem privilegiar aqueles que lhe causam admiração ou estranheza em detrimento dos fatos comuns e rotineiros”.

É interessante perceber como nos alerta Malinowski (1978, p. 24), referindo-se à sociedade tribal, que as leis, os códigos e as regularidades sociais que regem a vida de uma comunidade “[...] não estão formuladas em lugar nenhum. Não há códigos de lei, escritos ou expressos explicitamente [...]”. De acordo com o autor, toda a anatomia da cultura e a constituição social de uma comunidade “[...] estão incorporadas ao mais elusivo dos materiais: o próprio ser humano”.

Continuando, Malinowski (1978, p. 24) assinala que esses códigos e leis não se encontram de maneira formulada e elaborada na mente e na memória dos nativos de uma

sociedade tribal. Essa afirmação, segundo o autor, pode ser feita em relação aos “membros mais humildes de qualquer instituição moderna – seja o Estado, a Igreja, o Exército, etc. [...]”, que embora fazendo parte destas não têm uma “visão da ação integral do todo”.

Para Malinowski (1978, p. 24) “[...] seria inútil interpelar o nativo em termos sociológicos abstratos [...]”. Segundo o autor, para superar essa dificuldade, o recurso do etnógrafo consiste em levantar dados concretos sobre todos os fatos observados e, a partir deles, formular inferências gerais, sendo muito difícil planejar e colocar em prática essa estratégia de forma sistemática e coerente.

Malinowski chama a atenção que podemos extrair as percepções e opiniões dos membros de uma comunidade acerca de determinado problema questionando-os sobre qual solução dariam para resolvê-lo. Assim, por meio da elucidação de um incidente imaginário ou mesmo da ocorrência de uma situação real, é possível levá-los a se expressarem, a emitirem sua opinião e a lembrarem de outros episódios e discuti-los em todos os seus aspectos e implicações.

Em relação à coleta de dados, Malinowski (1978, p. 26) enfatiza a necessidade de que a façamos uma descrição de todos os fatos que estiverem ao nosso alcance e de forma exaustiva. O autor afirma que para alcançarmos nossos objetivos com mais êxito, é recomendável fazer um “esquema mental lúcido e completo” e em seguida transformá-lo, sempre que possível, em um “esquema real” utilizando diagramas, quadros sinóticos, planos de estudo e de pesquisa.

Nas palavras de Malinowski,

[...] cada fenômeno deve ser estudado a partir do maior número possível de suas manifestações concretas; cada um deve ser estudado através de um levantamento exaustivo de exemplos detalhados. Quando possível, os resultados obtidos através dessa análise devem ser dispostos na forma de um quadro sinótico, o qual então será utilizado como instrumento de estudos e apresentado como documento etnológico. Por meio de documentos como esse e através do estudo de fatos concretos, é possível apresentar um esboço claro e minucioso da estrutura da cultura nativa, em seu sentido mais lato, e da sua constituição social. Esse método pode chamar-se método de documentação estatística por evidência concreta. (MALINOWSKI, 1978, p. 27).

Outro aspecto de suma importância que Malinowski (1978) nos alerta é em relação à subjetividade do pesquisador quando este se propõe a não se ater somente aos aspectos exteriores do registro e da descrição dos detalhes e dos fatos observados, indo mais além na análise do comportamento e da atitude mental dos membros da comunidade.

Sobre este ponto o autor nos diz,

t

Em relação ao método adequado para observar e registrar estes aspectos imponderáveis da vida real e do comportamen o típico, não resta dúvida de que a subjetividade do observador interfere de modo mais marcante do que a coleta dos dados etnográficos cristalizados. Porém, mesmo nesse particular, devemos emprenhar-nos no sentido de deixar que os fatos falem por si mesmos. (p. 43)

Em seu artigo “Quem pode representar quem? Notas sobre sentimentos e relações de poder numa pesquisa de campo” Bernadete Beserra faz uma reflexão interessante sobre a relação pesquisador-pesquisado, enfocando o “poder” nesta relação, mais especificamente, a sua ênfase é sobre os “problemas envolvidos em situações em que o pesquisador se situa em posição semelhante ou inferior àquela do grupo pesquisado” (BESERRA, 2001, p. 1).

Na discussão sobre esse tema, a autora refere-se à política da objetivação participante de Bourdieu (1992), “a qual propõe que o pesquisador esteja constantemente se indagando sobre os seus interesses e sentimentos em relação aos do grupo que estuda e as conseqüências disto sobre o conhecimento produzido” (BESERRA, 2001, p. 2).

A autora refere ainda que tanto Bourdieu quanto Asad (1973), “questionam a objetividade e o sentido de um conhecimento que não discute as circunstâncias em que é produzido, ou seja, que não se refere, entre outros problemas, ao da relação de poder pesquisador-pesquisado e todas as implicações daí decorrentes (BESERRA, 2001, p. 2).

Reconhecendo o problema como real e que devemos considerá-lo quando na realização de nossas pesquisas, gostaria de ressaltar a sua importância nas palavras de Beserra,

[...] do mesmo modo como as relações sociais que observamos estão impregnadas de sentimentos e razões obscuras, a nossa observação, que não se dá fora de um conjunto de relações, também está impregnada de emoções e razões nem sempre evidentes. Do ponto de vista da produção do conhecimento antropológico acho, porém, que a posição e os sentimentos do pesquisador em relação ao grupo que estuda devem ser tratados como dados. Ou seja, devem ser explicitados o mais transparentemente possível para que fique claro o alcance do conhecimento produzido. Quer dizer, a objetividade alcançada às custas da eliminação do sujeito da pesquisa é semelhante à eliminação da sujeira sob o tapete. Então, quem sou eu, o que sinto, por que escolho um tema e não outro, qual o percurso da minha pesquisa e da minha interpretação e assim por diante são aspectos tão importantes a considerar quanto o perfil sócio-econômico de uma população em estudos de imigração, por exemplo. Noutras palavras, quando observo e interpreto eu faço com as minhas teorias, mas também com a minha história, minha alma, meu sexo, minhas preferências e minhas restrições e, quer eu explicite ou não, tudo isto está presente na minha interpretação mesmo quando o eu está perdido na indeterminação interessada e autoritária da ciência. (BESERRA, 2001, p. 19).

Apresentamos a seguir o referencial metodológico, que nos conduziu na realização de cada fase da pesquisa.